10 anos de luta e de luto

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O ano era 2009, eu já tinha perdido as contas de quantos médicos havíamos procurado, até que o diagnóstico veio. Um dia tão distante, ainda tão vívido na minha memória. Enquanto o doutor falava e gesticulava, os sons embaralhavam em meus ouvidos, as palavras ficavam borradas, como se eu pudesse enxergá-las, turvas, confusas, mas eu havia entendido muito melhor do que desejava. Muitas palavras se perdiam, apenas uma insistia em ficar, imponente, ecoando, um som que ensurdecia:

– DEMÊNCIA

Eu olhava para minha mãe, sentada ao meu lado, seus olhos grandes arregalados, calada, imóvel, assustada. Não era possível, demência? Ela tinha 59 anos, tão jovem, tão linda, tão cheia de vida.

Olhando para nossa trajetória nesses 10 anos de diagnóstico, compreendo a dádiva do não-saber, como é bom que a gente não possa prever o que o futuro com seus passos duros e apressados nos trará.

Durante esses longos anos assisti com muita dor a memória da minha mãe esvair-se, escorrer-lhe por entre os dedos, junto com tantas lágrimas, dela e minhas. E me transformei tanto nesse processo que já não reconheço aquela mulher-menina com sua ignorância do futuro que sequer imaginava em quantos pedaços seu coração se partiria para acomodar tão assustadora palavra.

Lembro da minha adolescência e de nossas brigas, do quanto a odiei, toda raiva que sentia por ela não se encaixar no meu ideal de mãe; no papel que me esmerei em construir para ela. Minha mãe, com sua teimosia, teimou tanto que se recusou a ser a mãe dos meus sonhos. Se recusou a ter comigo uma conversa conciliadora, ela preferiu me mostrar, quis me guiar, enquanto ela mesma se perdia.

Com tanta ousadia, recusou-se caber em uma fantasia, me deu em troca uma mãe de carne e osso, imperfeita, que falhou em muitas coisas – diante do meu olhar de menina -, mas não falhou ao me dar a vida. E hoje, como uma mulher crescida,  vejo em suas falhas, quanta sabedoria! Minha mãe, para mim, é a mãe perfeita, que pena que eu não sabia.

Dez anos, 3650 dias, nossos passos intercalados, numa dança infinita entre perder e ganhar, entre partir e ficar, com toda grandeza que só ela poderia me dar, enquanto ela se esquecia, me fazia lembrar.

Naquele ano, 2009, não tinha ideia de quanto minha vida iria mudar. Vi o ódio se transformar em amor, um amor tão profundo, um coração agradecido; descobri suas falhas se transformando em acertos; seu sorriso sempre me dizendo, a vida ensina, e quando nasce uma mãe, floresce a vida.

E com olhos embriagados de saudades e solidão, já se vão 10 anos de luta e de luto. Cada dia é uma despedida. Enquanto se perde sua memória, com ela se vai parte tão grande da minha história. Mas eu não me esqueço, ainda escuto sua voz me dizendo, – filha, não tenha medo, é preciso sempre, sempre continuar!