A felicidade só é real quando é compartilhada

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Escrito e dirigido por Sean Penn, o filme “Na Natureza Selvagem” é baseado no livro homônimo do jornalista Jon Krakauer e conta a história verídica do jovem americano Christopher McCandless. Lançado em 2007, o longa recebeu diversas premiações e indicações, incluindo um Globo de Ouro de melhor canção e duas indicações ao Academy Awards (Oscar). A trilha sonora é assinada por Eddie Vedder e torna o filme ainda mais belo. Outro destaque fica por conta da fotografia com paisagens de tirar o fôlego.

Talvez o que faz da história interessante é a quebra contra o sistema por parte do protagonista: ao concluir a graduação em uma universidade renomada, ele muda de nome, abandona um futuro promissor e uma vida de luxos para percorrer sozinho parte dos Estados Unidos; em sua jornada faz explora novos contextos, faz novas amizades, vive amores e desamores. A história é emocionante, com ressalvas.

Embora a personalidade exploradora do jovem tenha encantado muitos, utilizando os mecanismos neuróticos de evitação de contato da Gestalt-terapia pode-se entender que o garoto funciona em mecanismo chamado “isolamento”. Apesar de não ter sido inicialmente descrito por Perls, o isolamento é utilizado por autores mais modernos, muitas vezes descrito como uma polaridade da “confluência”. Para a GT, não se trata necessariamente ou apenas de um afastamento físico é, principalmente, um afastamento emocional.

Assim como os outros mecanismos, o isolamento tem sua funcionalidade, muitas vezes precisamos dessa distância do outro, pois é importante estar bem sozinho. Mas, ele torna-se um mecanismo neurótico quando não conseguimos permanecer em situações e relacionamentos que podem nos trazer benefícios; quando evitamos o contato como uma defesa ou uma solução para não sofrer.

A dificuldade de tratar uma pessoa neste funcionamento neurótico é que raramente ela procurará ajuda. Uma das principais características do isolado é ter a ilusão de que se basta sozinho e muitas vezes não sentir necessidade ou falta do contato com o outro. Ainda, a pessoa nesse funcionamento pode estar cercada de gente e mesmo assim não estar acessível emocionalmente. Muitas vezes são pessoas que possuem muitos amigos, mas não se aprofundam em relação alguma, mantendo sempre uma distância emocional confortável e um certo mistério sobre si.

O que me chama atenção no filme é que, apesar de existir beleza e coragem na personalidade misteriosa e rebelde do jovem, ele claramente demonstra dificuldade em permanecer nos diferentes círculos sociais que exigem dele um maior envolvimento emocional, causando grande sofrimento naqueles que o amam. Assim, deixa para trás família, amigos, estilo de vida, e parece não se importar com isso. O paradoxo está justamente na frase de título que McCandless escreve em um livro pouco antes de morrer, sozinho e isolado, no frio congelante do Alasca.

É saudável questionar o sistema, buscar outros estilos de vida, viajar e percorrer lugares diferentes, fazer novas amizades, sozinho ou acompanhado. Mas, as escolhas que nos tornam emocionalmente indisponíveis e colocam nossas vidas em risco não são funcionais, são neuróticas. Nenhuma escolha pode ser saudável quando ela nos custa a vida. Entrar em contato com o que nos é diferente pode ser desconfortável, porém é também transformador. Afinal, as cercas que construímos para nos proteger não mantêm os outros para fora, elas nos aprisionam dentro de nossa mesmice e pequenez. Sim, a felicidade só é mesmo real quando é compartilhada.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato:

Deflexão

Introjeção

O lugar comum

“Mariana é viciada em repetições. Precisa viver e reviver sempre as mesmas frustrações porque, assim, sente-se segura. Dessa maneira, ela acha, outras frustrações não viverá. As mesmas, ela já tira de letra, acostumada.”
Fernanda Young em Aritmética

A Gestalt-terapia, também conhecida como terapia do aqui e agora, propõe um desafio grande em cada sessão: o bom gestalt-terapeuta é aquele que frustra o cliente sem ser invasivo, para que o vínculo de confiança não seja quebrado. Na prática esse é um desafio maior do que parece. É natural que tenhamos um comportamento defensivo ao ouvirmos verdades que não combinam com as histórias (fantasiosas) que nos contamos. Saber quando o cliente está preparado para ouvir algo sem que se sinta invadido é um talento que precisa ser refinado e constantemente aprimorado, mas é extremamente necessário. Dentro da clínica gestáltica, não há evolução sem frustração.

Muitas vezes deixo as sessões com uma sensação de desconforto na boca do estômago e um nó na garganta. É difícil e vergonhoso verbalizar minhas incapacidades de mudança. Quando me dou conta que (mais uma vez) me tornei comum, repetindo os mesmos papéis, que já não me caem tão confortavelmente, que andei tanto e fui parar novamente no lugar conhecido, meu coração se angustia.

“- E aí você se torna comum!”. Essas palavras da minha terapeuta ainda me descem atravessadas e de difícil digestão. Sim, a verdade liberta, mas tem gosto amargo.

E então entendo que voltar ao lugar comum é um comportamento quase que automático, instintivo. As repetições nos mantém presos à uma zona de conforto onde as frustrações são familiares. São frustrações que damos conta de viver. Ficar é muito tentador. Sair do lugar comum requer prontidão e exige de mim que eu seja melhor, maior, a cada escolha, em cada momento. Às vezes, sair do lugar comum também me parece exaustivo e impossível.

É natural reagirmos assim às mudanças, desviamos os passos do desconhecido, pois ele nos amedronta. E evitamos. Evitamos entrar em contato com o que não sabemos de nós mesmos, com o que não sabemos do outro. Engessamos comportamentos repetidos, previsíveis, nossos papéis mais comuns e (quem sabe) mais aceitáveis. E repetimos frustrações, porque ser fiel ao que almejamos ser, nos distancia de quem já somos. E como é desconfortável!

Mas, também é desconfortável e angustiante andar em círculos, reviver as mesmas histórias, com os mesmos desfechos, e é mais angustiante ainda entrar em contato com nossas incapacidades, essa nossa parte tão exposta, tão vulnerável, tão errante, tão… comum.