A vida ensina!

you-live-you-learn

Minha mãe não era de proferir ensinamentos e ditados como meu pai fazia, mas ela sempre repetia “a vida ensina”. Desde cedo eu lia muito, quando jovem possuía grandes e belas ideologias, queria e ainda quero um mundo melhor. Aos 18 anos lia pensadores densos como Marx e Hegel, prestei Filosofia na UFPR, era fã incondicional de Chico Buarque, na parede do meu quarto pendurei um pôster com a foto do Che que a tia de uma amiga trouxe para mim diretamente de Cuba, tamanha era minha paixão por sua luta. Fui presidente do Centro Acadêmico na Faculdade de Turismo na PUC e como presidente também fazia parte do DCE (Diretório Central de Estudantes) e participei de muitas votações e reuniões, na época sentamos com o reitor para debater contra o aumento das mensalidades. Ganhamos a causa.

Por tudo isso eu era uma jovem muito efusiva nas minhas crenças e ideologias, e na verdade acho que o papel do jovem é esse mesmo, trazer essa sede de mudança que encontramos nas grandes utopias. Enquanto jovem, tinha convicção das minhas lutas, me sentia politizada e achava que sabia tudo. Pensava que com a ajuda dos livros havia encontrado respostas para muitas das minhas perguntas. Dai veio a vida. Veio a vida e mudou todas as respostas e, junto com elas, as regras do “jogo”. Hoje entendo muito bem o que minha mãe queria dizer quando repetia continuamente como se fosse uma espécie de “punição” contra meus posicionamentos: a vida ensina.

Sim, ela ensina. O tempo e os anos de vida nos trazem uma sabedoria que não se encontra nos livros. Nenhum conhecimento é maior do que o conhecimento de causa daquilo que aprendemos “na pele”. É isso que faz uma pessoa de certa idade sábia, independente de letramento. E é essa sabedoria que me interessa. Hoje eu não troco ela pelo que acreditava saber quando tinha vinte e poucos anos.

A vida me colocou em contato com o socialismo da realidade e não dos livros. Passei quatro meses em trabalho voluntário em um Kibbutz em Israel e descobri que o socialismo na prática não funciona. Daí veio o que considero a sabedoria da vida, aprendi a pegar o que acredito e me serve da prática dele e deixar de lado o que existe nos livros. Os jovens dos Kibbutz em Israel também entenderam isso e criaram os “Moshav”, que é uma versão bem melhorada do sistema do Kibbutz. Depois fui levando esse mesmo “molde” de aprendizado para muitas outras ideologias. Um dia me desfiz do quadro do Che. 

A vida também me ensinou sobre hipocrisia, porque ela mesma se encarregou de me transformar em hipócrita. Muito do que você acredita e quer para o mundo cai por terra quando você é confrontado com situações bem controversas. 

A vida ensina. E, apesar de ainda ser jovem, já aprendi muita coisa. Aprendi com a vida sobre prudência, e a medir a altura do tombo; sobre a importância de cercar-me de boas companhias; sobre escolher de quais abismos devo me atirar e quais batalhas valem a pena travar; que ser feliz muitas vezes é melhor do que estar certo. Aprendi que meu corpo é sagrado e por isso não vou usá-lo para declarar “guerra” contra sistema algum, quero me preservar, quero tratá-lo com cuidado e gentileza. Autopreservação é de fato algo muito importante, por isso quero me proteger de pessoas e ambientes que considero hostis.

Aprendi que não tenho controle algum sobre como o outro vai me enxergar ou me receber, cada um me enxerga da maneira que quiser e não como eu acho que ele tem que me enxergar. Aliás, ninguém “tem que” nada. O que posso é escolher o que aceitar e o que deixar ir. A vida também me ensinou que muitos conflitos surgem da expectativa que tenho sobre o outro e que não é atendida. Então aprendi a esperar e cobrar menos dos outros. Aprendi sobre a importância que meus pais exercem em minha vida e a honrá-los com todo meu coração, independente das divergências e de como eles me criaram, porque a vida sem eles é muito mais dura.

Aprendi que na prática a teoria é outra; aprendi a gostar e entender de clichês, e sobre a importância de respeitar essa sabedoria de vida que só quem viveu tem. Portanto é importante respeitar os mais velhos pelo simples fato de que eles viveram mais do que eu, não importa a diferença de idade. Aprendi a tomar cuidado com radicalismos e aprender a duvidar de minhas convicções, as convicções podem nos tornar burros. Aprendi muito sobre levar as coisas menos a sério e a deixar para lá.

E essa é a grande sabedoria da vida: os aprendizados que vamos colecionando pelo caminho que são trazidos pelos anos vividos, na maioria das vezes a duras penas; o “conhecimento de causa” que vamos incorporando aos nossos discursos; essas marcas e cicatrizes na pele e no coração que não nos deixam esquecer importantes lições; os ensinamentos que nos convidam a ressignificar nossas ideologias, a rever conceitos, a mudar de opinião. Essa sabedoria talvez te faça parecer prepotente ou arrogante ao olhar de algumas pessoas, mas a vida também ensina a ficar em paz com os conflitos.

Fecho esse (longo) texto com as palavras de um sábio escritor que aprendeu muito com a vida, Eduardo Galeano:

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Uma resposta em “A vida ensina!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s