Quanto é suficiente?

YUD NUN DALEDExiste uma fábula antiga* que me marcou muito que conta a história de dois amantes que não tinham nenhuma riqueza aparente e acabam descobrindo de maneira inusitada que seu amor era suficiente para eles. Essa fábula trouxe pela primeira vez uma reflexão sobre algo que nunca me ensinaram: o que exatamente seria “suficiente”?

Acho que ninguém define o que é suficiente, porque suficiente é demasiadamente relativo. O que basta para mim não é a mesma quantidade do que basta para você, sendo assim, apesar da definição existir no dicionário ela me parece um tanto quanto utópica no contexto de sociedade. Mas apesar de utópica no contexto plural, ela se faz fundamental para evolução espiritual de qualquer indivíduo. Buda chegou a fazer essa reflexão, na verdade ela é um dos pilares mais importantes do budismo onde (no meu entendimento) “suficiente” pode ser chamado de “o caminho do meio”. Sabiamente e não por acaso que não encontramos nas escrituras budistas uma definição do que seria esse caminho na prática, portanto o convite é que cada pessoa trabalhe para encontrar o seu próprio caminho do meio.

É difícil falar de suficiente para uma geração que conhece muito bem a abundância, sabemos que abundância é algo crucial para que a roda do capitalismo gire, em um mundo onde necessidades são criadas, onde quantidade é melhor que qualidade, não é interessante para o sistema que aprendamos sobre “suficiente”, então o que nos ensinam desde muito cedo é sobre a importância de acumular. Portanto acumulamos. Acumulamos amigos e amores. Acumulamos diplomas. Acumulamos dores. Acumulamos bens.

Nessa busca incessante e seguindo “à risca” o que nos é ensinado, queremos sempre mais: comemos mais do que precisamos, temos mais roupas do que necessitamos, compramos mais coisas do que precisamos, moramos em lugares maiores, gastamos mais do que precisamos e consequentemente precisamos de mais dinheiro para dar impulso à esse ciclo sem fim. Nada parece nos bastar.

E se para a matéria é um pouco mais fácil entender o conceito de suficiente (talvez uma muda de roupa seja suficiente para vencer o dia, um carro seja suficiente para me transportar, etc), o mesmo não vale para as emoções. O que acontece é que na era da abundância a sociedade te exige mais, sua família te exige mais, você se exige mais. Muito mais. Seja mais feliz, mais magro, mais rico, obtenha mais sucesso, seja mais bondoso, mais paciente, tenha mais amigos, seja sempre mais. Nada, absolutamente nada, nos convida ou incentiva a bastar. Se contentar é quase sinônimo de fracassar.

E ao abordar suficiente é ainda fundamental que tomemos um momento para olhar para o “copo menos cheio”, porque suficiente significa equilíbrio e no equilíbrio igualmente não há espaço para a escassez. Na lista de 72 nomes de Deus da Kabbalah encontramos no número 50 “IUD NUN DALED” (ou YOD NUN DALET), que com sabedoria aborda o conceito de suficiente e nos convida a meditar sobre o que nos é dado de menos: “Desperto a persistência e a paixão para nunca – nunca mesmo – contentar-me com menos!”.

É paradoxal que apesar de vivermos em uma aparente era de abundância, vivenciamos cada vez mais um período de muita falta. E assim nos acostumamos a viver com menos. Menos amor. Menos cumplicidade. Menos tolerância. Menos olho no olho. Menos honestidade. E como menos realmente não deve bastar à ninguém, mais uma vez nos ensinam a buscar mais. Então desde que contei a tal fábula pela primeira vez, e talvez muito antes disso, venho refletindo sobre meus limites:

Quanto me é suficiente?

Quanto amor é suficiente? Quanto do que dou é suficiente? Quanto do que recebo é? Quanta luta basta? Quanta alegria é suficiente? Quanta dor me basta? Qual a linha entre a persistência e o desapego? Quanto de ambição me basta? Qual é o tanto que me preenche? Qual é a gota d´agua? Quanto de informação é suficiente?

Se como já disse anteriormente “suficiente” é algo muito pessoal, seria tolice então dar respostas prontas para essas perguntas. O que posso fazer é falar de algumas descobertas apenas: que a linha do suficiente além de pessoal é ajustável; que nós vivemos adaptando-a de acordo com nossos interesses e dos outros; que geralmente nos esforçamos mais do que devíamos nesse processo, talvez na esperança de que um dia o que temos realmente nos baste ou talvez buscando reconhecimento; que ninguém nos ensina sobre a beleza do bastar; que somos imprudentes e vivemos ultrapassando o limite do que seria saudável para nós e para os outros; que frequentemente nos esquecemos de respeitar e até celebrar nossas limitações e com isso sofremos.

Então se assim como eu, também não lhe ensinaram sobre a importância desse conceito, faço aqui um convite à reflexão: quanto lhe é suficiente?

E o meu palpite é que no momento que passarmos a olhar com mais cuidado e atenção para nossas limitações e aprendermos a respeitá-las, nos liberaremos de muita carga e culpa e então descobriremos que é provável que “suficiente” more em quantidades muito maiores ou menores do que aquelas que nos foram ensinadas.

*”A Fábula do que era suficiente” em “O dom da história” de Clarissa Pinkola Estés.

It´s the journey!

the journey

Há alguns anos, quando estava assistindo um de meus seriados favoritos a protagonista se questionou algo parecido com: Como nós conseguiremos planejar um futuro se passarmos todos os dias “carpediando o diem”?* A pergunta dela é a mesma que sempre me fiz.

Certa vez um Stephen Hawking ateu disse: não é Deus que te proporciona o que você quer, é você mesmo. O universo é um imenso de um “free lunch”. Isso foi uma das suas grandes conclusões após uma vida dedicada a unificar conceitos da física, caçando buracos negros e buscando as respostas no Universo para os maiores questionamentos da humanidade. Em resumo, quer dizer que tudo é energia e essa energia está disponível para todos basta saber acessá-la. O que disse Hawking não é muito diferente do que muito resumidamente diz também a Física Quântica.

Existe uma lei simples no Universo chamada de “lei da atração”, em resumo significa que o que você pensa e quer você atrai para si (e isso serve também para coisas negativas). Como nos ensinam desde sempre que ter seus desejos realizados é algo realmente grandioso e é a fonte da felicidade, que é no fundo o que todo mundo busca, documentários e livros como “O Segredo” se tornaram rapidamente sucesso de vendas, pois eles “ensinam” como fazer uso dessa lei para conseguir tudo que você deseja: relacionamentos, bens, posses, sucesso, enfim, tudo.

Eu sei disso não só porque li nos livros, mas porque desde pequena, muito antes de ler qualquer desses livros, sempre consegui o que queria. Escolhi meu primeiro amor, depois escolhi o segundo também, talvez o terceiro. Claro, hoje tenho um conceito diferente de quando jovem sobre amor por isso não escolho mais amores. Escolhi também diversos destinos e todas as etapas que construiriam meu currículo profissional, mesmo quando decidi mudar de profissão.

Escolhi, por exemplo, onde iria fazer meu mestrado e levava na agenda o anúncio do programa puído, já quase rasgando de tanto desdobrar e dobrar e que guardava em minha agenda. Por vezes eu o desdobrava, olhava e me imaginava estudando lá, falando assim parece que foi mesmo como um passe de mágicas que em poucos anos embarquei naquele avião com destino à Amsterdam, pago por uma bolsa de estudos que me foi premiada pelo governo holandês.

Quem está lendo isso deve achar que isso é mesmo algo maravilhoso, mas o que eu quero dizer é justamente o contrário. O que mais me lembro dos anos que fiz meu mestrado foi que me sentia infeliz. Na verdade nenhuma das minhas conquistas me fez mais feliz, a distância que existia entre o querer e o ter sempre me deixava ansiosa, com medo de não conseguir e como acontece com quase todas as pessoas, quando conseguia realizar um desejo, imediatamente começava a pensar que não era exatamente aquilo que eu queria ou tinha imaginado e logo queria algo diferente. Sim, porque tem isso também, a realidade é sempre diferente da expectativa. E nesse processo acredito que distorci totalmente o poder que temos em (co)criar nossos próprios universos e o transformei em um querer que me cegava.

No caso dos relacionamentos era pior ainda, eu não me sentia merecedora de um amor pelo qual havia pedido, aquilo não fazia sentido nenhum para mim. Além do mais, enquanto desejamos que o outro seja da maneira que queremos, não existe espaço para ele ser apenas o que é. Então o que existia mesmo era a imagem construída na minha mente do que eu queria que o outro fosse, mas não era.

Esses dias eu li um belo texto que temos que ensinar nossas crianças o poder da espera. Sim a espera ativa é uma dádiva e nossas crianças não sabem mais esperar. Mas, como tudo na vida, antes de ensinarmos algo, precisamos aprender tal coisa, e o fato é que eu não sabia esperar, porque ninguém faz nada consciente quando está concentrado apenas no resultado final. E era um apego tão excessivo aos resultados que eu me esquecia de viver a jornada. Um dia uma amiga disse: você não sabe esperar o destino acontecer. E é bem provável que ela estivesse certa, acontece que eu não apenas não sabia como também não queria. Eu queria controlar tudo e estava tão concentrada nisso que perdi uma parte importante de minhas grandes jornadas: a jornada per se.

No primeiro dia de aula do tal mestrado na Holanda, a professora e coordenadora, certamente uma das melhores que já tive em minha vida, finalizou as primeiras apresentações com muito entusiasmo e um belo sorriso dizendo: “It´s the journey!”. Os olhos delas brilhavam e a paixão com que as palavras saíam de sua boca era algo realmente inspirador, eu não sabia como ela fazia aquilo, mas precisava descobrir porque era isso que queria para mim.

(parênteses: a palavra entusiasmo vem do grego e originalmente significava inspiração pela presença de Deus, ou ainda, viver com a presença de Deus em si.)

Hoje, passados sete anos, acho que finalmente entendi o seu grande segredo: viver o presente com entusiasmo, ou seja, com Deus presente em si. Ao lembrar de todo aquele entusiasmo, realmente não acredito que em algum momento de sua vida ela tenha pedido por todo aquele reconhecimento, até porque tinha muita coisa trabalhando contra ela: é mulher proveniente de um país “periférico” e por isso teve que construir seu espaço em um universo dominado por homens nascidos nas maiores potências mundiais. O que ela sabia era aproveitar a jornada. Hoje também sou uma professora entusiasmada com meu ofício e em homenagem à ela (ou talvez para eu nunca esquecer) repito o mesmo para meus alunos: “it´s the journey!”

Em inglês o verbo ser se mistura ao estar: se sou, estou (e não se quero, sou ou se tenho, sou). Pensando em tudo isso entendi então que só existe uma maneira de saborearmos esse tal “free lunch”, é estando inteiramente presente em qualquer ação e assim fazendo uso de todos os sentidos. Sim, uma coisa por vez. Pois é, em mundo moderno e altamente conectado, isso é quase uma missão impossível.

Além do mais, nós nascemos com tudo que precisamos para viver bem, dons, talentos e o poder de sentir, de ter emoções, que é inerente à todo e qualquer ser. Através do desenvolvimento e aprimoramento de nossos dons e talentos podemos exercer um ofício que nos dê conforto para viver. Acredite! Isso é suficiente, o que você é/está pode te bastar. O mundo não vai acabar se você se desconectar de vez em quando.

Também não precisamos nos informar de tudo, ler tanto, pensar tanto o tempo todo sobre tudo, nem saber muito a mais do que sabemos, nem ter mais do que temos. Então aprenda a se desconectar, acalme seu coração e confie. Quando não sabemos confiar ou esperar, não nos beneficiamos totalmente da beleza que reside no acaso, que aliás também podemos chamar de presente, um grande presente do Universo para nós. É novamente no inglês que encontrei uma palavra que define o que hoje acredito: serendipity**. O feliz acaso. Sim, a espontaneidade também é um bom ingrediente para a felicidade, aquilo que acontece de repente, sem pedido, plano ou controle.

E foi assim que, muitos anos depois, descobri a resposta para pergunta do início desse texto: como vou planejar um futuro enquanto estiver vivendo no presente? A resposta é que se eu acreditar que tenho tudo que preciso e confiar no poder do acaso não existe necessidade de gastar meus dias pensando em tudo aquilo que quero ter e vivendo em um tempo que não existe. Pois é, isso mesmo: “it´s the journey!””.

*How are we supposed to plan a life? A career? A family? If we are always “carpe”-ing the “diem”? da série Grey´s Anatomy.

** Palavra que minha grande amiga Drika me ensinou.

Candy crush saga

Maria Aparecida passou a vida lutando contra a timidez. Ela sempre pensava na ironia que era de ter Aparecida no nome se nem sua mãe a via. Ela não gostava de aparecer. De certo que de tanto acreditar que não aparecia sentia-se invisível. Já de pequena desenvolveu um estranho gosto por espelhos. Gostava de espelhos e só dormia tranquila após passar longos períodos olhando sua imagem refletida no espelho. Era como se ela mesma não pudesse acreditar que existia.

Por ser tímida não fazia amigos, seu melhor amigo era o espelho. Cresceu sozinha mirando sua imagem refletida, algumas noites tinha pesadelos, sonhava que estava desaparecendo e só dormia quando olhava-se no espelho. Não era feliz, não era triste, apenas não sentia. Ela achava o mundo um lugar estranho, não entendia as pessoas.

Certo dia, já quando moça, sua mãe preocupada com sua timidez e como que querendo justificar sua ausência, deu-lhe um aparelho que comunicava com o mundo. Ela dizia que o aparelho era mágico e que poderiam se comunicar através dele, ela nunca mais se sentiria sozinha e assim venceria a timidez.

Maria conectou-se com o mundo, descobriu jogos e redes. Fez muitos amigos e sentia-se sozinha. “Divine” dizia seu jogo preferido, como que lhe lembrando de que era importante. “Sweet” ela se animava. “Tasty” ela sorria. Finalmente alguém a via! Ela esquecera do espelho, jogava o dia todo e ia sendo esmagada, sem perceber que aos poucos foi ficando cada vez mais invisível. “Sugar crush!”

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