Entrando em contato com a neurose

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“Portanto nem todo contato é saudável, nem toda fuga é doentia. Uma das características do neurótico é não poder fazer bom contato, nem organizar sua fuga.” Fritz Perls

O ciclo de contato é parte essencial da Gestalt-terapia, podemos considerá-lo como a maneira que o organismo tem de estabelecer trocas com o ambiente, visando a satisfação de alguma necessidade emergente, ou melhor, o fechamento de uma Gestalt.

“Gestalt” é uma palavra alemã que não tem tradução exata no português, mas pode ser traduzida como “forma” ou “configuração”, no conceito gestáltico toda necessidade que emerge e não é suprida deixa uma gestalt aberta que eventualmente deverá ser resolvida.

Nós evitamos fechamentos de gestalten através de diversos mecanismos de evitação de contato (ou mecanismos de defesa). Com esses mecanismos evitamos contato com nossas necessidades vitais e acabamos suprindo-as de maneiras não-autênticas. A intenção da Gestalt-terapia ao determinar tipologias NÃO é para rotular ou engessar pessoas, mas sim encontrar um norte diante do impasse que tal pessoa está vivendo e desenvolver técnicas de tratamento eficientes que se adequem a cada paciente/queixa.

Um tipo de padrão de comportamento neurótico pode ser prevalecente ou sobressaliente em certa pessoa, porém todos os comportamentos estão diretamente interligados, portanto, para abordá-los é imprescindível determinar uma pauta e trabalhar a partir de uma queixa específica, com detalhes dos fatos e contextualização.

Os mecanismos neuróticos são disfuncionais quando usados em excesso ou inadequadamente. Para Gestalt-terapia, saúde mental tem a ver com a capacidade do ser humano de fazer escolhas conscientes que contemplem todos as partes do seu “eu” e de se adaptar ao meio como ele é, suprindo de maneira saudável suas necessidades vitais, sem neglicenciar a si mesmo.

Quando estamos operando em um determinado padrão de comportamento neurótico, automaticamente repetimos um funcionamento que um dia nos foi útil. Geralmente, desenvolvemos esses mecanismos como defesa, para garantir a sensação de sermos amados e protegidos em meio à situações hostis. Isso ocorre quando é extremamente doloroso entrar em contato com a verdade dos fatos.

Os comportamentos neuróticos mais difíceis de transformar são aqueles que desenvolvemos na infância. Uma criança não tem repertório nem maturidade emocional para lidar com o funcionamento neurótico de seus provedores, seja pais agressivos, exigentes, autoritários, ausentes, não-amorosos ou extremamente protetores; ou com o sentimento de rejeição; ou ainda um lar caótico; dentre outras situações traumáticas. Para conseguir sobreviver em tal ambiente, a criança desenvolve mecanismos de defesa, de evitação de contato. Nessa situação, tal comportamento é extremamente funcional, a neurose surge quando o contexto muda e a pessoa não consegue se adaptar ao novo ambiente, utilizando-se de um padrão de funcionamento defasado ou inadequado para a nova situação.

Mesmo que inconscientemente, uma pessoa sempre buscará resolução para seus traumas e conflitos mais doloridos, geralmente aqueles ocorridos na primeira ou segunda infância (gestação até adolescência).

A alma só sossega quando encontra a verdade.

Portanto enquanto isso não acontecer, a pessoa frequentemente caminhará em ciclos, repetindo os mesmos padrões de comportamento e recriando o mesmo cenário (muitas vezes com protagonistas diferentes), no intuito de suprir necessidades vitais que não foram atendidas, buscando resoluções para seus conflitos ou fechamento de gestalten.

A Gestalt-terapia trabalha com a premissa de que a autonomia e consciência podem ser devolvidas a toda e qualquer pessoa, ou seja, o ser humano pode recriar e transformar sua realidade a qualquer momento de sua vida.

É preciso (realmente) querer.

Impostora

“Muitas pessoas não percebem o que delas saiu, porque não absorveram o seu destino enquanto o viviam, nem o transformaram em si mesmas. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência. 

Não temos motivos de desconfiar de nosso mundo, pois ele não nos é hostil. Havendo nele espantos, são os nossos; abismos, eles nos pertencem; perigos, devemos procurar amá-los. Como esquecer os mitos antigos que se encontram no começo de cada povo: os dos dragões que num momento supremo se transformam em princesas? Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas que aguardam apenas o momento de nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo horror em última análise, não passe de um desamparo que implora o nosso auxílio.”

Rainer Maria Rilke

Questionamentos e reflexões sobre a verdade fazem parte das grandes discussões da humanidade. Se a verdade é tão essencial, paradoxal pensarmos que em termos de comportamento humano, embora seja ela que almejamos encontrar, o que mais nos deparamos e contamos são mentiras, nossas e dos outros, invenções, distorções, truques, fragmentos, que nos distraem e desviam do contato com o que de fato é.

Fritz Perls dizia que a verdade só pode ser tolerada se descoberta por conta própria. E é aí que encontramos um poço cheio de armadilhas e (muito) auto boicote: porque somos limitados, porque muitas vezes não queremos enxergar a verdade, porque não a suportamos e por isso a evitamos com grande força. E, como Sísifo, num ciclo vicioso de repetições, quanto mais nos perdemos nas nossas mentiras, mais nos afastamos da nossa verdade e da nossa essência. Mas há quem prefira o conforto da repetição do que encarar a verdade. Há quem prefira a servidão voluntária à liberdade. É preciso respeitar a escolha de cada um.

A verdade liberta, mas cobra seu preço. Porque a verdade, na maioria esmagadora das vezes, dói. Arrebenta. Avassala. Destrói crenças enraizadas por toda uma vida. E como isso nos desestrutura e desmonta! Como dói!

Dói entrar em contato com as vezes em que fomos negligenciados, abandonados, invadidos, esquecidos. Dói entrar em contato com nossa insignificância e impotência diante do entrelaçamento de histórias que parecem nos atropelar, esmagar, aniquilar. Dói descobrir que não temos controle de absolutamente nada. Dói pensar naquela criança, que era só uma criança e que não tinha recursos para se defender de pais abusivos, negligentes, agressivos, superprotetores, sufocantes, exigentes, açoitados pelos seus próprios traumas e feridas de quando eram igualmente pequenos e também não tinham como se defender de seus pais feridos, num ciclo sistêmico infinito.

Dói saber que quem mais amamos são os grandes heróis e também vilões de nossas histórias. Dói descobrir que seguimos repetindo padrões disfuncionais. Nem sempre queremos olhar para a verdade, é solitário e penoso confrontar nosso destino. Dói viver tentando preencher o que nos falta. Dói descobrir que somos os grandes vilões de nossa própria história, e numa tentativa de evitar o nosso caos interno, produzimos mais caos e nos tornamos vilões também da história dos outros. Dói viver fragmentado sem integrar em nós as partes que nos assustam, machucam ou envergonham.

Repetir dói, estagnar dói, avançar dói, mudar dói.

Escolha.

Perls dizia que “poucas pessoas vão a terapia para se curar, mas sim para melhorar suas neuroses. Nós preferimos manipular os outros para obtermos apoio em vez de aprender a nos sustentar sobre nossos pés e nosso próprio traseiro. Se a pessoa é louca por poder, quer mais poder. Se é intelectual, ela quer mais cocô de elefante, se é um ridicularizador, quer ter mais veneno para ridicularizar, e assim por diante.”

Conheço pessoas (e me incluo nessa dinâmica), assim como Perls denunciou, que dedicam anos de terapia a tratar feridas fantasiosas, anos a culpabilizar os outros, buscando validação e tapinha nas costas pelos seus comportamentos disfuncionais e neuróticos simplesmente porque a versão dos fatos sempre é contada pelo protagonista. Fantasias que nos tornam vítimas ou heróis, sempre mais moralmente aceitos. E como grandes atrizes e atores que somos, transferimos nossa performance da vida para o setting terapêutico. Que grande farsa!

“O neurótico é aquele que não vê o óbvio. A saúde consiste na nossa capacidade e coragem para enxergar o óbvio”, dizia Perls. A saúde começa com a capacidade de integrarmos experiências difíceis como parte nossa. Quanto mais conseguimos enxergar o todo, mais emocionalmente saudáveis nos tornamos, mais inteiros e verdadeiros somos.

Refleti sobre os anos abordando em terapia tudo e todos, sessões repletas de sobreísmos, afinal falar sobre o que está fora é a melhor maneira de evitar falar de nós. A verdade continuava sempre lá: todo meu desamparo querendo ser visto, olhado, cuidado. Eu não queria olhar para ele. E quanto menos olhava, quanto mais tentava preencher o que me faltava, mais produzia caos ao redor de mim. Assim aprendi que evitar a dor produz mais dor, mais caos em um loop eterno. É exaustivo!

Anos de terapia fortalecendo neuroses, diversas mudanças de profissionais como se o erro estivesse nelas e não em mim. Anos contando mentiras, me contando mentiras. Mas a sensação era constante e cada vez mais familiar, tão assustadora que não ousava nomeá-la. Até que o sofrimento de viver uma mentira se tornou maior do que encarar a verdade. Foi assim, no desespero de não me reconhecer em minha pele, que criei coragem para chamar: impostora. Era como me sentia.

Como é fácil enganar os outros, pior, como é fácil enganar a si mesmo. Anos de terapia evitando olhar para o elefante na sala, e ele estava sempre lá. Como nos esforçamos para evitá-lo! Como nos tornamos mestres em performar! Mas ele está em tudo: nas dores e enxaquecas, na insônia, no sobrepeso e em tudo aquilo que usamos para nos anestesiar, nos sintomas físicos e mentais, nas viagens, compras, pessoas, palavras, e principalmente, nas nossas ações.

Quando as palavras tomam tanta distância de nossas ações que já não nos reconhecemos em lugar algum. Impostores. Quando nos tornamos estrangeiros de nossa própria história. Impostores. Mas eu recebia tantos elogios, amizades virtuais, likes e visualizações, me esforçava tanto para agradar a tudo e a todos, parecia funcionar tão bem. Mentirosa. Sempre tão inteligente, bacana, preocupada com os outros e com os males do mundo. Impostora. E quanto mais era vista pelo que fingia ser, mais desamparada me sentia. Solitária. Impostores. Quem se cala diante de um impostor é seu cúmplice e conivente.

O sofrimento nos ensina e humaniza, ninguém passa ileso pela morte e pela doença. O diagnóstico da minha mãe, a morte do meu pai, e o elefante na sala crescia, ganhava força, formato e cores muito vivas, casamento, maternidade, luto, uma pandemia, e o elefante cada vez maior. Até que mais insuportável que encará-lo, foi fingir que ele não estava lá. Foi preciso alguns anos de terapia integrando verdades difíceis.

A verdade traz dor e alívio.

Talvez Rilke estivesse certo, nosso horror é o desamparo implorando por ajuda. Nossas carências transformadas em terror e caos como mecanismos de evitação daquilo que mais nos machuca: a verdade que escancara nossa humanidade, vulnerabilidade, desamparo, inadequação. A verdade nos traz notícias de uma época em que éramos tão pequenos e precisávamos de proteção, ainda assim ficamos desamparados. Crianças feridas tornam-se adultos que ferem. Feridas abertas continuam a sangrar e são como aquele elefante na sala esperando por nossa coragem, olhos e ouvidos, essência e coração, para transformar dragões em princesas, terror em beleza, fraqueza em fortaleza, e finalmente enxergar o óbvio, que sempre esteve e sempre estará lá.

Coragem.

Para o jogo da vida: raça

Há muito tempo quando eu frequentava os jogos do Atlético Paranaense, ainda na Baixadinha, lembro que sempre no começo do jogo ou quando o jogo não ia bem, a torcida gritava para os jogadores “RAÇA”. Eu que sempre enxerguei a vida com poesia achava aquilo muito emocionante. Era o momento que mais gostava no jogo. E o grito alto e compassado da torcida até hoje ecoa dentro de mim: RAÇA.

Às vezes me pego olhando para pessoas em momentos de dificuldade ou quando estão indecisas ou quando querem desistir e tenho vontade de gritar como gritava nos jogos: RAÇA! Às vezes me olho no espelho e penso: RAÇA. O mundo anda meio mal e o que sinto é que a vida nos pede raça. Porque não tem quem passe ileso por ela sem dificuldades, problemas, problemas de gente grande, daqueles que fazem você duvidar da sua capacidade e achar que não vai dar conta. Muitas vezes eu acho que não darei conta. E o que aprendi é que para dar conta é preciso saber que não estamos sozinhos, e é preciso agir, por nós e pelos outros, precisamos “arregaçar as mangas” e fazer.

E aprendi também que para ter raça é preciso ter certezas. Certeza de que você arregaçou as mangas e fez o que podia, certeza das tuas escolhas, certeza que você estava presente no momento por inteiro e que deu o seu melhor. Mesmo que “seu melhor” às vezes pareça muito pouco.

A indecisão surge quando não estamos presentes por inteiro em nossas escolhas, quando elas são tomadas por outros ou pela vida, quando somos reativos.  Quem é indeciso vive sempre pela metade, dividido entre o que foi e o que poderia ter sido. Ter raça é fazer escolhas e estar disposto a assumir as consequências. Porque a felicidade não espera pelos indecisos, ela só chega para quem tem raça. E para ser feliz é preciso coragem. Ter raça nos exige completude. Para sermos inteiros precisamos olhar para a dor do outro com mais cuidado, porque nós não somos completos sem o outro.

Por isso que quando penso em ter raça, penso também em empatia. A empatia é saber que somos compreendidos, que não estamos sós. Empatia é alguém gritando para nós: raça. Empatia é mais que amor, é validar a dor do outro e estar ali presente por inteiro para ele e entender que nem sempre a vida tem a ver com os nossos dramas.

É fundamental validar a dor do outro para sentir empatia. O mundo hoje pede ação e a ação só vem quando entendemos que fazemos parte de algo maior e somos empáticos perante as injustiças e dores que nos saltam aos olhos. O mundo pede empatia e ao mesmo tempo raça. Raça gera ação. E precisamos agir, precisamos nos envolver. “Se envolver” é algo que tem pouco a ver com palavras e virtualidades e muito a ver com presença e ação.

Em momentos difíceis é que me lembro da torcida gritando: raça. Quando as dores do mundo forem tão grandiosas que nos fazem sentir impotentes: raça. Quando a dor do outro lhe sangrar o coração: raça. Quando você sentir que não dará conta: raça. Para os indecisos: raça. Quando passa o furacão: raça. Para que todo o mal e toda dor não nos paralisem: raça. Para o jogo da vida: RAÇA.

Porque a vida é mesmo um jogo e assim como o futebol é um jogo jogado em equipe; um jogo que nos pede muita raça e o bom de ter raça é que ela não é solitária, a raça vem da certeza; e vem principalmente da plena certeza de que juntos sempre iremos mais longe.

Adendo:

Aprendi muito sobre empatia e comecei a olhar com mais atenção para esse sentimento quando assisti à esse vídeo

Wanderlust: navegar (pela dor) é preciso

wanderlustWanderlust (do alemão wandern: ‘caminhar’, ‘vagar’ + Lust : ‘desejo’; em português, “desejo de viajar”) é um termo que descreve um forte desejo de viajar, de explorar o mundo, de ir a qualquer lugar, em uma caminhada que possa levar ao desconhecido, a algo novo. [1][2]

“Not all those who wander are lost.”
“Nem todos os que vagam estão perdidos.”
J.R.R. Tolkien

 

Descrita como: “uma série intransigente, penetrante e divertida sobre relacionamentos”, o drama “Wanderlust: navegar é preciso”, produzido pela BBC e disponível no Netflix, traz como protagonista a atriz Toni Collette no papel da psicóloga Joy. O roteiro assinado pelo dramaturgo Nick Payne, tem elenco talentoso, e fotografia, trilha sonora e figurino de qualidade. A série acerta em muitos aspectos, navegando entre leveza e densidade, abordando de maneira profunda e ao mesmo tempo alegre temas tão urgentes. Acerta também em trazer para a ficção um setting terapêutico fiel à realidade e tão necessário. É um grande presente para entusiastas da psicologia.

Fritz Perls, considerado o pai da Gestalt-terapia, escreveu: “a fobia da dor é a inimiga do desenvolvimento – a relutância em sofrer um mínimo que seja. Nós utilizamos isso na Gestalt-terapia ao compreendermos que o continuum de tomada de consciência se interrompe – que você se torna fóbico logo que começa a se sentir desconfortável, logo que isso ocorre, você desvia sua atenção.”

Segundo a GT, podemos encontrar um berço fértil de criatividade e transformação através do fechamentos de gestalts, ou seja, ciclos de sofrimento emocional que, de alguma maneira, ficaram interrompidos. Geralmente são sofrimentos de traumas vividos em uma época onde possuíamos pouco recurso emocional para dar conta de tal experiência, como na infância ou na adolescência. Esses eventos que ficam inacabados são gestalts incompletas, verdades não ditas, dores não elaboradas, feridas que ficam abertas. Como Perls denunciou na citação acima, são feridas tão profundas que  evitamos tocá-las.

Portanto, o gestalt-terapeuta precisa ter coragem de frustrar o cliente, frustar toda tentativa de fuga ou fobia, frustrar as histórias elaboradas que nosso intelecto insiste em contar, as explicações, as justificativas e desculpas que criamos. O terapeuta precisa ter firmeza para nos manter no percurso e chegar no âmago da dor. O conceito de awareness é importante para GT, é o momento em que nos damos conta da verdade, o momento do cair a ficha, é quando a dor é tocada e então é possível dar um fechamento para tal evento traumático, para essa gestalt. Esse fechamento pode vir com muita comoção, emoção, lamento, choro, e então, alívio. Suspiro. Silêncio. Paz.

Sim, para encontrar a verdade é preciso navegar pela dor.

O quinto e penúltimo episódio da série se passa inteiramente dentro do consultório, é uma conversa densa, lenta, intensa entre Joy e sua terapeuta. São quase 60 minutos onde é possível assistir como essa busca pela verdade pode acontecer dentro do setting terapêutico. A cena é fiel, com destaque para excelente atuação de Collette.

Podemos sentir com Joy e acompanhar as intervenções da terapeuta Angela. E assim ver nitidamente as tentativas de se contar histórias, de esquiva, de desculpas que Joy cria, tentando evitar o máximo possível entrar em contato com a verdade (e com a dor). Em alguns momentos podemos fazer a leitura da linguagem corporal das duas, Joy se defende, arqueando o corpo, enquanto a terapeuta fala, inclinando-se para frente. A protagonista traz negação, omissão de fatos, justificativas, porque a verdade é difícil de ser verbalizada. Muitas vezes é vergonhosa, humilhante, dilacerante. Não, não é à toa que a evitamos.

Joy traz muitos temas misturados, temas que parecem aleatórios, porém aos poucos vamos aprendendo como estão conectados e têm a mesma raiz, é como se um grande quebra-cabeça fosse sendo montado. É assim mesmo que muitas vezes chegamos no consultório, muitas histórias e conteúdos que parecem ter pouca ou nenhuma ligação, se o profissional for competente, aos poucos a figura do todo pode ir se revelando. Vemos como Angela vai aos poucos separando o “joio do trigo”, aprofundando onde existe energia, conduzindo a cliente novamente para o caminho da verdade, toda vez que ela tenta fugir do tema ou se defender. Essa é a importância do vínculo, da confiança que se cria em um ambiente terapêutico. Apesar de se sentir atacada, e ela chega a verbalizar essa sensação, Joy mantém a escuta em sua terapeuta porque esse vínculo foi criado e validado.

A cena traz ainda a maneira como o passado se conecta ao presente, assim como Perls propôs, para GT o passado importa, mas o que importa mesmo é descobrirmos como ele se manifesta em nosso presente, a GT é conhecida também como terapia do aqui agora. Pois, o presente é o único tempo em que é possível fazer alguma coisa, não podemos mudar o passado, assim quando buscamos trazer o passado para o setting terapêutico ficamos paralisados, com poucos recursos para promover alguma mudança significativa em nossas vidas. Resta compreender e lamentar o que foi, chorar partes tão difíceis de nossa história, e entender como isso ainda nos paralisa e priva de construirmos histórias melhores.

No episódio é possível navegar pelas duras verdades de Joy e notar quando ela toca uma dor muito profunda, aquela que ela tanto evitava, como já falado, é o que Perls chamou de awareness. Geralmente são momentos de muita comoção, onde as lágrimas são inevitáveis, muitas vezes acompanhadas por um choro inconsolável. É assim que sabemos que fizemos contato com algo muito profundo e difícil. Saímos da razão, entramos na emoção. Saímos do superficial, entramos no que é essencial.

Para encontrar nossas verdades, para sermos mais verdadeiros, é preciso – e inevitável – navegar pela dor.

Navegue.

O inferno são os outros

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“Uma cultura de paz é uma cultura de tolerância ativa, mas também é, acima de tudo, uma cultura de conhecimento de si. É extremamente importante nós nos conhecermos e sabermos quem somos, quais são nossas limitações e anseios, por exemplo, e aproveitarmos para aplicar isso em nós mesmos.”

trecho do livro “O inferno somos nós” de Leandro Karnal e Monja Coen

A projeção foi um dos primeiros mecanismos neuróticos de evitação de contato descritos por Fritz Perls, segundo ele: “a projeção é a tendência em fazer o meio responsável pelo que se origina na própria pessoa”. O funcionamento do projetivo é  muito bem descrito na frase icônica do existencialista Jean-Paul Sartre, emprestada para título desse texto. A pessoa que se utiliza desse mecanismo frequentemente tem necessidade de transformar o outro em vilão, falhando em perceber o óbvio: que ela é a única responsável por escrever sua própria história.

Perls ainda descreve a projeção da seguinte maneira: “clinicamente reconhecemos a doença da paranoia, que é caracterizada pelo desenvolvimento de um sistema altamente organizado de ilusões, como caso extremo da projeção. A paranoica tem sido, caso após caso, a personalidade mais agressiva, que incapaz de suportar a responsabilidade de seus próprios sentimentos e vontade, projeta suas fantasias em objetos ou pessoas do meio.”

Assim, o projetivo está sempre cheio de suspeitas, projetando no outro tudo que há de errado na sua relação com o mundo. Sua principal introjeção é “não posso sentir o que sinto”. A pessoa com essa predominância de funcionamento vive uma cisão entre o que ela pensa que é x o que ela de fato é. Por isso são gritantes as incoerências entre o que diz e o que faz, já que ela mesma não se reconhece em suas ações.

Provavelmente foram filhos muito julgados ou superprotegidos. A mensagem que receberam de seus principais cuidadores é “sozinho você não pode”, algo que gera grande insegurança interna. Por não terem aprendido a confiar em si mesmos, se apoiam em demasia no meio (ou nos pais).

Os projetivos demonizam todos, mas são incapazes de demonizar seus pais. “Tirar os pais do pedestal” é questionar sua própria história e isso é algo extremamente difícil para eles. Cresceram em ambientes onde foram extremamente exigidos ou onde receberam muito pouco e, portanto, não aprenderam a confiar no vínculo, por isso são inseguros e desconfiados.

São pessoas que aparentemente se mostram confiantes, com grande autoestima, mas na verdade têm pouca noção de si mesmo e um ego inflado. Com sua teimosia e arrogância falham em reconhecer seus erros, em pedir desculpas, em olhar a realidade dos fatos como eles são, em fazer uma análise assertiva dos conflitos que vivem, e principalmente, falham em identificar suas responsabilidades nas escolhas que fazem.

Concentram muita energia no que está fora, possuem crenças engessadas e polarizadas, falam constantemente sobre algo ou alguém. Nutrem intensa admiração por seus ídolos, defendem com veemência as causas que acreditam. Quando falam de si, raramente expressam autoresponsabilização e constantemente se valem de um discurso vitimista.

Um projetivo em estado cristalizado ou neurótico, apresenta um agir  impulsivo e inconsequente. Muitas vezes, está tão obcecado em achar um culpado ou condenar alguém que acaba se perdendo em processos fantasiosos e paranóicos. São estes os casos extremos descritos por Perls. E dessa maneira, quanto mais mantém o foco no outro, mais evita contato com suas dores mais profundas. Esse modo tão neurótico de funcionar o impede de crescer, aprender, mudar.

Os projetivos raramente vão para terapia, já que não dão conta do processo terapêutico. Portanto, só vão para terapia para resolver questões pontuais que estejam lhe causando muita dor, e como entendem que o outro é principal responsável por seu sofrimento, geralmente é nele que deposita o foco de sua narrativa. Nesse sentido, a projeção é um mecanismo desafiador para o terapeuta, pois para quem projeta o papel de vítima é confortável e o único que, desde uma idade muito precoce, aprendeu  a utilizar para manipular o meio e conseguir suprir suas demandas emocionais.

O desafio do psicólogo é conseguir fazer com que o projetivo conjugue o verbo em primeira pessoa e aprenda a se responsabilizar por sua parte nos conflitos que vive e nas escolhas que faz. As terapias em grupo funcionam melhor para esse tipo de pessoa, já que ela opera através do espelhamento no outro e nunca através de um mergulho aprofundado em si. Assim sendo, para quem projeta é sempre mais cômodo acreditar que o inferno são os outros, do que entender que o seu inferno é ele mesmo quem cria.

*Créditos para Yara Gualda Carneiro do Instituto de Gestalt de Curitiba em aula sobre “projeção” do curso de Formação em Gestalt-Terapia.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato da Gestalt-terapia:

Introjeção

Confluência

Isolamento

Deflexão

 

 

 

10 anos de luta e de luto

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O ano era 2009, eu já tinha perdido as contas de quantos médicos havíamos procurado, até que o diagnóstico veio. Um dia tão distante, ainda tão vívido na minha memória. Enquanto o doutor falava e gesticulava, os sons embaralhavam em meus ouvidos, as palavras ficavam borradas, como se eu pudesse enxergá-las, turvas, confusas, mas eu havia entendido muito melhor do que desejava. Muitas palavras se perdiam, apenas uma insistia em ficar, imponente, ecoando, um som que ensurdecia:

– DEMÊNCIA

Eu olhava para minha mãe, sentada ao meu lado, seus olhos grandes arregalados, calada, imóvel, assustada. Não era possível, demência? Ela tinha 59 anos, tão jovem, tão linda, tão cheia de vida.

Olhando para nossa trajetória nesses 10 anos de diagnóstico, compreendo a dádiva do não-saber, como é bom que a gente não possa prever o que o futuro com seus passos duros e apressados nos trará.

Durante esses longos anos assisti com muita dor a memória da minha mãe esvair-se, escorrer-lhe por entre os dedos, junto com tantas lágrimas, dela e minhas. E me transformei tanto nesse processo que já não reconheço aquela mulher-menina com sua ignorância do futuro que sequer imaginava em quantos pedaços seu coração se partiria para acomodar tão assustador diagnóstico.

Lembro da minha adolescência e de nossas brigas, do quanto a odiei, toda raiva que sentia por ela não se encaixar no meu ideal de mãe; no papel que me esmerei em construir para ela. Minha mãe, com sua teimosia, teimou tanto que se recusou a ser a mãe dos meus sonhos. Recusou-se a ter comigo uma conversa conciliadora, ela preferiu me mostrar, quis me guiar, enquanto ela mesma se perdia.

Com tanta ousadia, não quis caber em uma fantasia, me deu em troca uma mãe de carne e osso, imperfeita, que falhou em muitas coisas – diante do meu olhar de menina -, mas não falhou ao me dar a vida. E hoje, como uma mulher crescida,  vejo em suas falhas, quanta sabedoria! Minha mãe, para mim, é a mãe perfeita, que pena que eu não sabia.

Dez anos, 3650 dias, nossos passos intercalados, numa dança infinita entre perder e ganhar, entre partir e ficar, com toda grandeza que só ela poderia me dar, enquanto ela se esquecia, me fazia lembrar.

Naquele ano, 2009, não tinha ideia de quanto minha vida iria mudar. Vi o ódio se transformar em amor, um amor tão profundo, um coração agradecido; descobri suas falhas se transformando em acertos; seu sorriso sempre me dizendo: “a vida ensina”; quando nasce uma mãe, floresce a vida.

E com olhos embriagados de saudades e solidão, já se vão 10 anos de luta e de luto. Cada dia é uma despedida. Enquanto se perde sua memória, com ela se vai parte tão grande da minha história. Mas eu não me esqueço, ainda escuto sua voz me dizendo, – filha, não tenha medo, é preciso sempre, sempre continuar!

Solidão é companhia

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“Precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia.” Valter Hugo Mãe

Quando pequena eu tinha um pesadelo que se repetia. Sonhava que acordava em um lugar estranho, sem meus pais. Sozinha. Por noites seguidas despertava aos prantos e levava horas para me acalmar. Às vezes, dias. Anos depois, há pouco tempo, e do sonho se fez profecia. Despertei em um lugar estranho, não encontrei meus pais. E eu estava sozinha. Mas já não tive mais medo. A solidão que outrora me assustava, hoje me serve de guia. Despertei e a solidão não me assusta tanto quanto a ideia de caminhar em má companhia.

Portanto quando minha sobrinha me perguntou sobre minha próxima viagem, “você vai viajar sozinha, sozinha?”, a resposta é sim, vou sozinha, mas solidão também é companhia. Levarei comigo a força e o desejo de tantas mulheres que vieram antes de mim, abrindo lugar para que eu pudesse desfrutar de uma vida de privilégios. Solitárias mulheres privadas de liberdade, solitárias cárceres de seus desejos castrados. Mulheres com corações inundados, encerradas na solidão das escolhas escassas. Vou em companhia daquelas que sequer ousaram sonhar em ir tão longe, porque ousar e sonhar eram verbos proibidos de mulher conjugar. Vou sozinha, mas sou muitas.

Carrego também a teimosia que herdei de minha mãe, que sempre insistiu em se levantar, após cada queda, incessantemente, repetidamente. Teimou tanto obedecer, teimou tanto até esquecer. Levo comigo a solidão de seu esquecimento, do escorrer-entre-os-dedos de suas memórias.

Levo a prudência de meu pai e sua paixão por explorar o mundo; lentamente, degustando, cada passo, cada esquina. Percorrendo caminhos com passos ligeiros, e a mente tranquila. Levo a solidão de seus últimos dias, a solidão de doença terminal encerrando precocemente tantos sonhos, tanta vida.

Vou com a bagagem cheia de memórias e saudades. A certeza de que eles me prepararam para o mundo, para ser forte e encarar meus pesadelos nos olhos. Acordei sem meus pais, mas não me sinto sozinha. Levo comigo meus medos de menina e a coragem de mulher crescida.

Todavia me fazem companhia as histórias que não foram escritas. Sigo convicta de que as boas histórias nem sempre são aquelas que duram uma vida, pois muitas delas são repletas de silêncios velados. Silêncios que falam tão alto, que são ensurdecedores.

Acredito que as melhores histórias são feitas de gritos que silenciam dores; de lágrimas que transbordam nossa incapacidade de sermos melhores para o outro. São aquelas que deixam feridas expostas sangrando nossa imperfeição. Histórias que têm como protagonista a rebeldia de não nos ajustarmos demais ao desejo alheio e de não cedermos tanto até descobrirmos tipos piores de solidão: a solidão de quem se perde de si, a solidão de quem se perde no outro.

Para curar não é preciso apenas tempo, também é preciso movimento. É preciso disponibilidade e autoconhecimento. E uma boa dose de solidão. Caminho só, mas não estou sozinha. Hoje a solidão não me assusta, e sim me faz companhia.

Onde estão as moedas?

“Numa noite qualquer, uma pessoa, da qual não sabemos se é um homem ou uma mulher, teve um sonho, um sonho com os pais.

Neste sonho seus pais apareciam e lhe davam algumas moedas, não sabemos quantas eram, se uma dúzia ou uma centena, nem de que metal eram feitas, se eram de ouro, de prata, de cobre, de ferro ou mesmo de argila.

O sonhador as recebia de bom grado porque eram as moedas que seus pais lhe davam, eram as exatas que necessitava e merecia, para levar sua vida.

Satisfeito agradeceu aos pais pelas moedas recebidas tomando-as por inteiro.

E o sonhador (a) termina a noite de sono tranquilo (a), descansado e pleno.

Ao amanhecer, desperta bem-disposto e resoluto em ir à casa dos pais para comentar o sonho e agradecer as moedas recebidas.

Indo até os pais, comenta o sonho e agradece as moedas recebidas, em profunda gratidão. Seus pais, vendo a atitude do filho (a), sentem-se grandes, ainda maiores e mais bondosos do que haviam sido e orgulhosos do filho (a). Dizem-lhe então:

– Estas moedas são para você, use-as como quiser e não precisa devolvê-las, são nossa herança para você.

E este filho (a) segue seu caminho satisfeito e pleno, capaz de enfrentar e vencer qualquer desafio, com a certeza de haver recebido as exatas moedas que necessitava e merecia de seus pais, suficientes para empreender sua caminhada. De tempos em tempos volta-se para trás, em direção à casa dos pais, e sente-se revigorado e pleno para seguir e realizar sua vida.

Acontece, que em outra noite qualquer, um outro sonhador (a) tem um sonho parecido, que costuma acontecer com qualquer um de nós, mais cedo ou mais tarde, de ter um sonho com os pais. Neste sonho, o sonhador (a) recebe dos seus pais algumas moedas, que não sabemos se uma dúzia, uma centena ou apenas umas tantas, nem de que metal eram feitas, se de ouro, de prata, de cobre, de ferro ou mesmo de argila.

Mas este sonhador não aceita as moedas dos pais.

– Estas não são as moedas que necessito, preciso e mereço, por isto não as tomo e deixo-as com vocês. Se eu as tomasse minha vida se tornaria pesada e, portanto, fiquem com elas.

E este sonhador (a) segue pela noite intranquilo, com o sono entrecortado e desperta muito cedo, cansado e ansioso por ir até a casa dos pais, contar-lhes a respeito do sonho.

Lá chegando, diz aos pais sobre o sonho e que aquelas moedas não lhe interessam, que aquilo que eles tinham para ele não eram as moedas que ele (a) necessita e merece, deixando-as, portanto, com eles.

Os pais ouvindo isto, tornam-se ainda menores, humilhados, como costuma acontecer quando um filho (a) não toma seus pais, seus ensinamentos e sua herança, tal como foi; e retiram-se para seu quarto.

E este (a) sonhador (a), tomado de uma estranha força, sente-se fortalecido e vingado, havendo acertado as contas com seus pais, e sai para a vida decidido a encontrar suas moedas, as que justo necessita e merece. Com alguém elas devem estar.

E tomado por esta força, estranhamente falsa, vai pela vida em busca de parceira (o), procurando pelas moedas que necessita e crê poderem estar com ela (ele).

As vezes tem a sorte de encontrar alguém e mais sorte ainda desta relação durar algum tempo.

Quando isto ocorre, com o passar do tempo o sonhador (a) percebe que sua (seu) parceira (o) não tem as moedas que necessita e merece, e o relacionamento perde todo seu encanto, ficando para trás. E o sonhador (a) segue em busca de outra pessoa que talvez, desta vez, tenha as suas moedas.

E de relacionamento em relacionamento, segue em busca de suas moedas e desencantos, porque nenhum deles tem as moedas que necessita e merece.

Outras vezes, o sonhador (a) tem um filho (a) e, ao engravidar, cria a forte expectativa de que este filho (a) terá as moedas que necessita e merece, e o (a) aguarda ansioso (a) e cheio (a) de esperanças. Mas a vida é como é; os filhos crescem e seguem seus próprios caminhos, e tampouco eles têm as moedas que o pai ou a mãe procuram.

E nesta busca incessante, o tempo vai passando até que o desespero toma conta: onde estarão minhas moedas, justo as que necessito e mereço para levar minha vida.

Então, algumas vezes, vão em busca de um terapeuta, na certeza de que eles sim saberão das moedas.

Mas há dois tipos de terapeutas: um que acredita que tem as moedas que seu cliente procura; e outro que sabe que não as tem, mas está disposto a ajudá-lo a procurá-las.

Quando tem a sorte ou a sabedoria de encontrar este segundo tipo de terapeuta, dá-se início a um processo de autoconsciência e aprendizado, onde o sonhador (a) vai percebendo aspectos antes ignorados, apropriando-se de sua própria vida, pouco a pouco.

Até que num belo dia o terapeuta se dá conta de que o sonhador (a) já está pronto para saber onde estão suas moedas. E neste mesmo dia, não apenas por coincidência, o sonhador (a) vem para a terapia e diz:

– Eu já sei onde estão as moedas. Ainda estão com os meus pais.

E resoluto (a), empreende o retorno à casa dos pais, em busca das justas moedas que necessita e merece.

Chegando à casa dos pais, arrependido (a) e amadurecido (a), toma-os por inteiro, tal como foi aceitando feliz e de bom grado as moedas que eles têm para si, exatamente as que precisa, necessita e merece para levar sua vida em plenitude.

E seus pais, reconhecidos e aceitos inteiramente pelo filho (a), tornam-se ainda maiores, mais dignos e responsáveis, podendo ser ainda mais generosos. E assim, o sonhador (a) encontra seus caminhos, com a fortaleza da herança dos pais: agradecendo a vida recebida; dizendo sim a tudo, tal como foi libertando-se de todas as mágoas, deixando as responsabilidades com quem de direito; e tomando sua própria vida em suas mãos, com a benção de seus pais, para que, agora possa buscar sua felicidade. ”

Título original: GARRIGA, Joan. Donde están las monedas? El cuento de nuestros padres. Barcelona, 2006, 3 edicíon

Título no Brasil: GARRIGA, Joan. Onde estão as Moedas? As Chaves do vínculo entre pais e filhos. Ed Saberes, 2011, Campinas/SP. Tradução: Adriana Campidelli e Lorice Ashkar Ferreira/ Revisão: René Schubert e Anna Carolina Garcia de Souza.

Esvaziar-se

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No curso de Psicologia, há uma professora que todo mundo adora, que as aulas são realmente boas, ainda assim algo me incomoda. Levanto o braço para perguntar algo, ela não olha, levanto novamente, nada. Outros levantam o braço, nada. Enquanto isso ela fala de si. De sua vida pessoal, de suas experiências, de tudo que viveu. De suas experiências na área, histórias que são de fato interessantes.

Ela constantemente fala de si. E isso é o que me incomoda. E o que me parece é que ela está sempre cheia, não existe espaço para perguntas. Como tudo que nos incomoda nos outros, é um espelho, lembrei-me de muitos anos atrás, quando minha terapeuta me disse:

– Tati, a impressão que tenho é que você está sempre cheia! Cheia de ideias, de opiniões, de perguntas e de histórias. Quando estamos cheios, não há espaço para mais nada, nem ninguém!

Sim, o espaço que o professor ocupa pode ser perigoso para a vaidade. Existe uma linha tênue entre ensinar e exibir-se. E esse não é um problema só dos professores, é geral. Estamos todos sempre cheios. As redes sociais são um bom reflexo disso.

E “estar cheio” tampouco é um dilema pós-moderno. É humano. Esvaziar-se não é um convite novo, há mais de um século Freud propôs a cura pela fala através da associação livre. Perls, a técnica da “cadeira vazia”, a marca registrada da Gestalt-terapia. As diversas técnicas milenares de meditação buscam esse vazio.

Sim, é no vazio que encontramos lugar para criar, aprender e crescer.

Esvazie-se.

Noiva em confluência

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Noiva em Fuga (Runaway Bride) é um longa de comédia romântica que recheia a lista de clássicos românticos da década de 90, foi pouco aclamado pela crítica, e traz pouca novidade para um gênero onde sobram clichês e falta originalidade de roteiro.

Protagonizado por Richard Gere e Julia Roberts, conta a história da jovem Maggie que fica falada em sua pequena e pacata cidade por fugir do altar três vezes consecutivas. Ike Graham, é um repórter de Nova York que quer salvar sua decadente carreira e resolve escrever a história da famosa “noiva em fuga”. Dentro dos exemplos de mecanismos de evitação de contato na Gestalt-terapia, podemos dizer que Maggie faz confluência.

A confluência foi um dos primeiros mecanismos de evitação de contato descritos por Perls, ele a explicou como sendo o tipo de interação em que o indivíduo não sente haver uma barreira entre ele e seu meio, quando sente que ele próprio e o meio são um só. Em estado patológico de confluência, a pessoa não consegue fazer contato consigo mesma, nem distinguir-se do meio. Em termos mais simplificados, confluir é perder-se no outro, portanto sua polaridade é o “isolamento”.

Um indivíduo quando conflui é aquele que sempre se esforça ou muda para agradar ao outro, que tem dificuldade de se posicionar ou agir quando suas ideias destoam do todo e prefere sempre evitar conflitos. A cena clássica do filme é quando Ike confronta Maggie sobre como ela gosta de comer ovos no café da manhã. Ao estudar seus relacionamentos passados ele descobre que ela gosta ovos de acordo com o que cada noivo prefere. “Você é a mulher mais perdida que conheço, tão perdida que não sabe nem como quer comer ovos! Com o padre, eram mexidos; com o hippie eram fritos; com o outro, eram escaldados, e agora, só com claras!”

Uma metáfora clássica para pessoas em confluência, que geralmente perdem-se mais ainda quando se apaixonam. Relacionar-se certamente inclui o movimento de moldar-se ao outro, faz parte de um bom contato e do crescimento da relação mudar, ceder, negociar. Mas, existe uma dose saudável para isso, que depende de cada pessoa e relação. O que não é saudável é tornar-se igual ou o que o outro deseja para agradá-lo. No fim das contas ninguém (em sanidade mental) gosta do que não é autêntico. Na maioria das vezes os relacionamentos com pessoas confluentes acabam justamente porque é cansativo e entediante relacionar-se com alguém que não tem opinião própria, nem firmeza de querer. A mesmice não gera crescimento nem mudança, só fazemos contato com aquilo que nos é diferente.

A jornada da “Noiva em Fuga” é interessante do ponto de vista da psicologia, pois no decorrer da historia ela se dá conta que precisa conhecer melhor sobre si antes de relacionar-se. Trata-se daquele antigo clichê, que merece ser revisitado. Para amar o outro, ela precisa antes descobrir quem é, o que gosta, o que quer. Conhecer suas fronteiras, e tornar-se inteira. “Queria dizer a você sobre porque fujo, às vezes, corro das coisas, quando eu caminhava até o altar, era para alguém que não fazia ideia de quem eu era realmente. E só a metade da culpa era dele, pois fiz todo o possível para convencê-lo de que eu era exatamente o que ele queria. Então, foi bom eu não ter levado adiante, porque teria sido uma mentira. Adoro ovos mexidos! Odeio todos os outros!”

Como todos os mecanismos de contato, a confluência também pode ser funcional, é importante e nobre cedermos em prol do outro, e muitas vezes evitar conflitos e discussões que não são importantes. “Escolher nossas batalhas” (pick your battles), mas para isso antes precisamos descobrir quais são nossas batalhas. O convite ao padrão confluente é aprender sobre si, experimentar coisas novas, pensar e decidir sem a interferência de outros ou a preocupação excessiva em agradar. Começa passando por gostos simples, como preparo de ovos, mas inclui também questões importantes como estilo de vida, sonhos, desejos, valores e crenças.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato:

Isolamento

Deflexão

Introjeção