It´s the journey!

the journey

Há alguns anos, quando estava assistindo um de meus seriados favoritos a protagonista se questionou algo parecido com: Como nós conseguiremos planejar um futuro se passarmos todos os dias “carpediando o diem”?* A pergunta dela é a mesma que sempre me fiz.

Certa vez um Stephen Hawking ateu disse: não é Deus que te proporciona o que você quer, é você mesmo. O universo é um imenso de um “free lunch”. Isso foi uma das suas grandes conclusões após uma vida dedicada a unificar conceitos da física, caçando buracos negros e buscando as respostas no Universo para os maiores questionamentos da humanidade. Em resumo, quer dizer que tudo é energia e essa energia está disponível para todos basta saber acessá-la. O que disse Hawking não é muito diferente do que muito resumidamente diz também a Física Quântica.

Existe uma lei simples no Universo chamada de “lei da atração”, em resumo significa que o que você pensa e quer você atrai para si (e isso serve também para coisas negativas). Como nos ensinam desde sempre que ter seus desejos realizados é algo realmente grandioso e é a fonte da felicidade, que é no fundo o que todo mundo busca, documentários e livros como “O Segredo” se tornaram rapidamente sucesso de vendas, pois eles “ensinam” como fazer uso dessa lei para conseguir tudo que você deseja: relacionamentos, bens, posses, sucesso, enfim, tudo.

Eu sei disso não só porque li nos livros, mas porque desde pequena, muito antes de ler qualquer desses livros, sempre consegui o que queria. Escolhi meu primeiro amor, depois escolhi o segundo também, talvez o terceiro. Claro, hoje tenho um conceito diferente de quando jovem sobre amor por isso não escolho mais amores. Escolhi também diversos destinos e todas as etapas que construiriam meu currículo profissional, mesmo quando decidi mudar de profissão.

Escolhi, por exemplo, onde iria fazer meu mestrado e levava na agenda o anúncio do programa puído, já quase rasgando de tanto desdobrar e dobrar e que guardava em minha agenda. Por vezes eu o desdobrava, olhava e me imaginava estudando lá, falando assim parece que foi mesmo como um passe de mágicas que em poucos anos embarquei naquele avião com destino à Amsterdam, pago por uma bolsa de estudos que me foi premiada pelo governo holandês.

Quem está lendo isso deve achar que isso é mesmo algo maravilhoso, mas o que eu quero dizer é justamente o contrário. O que mais me lembro dos anos que fiz meu mestrado foi que me sentia infeliz. Na verdade nenhuma das minhas conquistas me fez mais feliz, a distância que existia entre o querer e o ter sempre me deixava ansiosa, com medo de não conseguir e como acontece com quase todas as pessoas, quando conseguia realizar um desejo, imediatamente começava a pensar que não era exatamente aquilo que eu queria ou tinha imaginado e logo queria algo diferente. Sim, porque tem isso também, a realidade é sempre diferente da expectativa. E nesse processo acredito que distorci totalmente o poder que temos em (co)criar nossos próprios universos e o transformei em um querer que me cegava.

No caso dos relacionamentos era pior ainda, eu não me sentia merecedora de um amor pelo qual havia pedido, aquilo não fazia sentido nenhum para mim. Além do mais, enquanto desejamos que o outro seja da maneira que queremos, não existe espaço para ele ser apenas o que é. Então o que existia mesmo era a imagem construída na minha mente do que eu queria que o outro fosse, mas não era.

Esses dias eu li um belo texto que temos que ensinar nossas crianças o poder da espera. Sim a espera ativa é uma dádiva e nossas crianças não sabem mais esperar. Mas, como tudo na vida, antes de ensinarmos algo, precisamos aprender tal coisa, e o fato é que eu não sabia esperar, porque ninguém faz nada consciente quando está concentrado apenas no resultado final. E era um apego tão excessivo aos resultados que eu me esquecia de viver a jornada. Um dia uma amiga disse: você não sabe esperar o destino acontecer. E é bem provável que ela estivesse certa, acontece que eu não apenas não sabia como também não queria. Eu queria controlar tudo e estava tão concentrada nisso que perdi uma parte importante de minhas grandes jornadas: a jornada per se.

No primeiro dia de aula do tal mestrado na Holanda, a professora e coordenadora, certamente uma das melhores que já tive em minha vida, finalizou as primeiras apresentações com muito entusiasmo e um belo sorriso dizendo: “It´s the journey!”. Os olhos delas brilhavam e a paixão com que as palavras saíam de sua boca era algo realmente inspirador, eu não sabia como ela fazia aquilo, mas precisava descobrir porque era isso que queria para mim.

(parênteses: a palavra entusiasmo vem do grego e originalmente significava inspiração pela presença de Deus, ou ainda, viver com a presença de Deus em si.)

Hoje, passados sete anos, acho que finalmente entendi o seu grande segredo: viver o presente com entusiasmo, ou seja, com Deus presente em si. Ao lembrar de todo aquele entusiasmo, realmente não acredito que em algum momento de sua vida ela tenha pedido por todo aquele reconhecimento, até porque tinha muita coisa trabalhando contra ela: é mulher proveniente de um país “periférico” e por isso teve que construir seu espaço em um universo dominado por homens nascidos nas maiores potências mundiais. O que ela sabia era aproveitar a jornada. Hoje também sou uma professora entusiasmada com meu ofício e em homenagem à ela (ou talvez para eu nunca esquecer) repito o mesmo para meus alunos: “it´s the journey!”

Em inglês o verbo ser se mistura ao estar: se sou, estou (e não se quero, sou ou se tenho, sou). Pensando em tudo isso entendi então que só existe uma maneira de saborearmos esse tal “free lunch”, é estando inteiramente presente em qualquer ação e assim fazendo uso de todos os sentidos. Sim, uma coisa por vez. Pois é, em mundo moderno e altamente conectado, isso é quase uma missão impossível.

Além do mais, nós nascemos com tudo que precisamos para viver bem, dons, talentos e o poder de sentir, de ter emoções, que é inerente à todo e qualquer ser. Através do desenvolvimento e aprimoramento de nossos dons e talentos podemos exercer um ofício que nos dê conforto para viver. Acredite! Isso é suficiente, o que você é/está pode te bastar. O mundo não vai acabar se você se desconectar de vez em quando.

Também não precisamos nos informar de tudo, ler tanto, pensar tanto o tempo todo sobre tudo, nem saber muito a mais do que sabemos, nem ter mais do que temos. Então aprenda a se desconectar, acalme seu coração e confie. Quando não sabemos confiar ou esperar, não nos beneficiamos totalmente da beleza que reside no acaso, que aliás também podemos chamar de presente, um grande presente do Universo para nós. É novamente no inglês que encontrei uma palavra que define o que hoje acredito: serendipity**. O feliz acaso. Sim, a espontaneidade também é um bom ingrediente para a felicidade, aquilo que acontece de repente, sem pedido, plano ou controle.

E foi assim que, muitos anos depois, descobri a resposta para pergunta do início desse texto: como vou planejar um futuro enquanto estiver vivendo no presente? A resposta é que se eu acreditar que tenho tudo que preciso e confiar no poder do acaso não existe necessidade de gastar meus dias pensando em tudo aquilo que quero ter e vivendo em um tempo que não existe. Pois é, isso mesmo: “it´s the journey!””.

*How are we supposed to plan a life? A career? A family? If we are always “carpe”-ing the “diem”? da série Grey´s Anatomy.

** Palavra que minha grande amiga Drika me ensinou.

2 respostas em “It´s the journey!

  1. Oi Tati, quando li seu texto me identifiquei com ele como como voce mesma disse: ” acontece quando alguém consegue traduzir em palavras algo que para você faz muito sentido”. Tambem ja li todos aqueles livros, que ja não servem mais, e agora o budismo ja funciona como uma ferramenta lindamente util. Nunca fui multi-task, mas como tambem nunca me ensinaram na minha infancia o poder da espera e o valor de viver o presente, sinto na pele, como minha propria mente é capaz de impedir o fluxo de coisas novas. Assim como uma barragem que paralisa um rio. Estou no final no meu mestrado na Noruega e “é um apego tao excesso aos resultados” que apesar de saber que preciso viver jornada, a forca do habito aliada a falta de disciplina, acabam por querer controlar o que não tem controle. Como ensinar um coração controlador a confiar? Fe se aprende? 🙂
    Muito obrigada pelo depoimento! A lei da atração acabou me trazendo ao seu blog e ja me pego pensando “It’s the journey, just enjoy it”! Muito obrigada 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    • que legal Ligia! Se quiser bater um papo conte comigo! É legal mesmo quando as minhas palavras ressoam no coração dos outros, significa que não estou sozinha em meus devaneios, às vezes no dia a dia nos sentimos sozinhos, a internet tem esse poder, de conectar pessoas diferentes que vivem experiencias parecidas 🙂 boa sorte no mestrado! aproveite o verão europeu, o sol brilha e é tempo de celebrar a melhor época 🙂

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s