A morte é o assunto mais importante da vida

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche

Quando meu pai me contou que havia sido diagnosticado com câncer, a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi: “fodeu!”(perdoem a palavra, não encontrei sinônimos à sua altura). Em seguida fui tomada por um sentimento, que até então não conhecia, uma tolice extrema que me trouxe muita frustração. Como nunca havia pensado que meu pai morreria um dia?

Não me considero uma pessoa super inteligente, mas achava que já conhecia todas as minhas “burrices”, geralmente as confrontava nos cálculos complexos das aulas de Matemática ou de Física. Eu nunca fui boa em calcular nada. Mas essas eram burrices que eu já sabia identificar e estava acostumava a lidar, essa frustração já me era familiar. Mas, se sou “burra” para matemática, emocionalmente me sentia um pouco mais inteligente, por isso, quando soube do diagnóstico do meu pai fui acometida por um sentimento de burrice emocional que não me era familiar e confesso que foi muito difícil lidar com toda essa frustração.

A doença do meu pai me trouxe uma sensação de analfabetismo emocional profundo, me senti tola, arrogante, entrei em contato com a imensa desconexão que existia em mim de processos tão naturais e importantes da vida, como a morte. Sim, já havia perdido avós e tios, a morte todos nós sabemos o que é, mas atualmente ela foi tão banalizada que provocou desconexão. Então, mesmo conhecendo a morte, considero que andava pela vida totalmente desatenta do fato de que a vida é de fato finita, de que somos tão insignificantes diante da morte, percebi que entendia muito pouco sobre perspectiva.

Claro que em se tratando do meu pai, algumas coisas contribuíram para tamanha desconexão, ele era um cara que falava de bem estar o tempo todo e fazia tudo conforme o protocolo. Meu pai era um “bon vivant” no melhor sentido da palavra e levava sua saúde e bem estar à sério. O diagnóstico dele contrariou todas as recomendações médicas para longevidade. Antes disso eu nunca tinha visto meu pai ficar doente ou tomar algum tipo de remédio.

Depois do dia em que ele mencionou as palavras “câncer” e “raro”, passei dias à fio dormindo e acordando com esse sentimento tão frustrante que resolvi chamar pelo nome: burrice. Uma ingenuidade muito diferente da inocência bonita que possuem as crianças, uma tolice aguda. Com o tempo fui absorvendo e aprendendo a lidar com essa frustração, comecei a buscar as raízes dessa desconexão e foi então que descobri que não estava sozinha.

O fato de saber que não estava sozinha em meu analfabetismo não me trouxe algum tipo de consolo, muito pelo contrário, contribuiu para que eu me sentisse ainda pior. Eu já sabia que a burrice isolada (no caso em mim) seria muito mais fácil de tratar, o maior problema da humanidade está nas burrices generalizadas.

Enquanto passei a ficar mais atenta entendi que a situação era mais grave do que eu pensava. De alguma maneira a medicina, a ciência e também as religiões se encarregaram de nos afastar de processos tão essenciais como a morte e isso é muito perigoso. Eu já havia entrado em contato com isso olhando para o nascimento, na maneira fria como os partos atualmente são conduzidos, mas curiosamente nunca tinha pensado o mesmo sobre a morte.

Foi no Zen Budismo que encontrei algum tipo de consolo para essa minha “solidão”, o tempo da prática de Zazen se inicia e encerra com uma batida seca na madeira e uma voz dura que nos alerta: “O assunto mais importante da vida é a morte”. As práticas de Zazen (40 minutos de meditação sentada) me trouxeram mais serenidade e sabedoria para enfrentar a morte do meu pai e posteriormente do meu avô.

Hoje tenho feridas e mágoas muito profundas sobre a maneira como o tratamento do meu pai foi conduzido, para com a forma como a medicina se aproximou das máquinas e se afastou do ser humano. A morte é o assunto mais importante da vida e, no entanto, nos falta bom senso e coragem para falar sobre ela.

Conforme o tempo passava e a doença ganhava força, eu ficava mais incrédula com a maneira como a possibilidade tão real da morte (não) era abordada. Testemunhei incrédula e me sentindo impotente verdadeiras “atrocidades” durante o processo todo em que estive em contato direto com os profissionais da saúde. Ninguém falava de morte. E se os profissionais da saúde não sabem falar de morte, quem saberia? Me dei conta de que existe uma profunda desconexão nesse tema, muita hipocrisia e um grande despreparo para lidar com algo tão importante como a morte.

Um olhar mais atento e descobri que os médicos e enfermeiros não estão sozinhos, acho que os religiosos lideram o topo da pirâmide. Talvez seja por isso que tenhamos nos desconectado ao longo dos séculos. As religiões ocidentais, muito diferentemente das orientais, separaram a morte da vida, nos levando à um apego excessivo para com a vida. A morte virou tabu. As pessoas nas Igrejas rezam pela cura, todo mundo fala em milagre e cura, ninguém menciona a morte.

O que sei hoje é que “Deus está com você” não consola ninguém na hora da morte e “Deus vai te curar!” menos ainda. Então por favor não me peçam para colocar minha vida nas mãos de ninguém, nem de Deus. Quase dois meses de hospital e os padres e freiras visitavam todos os dias, todos prometiam a cura através da vontade de Deus, ninguém falou em morte. E eu ficava cada vez mais sem esperança na humanidade diante de tudo que estava vivendo. “A morte é o assunto mais importante da vida!”. E não existe verdade ao falar sobre ela.

Eu sei, é certo, ninguém quer morrer, nosso DNA é programado para lutar pela vida, nenhum ser vivo deseja morrer. Não é natural aceitar a morte de maneira passiva. Ninguém deseja morrer. Nem uma célula de câncer deseja morrer. Nem quem acredita no paraíso quer morrer para chegar nele. E qualquer pessoa, independente de credo ou religião, sofre ao perder alguém que ama. Isso é certo. Mas, mais certo que isso, é o fato de que ninguém sobrevive à morte. A morte é sagrada. O assunto da morte precisa ser abordado, com cuidado e respeito.

Mas, parece que esquecemos da morte. E fazemos questão de esquecer que, independente de como, a morte chega para todos. Ninguém deveria desejar viver eternamente. A finitude da vida é de fato a sua maior invenção. Ela nos permite apreciar a vida de uma maneira única, mas insistimos em fazer “vistas grossas”.

É a finitude da vida que nos faz celebrá-la todos os dias. Hoje sei que das lições que a morte me ensinou e não quero esquecê-las. E sei que cada ser é único, portanto quando me deparar com a morte novamente, sei que ela me despertará milhares de novos sentimentos que novamente me convidarão à viver esse sentimento tão estranho que é a frustração. Mas fiz com a morte um acordo, independente de quanto tempo leve para a gente se cruzar novamente, hoje tenho profundo respeito que por ela e ao menos ela não me pegará mais tão desavisada. Hoje ela já me é familiar e por isso me esforço para viver cada dia como se fosse o último, pois um dia certamente será.

“Não existe nada radicalmente errado em adoecer ou morrer. Quem te disse que iríamos sobreviver? Quem te deu a impressão que iríamos continuar eternamente vivos? E não podemos dizer que seria bom se seguíssemos vivendo pela simples demonstração de que se seguíssemos vivos nós nos “superpopularíamos”. Portanto, quando alguém morre é de fato honrável, pois ele está abrindo espaço para os outros. Se pudéssemos indefinidamente adiar nossa morte, nós não iríamos prolongá-la indefinidamente porque em algum momento nos daríamos conta de que não seria essa a maneira como gostaríamos de sobreviver. Para que mais teríamos filhos? As crianças nos dão a chance de sobreviver de maneira distinta, como se estivéssemos passando a tocha, para que não precisemos carregá-la eternamente. Há certo momento em que precisamos parar e dizer: “agora é a sua vez de trabalhar”. É o arranjo mais impressionante da natureza, nos permitir perpetuar nossas vidas através de outros seres e não somente através de nós mesmos. Porque a vida em si é renovada e através desse novo indivíduo e através da maneira como cada novo ser descobre a vida, nos recordamos de como é fascinante olhar as coisas simples da vida através do olhar de uma criança. Porque elas enxergam tudo de uma maneira que não está relacionada à sobrevivência e ganho. Quando atingimos um ponto em nossas vidas onde passamos a olhar para tudo como modo de sobrevivência ou ganho, então as formas e os arranhados do caminho deixam de conter magia em si. Então, quando isso se esgota e não conseguimos mais ver magia no mundo, nós não estamos mais preenchendo os propósitos do jogo da natureza e, portanto, ela segue seu curso. Dessa forma, morremos para abrir espaço para o novo; que traz em si uma maneira única e renovada de enxergar o mundo, para que a natureza seja sempre um jogo no qual manter a chama acesa sempre valerá a pena.” Alan Watts

4 respostas em “A morte é o assunto mais importante da vida

    • Ola Miriam, em Curitiba você pode procurar a Comunidade Zen Budista na Praça do Japão, lá tem prática de Zazen todos os sábados as 19:30 para iniciantes e quintas e domingos para quem já conhece. A contribuição é espontânea. Se você estiver em outra cidade procure pela comunidade zen budista na sua cidade, as praticas acontecem em todas elas. Abraços

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  1. Beijo Tatiana! Gosto muito do que escreve, sinto coração nas pontas dos dedos que teclam e nos pensamentos que conduzem as mãos, dedos, teclas enfim. Concordo plenamente que nos separamos/distanciamos tanto da morte que é hoje um dos nossos grandes tabus! No geral, creio que estamos avançando em tratá-la como componente de nossa vida que é… já há hoje mais gente que outrora, cuidando dela com serenidade. Está a meu ver, muito ligada a nossa percepção e relação espiritual… como fomos distanciados dela… como ela ficou a cargo dos representantes religiosos… nos encontramos neste vácuo… que vc chama burrice… e por nos permitirmos ensurdecer e cegar à realidade, permitimos que atuem como bem querem (indústria médica, farmacológica, instrumental e maquinária… com o mercado ditando as regras). Passei por uma situação similar no início deste ano. Eu pensava como o seu amigo do face (não lembro o nome) que sabendo era melhor para conduzir o processo, e assim fui como emissária (de amigos e família) para conversar com uma amiga com câncer terminal… pois bem, ela me tranquilizou logo de cara me mostrando que sabia, e que estava preparada para viver e para morrer, seu único problema era não ter com quem conversar a respeito… conversamos, óbvio. E foi muito bom. Eu continuei com minha ideia de que saber era melhor. Neste mesmo tempo, apanhei uma dengue… pensei que fosse mal estar de fígado, alergia, cansaço do calor e da idade… jamais passou pela minha cabeça que fosse dengue! Tomei muito chá para o fígado e estômago. Apliquei muito reiki para as fortes dores de cabeça, tentando entender o que poderia ser, e me acalmar, serenar, e pedir a cada célula de meu corpo que se recompusesse, que tudo estava bem… Muito palo santo usei também, para retirar energias não qualificadas e pedindo proteção… Passou alguns dias, minha filha apresentou os mesmos sintomas e meu netinho também (estávamos todos no mesmo lugar). Tratamos todos com o mesmo descanso, chá, reiki, cristais, palo santo… Voltamos para casa muito bem… Tudo passou. Posteriormente soubemos que tínhamos estado com dengue… (o que pensava fosse alergia, os vasos que se arrebentaram que pensara ser do calor… eram pequenas hemorragias…) Então, fico pensando, e se soubéssemos ser dengue? Como teríamos agido? Não sei. Só sei que hoje não penso que deva saber inevitavelmente, nem penso que não deva saber. Creio que ao entendermos a morte como processo natural da vida, o máximo que podemos é pactuar em sofrer ou não, adoecer ou não… Eu não quero adoecer, nem sofrer, quero passar somente… calmamente, tranquilamente. E sei que assim será. Na medida em que nos percebemos parte deste todo imenso que aí está. Somos. E isto é tudo. E deixo-me, e deito-me na rede da árvore da vida, e permito-me receber as energias cósmicas e as energias terrestres. Nesta suave brisa vejo a LUZ, SOU LUZ. Beijo em seu coração.

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    • que comentário lindo Araci, demorei para responder porque queria responder com calma. Obrigada pelas contribuições, obrigada pelo carinho, é muito bom saber que não estou sozinha nessa jornada! Beijo grande!

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