As vantagens de aprender a aceitar o amor que merecemos*

*texto escrito em abril/15

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O filme “As vantagens de ser invisível”* conta a história de um adolescente que sofre ao sentir-se invisível e de seu anseio por inclusão. Muitas passagens no filme me tocam, mas a mensagem mais importante para mim é que ele só se sente incluído após uma árdua jornada de conhecer a dor, ficar de cara com a loucura e entrar em contato com seus maiores traumas e finalmente conhecer o amor, por si mesmo e pelos outros.

É um filme leve, mas que contém muito conteúdo de vida. Certa vez o Lama Padma Santen disse que não é com os que sofrem que ele se preocupa, pois os que sofrem de depressão ou qualquer “distúrbio” mental são agonizantes e isso significa que eles estão enxergando o mundo como ele está e sendo profundamente tocados por isso. Nesse contexto só não sofre hoje quem é incapaz de sentir empatia e esses sim deveriam nos preocupar, então precisamos olhar com mais carinho para os agonizantes.

Assim como Charlie, o protagonista do filme que fica cara a cara com seus traumas e medos, eu também já enfrentei o pior de mim. E hoje olhando com mais carinho para esse período da minha vida, entendo que, também como no filme, a maioria de nossos grandes erros nasce dessa vontade que temos de amar e sermos amados, de nos sentir incluídos. E a nossa capacidade de amar é o que torna a vida tão especial. Sendo assim, nossos erros nascem do melhor que temos. Quando me dei conta disso aprendi a me perdoar, minha intenção não era ruim, mas eu apenas estava buscando amor em fontes e de maneiras equivocadas.

Eu, assim como muitos, perdi anos de minha vida nessa busca, achando que me amava muito, que já havia passado essa etapa, no entanto vivia de pequenas doses de amor, me alimentando de fragmentos, tentando encontrar no outro algo que eu deveria buscar em mim mesma. E não existe outro caminho, não importa que seja clichê ou que a gente saiba de tudo isso, o processo é esse mesmo, cair e levantar diversas vezes, pois o acerto assim como o caminho em si, só se faz ao errar ou caminhar.

É deveras básico o fato de que só sabe amar o outro quem aprende a amar a si mesmo, todavia ainda assim insistimos em seguir atalhos ou em fazer o caminho inverso. O maior “problema” com o amor é que ele não se alimenta de migalhas, embora muita gente insista nesse erro. Portanto, se não aprendermos a nos acolher por completo, nossas esquinas mais sombrias, nossos erros e nossas dores, nós nunca saberemos o que é amor de fato. Sim, mais fácil falar do que fazer, mas é possível.

Amor próprio é complexo porque não acontece através do olhar e reconhecimento do outro ou da validação de alguém. É algo que só depende de nós e que não aprendemos em livros, não tem exemplo em lugar algum a ser seguido. E nós não somos muito acostumados a viver sem parâmetro de comparação. Por isso, é árduo, temos que aprender do zero, sozinhos. E o que sei é que amor próprio não tem a ver com todo aquele romantismo que (erroneamente) costumamos associar ao amor. Não tem a ver com arrogância, paternalismo e muito menos com auto-confiança. O amor próprio é silencioso e nele cabem todas as nossas auto-críticas e inseguranças.

Amor próprio tem muito mais a ver com acolhimento do que com afeto, porque o afeto vem do outro. E é difícil mesmo fazer do amor um verbo intransitivo. Contudo é imprescindível acolhermos todas as nossas partes quebradas, aquilo que nos deixa descontentes, tudo que queremos mudar em nós.

Um dia eu resolvi aprender sobre amor próprio. Foi um processo intenso e árduo, que acho que durou minha vida toda, mas foi libertador. E os últimos anos em especial trouxeram muita mudança. E mudar dá medo. Perdi pai e mãe, mudei de profissão, mudei de empregos, mudei estilo de vida e hábitos, mudei amigos, mudei minhas crenças, mudei de religião, mudei o corte de cabelo, mudei de casa, mudei terapias, mudei tudo isso, mas principalmente mudei de canal e aprendi a sintonizar em mim. Aprendi que meus erros e traumas do passado não me definem.

Antes de tudo, aprendi a perdoar meus pais e me senti muito tola por exigir deles o que nem eu sei se um dia poderei dar a um filho. Depois aprendi a me perdoar, assim como eles, eu sei que fiz o melhor que pude com o que me foi dado, mesmo quando meu melhor parecia ser nada ou quase nada. Virei pai e mãe de mim mesma, aprendi a me proteger e que posso (devo) dizer não.

Aprendi sobre a finitude da vida e que sou limitada, muito mais limitada do que imaginava. E precisei também respeitar e acolher essas limitações. Aprendi a olhar para meus defeitos para finalmente entender que tal conceito não existe. Um defeito é apenas uma qualidade esperando para ser lapidada. Então acolhi um por um e aprendi a enxergar o que de bom havia neles, principalmente a escutar o que eles queriam me dizer.

Se eu era uma pessoa muito ansiosa é porque um dia eu precisei desenvolver aquilo para sobreviver no meio em que um dia estive inserida. Então foi importante entender e validar isso para então decidir que posso mudar porque agora isso não me serve mais uma vez que, ao contrário de quando eu era criança, o meio agora sou eu que escolho.

Aprendi que sou capaz de mudar o que quiser e me dei autonomia para isso. E a autonomia anda lado a lado com o amor, porque quando nos amamos nos validamos como seres humanos e então descobrimos que o mundo é um grande palco para esse show que é a vida, tudo começa a fazer sentido, os olhos ganham um brilho diferente, nossos pequenos gestos se tornam grandiosos e nos tornamos gigantes. Sim, gigantes pela (em nossa) própria natureza.

No filme Charlie se questiona sobre o amor, ele não consegue entender porque pessoas tão especiais escolhem amores tão fragmentados. A resposta que seu professor de literatura lhe dá é tão certeira e simples, ainda que complexa na prática: “Charlie, nós aceitamos o amor que achamos que merecemos”. E eu acrescentaria também aí a maneira como aceitamos o amor que temos por nós mesmos.

Conhece-te.

Ame-se.

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*baseado em livro homônimo de Stephen Chbosky, em inglês: “The perks of being a wallflower”

Da morte, da solitude e do vazio

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Existe no português uma palavra chamada solitude, que diferente de solidão é uma solidão voluntária, escolhida, desejada. Nós não somos muito acostumados a ligar vontade com solidão, por isso a palavra solitude é pouco usada. É meio óbvio pensar que as sociedades antigas só podiam dar nomes àquilo que elas viam ou que existia, pois é essencialmente da necessidade de dar nome e sentido às coisas que nasceram as palavras. Por isso ela existe não apenas no português, como também no inglês, e em muitas outras línguas.

Mas estão aí os dicionários a misturar sentidos e neles “solus” em Latim vem do ato de estar/sentir-se sozinho trazendo em si uma conotação meio triste, talvez porque a solitude contenha também certa melancolia em si. A verdade é que ninguém nos ensina sobre a tristeza, que é um dos nossos sentimentos primários*. As escritas, as religiões e a economia se encarregaram de transformar a felicidade em “commodity”, algo rentável incentivando assim uma busca excessiva por ela, e nessa busca não podemos dar espaço para algo (tão precioso) como a tristeza, ou entender que a vida é feita de ciclos e que devemos vivê-los inteiramente com a sabedoria de que não são eternos, pois tudo na vida é impermanente. A desconstrução faz parte de nosso crescimento e ela só nasce na tristeza. E acima de tudo isso, nós precisamos nos libertar das polaridades e aprender a substituir o “ou” pelo “e”, uma coisa sempre complementa a outra, sendo assim nós não somos felizes ou tristes, nós somos felizes e somos também tristes.

Se a solitude é melancólica, é também ela que dá força ao processo de morte e ressurreição; que dá beleza à arte; que os poetas declamam; que os músicos cantam; que os grandes filósofos tentam há anos entender; que a psicologia entende; que dá sentido ao ditado “antes só do que mal acompanhado”; que clama para que “conheça-te a ti mesmo”; é ela que dá sentido à insignificância. Aprender que o copo não precisa estar meio cheio, nem meio vazio. Ele está apenas vazio.

Mas não aprendemos a encontrar alegria na tristeza, queremos ser apenas felizes, então não escutamos falar da morte, nem da tristeza e muito menos da solitude, pois isso tudo não cabe na felicidade. Mas a verdade mesmo é que só amando e conhecendo esses três grandes conceitos é que encontramos a felicidade. Não falamos de solitude, mas fala-se em meditação, essa é a palavra da moda e confesso que não vejo toda essa grandiosidade no ato em si, porque aprendi a reverenciar a solitude de diversas maneiras, para mim ela não mora apenas no ato de meditar. E finalmente eu acredito que aprendi a amar o encontro e não a busca. Por isso não preciso de livros, mestres e dizeres. Para mim basta escutar o vazio. Viver a solidão voluntária, escolhida, desejada, amada, sagrada. Aprendi a sentar no desconforto e enfrentá-lo. Ele. O nada. The void. Aquele que tanto nos amedronta, paralisa. E entendo também agora porque passei a vida toda fugindo desse vazio ou tentando preenchê-lo.

Enfrentar o vazio é mesmo um ato de coragem, muita coragem. Olhar para a morte, olhar para a tristeza, olhar para o vazio e encontrar beleza neles, requer muita coragem. E eu achava que tinha coragem de sobra, pois me senti corajosa em muitos momentos de minha vida. Mas hoje entendo que coragem é algo muito mais grandioso do que eu sentia, pois enfrentar o vazio requer algo maior, uma coragem que eu não sabia que existia e muito menos que eu poderia ter. É essa coragem que precisamos para enfrentar nossa própria sombra, para desviar das muitas distrações que o caminho traz, para enfrentar os olhos desconfiados dos que nos cercam e confundem solitude com isolamento; é preciso muita coragem para olhar a morte na cara e parar para sentir a dor dilacerante que emerge dela; para sentir-se vazio; precisamos de coragem para entender e amar a grandiosidade que existe em nossa completa insignificância. Uma coragem que vem do seu próprio significado: no Latim coragem deriva da palavra “cor”, que tem a mesma raiz que a palavra coração.

Uma das minhas passagens favoritas, que muito já citei, diz “um homem não é uma ilha isolada em si”, mas hoje discordo em partes. Somos ilhas porque somos únicos, porque o nosso mundo é inteiramente baseado no que experenciamos sozinhos, mesmo quando estamos cercados, mesmo quando nos distraímos, nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos, pois a experiência é única para cada ser. Ninguém nem nada pode nos tirar dessa condição de solitude, por tudo isso faz-se necessário conhecê-la e aprender a amá-la. O Budismo entende a beleza da solitude e usa a flor de lótus como uma bela analogia para isso. A flor de lótus nasce da lama do fundo da lagoa e é ali que ela encontra forças para crescer solitária e emergir na superfície e assim florescer. Uma vez que floresce nenhuma sujeira prende-se às suas pétalas que mantém-se sempre limpas e sua semente pode germinar novamente após longos períodos dormentes. Apesar de poder estar rodeada de outras flores, ela faz todo o processo em solitude.

E a busca, essa busca toda desenfreada, vem justamente da não apreciação dessa solitude, do medo que dá de vivê-la, da tentativa de preencher esse vazio. Mas ele está lá, sempre esteve e sempre estará. Todo mundo sente esse vazio, em maior ou menor escala, nas diferentes fases da vida, só não aprendemos ainda o que devemos fazer com ele. Então buscamos refúgio nas religiões, crenças, na medicina, nos outros para preenchê-lo sem lembrar que ele é o que nos faz humanos, únicos, isolados em nós mesmos.

Em seu recente livro “A festa da insignificância”, o grandioso e sábio escritor tcheco Milan Kundera nos convida a amar a insignificância e a insignificância traz o vazio em si. Insignificante é aquilo que é vazio de significado. E para aprender a amar o vazio, não precisamos ter posses, nem conhecimento de nada ou manual, aliás nem alfabetamento requer. Digo esse alfabetamento convencional, ler e escrever. Do contrário requer um profundo alfabetamento emocional, é preciso aprender a ler e escrever no vazio. Hoje olho para tudo que busquei um dia, e após minha tão recente experiência com a morte aprendi que é tudo tão mais simples do que eu pensava, a resposta está apenas em aprender a amar o vazio. Mas a sensação que tenho é que alguns amam mais a busca do que o encontro. Mas, há quem ame o encontro também. E o que posso dizer para estes é: escute o vazio, a tristeza, escute a morte. Porque tudo, tudo, tudo é insignificante diante dela. E mesmo assim a nossa libertação está em aprender a amá-la. E o vazio é aquilo que ela traz, é também o que nos faz maiores e melhores; pois é só o vazio que nos preenche.

“Agora, a insignificância me aparece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la.”
Milan Kundera em A Festa da Insignificância

*são consideradas por algumas linhas da psicologia como emoções primárias: medo, alegria, raiva, tristeza, afeto