10 anos de luta e de luto

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O ano era 2009, eu já tinha perdido as contas de quantos médicos havíamos procurado, até que o diagnóstico veio. Um dia tão distante, ainda tão vívido na minha memória. Enquanto o doutor falava e gesticulava, os sons embaralhavam em meus ouvidos, as palavras ficavam borradas, como se eu pudesse enxergá-las, turvas, confusas, mas eu havia entendido muito melhor do que desejava. Muitas palavras se perdiam, apenas uma insistia em ficar, imponente, ecoando, um som que ensurdecia:

– DEMÊNCIA

Eu olhava para minha mãe, sentada ao meu lado, seus olhos grandes arregalados, calada, imóvel, assustada. Não era possível, demência? Ela tinha 59 anos, tão jovem, tão linda, tão cheia de vida.

Olhando para nossa trajetória nesses 10 anos de diagnóstico, compreendo a dádiva do não-saber, como é bom que a gente não possa prever o que o futuro com seus passos duros e apressados nos trará.

Durante esses longos anos assisti com muita dor a memória da minha mãe esvair-se, escorrer-lhe por entre os dedos, junto com tantas lágrimas, dela e minhas. E me transformei tanto nesse processo que já não reconheço aquela mulher-menina com sua ignorância do futuro que sequer imaginava em quantos pedaços seu coração se partiria para acomodar tão assustador diagnóstico.

Lembro da minha adolescência e de nossas brigas, do quanto a odiei, toda raiva que sentia por ela não se encaixar no meu ideal de mãe; no papel que me esmerei em construir para ela. Minha mãe, com sua teimosia, teimou tanto que se recusou a ser a mãe dos meus sonhos. Recusou-se a ter comigo uma conversa conciliadora, ela preferiu me mostrar, quis me guiar, enquanto ela mesma se perdia.

Com tanta ousadia, não quis caber em uma fantasia, me deu em troca uma mãe de carne e osso, imperfeita, que falhou em muitas coisas – diante do meu olhar de menina -, mas não falhou ao me dar a vida. E hoje, como uma mulher crescida,  vejo em suas falhas, quanta sabedoria! Minha mãe, para mim, é a mãe perfeita, que pena que eu não sabia.

Dez anos, 3650 dias, nossos passos intercalados, numa dança infinita entre perder e ganhar, entre partir e ficar, com toda grandeza que só ela poderia me dar, enquanto ela se esquecia, me fazia lembrar.

Naquele ano, 2009, não tinha ideia de quanto minha vida iria mudar. Vi o ódio se transformar em amor, um amor tão profundo, um coração agradecido; descobri suas falhas se transformando em acertos; seu sorriso sempre me dizendo, a vida ensina, e quando nasce uma mãe, floresce a vida.

E com olhos embriagados de saudades e solidão, já se vão 10 anos de luta e de luto. Cada dia é uma despedida. Enquanto se perde sua memória, com ela se vai parte tão grande da minha história. Mas eu não me esqueço, ainda escuto sua voz me dizendo, – filha, não tenha medo, é preciso sempre, sempre continuar!

Solidão é companhia

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“Precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia.” Valter Hugo Mãe

Quando pequena eu tinha um pesadelo que se repetia. Sonhava que acordava em um lugar estranho, sem meus pais. Sozinha. Por noites seguidas despertava aos prantos e levava horas para me acalmar. Às vezes, dias. Anos depois, há pouco tempo, e do sonho se fez profecia. Despertei em um lugar estranho, não encontrei meus pais. E eu estava sozinha. Mas já não tive mais medo. A solidão que outrora me assustava, hoje me serve de guia. Despertei e a solidão não me assusta tanto quanto a ideia de caminhar em má companhia.

Portanto quando minha sobrinha me perguntou sobre minha próxima viagem, “você vai viajar sozinha, sozinha?”, a resposta é sim, vou sozinha, mas solidão também é companhia. Levarei comigo a força e o desejo de tantas mulheres que vieram antes de mim, abrindo lugar para que eu pudesse desfrutar de uma vida de privilégios. Solitárias mulheres privadas de liberdade, solitárias cárceres de seus desejos castrados. Mulheres com corações inundados, encerradas na solidão das escolhas escassas. Vou em companhia daquelas que sequer ousaram sonhar em ir tão longe, porque ousar e sonhar eram verbos proibidos de mulher conjugar. Vou sozinha, mas sou muitas.

Carrego também a teimosia que herdei de minha mãe, que sempre insistiu em se levantar, após cada queda, incessantemente, repetidamente. Teimou tanto obedecer, teimou tanto até esquecer. Levo comigo a solidão de seu esquecimento, do escorrer-entre-os-dedos de suas memórias.

Levo a prudência de meu pai e sua paixão por explorar o mundo; lentamente, degustando, cada passo, cada esquina. Percorrendo caminhos com passos ligeiros, e a mente tranquila. Levo a solidão de seus últimos dias, a solidão de doença terminal encerrando precocemente tantos sonhos, tanta vida.

Vou com a bagagem cheia de memórias e saudades. A certeza de que eles me prepararam para o mundo, para ser forte e encarar meus pesadelos nos olhos. Acordei sem meus pais, mas não me sinto sozinha. Levo comigo meus medos de menina e a coragem de mulher crescida.

Todavia me fazem companhia as histórias que não foram escritas. Sigo convicta de que as boas histórias nem sempre são aquelas que duram uma vida, pois muitas delas são repletas de silêncios velados. Silêncios que falam tão alto, que são ensurdecedores.

Acredito que as melhores histórias são feitas de gritos que silenciam dores; de lágrimas que transbordam nossa incapacidade de sermos melhores para o outro. São aquelas que deixam feridas expostas sangrando nossa imperfeição. Histórias que têm como protagonista a rebeldia de não nos ajustarmos demais ao desejo alheio e de não cedermos tanto até descobrirmos tipos piores de solidão: a solidão de quem se perde de si, a solidão de quem se perde no outro.

Para curar não é preciso apenas tempo, também é preciso movimento. É preciso disponibilidade e autoconhecimento. E uma boa dose de solidão. Caminho só, mas não estou sozinha. Hoje a solidão não me assusta, e sim me faz companhia.

Onde estão as moedas?

“Numa noite qualquer, uma pessoa, da qual não sabemos se é um homem ou uma mulher, teve um sonho, um sonho com os pais.

Neste sonho seus pais apareciam e lhe davam algumas moedas, não sabemos quantas eram, se uma dúzia ou uma centena, nem de que metal eram feitas, se eram de ouro, de prata, de cobre, de ferro ou mesmo de argila.

O sonhador as recebia de bom grado porque eram as moedas que seus pais lhe davam, eram as exatas que necessitava e merecia, para levar sua vida.

Satisfeito agradeceu aos pais pelas moedas recebidas tomando-as por inteiro.

E o sonhador (a) termina a noite de sono tranquilo (a), descansado e pleno.

Ao amanhecer, desperta bem-disposto e resoluto em ir à casa dos pais para comentar o sonho e agradecer as moedas recebidas.

Indo até os pais, comenta o sonho e agradece as moedas recebidas, em profunda gratidão. Seus pais, vendo a atitude do filho (a), sentem-se grandes, ainda maiores e mais bondosos do que haviam sido e orgulhosos do filho (a). Dizem-lhe então:

– Estas moedas são para você, use-as como quiser e não precisa devolvê-las, são nossa herança para você.

E este filho (a) segue seu caminho satisfeito e pleno, capaz de enfrentar e vencer qualquer desafio, com a certeza de haver recebido as exatas moedas que necessitava e merecia de seus pais, suficientes para empreender sua caminhada. De tempos em tempos volta-se para trás, em direção à casa dos pais, e sente-se revigorado e pleno para seguir e realizar sua vida.

Acontece, que em outra noite qualquer, um outro sonhador (a) tem um sonho parecido, que costuma acontecer com qualquer um de nós, mais cedo ou mais tarde, de ter um sonho com os pais. Neste sonho, o sonhador (a) recebe dos seus pais algumas moedas, que não sabemos se uma dúzia, uma centena ou apenas umas tantas, nem de que metal eram feitas, se de ouro, de prata, de cobre, de ferro ou mesmo de argila.

Mas este sonhador não aceita as moedas dos pais.

– Estas não são as moedas que necessito, preciso e mereço, por isto não as tomo e deixo-as com vocês. Se eu as tomasse minha vida se tornaria pesada e, portanto, fiquem com elas.

E este sonhador (a) segue pela noite intranquilo, com o sono entrecortado e desperta muito cedo, cansado e ansioso por ir até a casa dos pais, contar-lhes a respeito do sonho.

Lá chegando, diz aos pais sobre o sonho e que aquelas moedas não lhe interessam, que aquilo que eles tinham para ele não eram as moedas que ele (a) necessita e merece, deixando-as, portanto, com eles.

Os pais ouvindo isto, tornam-se ainda menores, humilhados, como costuma acontecer quando um filho (a) não toma seus pais, seus ensinamentos e sua herança, tal como foi; e retiram-se para seu quarto.

E este (a) sonhador (a), tomado de uma estranha força, sente-se fortalecido e vingado, havendo acertado as contas com seus pais, e sai para a vida decidido a encontrar suas moedas, as que justo necessita e merece. Com alguém elas devem estar.

E tomado por esta força, estranhamente falsa, vai pela vida em busca de parceira (o), procurando pelas moedas que necessita e crê poderem estar com ela (ele).

As vezes tem a sorte de encontrar alguém e mais sorte ainda desta relação durar algum tempo.

Quando isto ocorre, com o passar do tempo o sonhador (a) percebe que sua (seu) parceira (o) não tem as moedas que necessita e merece, e o relacionamento perde todo seu encanto, ficando para trás. E o sonhador (a) segue em busca de outra pessoa que talvez, desta vez, tenha as suas moedas.

E de relacionamento em relacionamento, segue em busca de suas moedas e desencantos, porque nenhum deles tem as moedas que necessita e merece.

Outras vezes, o sonhador (a) tem um filho (a) e, ao engravidar, cria a forte expectativa de que este filho (a) terá as moedas que necessita e merece, e o (a) aguarda ansioso (a) e cheio (a) de esperanças. Mas a vida é como é; os filhos crescem e seguem seus próprios caminhos, e tampouco eles têm as moedas que o pai ou a mãe procuram.

E nesta busca incessante, o tempo vai passando até que o desespero toma conta: onde estarão minhas moedas, justo as que necessito e mereço para levar minha vida.

Então, algumas vezes, vão em busca de um terapeuta, na certeza de que eles sim saberão das moedas.

Mas há dois tipos de terapeutas: um que acredita que tem as moedas que seu cliente procura; e outro que sabe que não as tem, mas está disposto a ajudá-lo a procurá-las.

Quando tem a sorte ou a sabedoria de encontrar este segundo tipo de terapeuta, dá-se início a um processo de autoconsciência e aprendizado, onde o sonhador (a) vai percebendo aspectos antes ignorados, apropriando-se de sua própria vida, pouco a pouco.

Até que num belo dia o terapeuta se dá conta de que o sonhador (a) já está pronto para saber onde estão suas moedas. E neste mesmo dia, não apenas por coincidência, o sonhador (a) vem para a terapia e diz:

– Eu já sei onde estão as moedas. Ainda estão com os meus pais.

E resoluto (a), empreende o retorno à casa dos pais, em busca das justas moedas que necessita e merece.

Chegando à casa dos pais, arrependido (a) e amadurecido (a), toma-os por inteiro, tal como foi aceitando feliz e de bom grado as moedas que eles têm para si, exatamente as que precisa, necessita e merece para levar sua vida em plenitude.

E seus pais, reconhecidos e aceitos inteiramente pelo filho (a), tornam-se ainda maiores, mais dignos e responsáveis, podendo ser ainda mais generosos. E assim, o sonhador (a) encontra seus caminhos, com a fortaleza da herança dos pais: agradecendo a vida recebida; dizendo sim a tudo, tal como foi libertando-se de todas as mágoas, deixando as responsabilidades com quem de direito; e tomando sua própria vida em suas mãos, com a benção de seus pais, para que, agora possa buscar sua felicidade. ”

Título original: GARRIGA, Joan. Donde están las monedas? El cuento de nuestros padres. Barcelona, 2006, 3 edicíon

Título no Brasil: GARRIGA, Joan. Onde estão as Moedas? As Chaves do vínculo entre pais e filhos. Ed Saberes, 2011, Campinas/SP. Tradução: Adriana Campidelli e Lorice Ashkar Ferreira/ Revisão: René Schubert e Anna Carolina Garcia de Souza.

Esvaziar-se

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No curso de Psicologia, há uma professora que todo mundo adora, que as aulas são realmente boas, ainda assim algo me incomoda. Levanto o braço para perguntar algo, ela não olha, levanto novamente, nada. Outros levantam o braço, nada. Enquanto isso ela fala de si. De sua vida pessoal, de suas experiências, de tudo que viveu. De suas experiências na área, histórias que são de fato interessantes.

Ela constantemente fala de si. E isso é o que me incomoda. E o que me parece é que ela está sempre cheia, não existe espaço para perguntas. Como tudo que nos incomoda nos outros, é um espelho, lembrei-me de muitos anos atrás, quando minha terapeuta me disse:

– Tati, a impressão que tenho é que você está sempre cheia! Cheia de ideias, de opiniões, de perguntas e de histórias. Quando estamos cheios, não há espaço para mais nada, nem ninguém!

Sim, o espaço que o professor ocupa pode ser perigoso para a vaidade. Existe uma linha tênue entre ensinar e exibir-se. E esse não é um problema só dos professores, é geral. Estamos todos sempre cheios. As redes sociais são um bom reflexo disso.

E “estar cheio” tampouco é um dilema pós-moderno. É humano. Esvaziar-se não é um convite novo, há mais de um século Freud propôs a cura pela fala através da associação livre. Perls, a técnica da “cadeira vazia”, a marca registrada da Gestalt-terapia. As diversas técnicas milenares de meditação buscam esse vazio.

Sim, é no vazio que encontramos lugar para criar, aprender e crescer.

Esvazie-se.

Noiva em confluência

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Noiva em Fuga (Runaway Bride) é um longa de comédia romântica que recheia a lista de clássicos românticos da década de 90, foi pouco aclamado pela crítica, e traz pouca novidade para um gênero onde sobram clichês e falta originalidade de roteiro.

Protagonizado por Richard Gere e Julia Roberts, conta a história da jovem Maggie que fica falada em sua pequena e pacata cidade por fugir do altar três vezes consecutivas. Ike Graham, é um repórter de Nova York que quer salvar sua decadente carreira e resolve escrever a história da famosa “noiva em fuga”. Dentro dos exemplos de mecanismos de evitação de contato na Gestalt-terapia, podemos dizer que Maggie faz confluência.

A confluência foi um dos primeiros mecanismos de evitação de contato descritos por Perls, ele a explicou como sendo o tipo de interação em que o indivíduo não sente haver uma barreira entre ele e seu meio, quando sente que ele próprio e o meio são um só. Em estado patológico de confluência, a pessoa não consegue fazer contato consigo mesma, nem distinguir-se do meio. Em termos mais simplificados, confluir é perder-se no outro, portanto sua polaridade é o “isolamento”.

Um indivíduo quando conflui é aquele que sempre se esforça ou muda para agradar ao outro, que tem dificuldade de se posicionar ou agir quando suas ideias destoam do todo e prefere sempre evitar conflitos. A cena clássica do filme é quando Ike confronta Maggie sobre como ela gosta de comer ovos no café da manhã. Ao estudar seus relacionamentos passados ele descobre que ela gosta ovos de acordo com o que cada noivo prefere. “Você é a mulher mais perdida que conheço, tão perdida que não sabe nem como quer comer ovos! Com o padre, eram mexidos; com o hippie eram fritos; com o outro, eram escaldados, e agora, só com claras!”

Uma metáfora clássica para pessoas em confluência, que geralmente perdem-se mais ainda quando se apaixonam. Relacionar-se certamente inclui o movimento de moldar-se ao outro, faz parte de um bom contato e do crescimento da relação mudar, ceder, negociar. Mas, existe uma dose saudável para isso, que depende de cada pessoa e relação. O que não é saudável é tornar-se igual ou o que o outro deseja para agradá-lo. No fim das contas ninguém (em sanidade mental) gosta do que não é autêntico. Na maioria das vezes os relacionamentos com pessoas confluentes acabam justamente porque é cansativo e entediante relacionar-se com alguém que não tem opinião própria, nem firmeza de querer. A mesmice não gera crescimento nem mudança, só fazemos contato com aquilo que nos é diferente.

A jornada da “Noiva em Fuga” é interessante do ponto de vista da psicologia, pois no decorrer da historia ela se dá conta que precisa conhecer melhor sobre si antes de relacionar-se. Trata-se daquele antigo clichê, que merece ser revisitado. Para amar o outro, ela precisa antes descobrir quem é, o que gosta, o que quer. Conhecer suas fronteiras, e tornar-se inteira. “Queria dizer a você sobre porque fujo, às vezes, corro das coisas, quando eu caminhava até o altar, era para alguém que não fazia ideia de quem eu era realmente. E só a metade da culpa era dele, pois fiz todo o possível para convencê-lo de que eu era exatamente o que ele queria. Então, foi bom eu não ter levado adiante, porque teria sido uma mentira. Adoro ovos mexidos! Odeio todos os outros!”

Como todos os mecanismos de contato, a confluência também pode ser funcional, é importante e nobre cedermos em prol do outro, e muitas vezes evitar conflitos e discussões que não são importantes. “Escolher nossas batalhas” (pick your battles), mas para isso antes precisamos descobrir quais são nossas batalhas. O convite ao padrão confluente é aprender sobre si, experimentar coisas novas, pensar e decidir sem a interferência de outros ou a preocupação excessiva em agradar. Começa passando por gostos simples, como preparo de ovos, mas inclui também questões importantes como estilo de vida, sonhos, desejos, valores e crenças.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato:

Isolamento

Deflexão

Introjeção

A felicidade só é real quando é compartilhada

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Escrito e dirigido por Sean Penn, o filme “Na Natureza Selvagem” é baseado no livro homônimo do jornalista Jon Krakauer e conta a história verídica do jovem americano Christopher McCandless. Lançado em 2007, o longa recebeu diversas premiações e indicações, incluindo um Globo de Ouro de melhor canção e duas indicações ao Academy Awards (Oscar). A trilha sonora é assinada por Eddie Vedder e torna o filme ainda mais belo. Outro destaque fica por conta da fotografia com paisagens de tirar o fôlego.

Talvez o que faz da história interessante é a quebra contra o sistema por parte do protagonista: ao concluir a graduação em uma universidade renomada, ele muda de nome, abandona um futuro promissor e uma vida de luxos para percorrer sozinho parte dos Estados Unidos; em sua jornada faz explora novos contextos, faz novas amizades, vive amores e desamores. A história é emocionante, com ressalvas.

Embora a personalidade exploradora do jovem tenha encantado muitos, utilizando os mecanismos neuróticos de evitação de contato da Gestalt-terapia pode-se entender que o garoto funciona em mecanismo chamado “isolamento”. Apesar de não ter sido inicialmente descrito por Perls, o isolamento é utilizado por autores mais modernos, muitas vezes descrito como uma polaridade da “confluência”. Para a GT, não se trata necessariamente ou apenas de um afastamento físico é, principalmente, um afastamento emocional.

Assim como os outros mecanismos, o isolamento tem sua funcionalidade, muitas vezes precisamos dessa distância do outro, pois é importante estar bem sozinho. Mas, ele torna-se um mecanismo neurótico quando não conseguimos permanecer em situações e relacionamentos que podem nos trazer benefícios; quando evitamos o contato como uma defesa ou uma solução para não sofrer.

A dificuldade de tratar uma pessoa neste funcionamento neurótico é que raramente ela procurará ajuda. Uma das principais características do isolado é ter a ilusão de que se basta sozinho e muitas vezes não sentir necessidade ou falta do contato com o outro. Ainda, a pessoa nesse funcionamento pode estar cercada de gente e mesmo assim não estar acessível emocionalmente. Muitas vezes são pessoas que possuem muitos amigos, mas não se aprofundam em relação alguma, mantendo sempre uma distância emocional confortável e um certo mistério sobre si.

O que me chama atenção no filme é que, apesar de existir beleza e coragem na personalidade misteriosa e rebelde do jovem, ele claramente demonstra dificuldade em permanecer nos diferentes círculos sociais que exigem dele um maior envolvimento emocional, causando grande sofrimento naqueles que o amam. Assim, deixa para trás família, amigos, estilo de vida, e parece não se importar com isso. O paradoxo está justamente na frase de título que McCandless escreve em um livro pouco antes de morrer, sozinho e isolado, no frio congelante do Alasca.

É saudável questionar o sistema, buscar outros estilos de vida, viajar e percorrer lugares diferentes, fazer novas amizades, sozinho ou acompanhado. Mas, as escolhas que nos tornam emocionalmente indisponíveis e colocam nossas vidas em risco não são funcionais, são neuróticas. Nenhuma escolha pode ser saudável quando ela nos custa a vida. Entrar em contato com o que nos é diferente pode ser desconfortável, porém é também transformador. Afinal, as cercas que construímos para nos proteger não mantêm os outros para fora, elas nos aprisionam dentro de nossa mesmice e pequenez. Sim, a felicidade só é mesmo real quando é compartilhada.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato:

Deflexão

Introjeção

Comer, Rezar, Amar e Introjetar

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“E uma vez que já estou ali ajoelhada no chão em posição de súplica, deixem-me manter essa posição enquanto viajo no tempo até três anos atrás, até o instante em que toda esta história começou – um instante que também me encontrou nessa mesma exata posição: de joelhos, no chão, rezando. No entanto, tudo o mais em relação à cena de três anos atrás era diferente. Daquela vez eu não estava em Roma, mas sim no banheiro do andar de cima da grande casa no subúrbio de Nova York que eu acabara de comprar com meu marido. Eram mais ou menos três horas da manhã de um novembro gelado. Meu marido dormia na nossa cama. Eu estava escondida no banheiro pelo que deveria ser a 47a noite consecutiva, e – como em todas aquelas outras noites – estava soluçando. Soluçando com tanta força, na verdade, que uma grande poça de lágrimas e muco se espalhava à minha frente sobre os ladrilhos do banheiro, um verdadeiro lago formado por toda minha vergonha, medo, confusão e dor. Eu não quero mais estar casada. Eu estava tentando tanto não saber isso, mas a verdade continuava a insistir. Eu não quero mais estar casada. Não quero morar nesta casa grande. Não quero ter um filho.” Elizabeth Gilbert em Comer, Rezar, Amar.

Embora não seja próprio do espírito gestáltico falar em tipologia, Fritz Perls e outros gestaltistas descreveram alguns “modos operantes” utilizados para evitação de contato com o outro, com o meio ou com situações de conflitos emocionais. Os gestaltistas chamaram estes modos de se relacionar de “Mecanismos de Evitação do Contato” ou “Mecanismos de Defesa”.

Os mecanismos de evitação de contato são recursos que desenvolvemos desde muito cedo,  primeiramente como forma de ajustamento e sobrevivência ao modo (muitas vezes disfuncional) como nosso sistema familiar está organizado; posteriormente repetimos os mesmos padrões em outros círculos relacionais. Todos nós alternamos entre os diferentes mecanismos, de acordo com dada situação ou conflito, por isso não se deve “engessar” alguém em um determinado mecanismo. Porém, fala-se em prevalências, que moldam nosso funcionamento e personalidade.

A introjeção é uma manobra onde o sujeito incorpora ideias, sentimentos, comportamentos e uma série de outros aspectos do ambiente. Há um processo passivo de “engolir” o que vem de fora e assim a pessoa acaba entrelaçando as próprias escolhas, preferências e opiniões com as dos outros e tendo dificuldade de diferenciar o que é realmente seu.

Segundo Perls, “não há nada em nossas mentes que não venha do meio, e não há nada do meio para o qual não haja uma necessidade orgânica, física ou psicológica. Estas devem ser digeridas e dominadas se quiserem se tornar nossas de verdade, realmente uma parte da nossa personalidade. Mas se simplesmente as aceitamos completamente e sem crítica, baseados na palavra de outra pessoa, ou porque estão na moda, ou são de confiança, ou tradicionais, ou antiquadas ou revolucionárias – tornam-se um peso para nós. São realmente indigeríveis. Ainda são corpos estranhos, embora tenham se instalado em nossas mentes.” (Fritz Perls em “A abordagem gestáltica”, p. 46 e 47)

No livro “Comer, Rezar, Amar”, a personagem principal se vê em meio a uma crise existencial quando dá-se conta que a vida “nos eixos” que escolheu não é exatamente a vida que ela quer viver. Ela termina um relacionamento de anos, abandona uma vida considerada por muitos “perfeita” e embarca em uma jornada em busca de autoconhecimento, do que lhe serve, e o que não lhe serve, de desconstrução de crenças e valores.

A pessoa que introjeta é aquela que segue regras, faz tudo “certinho”, mas nem sempre é feliz. Introjetores são pessoas que se esforçam para manter e seguir regras, muitas vezes são religiosos, conservadores e radicais em seus posicionamentos. Introjetores podem ser extremamente incoerentes, pois não conseguem manter conexão clara entre o que acreditam e o que fazem. Outras vezes, esforçam-se demasiadamente para manter essa coerência, tornando-se pessoas cristalizadas, sem autenticidade e espontaneidade. As crises surgem quando encontram-se em situações conflituosas e de grandes impasses emocionais e dão-se conta que mesmo fazendo tudo “certinho”, os resultados nem sempre são aqueles esperados.

Lembrando que todo mecanismo pode ser funcional, a introjeção é saudável quando utilizada em situações em que as regras precisam ser cumpridas para que a ordem seja mantida. Ninguém pode sair nu na rua, por exemplo, existe um senso comum em que nos baseamos para que tenhamos uma vida relativamente harmoniosa em comunidade. Introjetar torna-se um mecanismo neurótico quando passamos a seguir regras, sem questionar, a nos esforçar para agradar os demais, quando nos tornamos radicais em nossas crenças e valores sem considerar ou ponderar crenças e valores alheios.

Para uma vida emocionalmente saudável é preciso que aprendamos a “mastigar” antes de engolir os muitos introjetos que nos são impostos desde pequenos. A partir da maturidade podemos criar autonomia para fazer nossas próprias escolhas e filtrar aquilo que nos serve. O convite é ampliar o mapa mental através da análise individual de cada conflito e queixa, com contextualização para aquela situação específica, também é importante falar sem utilizar-se de generalizações e entender o que funciona para si, que é diferente do que funciona para os outros. Sim, a saúde consiste no equilíbrio, e temos que lembrar sempre que ele é diferente para cada um de nós.