Raio-x da Vitória

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Maria Vitória acordou assustada, dormiu uma noite sem sono, um sono sem noite e sonhara. Fazia muito tempo já que seus sonhos eram confusos, misturavam-se com a realidade, acordava sem saber se tinha vivido ou se havia sonhado. De tanto sonhar confuso com realidades melhores, passou a trocar tudo e acreditar que a realidade era um sonho e o sonho era realidade. E vivia sem saber se era tempo de sonho ou de vida real.

Maria Vitória procurou especialistas, nomes que lhe eram dados em anotações feitas em pequenos pedaços de papel. Mas os médicos só faziam era lhe pedir exames, ela achou que essa parte devia ser sonho, porque na realidade médico sabia conversar e olhar no olho. Ela fez alguns exames até que um dia dormiu dentro de uma das máquinas, e até hoje não sabe se sonhou ou se era de verdade, mas sentiu-se muito tola, “estou sonhando” repetiu alto para si mesma, porque em sua realidade não existia raio-x nem máquina que diagnosticasse sentimento.

Ela, em sonho ou realidade, fazia esforço para entender. Tinha alguns palpites que sempre começavam pelo entendimento de que trocava tudo porque lhe contaram um dia que o sonho era melhor que a realidade. Fora os dias em que o que ela sonhava acontecia e por isso também ela já não sabia se era sonho ou realidade no sonho que virava realidade na realidade. E tinha dias que ela preferia que fosse sonho mesmo, ou até pesadelos, porque isso deixava brechas e fendas para que a realidade fosse melhor.

Um médico de renome que falava da ciência e da tecnologia, disse que não havia cura para seu estado e prescreveu–lhe um bom remédio para dormir, mas os dias tornaram-se ainda mais confusos e isso a deixava muito sensibilizada, então ele prescreveu mais um remédio “não é bom sentir demais”, recomendou o doutor “isso é doença grave!” completou com ceticismo.  Mas quando ela queixou-se que já não sentia nada, nem mesmo a confusão, ele viu muita apatia nela, “não é bom ficar tão apática assim” e aumentou na receita mais uma caixa “para dar alegria”, falando como se fora um mágico fabricando sentimentos. “É sonho!” ela repetiu. Um dia ela decidiu que ia viver sonhando e lá nunca mais voltou.

Certo dia Maria Vitória sonhou que sonhava, depois sonhou que despertava e então, como o sonho antecedia a realidade, despertou. Achou aquilo incrível. Era plenitude. Entendeu que lhe contaram certas mentiras, pois a realidade era melhor que o sonho. Sentia-se vitoriosa, pois vencera sonhos e pesadelos, vencera a realidade sonhada e o sonho real e finalmente lhe fazia sentido que tivesse Vitória no nome. O problema, pensou ela, é que ao despertar deu-se conta da quantidade de pessoas que ainda sonha e dorme. “É realidade” finalmente entendeu ela. 

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