Por quem os sinos dobram?

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*texto publicado em dez/2010 para o blog da empresa Gondwana Brasil Ecoturismo. 

Quatrocentos anos atrás, um conhecido rapaz inglês, John Donne, ditou seu parecer sobre estar sozinho: ele acreditava que nunca estávamos sós. Obviamente, da maneira como ele falou soou muito mais extravagante: “Toda humanidade tem um único autor e é um só volume… Nenhum homem é uma ilha, completo em si mesmo…”. Donne foi um dos maiores poetas ingleses, seu texto “meditações” foi eternizado na obra de Hemingway de mesmo título desse artigo. A força dramática das suas palavras é quase um soco na existência humana, para muitos pode parecer um pouco melancólico, porém acredito que era um visionário quando se tratava do futuro da humanidade: de fato não somos uma ilha, porém muitas vezes nos comportamos como tal.

Há alguns anos, enquanto aguardava meu vôo vagando por um aeroporto qualquer, li um artigo interessante, que muito me marcou. Começava assim: “Hoje, mais de 25 milhões de pessoas perambulam de um lado para o outro do planeta”. Bem, eu pensei a mesma coisa que você caro leitor, logo citariam os mágicos números do turismo e os milagres econômicos dessa atividade, mas não, mero engano. O fato é que essas tantas milhões de pessoas perambulam em busca de refúgio em outros países em conseqüência de guerras, conflitos internos, perseguições políticas e fome, entre outros flagelos. E, com o recente fato ocorrido no Rio de Janeiro, que muito me lembrou uma guerra civil, além de todas as guerras que escutamos falar quando ligamos o noticiário, quase sempre divulgadas por uma mídia sensacionalista que se utiliza da dor e sofrimento alheio para sua auto-promoção, foi inevitável não parar e refletir, e recordar o tal artigo que li havia tempo.

A dura realidade das estatísticas mostra que, cada vez que se instala um conflito armado, mesmo que local, o resultado é devastador; as consequencias são globais e o turismo sofre impacto imediato. As pessoas deixam de visitar lugares onde ocorrem conflitos, os refugiados acabam marginalizados e excluídos da sociedade e o turismo se torna uma atividade “ex-clusiva”, pois muitos destinos são descartados e pessoas são privadas de vivenciar a rica troca cultural proporcionada por aqueles que vêm e vão. E são justamente estas pessoas e lugares que mais necessitam de um milagre, como a “milagrosa” receita que o turismo movimenta e que tanto impulsiona melhorias econômicas e sociais em nível global.

Essas 25 milhões de pessoas que andam por ai e sonham em criar raízes em lugares mais “pacíficos”, me fazem lembrar das sábias palavras de John Donne. Afinal, se somos parte de um todo e nenhum homem é uma Ilha, por que a humanidade insiste em isolar lugares e pessoas de maneira tão cruel? Lembrei de Cuba e seu impasse com os Estados Unidos. Pensei nos países esquecidos da África que pouco ouvimos falar: Ruanda, Somália, Libéria, Sudão; ou ainda Paquistão, Coréias, Palestina entre tantos mais.

Concluo que Guerra e Paz são temas dos quais ninguém pode se dizer alheio, seja onde for. E independente do que a grande mídia destaque, sempre que qualquer um estiver declarando guerra, devemos sim nos preocupar, nos posicionar e nos fazer ouvir.

Por fim me pergunto: por quem os sinos dobram?

Acho que a resposta é mais ou menos o que nosso visionário e melancólico John Donne elucidou: “a morte de qualquer ser humano me diminui, porque eu faço parte da humanidade, sempre que morre alguém, morre parte da humanidade, morre um pouco de todo mundo. Então, não me pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram por nós”. Dobram por mim e por você, e por todos os refugiados que perambulam pelo mundo sem ter a chance de escolher seus destinos e viagens, privados de ir e vir por puro e bel prazer.

*Por Tatiana Nicz que sonha que um dia os sinos por fim, cessem; e as ilhas transformem-se em grandes continentes.

Fonte: dados retirados da Revista Caros Amigos, Set/2008 em artigo escrito pelo historiador Newton Duarte Molon.

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