É preciso despedida 

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“Quando dizemos coisas como “as pessoas não mudam”, deixamos os cientistas loucos, porque a mudança é literalmente a única constante da ciência. Energia. Matéria. Estão sempre mudando, transformando-se, fundindo-se, crescendo, morrendo. O modo como as pessoas tentam não mudar que não é natural. Como queremos que as coisas voltem, em vez de as aceitarmos. Como nos prendemos a velhas memórias, em vez de criar novas. O modo como insistimos em acreditar, apesar de todas as provas contrárias, de que algo nessa vida é permanente. A mudança é constante. Como experimentamos a mudança é que depende de nós.”

Despedidas são parte essencial da vida, despedir-se é validar as experiências vividas em algum lugar ou com o outro, um bom contato é aquele que permite que a experiência seja vivida em seu ciclo completo, começo, meio e fim. Portanto, o fim faz parte de um contato saudável.

Despedidas nos transformam porque nos dão possibilidades de começar de novo, um novo ciclo, com novos aprendizados, diferente. Mudar, viver o que é diferente não deveria ser assustador para ninguém; desejar estar para sempre no mesmo lugar com as mesmas pessoas, sim.

Há despedidas que parecem tardias, mas há aquelas que são precoces e por mais duras que pareçam, nos fazem viver polaridades importantes da vida: a alegria e a tristeza, o encontro e as saudades, o eterno e o efêmero, a presença e a ausência. Viver é despedir-se constante e eternamente daquilo que um dia foi e que já não pode mais ser. Daquilo que um dia fui, e já não posso mais ser. E as despedidas nos lembram que o sentido da vida está nas conexões que fazemos, nas pessoas que conhecemos, nos caminhos que percorremos; e se eu não puder viver a ausência de tudo isso, nunca viverei o que foi presença por completo.

Além disso, é na ausência, no fechamento de ciclos, nas despedidas, nos recomeços que está contido o que nos faz humanos, que nos torna vulneráveis: coragem, lágrimas, saudades, gratidão e o reconhecimento de que a vida é feita de pequenos recortes felizes; de que o maior presente que podemos dar à alguém é a nossa presença, é estarmos inteiro e disponíveis naquele momento. Dar adeus é despedir-se de alguém com a certeza de que ninguém deve ser insubstituível, ou de que seremos lembrados com carinho,  que aquele encontro não ficou “em branco”, e nossa falta será sentida tanto quanto nossa presença.

Então é preciso despedir-se do que ficou velho e mudar. Porque sempre há chance de fazer diferente, melhor, pior, errar mais, acertar mais, aprender mais, fazer escolhas mais saudáveis, experimentar, tentar, perder, ganhar e viver um pouco mais.

É preciso mudar, porque na mesmice não existe crescimento, porque ter disponibilidade emocional para viver o acaso e a impermanência da vida é algo extremamente engrandecedor. Mudar para conhecer lugares e pessoas diferentes, percorrer novas estradas, para entender que o que vivemos no passado é importante para nós; para entender que o que vivemos no passado não foi tão importante assim. É preciso mudar, para ressignificar nossas memórias mais tristes, para construir novas memórias.

É preciso mudar, porque a única constante na vida é a mudança.

A guardiã

No alto de uma colina, à beira de um rio caudaloso, muito largo e profundo, havia um castelo fortificado. Nesse castelo vivia um guerreiro que não tinha medo de nada. Sua mulher, bela como uma árvore florida, possuía um dom muito especial. Por causa dela, o marido sempre retornava vitorioso de suas expedições pelas redondezas e lugares muito distantes.
Acontecia sempre da mesma maneira. O guerreiro selava seu cavalo e partia antes do amanhecer, quando a neblina e a escuridão ainda tomavam conta do lugar. Assim que ele desaparecia pelos portões da fortaleza, a mulher subia à torre do castelo e abria a janela de onde avistava toda a região. Ela estendia as mãos delicadas para fora da janela, na direção do caminho por onde o marido cavalgava. No mesmo instante, poderosos raios de luz brotavam de seus dedos finos clareando a estrada para que o marido pudesse viajar com segurança.
Durante todo o dia ele percorria diversas aldeias, lutando e roubando os bens de todos os que derrotava nas suas andanças. Depois ele voltava para casa em disparada, e já fazia noite escura quando ele surgia lá embaixo ao pé da colina, quase sempre perseguido por valentes inimigos. No entanto eles nunca o alcançavam, pois a mulher já o aguardava sentada à mesma janela da torre altíssima. Assim que o via no caminho, ela enviava, através de suas mãos, uma ponte de luz sobre o rio, iluminando- o fortemente para que o marido passasse. Assim que ele atingia a outra margem, ela retirava as mãos rapidamente. A mais negra escuridão apoderava-se daquele lugar de tal modo que os inimigos do marido ficavam completamente desorientados e acabavam desistindo da perseguição.
Assim protegido e guiado, o guerreiro do castelo do alto da colina nunca havia sofrido nenhuma derrota. O tempo foi passando, e ele, cada vez mais, sentia-se como o homem mais poderoso daquelas terras. Orgulhava-se de seus feitos e dizia que era invencível. Um dia ele havia convidado várias pessoas para um grande banquete e, enquanto festejavam, começou a vangloriar-se:
– Eu sempre atravesso o rio trazendo comigo muitos animais, e meus perseguidores não conseguem alcançar-me. Ainda não nasceu o homem que poderá me vencer.
A mulher escutou por um tempo, contrariada, depois disse baixinho:
– Mas você não acredita que faz tudo isso sem a ajuda de ninguém.
O marido olhou-a indignado, reprovando aquela intervenção:
– Que eu saiba, quando vou caçar, não levo ninguém comigo. Enquanto você passa o dia em segurança dentro do castelo, sou eu que me arrisco, que enfrento emboscadas, que preciso lutar com quem aparece no caminho, seja homem ou animal. Acho melhor você pensar mais no que diz antes de abrir a boca, para não se arrepender depois.
A mulher permaneceu em silêncio por algum tempo, depois levantou-se e, antes de retirar-se do grande salão, disse com tristeza:
– Você está completamente dominado pelo orgulho e pela vaidade. Sinto muita vergonha ao ver você nesse estado.
O marido ficou furioso. Respondeu-lhe que não precisava dela para nada e que iria provar o que estava dizendo. Assim que os convidados se foram, ele montou no seu cavalo e deixou o castelo sem se despedir da mulher.
Pela primeira vez, a janela da torre não se abriu enquanto ele percorria as planícies brumosas. E pela primeira vez sua expedição encontrou obstáculos maiores do que seu poder de vencê-los.
Depois de vários dias infrutíferos, vagando pelas aldeias, tendo pilhado uma carga insignificante, o guerreiro achou melhor voltar para casa. Ainda tentou roubar alguma coisa no caminho, mas ele se sentia tão desafortunado, tão confuso pelas sucessivas derrotas, que não lutou com a costumeira audácia e acabou tendo que fugir com as mãos vazias e vários inimigos em seu encalço.
Enquanto isso, sua mulher ficou sentada diante da janela fechada no alto da torre, no escuro, atenta. Ela só se levantava para comer alguma coisa leve uma vez por dia, ou então para cochilar um pouco quando o sono tomava conta dela.
Numa noite tenebrosa, no silêncio do aposento ela escutou ao longe a voz do marido chamando por ela. A aflição que ela sentia estava grudada na ponta de seus dedos unidos, imóveis sobre os joelhos. Ela sabia que não deveria atender o pedido de socorro, mesmo que seu coração aos pulos, dentro do peito, lhe pedisse o contrário. Afinal, ele havia dito que demonstraria ser um guerreiro notável, e por isso era necessário que ele fizesse tudo sozinho.
Angustiada,ela esperou até não mais ouvir a voz do marido. Além do rumor constante das águas do rio, nada mais se escutava. Ela continuou esperando, tentando distinguir cascos de cavalo ressoando no pátio do castelo, o som duro das botas do marido subindo a escadaria. Em vão ela ficou espreitando quase a noite inteira, até que não pôde mais se conter e abriu a janela. Estendendo as mãos ela varreu toda a região em baixo do castelo com fachos de luz, poderosos como sempre, mesmo que dessa vez brotassem de seus dedos trêmulos. Vasculhou a planície, as margens do rio, a encosta da colina, as muralhas do castelo. Não encontrou nenhum vestígio do guerreiro.
Recomeçou outra vez, com movimentos mais lentos e precisos, até que o foco luminoso deteve-se sobre um vulto caído em um rochedo à beira do rio. Pouco depois, quando ela chegou esbaforida àquele lugar, com os cabelos desalinhados e a respiração entrecortada de tanto correr feito louca entre as pedras, reconheceu a capa preta do marido. Rasgada e molhada, ela cobria o corpo do guerreiro inerte sobre a pedra. Ali a mulher ficou imóvel com as mãos sobre a cabeça do homem morto, embalada pelo doce murmúrio do rio, estranhamente calmo ao nascer do sol.
Depois, ela enterrou o marido naquele mesmo lugar e chorou muito tempo sobre o túmulo, completamente entregue à sua dor. Uma semana inteira durou sua vigília solitária. Até que ela viu ao longe um cavaleiro que se aproximava. O jovem sorridente que desceu do cavalo e acercou-se dela era belo e forte.
– O que faz uma mulher tão desolada sozinha neste lugar deserto? – ele perguntou.
A mulher das mãos de luz respondeu-lhe que ninguém poderia fazer nada por ela e que ele deveria ir embora.
O homem montou outra vez no seu cavalo e lhe disse que voltaria em breve. E que durante o tempo em que estaria ausente, ela podia pensar melhor, quem sabe poderia confiar nele e contar por que estava tão triste.
Enquanto ele cavalgava rio adentro, na direção da outra margem, a mulher se assustou e pensou que, com certeza, ele iria afogar-se. Mas logo, conduzindo o cavalo com grande habilidade por dentro das águas turbulentas, ele chegou a salvo do outro lado do rio.
“Esse homem é de fato muito audacioso, eu preciso pôr à prova seu valor”, pensou a mulher à beira do túmulo do marido.
Pela primeira vez, depois de tanto sofrimento, ela se reanimou e invocou os poderes da Senhora das Águas. Levantando-se, com as mãos espalmadas na direção do céu, ela disse:
– Eu lhe peço, rainha poderosa, que esconda o sol atrás das nuvens e que uma grande tormenta torne o rio furioso, que suas águas invadam a terra em ondas gigantescas, que raios e trovões sacudam as árvores, que o dia se torne noite tenebrosa como se fosse o fim do mundo.
Seu pedido foi atendido. Talvez a temível deusa dos mares e dos rios tenha compreendido e concordado com as razões da mulher que chamava por ela, do fundo do coração. Deitada na relva, sacudida pela tempestade avassaladora, a mulher das mãos de luz percebeu que um cavalo galopava na sua direção. Quando se levantou, pôde ver o cavaleiro que tinha acabado de conhecer.
– Como você pôde voltar e arriscar-se a ser tragado pelas águas revoltas do rio? – ela perguntou muito assustada.
– É porque eu não poderia deixá-la sozinha nesta tempestade desvairada – ele respondeu.
Ela não soube o que dizer e finalmente sorriu, com uma satisfação que apenas brotava timidamente no seu peito machucado. O cavaleiro agasalhou-a com seu manto e, no instante em que os dois se sentaram juntos e aconchegados sobre uma pedra lisa, os poderes da Senhora das Águas fizeram-se presentes outra vez, serenando o tempo mais rapidamente do que as palavras seriam capazes de relatar. A tempestade cessou, o rio seguiu seu rumo mansamente, as águas brilhando à luz do sol que surgiu de repente no alto do céu azul. A terra verde respirava úmida, exalando um delicioso aroma de vida.
– O homem que está enterrado neste túmulo era meu marido – disse a mulher- E nós nos amávamos.
– Você se engana – retrucou o jovem cavaleiro. – Ele não a amava, ele amava apenas a si mesmo. Toda a terra à nossa volta está verde e coberta de flores, só este túmulo permanece seco, com a terra dura e inerte, sem florescer. Que este túmulo permaneça assim, estéril, para que as pessoas que só amam a si mesmas, ao passarem por aqui, sintam-se envergonhadas.
A mulher de mãos luminosas olhou para o céu e agradeceu à deusa em silêncio. O jovem cavaleiro a olhou com ternura e estendeu-lhe a mão. Ao segurá-la, a mulher sorriu e levantou-se. Ela teve a resposta que buscava quando sua mão deixou-se envolver pelo calor daquela mão valorosa, que num gesto firme devolveu-lhe, num único instante, o sentido de continuar viva.

Conto caucasiano, recontado por Regina Machado

De muito procurar

Aquele homem caminhava sempre de cabeça baixa. Por tristeza, não. Por atenção. Era um homem à procura. À procura de tudo o que os outros deixassem cair inadvertidamente, uma moeda, uma conta de colar, um botão de madrepérola, uma chave, a fivela de um sapato, um brinco frouxo, um anel largo demais.
Recolhia, e ia pondo nos bolsos. Tão fundos e pesados, que pareciam ancorá-lo à terra. Tão inchados, que davam contornos de gordo à sua magra silhueta.
Silencioso e discreto, sem nunca encarar quem quer que fosse, os olhos sempre voltados para o chão, o homem passava pelas ruas despercebido, como se invisível. Cruzasse duas ou três vezes diante da padaria, não se lembraria o padeiro de tê-lo visto, nem lhe endereçaria a palavra. Sequer ladravam os cães, quando se aproximava das casas.
Mas aquele homem que não era visto, via longe. Entre as pedras do calçamento, as rodas das carroças, os cascos dos cavalos e os pés das pessoas que passavam indiferentes, ele era capaz de catar dois elos de uma correntinha partida, sorrindo secreto como se tivesse colhido uma fruta.
À noite, no cômodo que era toda a sua moradia, revirava os bolsos sobre a mesa e, debruçado sobre seu tesouro espalhado, colhia com a ponta dos dedos uma ou outra mínima coisa, para que à luz da vela ganhasse brilho e vida. Com isso, fazia-se companhia. E a cabeça só se punha para trás quando, afinal, a deitava no travesseiro.
Estava justamente deitando-se, na noite em que bateram à porta. Acendeu a vela. Era um moço.
Teria por acaso encontrado a sua chave? Perguntou. Morava sozinho, não podia voltar para casa sem ela.
Eu… esquivou-se o homem. O senhor, sim, insistiu o moço acrescentando que ele próprio já havia vasculhado as ruas inutilmente.
Mas quem disse… resmungou o homem, segurando a porta com o pé para impedir a entrada do outro.
Foi a velha da esquina que se faz de cega, insistiu o jovem sem empurrar, diz que o senhor enxerga por dois.
O homem abriu a porta.
Entraram. Chaves havia muitas sobre a mesa. Mas não era nenhuma daquelas. O homem então meteu as mãos nos bolsos, remexeu, tirou uma pedrinha vermelha, um prego, três chaves. Eram parecidas, o moço levou as três, devolveria as duas que não fossem suas.
Passados dias bateram à porta. O homem abriu, pensando fosse o moço. Era uma senhora.
Um moço me disse… começou ela. Havia perdido o botão de prata da gola e o moço lhe havia garantido que o homem saberia encontrá-lo. Devolveu as duas chaves do outro. Saiu levando seu botão na palma da mão.
Bateram à porta várias vezes nos dias que se seguiram. Pouco a pouco se espalhava a fama do homem. Pouco a pouco se esvaziava a mesa dos seus haveres.
Soprava um vento quente, giravam folhas no ar, naquele fim de tarde, nem bem outono, em que a mulher veio. Não bateu à porta, encontrou-a aberta. Na soleira, o homem rastreava as juntas dos paralelepípedos. Seu olhar esbarrou na ponta delicada do sapato, na barra da saia. E manteve-se baixo.
Perdi o juízo, murmurou ela com voz abafada, por favor, me ajude.
Assim pela primeira vez, o homem passou a procurar alguma coisa que não sabia como fosse. E para reconhecê-la, caso desse com ela, levava consigo a mulher.
Saíam com a primeira luz. Ele trancando a porta, ela já a esperá-lo na rua. E sem levantar a cabeça – não fosse passar inadvertidamente pelo juízo perdido – o homem começava a percorrer rua após rua.
Mas a mulher não estava afeita a abaixar a cabeça. E andando, o homem percebia de repente que os passos dela já não batiam ao seu lado, que seu som se afastava em outra direção. Então parava, e sem erguer o olhar, deixava-se guiar pelo taque-taque dos saltos, até encontrar à sua frente a ponta delicada dos sapatos e recomeçar, junto deles, a busca.
Taque, taque hoje, taque-taque amanhã, aquela estranha dupla começou a percorrer caminhos que o homem nunca havia trilhado. Quem procura objetos perdidos vai pelas ruas movimentadas, onde as pessoas se esbarram, onde a pressa leva à distração, ruas onde vozes, rinchar de rodas, bater de pés, relinchos e chamados se fundem e ondeiam. Mas a mulher que andava com a cabeça para o alto ia onde pudesse ver árvores e pássaros e largos pedaços de céu, onde houvesse panos estendidos no varal. Aos poucos, mudavam os sons, chegavam ao homem latidos, cacarejar de galinhas.
O olhar que tudo sabia achar não parecia mais tão atento. O que procurar afinal entre fios de grama senão formigas e besouros? Os bolsos pendiam vazios. O homem distraía-se. Um caracol, uma poça d’água prendiam sua atenção, e o vento lhe fazia cócegas. Metia o pé na pegada achada na lama, como se brincasse.
Taque-taque, conduziam-no os pés pequenos dia após dia. Taque-taque crescia aquele som no coração do homem.
Achei! Exclamou afinal. E a mulher sobressaltou-se. Achei! Repetiu ele triunfalmente. Mas não era o que haviam combinado procurar. Na grama, colhida agora entre dois dedos, o homem havia encontrado a primeira violeta da primavera. E quando levantou a cabeça e endireitou o corpo para oferecê-la a ela, o homem soube que ele também acabava de perder o juízo.

Marina Colasanti

Perca a razão, recupere os sentidos

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“A vida não é violino e rosas” essa frase constantemente repetida no curso de formação em Gestalt-terapia martela em minha cabeça e decido usá-la como uma espécie de mantra para lembrar que nem tudo que existe é belo ou justo, que nem tudo faz sentido. Justiça é um conceito inventado, criado, produzido e reproduzido pelo homem e para aquilo que não conseguimos explicar, um Deus. Mas, para aqueles que já viveram o suficiente e sofreram, para todas as perdas e todos os ganhos sabemos: a vida não é justa.

Game of Thrones me fascina, pois traz muito dos conceitos da Gestalt-terapia. A verdade é mostrada sem piedade, como ela é. Cada episódio nos lembra da máxima gestáltica citada acima: a vida não é violino e rosas. A justiça é cega, é falha, é unilateral, é relativa, é humana, é desumana. Ninguém é  mocinho nem vilão.

Game of Thrones é a verdade jogada na cara, sem rodeios ou floreios, nos lembrando que a verdade sempre é amoral, antiética, visceral. A cada episódio erramos ao tentar fazer sentido do que não faz sentido, aguardando fechamentos que talvez nunca venham a surgir, pois não são eles que importam, o que importa é a jornada. 

E nossa tragédia em vida real não é diferente da que vivem os personagens da série: reféns da própria racionalidade, tentamos em vão buscar um sentido para tudo que vivemos ou fechar um ciclo que não tem fim.

O que importa é a jornada.

No cerne de tudo que não faz sentido existe nosso cérebro dando “loops” infinitos, incansavelmente tentando fazer conexões dos acontecimentos, dar sentido aos fatos, querendo completar o que falta. Sim, biologicamente ele é programado para isso. É preciso um esforço para deixar de lado a razão. Perca a razão.

A vida não é violino e rosas.

A falta faz parte da jornada e não tem Deus que nos console, não há amor, dinheiro, sucesso que preencha esse vazio existencial que é parte essencial do que somos. O encantamento da série vem justamente daí, ela repete na ficção a tragédia da vida real: uma jornada torta, bruta, esse vazio dilacerante dos ciclos que não fecham, do sentido que não encontramos, de tudo aquilo que não conseguimos nomear, que sentimos e não conseguimos validar, necessidades não atendidas ou mal atendidas, os jogos de ego, em vão buscamos refúgio na razão. A vida não nos devolve com razão ou sentido, ela é apenas feita de escolhas que levam a escolhas que levam a escolhas que levam a escolhas. E na falta do sentido transborda o melhor de nós: nossas sensações e sentimentos. Recupere os sentidos.

O título do sétimo episódio da sexta temporada, “O homem quebrado”, nos convida a lembrar exatamente do que somos, quebrados. Nas escolhas feitas por Arya que a deixam ferida, na força do ódio que mantém Santor Clegane vivo, no castigo divino que não vem, na justiça que falha. “Não busque justiça, busque vingança” é o conselho que a irmã de Theon Greyjoy lhe dá.  Não busque justiça, não busque a razão; busque vingança, busque sentir. A vida existe para ser sentida, não para fazer sentido. 

A vida não é violino e rosas e o sentido dela é algo tão pessoal que não deve ser compartilhado muito menos julgado. Mas, para aqueles que o buscam um sentido, para aqueles que querem senti-la, um conselho: é preciso estar disposto a desconstruir crenças e mitos romantizados  e entender que as coisas são apenas como elas são, nem tudo faz sentido, nem sempre há razão. O que importa é a jornada. Finalizando esse texto, repito as palavras de Fritz Perls, o grande intuitivo da Gestalt-terapia: “perca a razão, recupere os sentidos”.

A insustentável leveza de ser

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“Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza? O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. O que escolher, então? O peso ou a leveza?” Milan Kundera

A complexidade do viver e dos conceitos morais não é assunto novo nem pouco abordado, foram temas muito explorados por existencialistas como Schopenhauer e Nietzsche. O escritor Milan Kundera inicia um de seus mais famosos romances citando o conceito do eterno retorno de Nietzsche. Kundera é genial porque conseguiu traduzir em suas palavras a dualidade que propõe, “A insustentável leveza do ser” é um romance complexo e denso, ao mesmo tempo que tem leveza.

O livro nos apresenta quatro personagens, todos perdidos diante da contradição entre valores que alguns consideram anacrônicos, de cujos pesos, querem ver-se livres, e os valores que criam para si mesmos a fim de darem sustentação aos seus seres. Pois uma vida que se pretende mais leve pode ser tão opressora à existência quanto uma em que são incontáveis os fardos. Kundera é gênio e sábio, ele sabe que grandes experiências, de fato, tornam a vida mais pesada.

Life is messy.

A verdade é que a vida real é bagunçada, complicada, densa. Existe de um lado tudo que é considerado moral e que nossa mente tenta racionalmente entender e processar; e do outro lado existem os sentimentos, as incontroláveis emoções que fazem a gente perder o ar e a vida valer a pena, ao mesmo tempo que complicam tudo aquilo que nossa mente racional tenta (em vão) manter organizado, limpo, descomplicado, leve.

Na vida, a realidade é bem diferente do ideal, daquilo que planejamos, que sonhamos, que desejamos, porque nós somos complicados. Então, com o passar dos anos, os problemas vão ficando mais densos, as raízes mais profundas. O fundo do poço torna-se cada mais mais fundo. E o buraco é sempre mais embaixo. E por mais que tentamos viver a vida com leveza, tem certas coisas que merecem seu devido peso e importância.

Life is limited.

A vida é limitada. Nós somos limitados. Nossa história nos limita, nossa condição nos limita, nossos sentimentos nos limitam. Nossas escolhas nos limitam. Somos o que somos. É o que é. E com certeza somos responsáveis pelas nossas escolhas, mas a vida não é (e não deve ser) tão “preto no branco” como teimamos em acreditar. Porque o “preto no branco” é muito leve, não dá espaço para o peso que tem o colorido.

Life is heavy.

A vida não é violino e rosas. Viver é pesado. A vida é complicada, bagunçada, complexa nas mais inconcebíveis proporções. Dinâmica. Tudo acontece ao mesmo tempo. As pessoas têm processos e momentos diferentes, não chegam prontas e nós nunca estamos prontos, porque somos seres inacabados, imperfeitos. E carregamos bagagens grandes, com cargas pesadas. Pois, assim como escreveu Kundera, não existe leveza onde há profundidade de alma, de sentimentos, de experiências. Somos todos complicados, complicando tudo, travando nossas próprias batalhas, sonhando com oportunidades melhores enquanto o peso de nossas escolhas nos afunda ainda mais na areia movediça.

O que nos resta é saber o que queremos absorver de tudo isso e o que vai ficar de fora. Podemos aprender a traçar linhas, criar barreiras, delimitar fronteiras. Mas, é preciso ter em mente que se queremos experiências significativas precisamos cruzar essas linhas, derrubar barreiras, construir pontes no lugar de muros. Resta saber qual é o limite do emaranhado. Qual é a força de cada nó. Quando devemos desatá-lo e quando devemos apertá-lo. Quando devemos criar laços no lugar de nós. Nós. Encontros são feitos de nós. E encontros são pontos de chegada ou são pontos de partida. Resta saber o que escolher então, o peso ou a leveza?

“Tudo na vida tem a ver com as linhas que delimitamos. Não é aconselhável criar muita intimidade com os outros. Fazer amigos, fazer amantes. Precisamos de fronteiras, entre nós e o resto do mundo, porque os outros são muito complicados. E tudo tem a ver com as linhas. Limites. Fronteiras. Barreiras. Podemos passar a vida desenhando essas linhas e torcendo para que ninguém as cruze ou, em alguns momentos, podemos escolher cruzá-las. É preciso decidir. Mas, saiba que muitas vezes as fronteiras não deixam os outros para fora, elas nos engaiolam dentro. A vida é complicada. Nós somos complicados. É assim que somos feitos. Cheios de desejos, sentimentos e emoções. Então podemos escolher passar toda uma vida delimitando fronteiras, desenhando linhas, ou, podemos escolher viver a vida cruzando essas fronteiras, apagando linhas. Mesmo sabendo que algumas dessas fronteiras são muito perigosas para serem cruzadas. Mas isso é o que eu sei: se vez ou outra você optar por jogar no vento toda essa cautela e dar uma chance ao complicado, a vista do outro lado pode ser espetacular.”

Adaptado de Grey’s Anatomy S. 01 E. 02 – The first cut is the deepest