Da clareza e dos acúmulos

clareza

Não deixe portas entreabertas.

Escancare-as ou bata-as de vez.

Pelos vãos, brechas e fendas passam apenas semiventos, meias verdades

e muita insensatez.”

Maria Clara era muito curiosa e queria entender de tudo, quando pequena afogava os pais com perguntas e não se contentava com “por quê´s” ela queria saber “como?”. Ultimamente andava curiosa com as filosofias orientais, ela acha que as filosofias ocidentais não conseguiam saciar a fome que tinha de saber espiritual. Elas não ensinavam bem a lidar com a morte, por exemplo. Também não treinavam nossos olhares para os erros, afinal era muito estranho para Maria Clara que existisse algo denominado “pecado”. Quem julgava tudo isso?

Pois nessa nova busca voltou a ler sobre Feng Shui, vendo todo esse movimento uma amiga lhe presenteou com um pequeno livro de Feng Shui, que Maria não conseguiu terminar de ler. O problema com os livros, pensava ela, é que ela não conseguia ler com a mesma velocidade que as perguntas iam e vinham em sua mente.

Na parte que leu do livro, havia um relato de como a prática do Feng Shui abriu caminhos na vida das pessoas, uma disse que logo que começou ganhou um prêmio. Ela achou aquilo interessante, imagina, ela mesma nunca havia ganhado nada, nem completado uma cartela de bingo sequer. Coincidência ou não, no dia seguinte em que começou a organizar sua casa ganhou um prêmio em um sorteio. “Maravilha, mais umas tranqueirinhas aqui e acerto a quina!”, pensou ela.

No começou ela achou que seria fácil, mas a verdade é que os acúmulos estão por todas as partes. Ficou em dúvida do que o Feng Shui diria sobre os acúmulos virtuais. Na duvida resolveu limpar também. São tantas portas entreabertas que ela não sabia nem por onde começar. Ela não se culpa, vivemos hoje em uma era de acúmulos. Acumulamos coisas, acumulamos papéis, acumulamos também muita mágoa, ressentimento, responsabilidades, dores e pesos.

Ela começou por sua coleção de caixinhas de fósforos. Enquanto jogava fora suas caixinhas, contou-se mentalmente “A menina dos fósforos”. E com o passar dos meses foram cinco caixas de roupas e acessórios, cinco sacolas cheias de papel rasgado, muitos livros incluindo sua coleção inteira de pensadores. Ela não gostava mais de gente que pensava tanto, talvez fosse aquele lance do espelho, que não gostamos no outro aquilo que reflete a nós.

Então deu adeus aos “pensadores”, dentre eles Platão, Sócrates, Nietzsche, Sartre…e ela gostava de Sartre. Lembrou que eles nunca conseguiram responder suas perguntas, apenas adicionavam mais questões sem respostas. E ela queria respostas. Ela queria também saber de histórias de gente que tem mais o que fazer da vida, porque gente que tem o que fazer da vida não tem tempo de ficar filosofando sobre ela, simplesmente a vive. Ela queria viver. Encontrou uma antiga carta de amor, ficou em dúvida se abria, o passado para ela era como um Universo Paralelo, precisava de cuidado para adentrá-lo e nem sempre ela se sentia forte para isso. Pensou melhor, resolveu guardar a carta sem ler.

Sua coleção de CD´s também foi embora, talvez guardasse um clássico ou outro, ou aquele CD autografado por uma cantora que ela gostava tanto, ela enfretara a fila cedo no frio e ainda fez um comentário tão bobo que fez a cantora rir muito e que gerou risadas de suas amigas por ainda um bom tempo. Pensou melhor, ela nem escutava mais essa cantora, talvez doasse aquele CD também.

O que ela buscava para ela esse ano era aquilo que tinha no nome: clareza. Leveza de ser e de viver. Fez uma limpa física e virtual em sua vida, resolveu fechar portas, orgulhou-se de sua organização, acha difícil mensurar o impacto que tem isso na vida real, mas na dúvida, resolveu que vai apostar na quina.

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