Raio-x da Vitória

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Maria Vitória acordou assustada, dormiu uma noite sem sono, um sono sem noite e sonhara. Fazia muito tempo já que seus sonhos eram confusos, misturavam-se com a realidade, acordava sem saber se tinha vivido ou se havia sonhado. De tanto sonhar confuso com realidades melhores, passou a trocar tudo e acreditar que a realidade era um sonho e o sonho era realidade. E vivia sem saber se era tempo de sonho ou de vida real.

Maria Vitória procurou especialistas, nomes que lhe eram dados em anotações feitas em pequenos pedaços de papel. Mas os médicos só faziam era lhe pedir exames, ela achou que essa parte devia ser sonho, porque na realidade médico sabia conversar e olhar no olho. Ela fez alguns exames até que um dia dormiu dentro de uma das máquinas, e até hoje não sabe se sonhou ou se era de verdade, mas sentiu-se muito tola, “estou sonhando” repetiu alto para si mesma, porque em sua realidade não existia raio-x nem máquina que diagnosticasse sentimento.

Ela, em sonho ou realidade, fazia esforço para entender. Tinha alguns palpites que sempre começavam pelo entendimento de que trocava tudo porque lhe contaram um dia que o sonho era melhor que a realidade. Fora os dias em que o que ela sonhava acontecia e por isso também ela já não sabia se era sonho ou realidade no sonho que virava realidade na realidade. E tinha dias que ela preferia que fosse sonho mesmo, ou até pesadelos, porque isso deixava brechas e fendas para que a realidade fosse melhor.

Um médico de renome que falava da ciência e da tecnologia, disse que não havia cura para seu estado e prescreveu–lhe um bom remédio para dormir, mas os dias tornaram-se ainda mais confusos e isso a deixava muito sensibilizada, então ele prescreveu mais um remédio “não é bom sentir demais”, recomendou o doutor “isso é doença grave!” completou com ceticismo.  Mas quando ela queixou-se que já não sentia nada, nem mesmo a confusão, ele viu muita apatia nela, “não é bom ficar tão apática assim” e aumentou na receita mais uma caixa “para dar alegria”, falando como se fora um mágico fabricando sentimentos. “É sonho!” ela repetiu. Um dia ela decidiu que ia viver sonhando e lá nunca mais voltou.

Certo dia Maria Vitória sonhou que sonhava, depois sonhou que despertava e então, como o sonho antecedia a realidade, despertou. Achou aquilo incrível. Era plenitude. Entendeu que lhe contaram certas mentiras, pois a realidade era melhor que o sonho. Sentia-se vitoriosa, pois vencera sonhos e pesadelos, vencera a realidade sonhada e o sonho real e finalmente lhe fazia sentido que tivesse Vitória no nome. O problema, pensou ela, é que ao despertar deu-se conta da quantidade de pessoas que ainda sonha e dorme. “É realidade” finalmente entendeu ela. 

Você é linda. Obrigada. Eu te amo.

Alguns anos atrás, para ser mais precisa oito, minha mãe começou a agir de maneira estranha e confusa.  Minha irmã, que convivia mais com ela, foi a primeira a notar. Com o tempo também comecei a reparar que minha mãe andava muito confusa. Esse foi o começo de uma longa dura jornada ao desconhecido mundo da neurociência. Eu digo desconhecido porque o que aprendi nesse tempo é que, apesar de tantos estudos envolvendo o funcionamento do cérebro humano, ele ainda é território misterioso. Claro, tivemos muitos avanços, mas muita coisa permanece ainda inexplicável e isso torna qualquer doença nessa área mais complicada.

A primeira dificuldade já veio de cara em encontrar um diagnóstico convincente. Levamos minha mãe em muitos psicólogos, psiquiatras e neurologistas, todos admitiam que o comportamento dela era anormal, mas nenhum soube diagnosticar o que acontecia. Afinal ela tinha 55 anos e uma saúde física impecável sem nenhum histórico aparente de doenças neurológicas na família. Como ela continuava confusa, continuamos fazendo exames. Até que nos indicaram um médico conceituado que só atendia via particular, após alguns exames de cintilografia o médico renomado sem nos decepcionar, deu o diagnóstico: demência no lobo fronto temporal, mais conhecida como demência frontotemporal e usou a palavra degenerativa.

Eu lembro que sai do médico bem atordoada, parecia que tinha levado uma pancada na cabeça. Não lembro exatamente se minha mãe, que estava comigo, se deu conta. A verdade é que eu não tinha entendido a magnitude do que exatamente isso implicaria na sua vida e na minha e pelo visto, os médicos também não. Quando você recebe uma notícia dessas passa mil coisas pela cabeça, na verdade vai um bom tempo para digeri-la, para falar a verdade, quase dez anos se passaram e acho que até hoje ainda não digeri tudo.

Uma rápida pesquisa na internet e descobri que a demência frontotemporal tem causas desconhecidas e sintomas muito parecidos com Alzheimer, é também uma doença degenerativa que afeta a memória, entre outras coisas, por isso o tratamento é o mesmo. Eu nunca convivi com pacientes de Alzheimer, mas pelo pouco que sei, apesar de ser parecida é diferente e acho que deveria ser melhor estudada e entendida. De lá para cá trocamos de médicos muitas vezes, o coquetel de remédios não parece fazer muito efeito, mas segundo o médico se ela não tomar a doença terá progressão mais rápida ainda e eu não quero fazer esse teste. Então sigo à risca o que os médicos falam.

Existe muita, mas muita desinformação nessa área e informação “torta”, existe também, no meu leigo entendimento, um certo comodismo da medicina e dos médicos, eles dizem é esse o tratamento e pronto. “Não há o que fazer”, dizem eles em unanimidade. E há dez anos seguimos o mesmo tratamento. E ninguém tenta nada diferente e ninguém dá soluções práticas para te ajudar no dia-a-dia. Então tive que me virar sozinha.  Porque isso eu aprendi, dar nome para doença não quer dizer que você vai receber também uma cartilha de como lidar com ela. O que sei, aprendi no dia-a-dia, na base de (muito) erro e acerto. O problema é que fazer isso com a tua própria vida até dá para encarar, fazer isso com a vida da sua mãe é um pouco mais difícil.

Então se não havia o que fazer me concentrei em fazer com que ela tivesse qualidade de vida. E graças ao trabalho duro do meu avô, na medida do possível, nós podemos proporcionar isso à ela. Nesse momento eu penso  e sinto pelas famílias e pacientes economicamente menos favorecidos, sim porque doença é igual para o pobre e para o rico. O governo dá um dos remédios que é caro para Alzheimer. Todos os outros, também caros, nós compramos. Equipe de cuidadores, tudo isso tem um custo alto.

Eu escrevo esse relato porque tudo que aprendi, aprendi sozinha sem muita orientação. O que os médicos não souberam explicar nem orientar eu fui fazendo por instinto. Porque todos nós temos esse instinto de cuidar do outro. E sei que nem sempre acertei. Então quem sabe minha história (e meus erros) ajude quem também está passando por isso, segue alguns sinceros conselhos:

1 – Não subestime a doença:

Qualquer doença que acomete a mente é difícil de entender, mas deve ser levada a sério. A gente se engana com uma aparência saudável. Então tome as devidas providências para evitar acidentes. Um dos meus erros foi ter sido reativa, tomar atitudes só quando a “água batia na bunda” e tentar sempre escutar e respeitar a vontade da minha mãe. Ela morava sozinha, eu sabia que não era bom, mas ela não queria ninguém e eu não soube insistir. O problema é que ela já não tinha total consciência do que era bom ou não. Um dia me ligaram do hospital dizendo que minha mãe havia sido atropelada. Do caminho de casa até o hospital eu sofri muito, eu senti culpa, muita culpa. Esse erro poderia ter lhe custado a vida, felizmente foi apenas um braço quebrado e mais alguns arranhões. A partir desse dia ela nunca mais ficou sozinha. Então não espere para sentir culpa por algo que você poderia ter antecipado e feito, quando achar que tem que fazer, não procrastine, não titubeie, apenas  faça.

 2. Você vai sentir raiva, tudo bem, sinta raiva.

Você sentirá raiva e se você é capaz de sentir empatia, você também sentirá culpa, muita culpa. Aprenda a conviver pacificamente com elas (acho que quem é mãe entende melhor isso). Viva isso porque faz parte. Se conseguir, seja mais gentil consigo mesmo, perdoe-se. Tente ser paciente, a falta de paciência gera mais culpa. Eu me arrependo de não ter tido mais paciência com minha mãe quando ela esquecia as coisas, quando ela demorava para contar algo e trocava tudo, enfim, em vários momentos. Mas eu sentia raiva, raiva de Deus, raiva dela, raiva de mim porque não conseguia ser melhor e mais paciente com ela. E daí com a raiva vinha a culpa. Enquanto eu lutava contra a raiva e a culpa, elas ganhavam mais força e era uma bola de neve, porque quanto mais raiva eu sentia, menos paciência eu tinha. Então permita-se sentir raiva, sentir culpa e entenda de onde elas vêm. Quando nos permitimos sentir qualquer sentimento mesmo que “ruins”, os sentimentos perdem força. Tome cuidado para não descontar em ninguém e para que esses sentimentos não tomem conta de você. Se fizer, ou melhor, quando fizer, perdoe-se e peça perdão. Respire. Espere. Com o tempo a raiva não passa, mas ela diminui até o ponto de ficar bem mais fácil de conviver com ela e controlá-la.

 3 – Viva a sua vida.

Essa parte é difícil, porque as pessoas julgam e muito. Porque você se julga, muito. Um paciente com demência não conhece mais limites. E a impressão que tenho é que quanto mais você dá, mais você precisa dar e esse espiral não tem fim. As pessoas olham de fora e pensam que talvez algumas atitudes tuas são egoístas ou injustas. Seja egoísta. Coloque sua vida em primeiro lugar. A pergunta que eu me faço é longa, porém simples: quem está vivendo a minha vida por mim enquanto eu preencho a minha vida com a vida da minha mãe? Então na medida do possível e com amor, coloque limites. E esses limites machucam, mas são necessários. Saiba assumir suas fraquezas e conhecer seus limites, ninguém é super-herói. Aprenda a perder batalhas pelo outro em seu prol. Também aprenda a delegar. Eu levei tempo para fazer isso, com isso sofri mais do que devia, passei mais tempo com raiva do que devia. Quando aprendi, resolvi encerrar essa jornada com minha mãe, por agora. Então minha irmã vai cuidar dela. Quando consegui assumir que cheguei no meu limite sem me sentir derrotada, pude finalizar essa etapa com o coração tranquilo. E quando você não conseguir fazer algo que a “sociedade” acha certo fazer, não se sinta tão culpado, sempre vai ter alguém para apontar seus atos falhos, mas a verdade é que ninguém sabe exatamente o que se passa no seu coração.

 4 – Para todos e para a vida: não julgue uma batalha que você não está lutando.

Muita gente acha cruel que eu tenha pensado em um lar para minha mãe. Ou que eu não vá visitá-la todos os dias. Moro perto, ligo sempre, vou quando posso. Hoje sei que o maior presente que posso dar para ela é viver minha vida e ser feliz, só assim também valerá a pena o sofrimento dela. Tenho uma consciência tranquila de que fiz o melhor que pude com os recursos que tinha. Algumas vezes não era muita coisa, mas foi o que consegui fazer. Hoje não julgo ninguém que tenha que deixar um parente em um lar. Porque não é uma decisão fácil. Mas independente de idade e em qual momento da vida alguém está, ninguém deve ser privado de viver sua própria vida. E cuidar de alguém com demência toma tempo e dedicação, além de muita paciência. E requer amor, muito amor, um amor incondicional diariamente, coisa que nem sempre estamos bem e somos capazes de dar.

5 – As pessoas se vão. Poucos são os que ficam. Não julgue.

Muita gente não sabe lidar com a dor do outro e a tendência é que se afastem. O que me faz não contar sobre a minha mãe para muita gente é o olhar de pena dos outros. Ninguém sabe validar a dor do outro nem como agir diante de momentos difíceis, o que sabemos é sentir pena e a pena não constrói ninguém, nem quem sente, nem por quem é sentida. Eu falo isso porque comprei esse “papo” e também tive pena de mim, até que entendi que me fazer de vítima não ia curar minha mãe e nem me fazer feliz, porque felicidade é um propósito de vida, é uma escolha que fazemos todos os dias, independente do que está acontecendo em nossas vidas. Então aceite o que a vida lhe traz e na medida do possível viva bem com isso. Não dá para entender o sentido de tudo racionalmente. É triste? Sim. Como muitas outras histórias também são. O que é, é. E o melhor que podemos fazer quando nos deparamos com a dor de outro é dizer: “não posso fazer muito para diminuir sua dor, mas obrigada por compartilhar isso comigo, estou aqui”. O amor deve ser espontâneo e mora nos pequenos gestos, como em um abraço ou no silêncio. O que aprendi com minha mãe é que a maior prova de amor que damos é conseguir amar alguém que não pode lhe dar nada (ou quase nada) em troca. E apesar de parecer que não existe troca hoje, um dia ela existiu. Entre muitas outras coisas, a minha mãe me deu a vida.

6 – Cuide de você e viva sua vida com amor.

O Budismo fala muito sobre a impermanência da vida. Aprenda a enxergar a beleza nisso e a aceitar o que lhe é ofertado. É clichê, mas a gente esquece. Não sabemos o dia de amanhã, nem quando um médico vai te dar um diagnóstico que mudará sua vida, nem a vida de quem você ama. Esteja presente e aceite o presente que é a vida. Cuide bem de sua saúde e de sua cabeça. Eu levei tempo para aprender isso.

 7 – Guarde e conte as boas histórias.

“Malba Tahan conta que dois amigos, Salim e Fahid, viajavam numa caravana para a Pérsia.  Ao cruzarem um rio, Salim foi pego na correnteza, e teria morrido se o amigo não o ajudasse. Agradecido, pediu que seus empregados gravassem numa rocha que ficava na margem do rio: “Aqui, Fahid salvou a vida de seu amigo”. Quando voltavam da Pérsia, depois de atravessarem o mesmo rio, uma discussão tola fez com que os dois brigassem.  Fahid puxou uma espada, e quase mata o amigo a quem havia salvo meses antes.  Depois que os ânimos serenaram, Salim chamou de novo seus empregados e pediu que escrevessem na areia: “Aqui, Fahid tentou matar seu amigo”. “Quando o salvei, você gravou meu gesto numa rocha.  Agora, que quase o matei, você escreve na areia.  Não vê que o vento logo apagará?”, perguntou Fahid. “Esta é a sabedoria”, respondeu Salim,  “Escrever as boas coisas na rocha, e as coisas negativas na areia”.

Como na história, tente guardar os bons feitos e qualidades. Esforce-se para esquecer as historias ruins. Minha mãe nem sempre foi boa para mim, reclamei disso por muito tempo. Hoje nem sempre consigo ser uma boa filha para ela. Porque ser bom o tempo todo é difícil mesmo. Então nós precisamos aprender a guardar as coisas boas e a notícia boa é que com o tempo isso vai acontecendo naturalmente, hoje lembro com muita clareza das qualidades da minha mãe, de como ela era bela e valente, vaidosa, honesta e de como gostava de fazer caridade.

 8 – Cada paciente é diferente.

Com o tempo aprendi a entender os médicos, realmente não existe uma receita pronta que vai te ajudar a lidar com a doença. É puro instinto e bom senso. Porque mesmo que a doença seja uma ela se manifesta de algumas maneiras diferentes de acordo com o paciente. Minha mãe apresenta sintomas que os médicos não sabem explicar. Por exemplo, mesmo em estágio mais avançado da doença, ela se alimenta bem, faz tudo sozinha (claro, com orientação) e é extremamente carinhosa, não tem nenhum traço de agressividade.

 9 – Conte com a ajuda de profissionais.

Se você tiver condições financeiras contrate profissionais para te ajudar. Os familiares têm uma relação diferente com o paciente e carregam uma carga emocional muito grande. Cuidadores profissionais podem ter paciência e calma que nem sempre nós familiares temos. E o paciente precisa de pessoas pacientes e calmas. Eu tive muita sorte com todas as cuidadoras e só tenho boas histórias. Elas amam minha mãe e cuidam com muito cuidado dela.

 10- Aprenda o valor das palavras “mágicas” e use-as.

Palavras que aprendemos desde criança e que fazem diferença em nosso dia-a-dia. Não as esqueça, pois minha mãe não as esqueceu. Hoje ela não fala mais nada com coerência, ou melhor, quase nada. Existem três expressões que ela usa com muita coerência: todos os dias que ela me vê ela me olha e repete “Você é linda. Obrigada. Eu te amo”.

Mãe: você é linda. Obrigada. Eu te amo.

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Da clareza e dos acúmulos

clareza

Não deixe portas entreabertas.

Escancare-as ou bata-as de vez.

Pelos vãos, brechas e fendas passam apenas semiventos, meias verdades

e muita insensatez.”

Maria Clara era muito curiosa e queria entender de tudo, quando pequena afogava os pais com perguntas e não se contentava com “por quê´s” ela queria saber “como?”. Ultimamente andava curiosa com as filosofias orientais, ela acha que as filosofias ocidentais não conseguiam saciar a fome que tinha de saber espiritual. Elas não ensinavam bem a lidar com a morte, por exemplo. Também não treinavam nossos olhares para os erros, afinal era muito estranho para Maria Clara que existisse algo denominado “pecado”. Quem julgava tudo isso?

Pois nessa nova busca voltou a ler sobre Feng Shui, vendo todo esse movimento uma amiga lhe presenteou com um pequeno livro de Feng Shui, que Maria não conseguiu terminar de ler. O problema com os livros, pensava ela, é que ela não conseguia ler com a mesma velocidade que as perguntas iam e vinham em sua mente.

Na parte que leu do livro, havia um relato de como a prática do Feng Shui abriu caminhos na vida das pessoas, uma disse que logo que começou ganhou um prêmio. Ela achou aquilo interessante, imagina, ela mesma nunca havia ganhado nada, nem completado uma cartela de bingo sequer. Coincidência ou não, no dia seguinte em que começou a organizar sua casa ganhou um prêmio em um sorteio. “Maravilha, mais umas tranqueirinhas aqui e acerto a quina!”, pensou ela.

No começou ela achou que seria fácil, mas a verdade é que os acúmulos estão por todas as partes. Ficou em dúvida do que o Feng Shui diria sobre os acúmulos virtuais. Na duvida resolveu limpar também. São tantas portas entreabertas que ela não sabia nem por onde começar. Ela não se culpa, vivemos hoje em uma era de acúmulos. Acumulamos coisas, acumulamos papéis, acumulamos também muita mágoa, ressentimento, responsabilidades, dores e pesos.

Ela começou por sua coleção de caixinhas de fósforos. Enquanto jogava fora suas caixinhas, contou-se mentalmente “A menina dos fósforos”. E com o passar dos meses foram cinco caixas de roupas e acessórios, cinco sacolas cheias de papel rasgado, muitos livros incluindo sua coleção inteira de pensadores. Ela não gostava mais de gente que pensava tanto, talvez fosse aquele lance do espelho, que não gostamos no outro aquilo que reflete a nós.

Então deu adeus aos “pensadores”, dentre eles Platão, Sócrates, Nietzsche, Sartre…e ela gostava de Sartre. Lembrou que eles nunca conseguiram responder suas perguntas, apenas adicionavam mais questões sem respostas. E ela queria respostas. Ela queria também saber de histórias de gente que tem mais o que fazer da vida, porque gente que tem o que fazer da vida não tem tempo de ficar filosofando sobre ela, simplesmente a vive. Ela queria viver. Encontrou uma antiga carta de amor, ficou em dúvida se abria, o passado para ela era como um Universo Paralelo, precisava de cuidado para adentrá-lo e nem sempre ela se sentia forte para isso. Pensou melhor, resolveu guardar a carta sem ler.

Sua coleção de CD´s também foi embora, talvez guardasse um clássico ou outro, ou aquele CD autografado por uma cantora que ela gostava tanto, ela enfretara a fila cedo no frio e ainda fez um comentário tão bobo que fez a cantora rir muito e que gerou risadas de suas amigas por ainda um bom tempo. Pensou melhor, ela nem escutava mais essa cantora, talvez doasse aquele CD também.

O que ela buscava para ela esse ano era aquilo que tinha no nome: clareza. Leveza de ser e de viver. Fez uma limpa física e virtual em sua vida, resolveu fechar portas, orgulhou-se de sua organização, acha difícil mensurar o impacto que tem isso na vida real, mas na dúvida, resolveu que vai apostar na quina.

Aquebrantando padrões: desavenças

“Mariana é viciada em repetições. Precisa viver e reviver sempre as mesmas frustrações porque, assim, sente-se segura. Dessa maneira, ela acha, outras frustrações não viverá. As mesmas, ela já tira de letra, acostumada.”
Aritmética – Fernanda Young

Sabemos que crianças aprendem através de exemplos, esses dias vi uma propaganda bem forte do Governo Australiano que mostra crianças imitando os adultos, xingando, fumando, bebendo, brigando. Isso ficou mais claro para mim quando vi uma criança de 3 anos xingando, fiquei surpresa, mas fez sentido quando lembrei da propaganda, muita gente usa xingamentos como se fosse algo banal, então é compreensível ver crianças tão pequenas falando algo tão ofensivo quando estão com raiva, porque raiva todo mundo tem, para elas deve ser qualquer coisa que se fala quando se está com raiva.

Automaticamente nós repetimos outros que repetiram outros que repetiram outros – e aqui não colocarei culpa apenas nos pais, todos nós na sociedade temos responsabidade. Não sei exatamente quando isso começou, mas me baseando pela Bíblia, acho que já faz um “tempinho”. Enfim, o ponto é: se a gente não fizer algo com consciência, tendemos a repetir padrões. E o problema é que na raiva, não há consciência.

[Aparte:
Quando levantamos o tom de voz ou falamos de maneira agressiva com alguém é porque estamos com raiva, sim sei, isso é bem óbvio. Mas uma teoria da neurologia diz que a raiva é também acessada na parte basal do cérebro – o reptiliano (ver teoria do cérebro trino) – então quando estamos com raiva ou nos sentimos ameaçados somos incapazes de pensar e agir de maneira racional. Sendo assim, em uma discussão quente não existe racionalidade, o que existe são palavras que machucam e raiva, muita raiva. E isso nos impossibilita de dialogar ou de se conciliar (pelo menos naquele momento). Fora os níveis de estress que isso causa: quando estamos estressados o cérebro manda sinal para o corpo de que estamos em perigo, quando estamos em estado de alerta as glândulas supra-renais produzem um hormônio chamado cortisol, o cortisol faz o corpo diminuir a queima calórica para poupar energia, não quero me estender em detalhes técnicos, mas na prática é bem simples, cortisol deixa o metabolismo lento, ou melhor, engorda. Viver com raiva deve causar muito mais danos à nossa saúde, mas vocês entenderam o ponto, então vou me ater apenas à essa palavra mesmo que já serve para assustar muito gente: engorda. Ou seja, além de não conseguir resolver algo, porque com raiva ninguém consegue pensar, tem esse pequeno bônus que é engordar.
Fim do aparte]

Eu cresci em um lar aparentemente normal, tinha pai e mãe, mas eles brigavam, até que se separaram e (para não perder o costume de pais que se separam) brigaram mais um pouco. Tinha irmão e irmã, mas a gente brigava. E contaram para nós que era normal o casal brigar, que era normal irmão brigar. Como em muitas outras casas isso também acontecia, parecia que era normal mesmo. Fazia sentido que desavenças sejam normais entre pessoas que dividem o mesmo teto, mas não tinha tanta certeza em qual nível e frequência deveria ser considerado “normal”, afinal qual é o limite de “normal”? Ou melhor, normal não sei se existe, mas então do saudável? Lembro que sentia raiva, muita raiva e já naquela época não fazia sentido que isso deveria ser tão normal/saudável assim.

Vi que talvez não fosse, quando uma amiga foi me visitar. Acho que não nos damos conta que estamos acostumados com algo que não nos faz bem até vermos a cara de espanto de outra pessoa, foi assim naquele dia, minha irmã e eu começamos a discutir e quando vi a menina estava assustada dizendo que queria ir embora. Eu entendi a razão de sua surpresa depois que conheci a família dela: acolhedora, harmoniosa e sorridente. Pessoas para lá de especiais que gosto muito. E hoje, tantos anos depois, finalmente entendi sua reação: tudo é questão de costume, mas a gente também se acostuma com as coisas que não fazem bem e passa a achar “normal”, realmente, para quem não está acostumado e para qualquer ser, brigar não é legal. Pelo menos eu não gosto. Então é uma pena mesmo que nos acostumamos.

E tão ruim quanto brigar é ver os outros brigando. E o problema é que quando estamos com raiva é difícil ponderar, respirar, entender que devemos poupar os espectadores, olha, tem que treinar muito para conseguir isso. É o que eu pretendo. Porque ninguém briga sozinho, existe na briga um processo de retro-alimentação. E tem um agravante no padrão de repetição, se você se acostuma com o caos, é só nele que você vai aprender a viver. Como brigava com meus irmãos, acho que desenvolvi habilidades para viver no caos que não tinha em tempos de harmonia, fases de harmonia me entediavam, então inconscientemente passei a reproduzir situações caóticas e dramáticas na minha vida para me sentir à vontade.

Até que um dia o drama de verdade, aqueles de filmes que a gente se mata de chorar, do tipo que vem em turbilhão e muda tua vida de cabeça para baixo, alheio à sua vontade e escolhas, então esse tipo, bateu na porta. Quando isso acontece a única alternativa para você continuar a viver bem é justamente não dramatizar. Então que eu finalmente aprendi a mudar o canal. Mas também não estou sozinha nisso, tem muita gente acostumada com o caos e o drama, tem muita gente reconstruindo esse ambiente à sua volta. Parece que as pessoas estão em geral mais adaptadas ao caos do que à paz. Vivemos em estado de alerta e por muito pouco ou quase nada brigamos. Talvez isso também está contribuindo para deixar a população mundial mais pesada – em todos os sentidos.

Como eu acredito que toda mudança é possível, mas para isso temos que querer, não com pouco trabalho estou aprendendo a aquebrantar esses padrõe, para isso resolvi seguir alguns passos:

1) aprenda a se relacionar em paz com você mesmo, seja gentil com deus defeitos e fragilidades e pare de se punir tanto; lembre-se que você também precisa ser uma boa companhia para você mesmo e para os outros;
2) aprenda a se proteger, livre-se de ambientes e relacionamentos com pessoas que vivem nesse padrão, nesse ano que passou me afastei de muitas pessoas, mesmo de pessoas que eu amava, para o bem de ambas as partes, porque juntos criamos certo padrão;
3) tenha filtro, escolha conscientemente relacionamentos e círculos de amizade mais harmoniosos;
4) aprender a respirar e ter calma na hora de uma discussão, a escolher melhor as palavras quando as palavras do outro começam a doer. (é nessa parte que não cheguei, ou melhor cheguei, mas ainda não consegui dominá-la).

E a solução está no costume: temos que nos acostumar também com o fato de que podemos sintonizar outro canal e viver em harmonia e, igual minha amiga lá em cima, realmente quanto menos caos você tem em sua vida, mais sensível à ele você fica. Hoje o caos tem me incomodado muito mais. Um palavrão ou xingamento para mim tem sentido e muita força, não é apenas uma palavra torta no meio da raiva. Talvez mais alguns anos de treino me ajudem a chegar no número 5 como diz a Bíblia: “Não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te dá na face direita, volta-lhe também a outra;”.

Então mãos à obra, tem muito trabalho pela frente! Em tempo: para 2015 anotado, leveza de ser, ou seja, mais amor e menos “guerra”.

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