Melhor do que ser bonzinho, é ser verdadeiro

“Não podemos cuidar adequadamente dos outros sendo incapazes de fazer isso por nós mesmos; não podemos estar atentos às necessidades dos outros sem escutar e compreender as nossas; não podemos ter respeito e complacência pelo outro em sua diversidade, e até em suas contradições, sem conseguir fazer o mesmo por nós. Volto a repetir: no caminho rumo ao outro não podemos dispensar o caminho rumo ao nosso próprio eu.”

Thomas D’Ansembourg 

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Com o novo ano que se aproxima, chega também aquele momento de fazer um balanço geral do ano, revisar aprendizados e desafios vividos e, inevitavelmente, pensar em resoluções e mudanças para o futuro. Já dizia Einstein: “Insanidade é continuar sempre fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Se há algo para melhorar (e sempre há), esse é um bom tempo para traçar caminhos novos, repaginar comportamentos, remodelar antigas crenças, aprender a olhar o mundo de outros ângulos e, ainda, desapegar de tudo aquilo que precisa ficar para trás.

E nesse processo de crescimento e mudanças, é possível criar um olhar diferente sobre o que é cuidar. Thomas D´Ansembourg, um estudioso das relações interpessoais, escreveu: “Se eu cuido do outro negligenciando a mim mesmo, eu cultivo a negligência e não o cuidado”. E a impressão que dá é essa mesmo, que sabemos cuidar do outro, enquanto desaprendemos a cuidar de nós mesmos. Sim, estamos praticando muito mais a negligencia do que o cuidado. Pudera, vivemos na era do altruísmo, nunca ouviu-se, leu-se, prezou-se tanto o cuidado para com o outro. Na era do marketing e da promoção pessoal, ninguém nos parabeniza por cuidar bem de nós mesmos. Dessa forma, cuidar do outro parece tão mais fácil, engrandecedor e reconhecido pelos outros do que praticar o auto-cuidado.

Enquanto somos crianças, temos pais e mães nos orientando o tempo todo sobre o que devemos fazer, com quem andar, aonde ir. E nos acostumamos com isso. Mas, em algum período nessa transição entre ser criança e virar “gente grande”, proclamamos nossa independência. Adquirimos o direito de ir e vir, de ter autonomia sobre nossas escolhas e fazer o que bem entendermos, esse tal livre-arbítrio que tanto escutamos falar, mas que nem sempre temos sabedoria para usar. Os pais um dia, para os que têm sorte, viram conselheiros, mas todos nós, adultos, deveríamos praticar o autocuidado e exercer o papel de pais e mães de nós mesmos. Sim, deveríamos, mas nem sempre é o que fazemos.

A liberdade sobre nossas escolhas não significa exatamente que devemos fazer tudo que queremos, significa que podemos escolher o que nos serve e deixar o que não nos faz bem. Não se trata mais de certo e errado,  mas sim de escolhas mais emocionalmente e fisicamente saudáveis para nós e para os outros. Mas, na correria dos dias, nós esquecemos de cuidar de nós mesmos e é comum colocarmos o desejo do outro diante do que desejamos, é fácil esquecer que temos direito de negar ajuda ou de aprender a dar apenas o que podemos dar. Vivemos ocupados da vida alheia, porque a vida é mesmo assim, sempre tem e terá alguém que precisa de nós e, pode ser difícil admitir, mas isso de certa forma também nos preenche.

Vivendo no modo “piloto automático”, com a forte necessidade de pertencimento, de sermos amados, de não desagradar aqueles ao nosso redor, muitas vezes nem nos damos conta dos vários sapos que engolimos, de quão custoso é fazer o papel do bom, de quanta carga extra vamos adicionando à nossa bagagem, e de quantos “sim” dizemos, quando no fundo queríamos dizer “não”. Evitamos o desconforto social e os conflitos e perdemos batalhas importantes, sem nem sequer lutarmos. É assim, nessa correria e cheios de afazeres que os dias passam voando, que nem vemos mais um ano passar e que vamos cada vez mais nos tornando negligentes ao olhar de D´Ansembourg,  mas bons diante do olhar dos outros.

Além disso, existe ainda um olhar distorcido sobre achar que ser bom é cuidar do outro que nós nem sempre conseguimos perceber: todas as vezes que eu faço alguma coisa com o intuito de proteger, absorver o impacto da queda ou poupar alguém de algo que considero doloroso para ele, estou dizendo: você não tem força para dar conta disso, eu não acredito que você é capaz de viver as consequências de suas próprias escolhas.

Brené Brown, uma pesquisadora americana, também sugeriu um novo olhar sobre o autocuidado, ela diz: “prefira o desconforto no lugar do ressentimento”. Prefira o desconforto ao arrependimento. Aprenda a dizer não para o que não te faz bem, para quem não te faz bem, para  evitar os tantos “tenho que´s” que vamos incorporando em nossa rotina, para tudo aquilo que dizemos “sim” apenas para não desagradar ao olhar do outro. Aprenda a ser a mãe que não te deixava andar em más companhias, o pai que te proibia de chegar tarde em casa, lembre-se de levar o casaco para se proteger do frio e saiba dizer não para tudo que não te faz bem, mesmo que isso cause desconforto entre os demais. Porque, na maioria das vezes, dizer não para o outro, é dizer sim para si mesmo. E por fim, é importante desenvolver sabedoria para praticar o autocuidado, pois a linha entre o egocentrismo e o autocuidado pode ser tênue.

E, que nesse novo ano, aproveitemos todos os dias para criar novos sentidos, para aprender a dizer não para o outro e sim para nós mesmos, para escolher o desconforto no lugar do ressentimento, para saber identificar e expressar o que sentimos, para deixar de sermos bonzinhos, e nos tornarmos algo muito mais valioso para nós e para os outros: verdadeiros.

Sem título

Em tempo, uma boa citação sobre o que é “cuidar”:

“Cuidar, é ajudar o outro a viver o que ele tem de viver. Não é impedi-lo disso, nem tentar poupá-lo a um sofrimento que está no seu caminho, minimizando-o (Não é assim tão mau, não penses nisso, vem distrair-te) ou carregando com o seu peso (A culpa é minha, não devia ter feito isso, vou fazer isto ou aquilo por ele), é sim ajudá-lo a enfrentar a sua dificuldade, a mergulhar no seu sofrimento, para dele se poder libertar, com a consciência de que esse caminho só ao outro pertence e que ninguém o poderá percorrer no seu lugar. Cuidar é dar toda a nossa atenção à faculdade, existente no outro, de curar o seu próprio sofrimento ou de resolver a sua própria dificuldade, bem mais do que lhe levar uma cura. É confiar que o outro dispõe de todos os recursos necessários para resolver a situação se for capaz de se escutar ou de ser escutado no sítio certo.”

(Em Seja Verdadeiro, de Thomas d’Ansembourg, ed. Ésquilo, p.161)

 

A roupa nova do imperador

por Hans Christian Andersen

Há muitos e muitos anos atrás, vivia um imperador que só pensava em comprar roupas novas, e com isso ele gastava todo o dinheiro do reino, sua única ambição era estar sempre bem vestido. Ele não se preocupava com os soldados, e jamais sentiu qualquer inclinação pelo teatro, a única coisa de fato, que o interessava era sair para exibir os seus novos trajes. Ele tinha um manto para cada hora do dia, e quando para um rei se costumava dizer: “Ele está em seu gabinete”, para ele se poderia dizer: “O imperador está em seu vestuário.”

A grande cidade onde ele residia era muito alegre; todos os dias muitos estrangeiros chegavam de todas as partes do globo. Um dia dois vigaristas chegaram à cidade; eles faziam as pessoas acreditarem que eram grandes tecelões, e afirmavam poder confeccionar as roupas mais finas que alguém poderia imaginar. As cores e os modelos que eles criavam, diziam, não eram apenas excepcionalmente lindas, mas as roupas feitas com o material que eles produziam, possuíam a maravilhosa capacidade de ser invisível a qualquer pessoa que não tivesse preparada para o cargo que ocupava ou fosse imperdoavelmente tola.

“Essa deve ser uma roupa maravilhosa,” pensou o imperador. “Se eu tivesse de vestir uma roupa feita com um tecido tão especial eu poderia descobrir quais ministros do meu império não estavam preparados para os seus cargos, e eu poderia distinguir o tolo do sábio. Eu preciso mandar fazer essa roupa para mim sem demora.” E mandou oferecer uma grande soma em dinheiro para os vigaristas, antecipadamente, para que eles iniciassem o trabalho imediatamente. Eles prepararam dois teares, e fingiam trabalhar com muita eficiência, porém, não produziam nada em nenhum dos teares. Eles solicitavam as sedas mais finas, e os tecidos de ouro mais preciosos, e tudo o que eles conseguiam eles pegavam para eles e trabalhavam nos teares vazios até tarde da noite.

“Preciso enviar o meu ministro mais velho e mais honesto até os tecelões,” pensava o imperador. “Não há ninguém melhor do que ele para avaliar como as coisas estão indo, porque ele é inteligente, e ninguém entende melhor do seu ofício do que ele.”

O velho e bom ministro foi até o local onde os vigaristas ficavam diante dos teares vazios. “Meu Deus do céu!” pensou ele, e arregalou os olhos, “Eu não estou conseguindo ver nada em absoluto!”, mas ele não disse isso. Os dois vigaristas pediram para que ele se aproximasse, e lhe perguntaram se ele não admirava os modelos primorosos e as cores belíssimas, e mostrava os teares vazios. O pobre e velho ministro se esforçava o melhor que podia, mas não conseguia ver nada, porque não havia nada mesmo para ser visto. “Oh, céus,” pensava ele, “como posso ser tão tolo? Jamais teria pensado assim, e ninguém pode saber disso! Será possível que eu não estou preparado para o posto que exerço? Não, não, eu não posso dizer que eu não consigo ver o tecido.”

“Então, o que você tem a dizer? disse um dos vigaristas, enquanto ele fingia estar super ocupado tecendo.

“Oh, é muito bonito, extremamente belo,” respondeu o velho ministro esforçando-se por enxergar através dos seus óculos. “Que modelo primoroso, que cores brilhantes! Irei imediatamente dizer ao imperador que eu gostei muito da roupa.”

“Ficamos muito contentes em ouvir isso,” disseram os dois tecelões, e descreveram para ele as cores e deram explicações sobre o curioso modelo. O velho ministro escutou tudo muito atenciosamente, para que ele pudesse relatar ao imperador o que eles haviam dito, e assim fez ele.

Então os vigaristas pediram mais dinheiro, seda, e tecido de ouro, que eles diziam serem necessários para o serviço de tecelagem. Eles escondiam tudo para si mesmos, e nem sequer uma linha chegava perto do tear, mas eles continuavam como até agora, a trabalhar em teares vazios.

Logo depois o imperador enviou um outro cortesão honesto até os tecelões para saber tudo o que estava acontecendo, e se a roupa já estava quase terminada. Do mesmo modo que o velho ministro, ele olhava e olhava mas não conseguia ver nada, mesmo porque não havia nada para ver.

“Não é uma linda peça de vestuário?” perguntaram os dois trapaceiros, mostrando e explicando os magníficos modelos, que todavia, jamais existiram.

“Eu não sou estúpido”, pensou o homem. “Deve ser por causa do elevado cargo que ocupo e para o qual eu não estou preparado. É muito estranho, mas eu não posso permitir que ninguém fique sabendo;” então ele elogiou a roupa, que ele não via, e expressou a sua alegria diante das cores maravilhosas, e do finíssimo modelo. “É muito lindo,” disse ele ao imperador.

Todo mundo na cidade inteira comentava sobre a beleza da roupa. Finalmente, o próprio imperador desejou ver com seus próprios olhos, quando a roupa ainda estava sendo tecida nos teares. Acompanhado por um séquito de cortesãos, incluindo os dois que já haviam estado lá, ele foi até os dois vigaristas espertos, que agora empregavam maior esforço no trabalho, sem usar nem sequer um fio de linha.

“Não é maravilhoso?” disseram os dois outros chefes de estado que já haviam estado lá anteriormente. “Com certeza a Vossa Majestade vai admirar as cores e os padrões.” E então apontavam para os teares vazios, pois acreditavam que os outros não estavam vendo o tecido.

“Mas o que é isso?” pensou o imperador, “eu não estou vendo nada. Isso é terrível! Serei eu um tolo? Será que estou despreparado para ser imperador? Essa seria a coisa mais terrível que poderia me acontecer.”

“Realmente,” disse o imperador, virando-se para os tecelões, “a sua roupa tem toda a nossa aprovação.” e balançando a cabeça satisfeito olhava para o tear vazio, pois ele não queria dizer que não estava vendo nada. Todos os acompanhantes, que faziam parte da sua comitiva, ficavam olhando e embora não pudessem ver nada mais do que viam os outros, ele concordaram com o imperador, “É muito lindo.” E todos aconselharam para que o rei usasse aquela roupa maravilhosa durante uma grande procissão que em breve estaria para ser realizada. “É magnífico, lindíssimo, excelente,” disse um deles, todos pareciam estar encantados, e o imperador nomeou os dois vigaristas como os “tecelões imperiais da corte”.

A noite toda que precedeu ao dia quando a grande procissão se realizaria, os trapaceiros fingiam trabalhar e só nesse dia queimaram mais de dezesseis velas. As pessoas deveriam ver que eles estavam ocupados fazendo os acabamentos da nova roupa do imperador. Eles fingiam tirar a roupa do tear, e pareciam estar trabalhando no ar com grandes tesouras, e costuravam com agulhas que não tinham linhas, e disseram no final: “A nova roupa do imperador ficou pronta.”

O imperador e todos os seus cortesãos foram até o salão, os vigaristas mantinham seus braços levantados como se estivessem segurando alguma coisa na mãos e disseram: “Estas são as calças!” “Este é o casaco!” e “Aqui está o manto!” e assim por diante. “Estes trajes são tão leves quanto teia de aranha, e a pessoa se sente como se não estivesse usando nada no corpo, mas aí é que está a beleza delas.”

“De fato!” disseram os cortesãos, mas eles não conseguiam ver nada, porque não havia mesmo nada para ser visto.

“Será que a Vossa Majestade por gentileza poderia se despir,” disseram os trapaceiros, “para que possamos auxiliar a Vossa Alteza nos ajustes da nova roupa diante do grande espelho?”

O imperador se despiu, e os vigaristas fingiram colocar nele a nova roupa, peça por peça, e o imperador olhava para si mesmo no espelho de todos os lados.

“Como ela lhe caiu bem!” “Como ficou bonita!” disseram todos. “Que modelo arrojado! Que cores belíssimas! Esse é um traje magnífico!”

O mestre das cerimônias anunciou que os carregadores do pálio, que haveriam de desfilar durante a procissão, já estavam prontos.

“Eu estou pronto,” disse o imperador. “A minha roupa nova não caiu perfeitamente bem?” Então ele se virou mais uma vez para o espelho, para que as pessoas pensassem que ele estava admirando os seus novos trajes.

Os camareiros, que iriam ajudá-lo a carregar a cauda, estenderam suas mãos até o chão como se estivessem levantando a cauda, e fingiam segurar alguma coisa em suas mãos, eles não queriam que as pessoas soubessem que eles não estavam vendo nada.

O imperador marchava na procissão sob o belo pálio, e todos que olhavam para ele na rua e pelas janelas exclamavam: “De fato, o novo traje do imperador é incomparável! que longa causa que ele tem! Como a roupa caiu bem para ele!” Ninguém queria que os outros soubessem que eles não viam nada, pois que seriam considerados incapacitados para o cargo que ocupavam ou tolos demais. Nunca as roupas do imperador foram tão admiradas.

“Mas ele não está usando nada,” disse uma pequena criança afinal.

“Deus do céu! ouçam a voz de uma criança inocente,” disse o pai, e um sussurrava para o outro o que a criança havia dito. “Mas ele não está usando nada”, gritaram afinal todas as pessoas. Isso causou uma forte impressão no imperador, pois lhe pareceu que as pessoas tinham razão, mas ele pensou consigo mesmo, “Agora eu vou ter de aguentar isso até o fim.” E os camareiros caminhavam com mais dignidade ainda, como se carregassem a cauda que não existia.