A vida ensina!

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Minha mãe não era de proferir ensinamentos e ditados como meu pai fazia, mas ela sempre repetia “a vida ensina”. Desde cedo eu lia muito, quando jovem possuía grandes e belas ideologias, queria e ainda quero um mundo melhor. Aos 18 anos lia pensadores densos como Marx e Hegel, prestei Filosofia na UFPR, era fã incondicional de Chico Buarque, na parede do meu quarto pendurei um pôster com a foto do Che que a tia de uma amiga trouxe para mim diretamente de Cuba, tamanha era minha paixão por sua luta. Fui presidente do Centro Acadêmico na Faculdade de Turismo na PUC e como presidente também fazia parte do DCE (Diretório Central de Estudantes) e participei de muitas votações e reuniões, na época sentamos com o reitor para debater contra o aumento das mensalidades. Ganhamos a causa.

Por tudo isso eu era uma jovem muito efusiva nas minhas crenças e ideologias, e na verdade acho que o papel do jovem é esse mesmo, trazer essa sede de mudança que encontramos nas grandes utopias. Enquanto jovem, tinha convicção das minhas lutas, me sentia politizada e achava que sabia tudo. Pensava que com a ajuda dos livros havia encontrado respostas para muitas das minhas perguntas. Dai veio a vida. Veio a vida e mudou todas as respostas e, junto com elas, as regras do “jogo”. Hoje entendo muito bem o que minha mãe queria dizer quando repetia continuamente como se fosse uma espécie de “punição” contra meus posicionamentos: a vida ensina.

Sim, ela ensina. O tempo e os anos de vida nos trazem uma sabedoria que não se encontra nos livros. Nenhum conhecimento é maior do que o conhecimento de causa daquilo que aprendemos “na pele”. É isso que faz uma pessoa de certa idade sábia, independente de letramento. E é essa sabedoria que me interessa. Hoje eu não troco ela pelo que acreditava saber quando tinha vinte e poucos anos.

A vida me colocou em contato com o socialismo da realidade e não dos livros. Passei quatro meses em trabalho voluntário em um Kibbutz em Israel e descobri que o socialismo na prática não funciona. Daí veio o que considero a sabedoria da vida, aprendi a pegar o que acredito e me serve da prática dele e deixar de lado o que existe nos livros. Os jovens dos Kibbutz em Israel também entenderam isso e criaram os “Moshav”, que é uma versão bem melhorada do sistema do Kibbutz. Depois fui levando esse mesmo “molde” de aprendizado para muitas outras ideologias. Um dia me desfiz do quadro do Che. 

A vida também me ensinou sobre hipocrisia, porque ela mesma se encarregou de me transformar em hipócrita. Muito do que você acredita e quer para o mundo cai por terra quando você é confrontado com situações bem controversas. 

A vida ensina. E, apesar de ainda ser jovem, já aprendi muita coisa. Aprendi com a vida sobre prudência, e a medir a altura do tombo; sobre a importância de cercar-me de boas companhias; sobre escolher de quais abismos devo me atirar e quais batalhas valem a pena travar; que ser feliz muitas vezes é melhor do que estar certo. Aprendi que meu corpo é sagrado e por isso não vou usá-lo para declarar “guerra” contra sistema algum, quero me preservar, quero tratá-lo com cuidado e gentileza. Autopreservação é de fato algo muito importante, por isso quero me proteger de pessoas e ambientes que considero hostis.

Aprendi que não tenho controle algum sobre como o outro vai me enxergar ou me receber, cada um me enxerga da maneira que quiser e não como eu acho que ele tem que me enxergar. Aliás, ninguém “tem que” nada. O que posso é escolher o que aceitar e o que deixar ir. A vida também me ensinou que muitos conflitos surgem da expectativa que tenho sobre o outro e que não é atendida. Então aprendi a esperar e cobrar menos dos outros. Aprendi sobre a importância que meus pais exercem em minha vida e a honrá-los com todo meu coração, independente das divergências e de como eles me criaram, porque a vida sem eles é muito mais dura.

Aprendi que na prática a teoria é outra; aprendi a gostar e entender de clichês, e sobre a importância de respeitar essa sabedoria de vida que só quem viveu tem. Portanto é importante respeitar os mais velhos pelo simples fato de que eles viveram mais do que eu, não importa a diferença de idade. Aprendi a tomar cuidado com radicalismos e aprender a duvidar de minhas convicções, as convicções podem nos tornar burros. Aprendi muito sobre levar as coisas menos a sério e a deixar para lá.

E essa é a grande sabedoria da vida: os aprendizados que vamos colecionando pelo caminho que são trazidos pelos anos vividos, na maioria das vezes a duras penas; o “conhecimento de causa” que vamos incorporando aos nossos discursos; essas marcas e cicatrizes na pele e no coração que não nos deixam esquecer importantes lições; os ensinamentos que nos convidam a ressignificar nossas ideologias, a rever conceitos, a mudar de opinião. Essa sabedoria talvez te faça parecer prepotente ou arrogante ao olhar de algumas pessoas, mas a vida também ensina a ficar em paz com os conflitos.

Fecho esse (longo) texto com as palavras de um sábio escritor que aprendeu muito com a vida, Eduardo Galeano:

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

You don´t have to try so hard

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A rádio toca a música “Try” da cantora pop americana Colbie Caillat e me faz pensar sobre o papel do esforço nos relacionamentos interpessoais (de todos os tipos). Eu, como muita gente que conheço, já me vi fazendo muito esforço para que algumas pessoas gostassem de mim. Era um comportamento tão recorrente que o revisitei algumas vezes em consultório.

Encontrei muita coisa na raiz desse meu “esforço”, algumas causas são bem pessoais, outras são mais generalizadas. Acho que o principal ponto é que é difícil lidar com a rejeição, ninguém gosta de sentir-se rejeitado. Nós, enquanto seres humanos e sociais que somos, precisamos de conexão para viver tanto quanto precisamos de ar, é puro instinto de sobrevivência. É inerente ao ser humano esse desejo de pertencimento. Nós queremos fazer parte de algo maior que nosso próprio umbigo, desejamos fazer parte de um grupo, sempre. Portanto, é de nossa natureza buscar isso em (quase) todos os encontros que a vida nos proporciona. Mas, nem sempre essa conexão acontece da maneira como desejamos e quando isso acontece  nos vemos inundados de sentimentos como frustração e rejeição que são de fato extremamente desconfortáveis. Então em uma nobre tentativa de evitar esse sentimento, nos esforçamos.

Eu tenho uma personalidade expansiva e ao longo da vida consegui fazer boas conexões com os outros, me considero uma pessoa de muitos e bons amigos. Comunicativa e alegre, sempre transitei bem por entre as diversas “tribos”. Na formatura do primeiro grau subi ao palco para receber o troféu de “mais alto astral” da turma. Na formatura da faculdade subi novamente ao palco para fazer o discurso em homenagem aos colegas. Eu sempre fui boa em fazer amigos. Por isso, não me acostumei a lidar com frequência com esse sentimento de rejeição, mesmo assim ele já existiu, em diversos momentos, por motivos, que às vezes soube identificar, outras não.  Se nem sempre consigo identificar o que gera tal desconexão, o que sei afirmar com certeza é que ele é muito frustrante.

Acredito que a questão do esforço seja meio confusa para nós porque somos uma sociedade que cultiva demasiadamente um sistema de meritocracia. Enquanto na própria escola, desde muito cedo, somos ensinados que se nos esforçarmos bastante conseguiremos um bom emprego e teremos muito sucesso, infelizmente (ou felizmente) nos relacionamentos não é bem assim que funciona. Não existe sistema de meritocracia para o coração ou pelo menos, não deveria existir. Repare a natureza, nada nela acontece através de esforço. É tudo muito orgânico. 

A verdade é que nem sempre conseguimos explicar porque gostamos ou não de alguém. Mas, independente disso, os melhores relacionamentos são provenientes de encontros que são fluídos, acontecem sem esforço algum. Um bom relacionamento é aquele que vem de graça, sem dívidas ou fiados, onde existe um certo equilíbrio entre o dar e receber.

Com um olhar mais atento, passei a perceber um comportamento manipulador por trás dessa máscara de “muito legal”. A pessoa que está sempre querendo agradar os outros, fazendo esforço, sendo muito prestativa, boazinha ou legal é também muito manipuladora. Geralmente são pessoas inseguras que têm muito medo da rejeição. Compreensível. Mas, são manipuladoras no sentido que, de tanto esforço feito, é privado do outro o direito de simplesmente não gostar de tal pessoa ou não querer conexão com ela. E quando, mesmo com esforço, a conexão não acontece, o vilão sempre é o outro, afinal “depois de tudo que eu fiz por/para você?”. Geralmente o outro não pediu que fosse feito nada por/para ele, mas ele leva a culpa e a má fama mesmo assim.

Hoje, como conheço essa máscara consigo ficar mais atenta, quando vejo que estou me esforçando muito para que o outro me “enxergue” eu simplesmente paro tudo. É um direito do outro não querer abrir esse canal para conectar-se comigo. Independente de qual seja o motivo. E eu preciso aprender a lidar com esse sentimento de frustração da melhor maneira possível, pois é a maior prova de respeito que posso dar para o outro (e para mim): o direito que ele tem de não querer conexão comigo. Ponto final.

E quando isso acontece é importante também não levar para o lado pessoal. Para isso também preciso deixar de lado o ego e aprender a me dar menos importância. Nem tudo está relacionado à minha pessoa, nem sempre foi algo que eu fiz, nem sempre o problema sou eu, às vezes é o outro. Na verdade existem ene motivos que podem levar uma pessoa à não querer fazer tal conexão comigo. E é perda de energia preciosa e tempo viver de achismos ou deduções, mas o que posso fazer para preservar a minha alma e meu coração nesse processo tão frustrante, é saber identificar quando estou recebendo nada ou muito pouco e quando é a hora de parar de tentar. Simplesmente parar de me esforçar e deixar estar. Deixar livre, deixar ir.

You don´t have to try so hard.

Escute a música aqui

A morte é o assunto mais importante da vida

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche

Quando meu pai me contou que havia sido diagnosticado com câncer, a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi: “fodeu!”(perdoem a palavra, não encontrei sinônimos à sua altura). Em seguida fui tomada por um sentimento, que até então não conhecia, uma tolice extrema que me trouxe muita frustração. Como nunca havia pensado que meu pai morreria um dia?

Não me considero uma pessoa super inteligente, mas achava que já conhecia todas as minhas “burrices”, geralmente as confrontava nos cálculos complexos das aulas de Matemática ou de Física. Eu nunca fui boa em calcular nada. Mas essas eram burrices que eu já sabia identificar e estava acostumava a lidar, essa frustração já me era familiar. Mas, se sou “burra” para matemática, emocionalmente me sentia um pouco mais inteligente, por isso, quando soube do diagnóstico do meu pai fui acometida por um sentimento de burrice emocional que não me era familiar e confesso que foi muito difícil lidar com toda essa frustração.

A doença do meu pai me trouxe uma sensação de analfabetismo emocional profundo, me senti tola, arrogante, entrei em contato com a imensa desconexão que existia em mim de processos tão naturais e importantes da vida, como a morte. Sim, já havia perdido avós e tios, a morte todos nós sabemos o que é, mas atualmente ela foi tão banalizada que provocou desconexão. Então, mesmo conhecendo a morte, considero que andava pela vida totalmente desatenta do fato de que a vida é de fato finita, de que somos tão insignificantes diante da morte, percebi que entendia muito pouco sobre perspectiva.

Claro que em se tratando do meu pai, algumas coisas contribuíram para tamanha desconexão, ele era um cara que falava de bem estar o tempo todo e fazia tudo conforme o protocolo. Meu pai era um “bon vivant” no melhor sentido da palavra e levava sua saúde e bem estar à sério. O diagnóstico dele contrariou todas as recomendações médicas para longevidade. Antes disso eu nunca tinha visto meu pai ficar doente ou tomar algum tipo de remédio.

Depois do dia em que ele mencionou as palavras “câncer” e “raro”, passei dias à fio dormindo e acordando com esse sentimento tão frustrante que resolvi chamar pelo nome: burrice. Uma ingenuidade muito diferente da inocência bonita que possuem as crianças, uma tolice aguda. Com o tempo fui absorvendo e aprendendo a lidar com essa frustração, comecei a buscar as raízes dessa desconexão e foi então que descobri que não estava sozinha.

O fato de saber que não estava sozinha em meu analfabetismo não me trouxe algum tipo de consolo, muito pelo contrário, contribuiu para que eu me sentisse ainda pior. Eu já sabia que a burrice isolada (no caso em mim) seria muito mais fácil de tratar, o maior problema da humanidade está nas burrices generalizadas.

Enquanto passei a ficar mais atenta entendi que a situação era mais grave do que eu pensava. De alguma maneira a medicina, a ciência e também as religiões se encarregaram de nos afastar de processos tão essenciais como a morte e isso é muito perigoso. Eu já havia entrado em contato com isso olhando para o nascimento, na maneira fria como os partos atualmente são conduzidos, mas curiosamente nunca tinha pensado o mesmo sobre a morte.

Foi no Zen Budismo que encontrei algum tipo de consolo para essa minha “solidão”, o tempo da prática de Zazen se inicia e encerra com uma batida seca na madeira e uma voz dura que nos alerta: “O assunto mais importante da vida é a morte”. As práticas de Zazen (40 minutos de meditação sentada) me trouxeram mais serenidade e sabedoria para enfrentar a morte do meu pai e posteriormente do meu avô.

Hoje tenho feridas e mágoas muito profundas sobre a maneira como o tratamento do meu pai foi conduzido, para com a forma como a medicina se aproximou das máquinas e se afastou do ser humano. A morte é o assunto mais importante da vida e, no entanto, nos falta bom senso e coragem para falar sobre ela.

Conforme o tempo passava e a doença ganhava força, eu ficava mais incrédula com a maneira como a possibilidade tão real da morte (não) era abordada. Testemunhei incrédula e me sentindo impotente verdadeiras “atrocidades” durante o processo todo em que estive em contato direto com os profissionais da saúde. Ninguém falava de morte. E se os profissionais da saúde não sabem falar de morte, quem saberia? Me dei conta de que existe uma profunda desconexão nesse tema, muita hipocrisia e um grande despreparo para lidar com algo tão importante como a morte.

Um olhar mais atento e descobri que os médicos e enfermeiros não estão sozinhos, acho que os religiosos lideram o topo da pirâmide. Talvez seja por isso que tenhamos nos desconectado ao longo dos séculos. As religiões ocidentais, muito diferentemente das orientais, separaram a morte da vida, nos levando à um apego excessivo para com a vida. A morte virou tabu. As pessoas nas Igrejas rezam pela cura, todo mundo fala em milagre e cura, ninguém menciona a morte.

O que sei hoje é que “Deus está com você” não consola ninguém na hora da morte e “Deus vai te curar!” menos ainda. Então por favor não me peçam para colocar minha vida nas mãos de ninguém, nem de Deus. Quase dois meses de hospital e os padres e freiras visitavam todos os dias, todos prometiam a cura através da vontade de Deus, ninguém falou em morte. E eu ficava cada vez mais sem esperança na humanidade diante de tudo que estava vivendo. “A morte é o assunto mais importante da vida!”. E não existe verdade ao falar sobre ela.

Eu sei, é certo, ninguém quer morrer, nosso DNA é programado para lutar pela vida, nenhum ser vivo deseja morrer. Não é natural aceitar a morte de maneira passiva. Ninguém deseja morrer. Nem uma célula de câncer deseja morrer. Nem quem acredita no paraíso quer morrer para chegar nele. E qualquer pessoa, independente de credo ou religião, sofre ao perder alguém que ama. Isso é certo. Mas, mais certo que isso, é o fato de que ninguém sobrevive à morte. A morte é sagrada. O assunto da morte precisa ser abordado, com cuidado e respeito.

Mas, parece que esquecemos da morte. E fazemos questão de esquecer que, independente de como, a morte chega para todos. Ninguém deveria desejar viver eternamente. A finitude da vida é de fato a sua maior invenção. Ela nos permite apreciar a vida de uma maneira única, mas insistimos em fazer “vistas grossas”.

É a finitude da vida que nos faz celebrá-la todos os dias. Hoje sei que das lições que a morte me ensinou e não quero esquecê-las. E sei que cada ser é único, portanto quando me deparar com a morte novamente, sei que ela me despertará milhares de novos sentimentos que novamente me convidarão à viver esse sentimento tão estranho que é a frustração. Mas fiz com a morte um acordo, independente de quanto tempo leve para a gente se cruzar novamente, hoje tenho profundo respeito que por ela e ao menos ela não me pegará mais tão desavisada. Hoje ela já me é familiar e por isso me esforço para viver cada dia como se fosse o último, pois um dia certamente será.

“Não existe nada radicalmente errado em adoecer ou morrer. Quem te disse que iríamos sobreviver? Quem te deu a impressão que iríamos continuar eternamente vivos? E não podemos dizer que seria bom se seguíssemos vivendo pela simples demonstração de que se seguíssemos vivos nós nos “superpopularíamos”. Portanto, quando alguém morre é de fato honrável, pois ele está abrindo espaço para os outros. Se pudéssemos indefinidamente adiar nossa morte, nós não iríamos prolongá-la indefinidamente porque em algum momento nos daríamos conta de que não seria essa a maneira como gostaríamos de sobreviver. Para que mais teríamos filhos? As crianças nos dão a chance de sobreviver de maneira distinta, como se estivéssemos passando a tocha, para que não precisemos carregá-la eternamente. Há certo momento em que precisamos parar e dizer: “agora é a sua vez de trabalhar”. É o arranjo mais impressionante da natureza, nos permitir perpetuar nossas vidas através de outros seres e não somente através de nós mesmos. Porque a vida em si é renovada e através desse novo indivíduo e através da maneira como cada novo ser descobre a vida, nos recordamos de como é fascinante olhar as coisas simples da vida através do olhar de uma criança. Porque elas enxergam tudo de uma maneira que não está relacionada à sobrevivência e ganho. Quando atingimos um ponto em nossas vidas onde passamos a olhar para tudo como modo de sobrevivência ou ganho, então as formas e os arranhados do caminho deixam de conter magia em si. Então, quando isso se esgota e não conseguimos mais ver magia no mundo, nós não estamos mais preenchendo os propósitos do jogo da natureza e, portanto, ela segue seu curso. Dessa forma, morremos para abrir espaço para o novo; que traz em si uma maneira única e renovada de enxergar o mundo, para que a natureza seja sempre um jogo no qual manter a chama acesa sempre valerá a pena.” Alan Watts

Ensaios sobre a calma

Eu não fui uma criança tranquila, da minha infância tenho algumas recordações marcantes de como eu era curiosa. Lembro-me bem de como enchia meu pai de perguntas.

Meu pai às vezes perdia a paciência, minha irmã se irritava “pare de ser tão curiosa!”, um conselho praticamente impossível de se seguir, ainda mais quando se é criança. Eu queria saber e entender de tudo! Com o tempo aprendi a buscar as respostas sozinha. Nessa ânsia para encontrá-las, desmontava e remontava brinquedos, virava horas montando quebra-cabeças, devorava livros e, com os olhos grandes e redondos que herdei de minha mãe, observava tudo com muita atenção.

Minha curiosidade cresceu junto com uma grande inquietação, o que sempre me movia a buscar mais e mais. Eu não acho que ser curiosa é algo ruim, pelo contrário, mas minha curiosidade rapidamente aliou-se à muita ansiedade. No intuito de saciar toda aquela energia, meus pais me mantinham sempre ocupada. Eu nadava e competia desde cedo,  jazz, sapateado e inglês. 

Eu sempre tive pressa, é ao contrário de mim, meu pai sempre foi um homem calmo. Os nossos tempos eram descompassados e ficaram ainda mais no seu último ano de vida. Ele se incomodava com a minha personalidade enérgica, falante e rápida. Eu lembro que entrava na casa dele falando e gesticulando sem parar e ele me pedia calma. Da mesma maneira com que ele sempre (em vão) me pedia para comer mais devagar. 

Foi desassossegadamente que caminhei pela vida durante anos e de certa maneira sou grata à isso, pois a pressa me fez continuar sempre, me trouxe muito conhecimento, me fez alcançar objetivos diversos e buscar sempre o novo: uma nova maneira de olhar o mundo, de me relacionar, de encarar a vida. Mas com essa pressa toda era impossível parar para absorver e digerir tudo que eu vivia.

A doença do meu pai me trouxe profundas reflexões sobre a calma. Tinha dias que eu o observava, sentado, lendo, emagrecido, sem sair de casa e com um semblante tranquilo, parecia que era com a mesma calma que a vida lhe escorria pelos dedos. Eu tentava entender como era viver nesse tempo dele, que estava tão descompassado do meu. Quando eu perguntava para ele sobre o tempo, ele me dizia sobre a importância de ser paciente e de como as horas passavam de maneira diferente para os atarefados e para quem tinha tempo de sobra. E o que eu queria mesmo era parar o tempo.

E de tudo que ele dizia, ele me pedia calma. Muitas das nossas discussões eram em torno disso. “Calma, minha filha, você é muito rápida, calma, coma devagar”. O que ele não entendia é que eu não tinha calma porque a doença dele me deixava com muita pressa. Era difícil de vencer os dias pensando em tudo que eu tinha para dizer e queria dizer para ele e pensando se seria suficiente, será que não surgiriam novos assuntos? Com pressa, eu tentava falar mais rápido para caber tudo naquele curto espaço de tempo que nos restava e antecipar todos os assuntos e dúvidas que viessem um dia a surgir. Tinha tanta coisa que eu queria falar e ouvir. Tantas perguntas que sei que ficariam sem respostas. Então, com pressa, eu tentava prever todos os assuntos do futuro e queria acelerar o passo para que pudesse viver mais coisas e compartilhar com ele o máximo possível da minha vida. Não tem como ter calma quando seus dias com a pessoa mais importante da sua vida estão contados.

Em dezembro de 2014 senti que essa pressa toda me pesava na alma, me dei conta de que vinha carregando em minha bagagem muito peso extra e então resolvi olhar com calma para esse sentimento de cansaço que se apresentava. Senti um cansaço de alma. Assim, antes de terminar o ano, sentei-me à beira do mar e sob a luz do sol poente fiz uma lista de tudo que me pesava. Finalmente era hora de aprender sobre a calma.

E os meses seguintes me trouxeram esse aprendizado. Meu pai ficou quase dois (longos) meses internado e todos os dias eu ia para o hospital e me sentava ao seu lado, lá passava horas calada e imóvel. Já não havia espaço para palavras. Era inútil falar sobre qualquer assunto, era inútil ter pressa. Pois nada, nenhum assunto tem importância diante da morte. Então é preciso parar, é preciso ter calma.

O tempo no hospital, como meu pai mesmo havia me dito, passava diferente de como eu estava acostumada. O tempo da despedida é um tempo também descompassado, onde o futuro se desvanece, onde o passado fica borrado em meio às lágrimas e onde cada batida traz a dura certeza de que somos pequenos e insignificantes diante da infinitude do Universo e da finitude da vida; a certeza de que nem toda a curiosidade do mundo, nem toda a pressa, nem todos os brinquedos que desmontei, nem os quebra-cabeças que montei ou os livros que li, nem os lugares por onde andei, nada disso me serviu quando tive que sentar ao lado de meu pai, segurar-lhe a mão já fria e pacientemente contemplar a vida que, agora com pressa, lhe esvaia junto às batidas rápidas dos ponteiros do relógio, meu coração estava tranquilo.

Durante o tempo que meu pai esteve internado, aprendi que a pressa não me servia, a vida deve ser pacientemente degustada. Aprendi também que muitas perguntas ficam mesmo sem respostas, não dá para questionar a morte. A morte não responde à nenhum “Por quê?” ou “Como?”. Naquele momento, na despedida final, permaneci calma ao seu lado, nossos corações finalmente pareciam ter acertado o compasso era como se o tempo tivesse parado e lá no fundo eu ainda podia ouvir a voz de meu pai que para sempre me pedia: “- tenha calma, minha filha!”

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