Por quem os sinos dobram?

Um dia um poeta e religioso escreveu: “Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por vós”. Mas ironicamente o poeta, John Donne, morreu sozinho em uma ilha sem nunca ter publicado um poema, ele teve uma vida muito pobre e difícil.

Séculos mais tarde um outro inglês de mesmo nome e seus três amigos revolucionaram a cena musical, suas músicas falavam de amor e paz, ele foi morto no mês do Natal com tiros por um fã quando chegava em seu apartamento, eles também falaram de solidão, uma de suas canções questionava “olhe para todas essas pessoas solitárias… de onde elas vêm?”.

No mesmo século que viveu Lennon outro homem travou uma luta pacífica e aparentemente solitária contra a violência. Seu nome não era John, era chamado Mahatma que em sânscrito quer dizer “Grande Alma”. Mas Gandhi, igual ao John músico, foi morto à tiros por um hinduísta fanático e também tornou-se mártir.

Poucos na histórias tiveram o mesmo impacto de Gandhi na luta pela não-violencia, um deles (outra grande alma) e talvez a mais famosa, foi batizado por um homem também de nome João e seu nascimento é o motivo pelo qual famílias no mundo todo se reúnem nessa data em celebração ao amor pelo próximo e à paz. Talvez não seja coincidência que Jesus, o filho de Deus na crença Cristã, também tenha sido traído e assassinado. A história que todos nós conhecemos conta que ele foi coroado com uma coroa de espinhos e carregou sua própria Cruz.

Nem um pouco alheio à esses eventos e aos demais conflitos que há séculos assolam a humanidade, um psicólogo americano chamado Marshal Rosemberg desenvolveu um método para melhorar a maneira como nos comunicamos e assim diminuir nossos conflitos. Baseado na mesma não-violência de Gandhi, ele chamou esse método de “comunicação não-violenta”, a linguagem do coração.

Durante anos de estudo ele entendeu que o motivo principal de todos os conflitos da humanidade é o fato de que as pessoas sentem que não têm suas necessidades supridas. Ele foi ainda mais fundo e descobriu que todos os grupos de pessoas no mundo, independente de sua cultura, credo, cor, idade, opção sexual e classe social tinham exatamente as mesmas necessidades, quando digo TODOS incluo também presos, assassinos, terroristas e pacifistas. Todos sem exceção possuem exatamente as mesmas necessidades e o fato é que de alguma forma estamos falhando nessa missão de supri-las. Ele inclusive conseguiu reduzir essas necessidades em uma pequena lista.

E o que todos nós celebrando desejamos no dia de hoje é o mesmo: um feliz Natal. Também independente de cor, credo, opção sexual e classe social os desejos são relacionados à paz, amor e felicidade. Mas mesmo assim, ainda no dia de hoje estamos em conflito.

“O inferno são os outros” disse um outro João, que em sua língua materna era chamado Jean Paul. Seu onônimo o Papa João Paulo disse: “A pior prisão é um coração fechado”, ele tinha um coração amoroso mas (igual Lennon e Gandhi) também sofreu um atentado de morte com arma de fogo por um de seus seguidores.

Então para mim no dia de hoje permanece o mistério: por que somos inferno quando queremos ser céu? Por que nos tornamos ilhas quando deveríamos ser continentes? E enquanto não conseguimos ser céu e nem continente meu desejo é o mesmo do Papa, que tenhamos sempre o coração aberto e mantenhamos viva a esperança (que dizem mesmo ser a última a morrer).

Igual a todos que entrei em conflito e aos meus, também desejo um feliz Natal e dias melhores, não apenas para mim, mas também para que, quem sabe ao final de tudo, um pequeno João – meu sobrinho de 3 anos – e todas as outras crianças possam ver o mundo finalmente mudar, para provar que nenhuma morte de nossos Joãos, Marias e Joses foi em vão, para que possamos no passo a passo construir perspectivas de um futuro melhor onde enfim seremos um continente de paz, liberdade e amor chamado céu. Feliz Natal!

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Você é o que você viaja

Para a ciência há três tipos de memória: a ultra-rápida, que dura mais que alguns segundos, a de curto prazo, que nos proporciona o sentido do presente e a de longo prazo, que estabelece engramas – traços duradouros. Segundo os cientistas, se não houvesse esta forma de armazenamento mental de representações do passado, não teríamos uma solução para tirar proveito da experiência.

É por meio das memórias que vivenciamos, experimentamos e aprendemos. Elas formam a base do enorme quebra-cabeças que é nossa trajetória pessoal. Tudo que vivenciamos ao longo de nossa existência nos faz aprender, crescer, mudar, evoluir. Enfim, é nossa bagagem de vida que define quem somos.

Crescemos escutando frases do tipo: “diga-me com quem andas e te direi quem és” ou “você é o que come ou o que veste”. Eu completaria dizendo: você é aquilo que você lembra, suas memórias, os engramas estabelecidos. E iria mais longe: você é o que você viaja. Os lugares por onde passou, culturas que conheceu, comidas que experimentou, imãs de geladeira, cartões-postais, ruas e ruelas, museus, estradas, aeroportos, fotos, histórias – tudo que trouxe em sua bagagem.

Hoje, revirando caixas e fotos antigas na casa de meus avós, parei longamente nas fotos de viagens de meus avós e meu tio. Antigos passaportes e carimbos de todos os lugares em que estiveram. Não contive as lágrimas e me pus a refletir: nós somos mesmo o que viajamos!

Do meu tio e padrinho, sei muito pouco. Quando faleceu, eu tinha apenas cinco anos. Sei que ele era especial, querido por todos e que se foi muito jovem. Mas o que eu mais conheço dele vem dos lugares por onde andou. Entre tantas praias, gostava de ir para Ilha do Mel e Farol de Santa Marta. Fez uma desbravadora viagem pela Europa e Ásia. Passou meses na Índia e caminhou pelo Nepal. Tinha uma mania curiosa: mandava postais para ele mesmo para, acredito, ter o prazer de viver a viagem de novo quando retornasse.

Minha avó, recentemente falecida, era uma pessoa muito lúcida, lembrava bem os fatos de sua vida e contava com alegria detalhes de cada viagem que fez. Países da Europa que visitou, as diversas vezes que esteve na Argentina, a subida – de burrinho – da ladeira em Santorini. Apaixonada por viagens, ela tinha uma coleção de imãs de geladeira. Todos da família contribuíam com a coleção, trazendo imãs de suas viagens. Virou tradição na família. Família, aliás, formada por amantes desse ato tão enriquecedor que é viajar. Somos bons e velhos viajantes do mundo.

E até hoje, quando visito meu avô, uma de minhas diversões preferidas é resguardar uns minutos para olhar os imãs e imaginar todos aqueles mundos tão distantes e diferentes. A antiga geladeira branca abriga imãs do mundo todo; lugares exóticos, comuns e inusitados. Imãs de todas as cores, tamanhos, formatos e sabores trazem um pouco da história de cada lugar. São tantos que mal cabem na velha geladeira. Volta e meia minha avó os remanejava, colocava novos, guardava antigos, depois voltava a colocá-los numa dança contínua e infinita de mundos distantes. Era sua diversão trocá-los de lugar, descobrir a harmonia perfeita entre eles. A minha, até hoje, admirá-los.

Viagens fazem parte das poucas memórias que conseguimos carregar conosco para sempre. Vencem a barreira do tempo, da lucidez e da idade. Vencem também as barreiras da vida, pois são memórias que nos fazem ser lembrados pelos que ficam e pelos que ainda estão por vir. São os links mais fortes com nosso passado e o que nos mantém vivos mesmo quando partimos para nossa mais longa e misteriosa viagem. As viagens são os nossos mais valiosos trunfos de momentos bem vividos. As melhores fotos que tiramos de nossa vida, aquelas que guardamos eternamente e que constituem nosso mais valioso presente para o mundo: a nossa memória.

*Texto escrito em nov/2010