Os dispostos se atraem

O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração. Os gregos, mais sensíveis do que nós, tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio – embora eles não tivessem relógios como os nossos – eles davam o nome de chronos. O pêndulo do relógio oscila numa absoluta indiferença à vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilhão, indiferente à vida e à morte, ao riso e ao choro. Agora os cronômetros partem o tempo em fatias ainda menores, que o corpo é incapaz de perceber. Centésimos de segundo: que posso sentir num centésimo de segundo? O tempo do relógio é indiferente às tristezas e alegrias.

Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão dos cronômetros. Suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Por vezes tranqüilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo amor. Dá saltos. Tropeça. Trina. Retoma à rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de kairós. Chronos é um tempo sem surpresas: a próxima música do carrilhão do relógio de parede acontecerá no exato segundo previsto. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música vai soar.

Rubem Alves em O AMOR QUE ACENDE A LUA – Um caso de amor com a vida.

Tenho um grupo de amigas muito queridas e de longa data, a vida nos colocou em caminhos diferentes, porém sempre que possível tentamos nos reunir para celebrar nossa amizade e colocar a conversa em dia. Nos últimos meses têm sido extremamente difícil de conseguir uma data em que todas possam participar. No começo do ano, fiz algum movimento no sentido de manter nossos encontros mais constantes e, ao ver que isso me estava exigindo esforço, resolvi não mais insistir.

Esses dias uma delas fez outra tentativa e logo começaram as falas de incompatibilidade de agendas e falta de tempo. Então disse que havia desistido de tentar, que nossa amizade não mudaria, mas não vejo sentido em desprender tanta energia e esforço para encontrar alguém, entendo que temos estilos e ritmos de vida totalmente diferentes, mas para mim, no fundo mesmo apenas falta vontade. Claro, minha sinceridade provocou certo desconforto entre todas, para elas eu estava sendo intolerante, mas eu fui apenas honesta.

Certamente o fato de ser tão difícil de nos encontrarmos não muda o que sinto por elas, mas eu quero mesmo é me cercar de pessoas disponíveis. Pessoas disponíveis são aquelas que enviam e respondem mensagens, que atendem ou retornam ligações, que ligam, que aceitam convites e fazem questão de ir, que convidam e fazem questão que eu vá, que perguntam e respondem, que se interessam, que compartilham experiências e sorrisos, que olham no olho, que sabem o valor de ter e ser uma boa companhia; são pessoas que estão disponíveis para celebrar a vida.

Estar disponível não é abrir mão de sua vida em prol do outro, não é ficar à mercê e esperando por ele, é apenas se abrir para viver aquele encontro que se apresenta de maneira leve e despretensiosa, por inteiro. 

Estar disponível é estar presente e estar presente é de fato o maior presente que podemos dar e receber de alguém. Disponibilidade é desacelerar os ponteiros do relógio, é transformar Chronos em Kairós, é imprimir pequenos fragmentos de tempo no coração e construir elos que nos fazem melhores para a vida e para o mundo.

Tao: o caminho sem meio

Sem título“Trinta raios convergem para o meio de uma roda
Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.

Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o espaço dentro dele que o torna útil.

Fazem-se portas e janelas para um quarto;
São os buracos que o tornam útil.

Por isso, a vantagem do que está lá
Assenta exclusivamente
na utilidade do que lá não está.”

Tao Te Ching (道德經), Cap. 11

Os ensinamentos budistas são implacáveis na questão do caminho do meio, mesmo quem não conheça nada ou quase nada de budismo já ouviu falar no caminho do meio. Eu, como uma boa libriana que nunca se equilibra, acho esse papo de caminho do meio um saco. Talvez seja puro recalque mesmo, porque em poucas situações na minha vida fui bem sucedida em achar o tal caminho do meio, não, eu transito pelas bordas, nos limites, ora cá, ora acolá.

Acontece que agora virei uma espécie de boa samaritana careta e como todo bom samaritano careta, fiquei chata. Tipo, muito chata. Chata e deslocada, mas até aí tudo bem, deslocada eu sempre me senti, a vida toda. Sempre me senti nadando contra a maré.

No terceirão, enquanto todos escolhiam suas carreiras entre cursos como Direito, Medicina, Jornalismo, eu quis fazer Filosofia. Quando o Ecoturismo não era moda, fui morar em Bonito. Quando o vegetarianismo não era tão divulgado virei vegetariana. Quando morava em Londres e o verão se aproximava, os destinos mais cotados eram a costa da Espanha, Grécia, Itália e, para o desespero da minha família, resolvi curtir o verão fazendo trabalho voluntário em um Kibbutz em Israel. Nem a visita da minha irmã grávida em Londres – em missão para me convencer de não ir – resolveu.

Minha irmã gosta de dizer que sou do contra, que às vezes gosto ou não gosto de algo só para contrariar todo mundo. Talvez ela esteja certa, é difícil saber todos os motivos psicológicos que nos fazem gostar ou não de algo, fato é que não escolho nada por modismos e fato é também que não gosto de me sentir igual à massa. Talvez foi por isso que não tenha comprado “O Jardim Secreto”, ou deve ser por isso que eu gostava muito mais do Atlético quando ele jogava na “Baixadinha” e não havia sido Campeão Brasileiro.

Mas, andar pelas beiradas cansa tanto quanto o papo de caminho do meio. Sim, porque esse papo de ser impulsiva e inconsequente, colocar a cabeça para fora da janela na highway com o vento na cara, correr de meia na neve, viver (e contar) histórias surreais, isso tudo cola muito melhor nos filmes e nos livros do que na vida real, na vida real cansa ser intenso, para quem é e para quem convive com pessoas que o são.

E se cansa ser intenso é pior ainda ser careta, tipo eu agora. Sério, nem eu me aguento mais de tanta caretice. Chata. Tipo tomando chá de camomila e comendo granola. E nessa de ser careta tudo (ou quase tudo) perdeu a graça. O mundo anda esquisito, isso sabemos, só que eu não vejo mais sentido em quase nada do que acontece. Pois é, como eu disse: chata.

E eu na versão careta não bebo e acho a noite um saco. Acho as pessoas que estão na noite pior ainda. Assim como as pessoas da natureza e das Ecovilas, as que meditam, fazem Yoga e dizem “gratidão”, putz essas são malas-plus.

Têm ainda as que falam de crossfit, corrida ou aquelas que acham que a culpa de TODOS os males do Brasil (e suspeito que até do mundo) é da presidenta e do PT, essas vão além da minha cota de tolerância. Enfim, ao final de tudo isso pude concluir que elas não são um saco, porque ao menos, mesmo que sejam, elas estão seguindo seus caminhos e se divertindo. No fundo mesmo quem virou um saco sou eu que não se diverte mais porque acha tudo um saco. 

E por não conseguir viver, nem entender o caminho do meio, apesar de achá-o necessário (porém utópico), ou talvez por andar sempre contra a maré, larguei os estudos budistas e comecei a estudar o Tao. Até porque acho não tem muito equilíbrio no caminho do meio do budismo (repare nos monges). 

O Taoísmo é bacana porque aborda a nossa natureza de viver e de precisar das polaridades. Segundo o Tao, a vida é regida por dois elementos (dualismo): yin (feminino) e yang (masculino). Estas duas forças se complementam e não podem existir uma sem a outra.

A minha leitura do Tao faz validar que é preciso ter experiências de vida nos limites, ou seja, é preciso ser inconsequente e depois ser careta (ou o contrário) até equilibrar as duas forças em si; mais ainda: é preciso viver as fases da vida que se apresentam, como se apresentam: mesmo que eu me sinta assim tão chata, é hora de ser chata. Sem caminho do meio. Talvez isso seja apenas eu tentando justificar minha chatice. Talvez esse caminho do meio seja algo intangível mesmo, talvez nós estejamos condenados à viver nas polaridades, às vezes àgua, outras fogo. Ou não. Qualquer que seja a resposta, hoje acredito que viver por inteiro nos dois pólos vem antes de encontrar o meio.

E enquanto não descubro respostas para minhas perguntas, continuo aqui com minha caretice, essa chatice incurável que só tem quem enxerga o mundo de maneira tão literal e vê no mundo tanta coisa sem nexo. Mas juro que tenho me esforçado para ser uma boa samaritana daquelas bem “cool”  (se é que elas existem) e deixar as pessoas serem o que são, retirando-lhes os rótulos (sim, os mesmos que usei há pouco).

Porque sei que pode parecer limitado e chato ser careta, mas tenho certeza que mais limitado ainda é viver rotulando tudo. Se o mundo é feito de dualidades, eu ainda vejo milhares delas. E mesmo que não ache todas legais é importante, ao menos, aprender a respeitá-las. Portanto, gratidão 🙂

Assim é.

Ok aqui vai uma grande verdade sobre sentimentos: sentimento não é algo que apenas brota, assim do nada. Sentimento não responde aos comandos da racionalidade. Psicólogos, psiquiatras e estudiosos tentam por séculos (em vão) entender o que motiva, inspira, move um ser humano; quais são as razões por trás do amor; por que gostamos de quem gostamos; ou ainda, por que não gostamos de quem não gostamos. Mas não dá para ficar explicando o que sentimos.

Eu acho que a turma do “politicamente correto” e os ensinamentos de Jesus, Buda, Lamas e afins criaram um monte de gente frustrada com esse papo de amar o próximo e ter compaixão. Sim, tudo isso é muito lindo, em teoria. Seria bom se pudéssemos amar todo mundo, mas sério, sinto em desapontar as Madres (e Padres) Teresas de plantão, não dá. E aliás, retiro o que disse, não seria bom não, o mundo seria um saco. E acho um saco também tentar plagiar, fingir, bloquear ou fabricar sentimentos, seja através de remédios, mentiras e falsidades. Não adianta, sentimento não se fabrica, nem pirateia e arriscaria em dizer que também não se compra (apesar de alguns acreditarem que sim).

Tem gente que a gente não consegue gostar, pode ser por coisas banais, tipo o perfume, o jeito de falar, ou pode ser por motivos mais compreensíveis. E o contrário também existe, existem pessoas que a gente ama, simplesmente porque ama. E existem aqueles amores que transcendem as intempéries do tempo, da distância e de qualquer racionalização e que mesmo que a gente não queira mais amar, ainda assim amamos. E não se engane, não tem como amar igual pessoas diferentes, cada pessoa amamos ou odiamos, ou amamos e odiamos de um só jeito.

Um dos filmes que mais gosto é o “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, eu, assim como muitos, também coleciono histórias de amor que gostaria de esquecer. Por muito tempo achei que seria bom se existisse mesmo um procedimento onde pudéssemos apertar a tecla “delete” assim como fazemos online. Mas um dia finalmente entendi que sentimentos não brotam e também não morrem.Eles se transformam, transmutam, expandem ou encolhem, mas não desaparecem simplesmente assim como os amigos no mundo virtual. Bloqueie, delete, apague. Eles permanecem vivos. Portanto é preciso senti-los. Inclusive os “ruins”.

Então aprendi a aceitá-los. As brigas e mal entendidos, dramas e corações partidos que colecionei; os amores mal acabados, as histórias de amor que não tiveram um bom desfecho, as boas e más escolhas, os encontros e desencontros, aquela história mal resolvida e que não adianta, não terá resolução (tudo bem, fica para uma próxima vida…). Talvez nem todos os finais sejam felizes como nos contos de fadas, mas isso também vai depender da leitura que fazemos deles.

Nesse tempo aprendi também a respeitar aqueles que não me querem bem, não faz mal, as pessoas têm esse direito, afinal é um mundo livre (é o que dizem). Aprendi a aceitar também que nem todos vão gostar de mim e não gostarão, mesmo que eu mude de perfume ou o tom de voz. Assim como eu também não gosto de alguns (pô, foi mal aí Jesus!).

E por mais que tentemos apagar o passado ou esquecer alguém, tem lembranças que permanecem latentes, nos assombrando, esperando um momento de descuido para entrar por entre as frestas daquela porta que chaveamos com toda a nossa vontade. Pelas gavetas empoeiradas as lembranças surgem, seja numa música que invade os nossos ouvidos, ou em uma frase, talvez naquele álbum antigo de fotos, em uma carta perdida em meio aos livros, quem sabe em um sonho. Elas vêm assim mesmo, de repente, sem avisar.

E é mesmo nessa pequena fração de tempo do “de repente” que vivemos a eternidade que habita no que muito sentimos. Nessa hora, quando a saudade bate, quando as lembranças vêm, a única saída é sentir, sentir muito, sentir até o fim; sentir enquanto elas insistem em serem sentidas. Mesmo que doa nos ossos, na carne, no peito. O medo, a raiva, a tristeza, a alegria, o amor existem para serem sentidos.

Então mesmo que pareça “errado” gostar ou não gostar de alguém, ainda assim, permita-se. Então sinta. Sinta muito. Isso é algo somente teu, não diz respeito à mais ninguém (nem mesmo à pessoa por quem sentimos). Porque as dores nos fazem mais fortes e os amores nos fazem melhores.

Um dia li uma frase que me marcou muito, uma boa reflexão para a vida: “as pessoas vão esquecer o que você fez, as pessoas vão esquecer o que você disse, mas elas nunca esquecerão como você as fez sentir”.

Por bem ou por mal, sinto muito, mas assim é.

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Tatiana na janela

Em 2010 quando o dono do apartamento que eu alugava colocou-o a venda, resolvi voltar para casa do meu pai temporariamente. Mas, o que era para ser temporário se transformou em um período de cinco anos. Nesse tempo meus irmãos já moravam em outras cidades, meu pai se mudou para morar com minha madrasta. Todas as coisas que meus irmãos e meu pai não usavam, porém não queriam se desfazer estavam naquele apartamento. Era muita coisa sem utilidade ou uso e tinha muita coisa minha. Aos poucos comecei a limpar e arrumar a desordem da casa.

Dizem que para você saber se a vida de uma pessoa está “nos eixos” você deve olhar para seu guarda-roupa. E eu diria que o inverso também pode valer, ou seja, se você quiser colocar sua vida “nos eixos”, comece por arrumar seu guarda-roupa. Foi por lá que comecei. Aos poucos virei quase uma profissional de “fazer limpas”. O mais difícil disso é que não é simplesmente pegar tudo e jogar fora, é preciso cautela para olhar coisa por coisa e dar uma destinação correta para cada uma.

Passei muitos meses me desfazendo de tudo e organizando a casa. Gaveta por gaveta, prateleira por prateleira, todas as pastas, os livros, os papéis, aliás muitos papéis. Aproveitei também para limpar meu carro, as bolsas e os bolsos. Estendi para minha vida virtual: álbum de fotos, folders, caixas de e-mail, contas em desuso. Cada canto da minha vida recebeu uma boa limpeza. Nesse período foi bom olhar para o coração, nele também é possível de se acumular mágoas, dores e muita carga extra que também precisam encontrar uma destinação correta.

Somos uma geração de acumuladores. Acho que nunca na história da humanidade o homem acumulou tanto. Nós acumulamos tudo. E não paramos de acumular nunca. E quando prestei mais atenção nisso pude entender como estamos vivendo em um mundo com tanta desordem. 

O meu processo se intensificou quando finalmente mudei para meu apartamento. Mudança de casa é algo que dá trabalho, porém renovador. Quando fiz a mudança me certifiquei de deixar algumas gavetas vazias na casa nova, porque era um pouco assim que me sentia, porque eu quero deixar espaço para o novo entrar.

Me mudei com o coração vazio, pois foi logo que meu pai faleceu e minha mãe foi morar com minha irmã em Manaus. Por ser uma  longa viagem, ela levou quase nada. E eu, que havia acabado de organizar a minha bagunça, me vi novamente cercada de coisas. E não era pouca coisa ou coisas sem importância. Era toda a vida material da minha mãe. Tudo que ela acumulou estava em minhas mãos. Meu pai sempre me dizia para que eu doasse duas peças de roupa para cada uma que comprasse. Ele era um cara extremamente econômico e organizado. Ainda assim, a gente acumula coisas. E agora que ele se foi, minha mãe se foi, restou tudo que eles acumularam em minhas mãos.

O problema do que acumulamos não são as bugigangas em si, essas são até fácil de dar destinação, o complexo nos acúmulos são as lembranças que ficam impressas em cada objeto, isso faz com que algumas coisas tenham valor difícil de mensurar. É mesmo um processo dolorido esse de fazer limpas, é como se eu estivesse a desempoeirar o passado, a reviver cada memória, toda nossa história. E no caso das coisas deles, quanta história que ficou impressa e que eu sozinha não saberei contar.

É fácil doar os utensílios domésticos e as roupas de cama, mas é difícil encaixotar algumas coisas, como os antigos álbuns de fotos. Consegui dar destinação para muitas miudezas, mas ainda não sei o que fazer com os dentes de leite que meu pai guardou em um potinho de filme etiquetado com o nome de cada filho. Rasguei muitos papéis, mas me detive ao encontrar por entre as coisas dele a passagem da minha primeira viagem internacional em vôo solo.

E por ser algo assim tão minucioso, levei quase dois meses só para esvaziar o apartamento da minha mãe (e ainda não consegui organizar as coisas do meu pai). Hoje finalmente consegui tirar as últimas caixas de lá. Meu coração ficou pequeno e não contive as lágrimas diante daquele apartamento vazio, mas que guarda tanta memória.

No ano em que nasci, meu pai comprou em minha homenagem um quadro chamado “Tatiana na janela”. Sempre gostei muito dele. O nome do quadro é bem literal: uma menina de costas olhando pela janela. Cresci olhando para ele e imaginando o que a menina Tatiana estava contemplando daquela janela. Quando meus pais se separaram o quadro ficou para minha mãe. Hoje ele virou meu. E agora pendurei-o na parede do meu quarto que é para acordar todos os dias e contemplar o mundo através da janela de Tatiana; e lembrar sempre que, apesar da pintura me agradar muito, a vida é mesmo feita de momentos e memórias e que as melhores coisas da vida, de fato, não são coisas.

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ReLOVution

REVOLUTION-CAPA

“Pessoalmente, desejo que o século XXI seja chamado de “século do amor”, porque necessitamos desesperadamente de amor, o tipo de amor que não produz sofrimento. Se não tivermos suficiente bondade e compaixão, não seremos capazes de sobreviver enquanto planeta. Há um Buda que supostamente nascerá para nós chamado Maitreya ou Bondade Amorosa, o Buda do Amor. Cada um de nós é uma célula no corpo do Buda do Amor.”

Thich Nhat Hanh no livro Eu Busco Refúgio na Sangha – um caminho espiritual

O século XXI segundo o monge budista Thich Nhat Hanh será marcado pela busca espiritual. Segundo ele, o século XX que foi marcado pelo individualismo, violência, confusão e medo, e nós temos uma grande missão para esse novo século: trazer consciência e atenção para nossas escolhas e atos, fazer com o coração. E é no coração que mora o remédio para salvar o mundo que está em um sentimento bem simples, mas que engloba uma complexidade enorme em si, o amor.

Se quisermos mesmo viver em um mundo melhor precisamos também com urgência, ressignificar o amor. O amor ou afeto, como dizem os psicólogos, é um dos sentimentos primordiais do ser humano, é instintivo, assim como todos os outros seres do planeta, nascemos programados para amar, isso está em nosso DNA. Mas o amor de hoje não é o mesmo que Jesus pregava, que o budismo se refere, o amor de Eros na mitologia Grega. Esse amor (juntamente com muitas outras palavras) é erroneamente confundido com outros sentimentos, e tornou-se tudo, menos amor.

O amor é um sentimento inerente ao ser humano, um bebê já nasce instintivamente amando e buscando a face da mãe, e sem nunca antes tê-la visto, ele já sabe reconhecê-la. Darwin quando escreveu a “Descendência do Homem” mencionou duas vezes a sobrevivência do melhor e 95 vezes a palavra amor. Mas Darwin, assim como muitos outros, foi mal interpretado, ou melhor, interpretado para ser utilizado como instrumento de domínio. A religião também fez esse papel, a essência da palavra pregada por Jesus ou Maomé é de amor puro e cooperação, não é de punição, nem pecado, nem sofrimento, nem guerra.

Os contos, livros e filmes fizeram seu papel construindo o mito do amor romântico e, ao mesmo tempo que isso é belo e “feliz para sempre” na ficção, na vida real é um tanto utópico. A maneira como as sociedades foram se organizando e criando uma gama de polarizações ao longo dos séculos acabaram por condicionar o amor. Hoje em dia fatores como crenças, religião, cor da pele, traços culturais, opção sexual, posicionamento político, aparência física e dinheiro são condições para amar e ser amado.

E assim, por buscarmos algo tão utópico e condicionado, amar hoje pode gerar muito sofrimento criando pessoas angustiadas, ansiosas, inseguras, deprimidas, que se sentem rejeitadas. O sentimento de posse que permeia os relacionamentos “românticos” é uma espécie de “cereja do bolo” na receita de um relacionamento fadado a ruir. O século mudou, o estilo de vida mudou, o mundo está em profunda “ebulição”, as sociedades estão se reorganizando com uma rapidez absurda, as distâncias encurtaram, está mais do que na hora de inventarmos também uma nova maneira de amar.

Para trazer mudança nesse padrão, inicialmente precisamos reaprender a amar nossas crianças. Ensiná-las a amar. Uma criança que cresce sentindo-se rejeitada, sem amor e acolhimento, torna-se um adulto inseguro e dessensibilizado. Uma criança que cresce sem referências de amor autêntico, tem dificuldades para amar e muito medo, aprende logo cedo que amar é sofrer e recria esse padrão constantemente em sua vida e acredita que amor exige de sua parte muito esforço. Mas o amor mesmo vem de graça, sem grandes esforços e sem sofrimento, ele apenas é.

Também precisamos amar a nós mesmos, é um clichê que poucos realmente seguem, sim amar a si próprio, aprender a perdoar-se, a ser menos crítico e mais gentil com nossas imperfeições e a aprender a amá-las também. Depois que nós nos amamos tudo fica mais leve, também o amor pelo outro fica mais leve. Quando entendemos que todos nós somos passíveis de sermos amados e merecedores de receber amor de graça pelo (muito) que somos, todos os relacionamentos se tornam mais leves. Antes de amar o outro, é preciso que também nos tornemos pessoas mais fáceis de serem amadas.

Nesse contexto atual, drenamos do amor o seu elemento primordial e que o torna tão especial: a liberdade. A liberdade de apenas ser, a liberdade de escolher, a liberdade de fluxo e movimento, a liberdade de viver livre de sofrimentos e apegos. Sim, o amor é a lei maior, o remédio para todos os nossos males e só ele pode salvar o mundo, mas antes que o amor possa revolucionar o mundo, precisamos ainda revolucionar o amor.