Sobre tatiananicz

Libriana com ascendente em Touro. Católica com ascendente em Buda. Amo a natureza e as viagens. Eterna curiosa. Educadora e contadora de histórias. Divagadora de todas as horas. Escrevo nas horas vagas para aliviar cargas, compartilhar experiências e dormir bem. "Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia." Alfredo Bosi em "Céu, Inferno"

O lugar comum

“Mariana é viciada em repetições. Precisa viver e reviver sempre as mesmas frustrações porque, assim, sente-se segura. Dessa maneira, ela acha, outras frustrações não viverá. As mesmas, ela já tira de letra, acostumada.”
Fernanda Young em Aritmética

A Gestalt-terapia, também conhecida como terapia do aqui e agora, propõe um desafio grande em cada sessão: o bom gestalt-terapeuta é aquele que frustra o cliente sem ser invasivo, para que o vínculo de confiança não seja quebrado. Na prática esse é um desafio maior do que parece. É natural que tenhamos um comportamento defensivo ao ouvirmos verdades que não combinam com as histórias (fantasiosas) que nos contamos. Saber quando o cliente está preparado para ouvir algo sem que se sinta invadido é um talento que precisa ser refinado e constantemente aprimorado, mas é extremamente necessário. Dentro da clínica gestáltica, não há evolução sem frustração.

Muitas vezes deixo as sessões com uma sensação de desconforto na boca do estômago e um nó na garganta. É difícil e vergonhoso verbalizar minhas incapacidades de mudança. Quando me dou conta que (mais uma vez) me tornei comum, repetindo os mesmos papéis, que já não me caem tão confortavelmente, que andei tanto e fui parar novamente no lugar conhecido, meu coração se angustia.

“- E aí você se torna comum!”. Essas palavras da minha terapeuta ainda me descem atravessadas e de difícil digestão. Sim, a verdade liberta, mas tem gosto amargo.

E então entendo que voltar ao lugar comum é um comportamento quase que automático, instintivo. As repetições nos mantém presos à uma zona de conforto onde as frustrações são familiares. São frustrações que damos conta de viver. Ficar é muito tentador. Sair do lugar comum requer prontidão e exige de mim que eu seja melhor, maior, a cada escolha, em cada momento. Às vezes, sair do lugar comum também me parece exaustivo e impossível.

É natural reagirmos assim às mudanças, desviamos os passos do desconhecido, pois ele nos amedronta. E evitamos. Evitamos entrar em contato com o que não sabemos de nós mesmos, com o que não sabemos do outro. Engessamos comportamentos repetidos, previsíveis, nossos papéis mais comuns e (quem sabe) mais aceitáveis. E repetimos frustrações, porque ser fiel ao que almejamos ser, nos distancia de quem já somos. E como é desconfortável!

Mas, também é desconfortável e angustiante andar em círculos, reviver as mesmas histórias, com os mesmos desfechos, e é mais angustiante ainda entrar em contato com nossas incapacidades, essa nossa parte tão exposta, tão vulnerável, tão errante, tão… comum.

Comer, Rezar, Amar e Introjetar

a-renovacao-espiritual-em-comer-rezar-e-amar.html

“E uma vez que já estou ali ajoelhada no chão em posição de súplica, deixem-me manter essa posição enquanto viajo no tempo até três anos atrás, até o instante em que toda esta história começou – um instante que também me encontrou nessa mesma exata posição: de joelhos, no chão, rezando. No entanto, tudo o mais em relação à cena de três anos atrás era diferente. Daquela vez eu não estava em Roma, mas sim no banheiro do andar de cima da grande casa no subúrbio de Nova York que eu acabara de comprar com meu marido. Eram mais ou menos três horas da manhã de um novembro gelado. Meu marido dormia na nossa cama. Eu estava escondida no banheiro pelo que deveria ser a 47a noite consecutiva, e – como em todas aquelas outras noites – estava soluçando. Soluçando com tanta força, na verdade, que uma grande poça de lágrimas e muco se espalhava à minha frente sobre os ladrilhos do banheiro, um verdadeiro lago formado por toda minha vergonha, medo, confusão e dor. Eu não quero mais estar casada. Eu estava tentando tanto não saber isso, mas a verdade continuava a insistir. Eu não quero mais estar casada. Não quero morar nesta casa grande. Não quero ter um filho.” Elizabeth Gilbert em Comer, Rezar, Amar.

Embora não seja próprio do espírito gestáltico falar em tipologia, Fritz Perls e outros gestaltistas descreveram alguns “modos operantes” utilizados para evitação de contato com o outro, com o meio ou com situações de conflitos emocionais. Os gestaltistas chamaram estes modos de se relacionar de “Mecanismos de Evitação do Contato” ou “Mecanismos de Defesa”.

Os mecanismos de evitação de contato são recursos que desenvolvemos desde muito cedo,  primeiramente como forma de ajustamento e sobrevivência ao modo (muitas vezes disfuncional) como nosso sistema familiar está organizado; posteriormente repetimos os mesmos padrões em outros círculos relacionais. Todos nós alternamos entre os diferentes mecanismos, de acordo com dada situação ou conflito, por isso não se deve “engessar” alguém em um determinado mecanismo. Porém, fala-se em prevalências, que moldam nosso funcionamento e personalidade.

A introjeção é uma manobra onde o sujeito incorpora ideias, sentimentos, comportamentos e uma série de outros aspectos do ambiente. Há um processo passivo de “engolir” o que vem de fora e assim a pessoa acaba entrelaçando as próprias escolhas, preferências e opiniões com as dos outros e tendo dificuldade de diferenciar o que é realmente seu.

Segundo Perls, “não há nada em nossas mentes que não venha do meio, e não há nada do meio para o qual não haja uma necessidade orgânica, física ou psicológica. Estas devem ser digeridas e dominadas se quiserem se tornar nossas de verdade, realmente uma parte da nossa personalidade. Mas se simplesmente as aceitamos completamente e sem crítica, baseados na palavra de outra pessoa, ou porque estão na moda, ou são de confiança, ou tradicionais, ou antiquadas ou revolucionárias – tornam-se um peso para nós. São realmente indigeríveis. Ainda são corpos estranhos, embora tenham se instalado em nossas mentes.” (Fritz Perls em “A abordagem gestáltica”, p. 46 e 47)

No livro “Comer, Rezar, Amar”, a personagem principal se vê em meio a uma crise existencial quando dá-se conta que a vida “nos eixos” que escolheu não é exatamente a vida que ela quer viver. Ela termina um relacionamento de anos, abandona uma vida considerada por muitos “perfeita” e embarca em uma jornada em busca de autoconhecimento, do que lhe serve, e o que não lhe serve, de desconstrução de crenças e valores.

A pessoa que introjeta é aquela que segue regras, faz tudo “certinho”, mas nem sempre é feliz. Introjetores são pessoas que se esforçam para manter e seguir regras, muitas vezes são religiosos, conservadores e radicais em seus posicionamentos. Introjetores podem ser extremamente incoerentes, pois não conseguem manter conexão clara entre o que acreditam e o que fazem. Outras vezes, esforçam-se demasiadamente para manter essa coerência, tornando-se pessoas cristalizadas, sem autenticidade e espontaneidade. As crises surgem quando encontram-se em situações conflituosas e de grandes impasses emocionais e dão-se conta que mesmo fazendo tudo “certinho”, os resultados nem sempre são aqueles esperados.

Lembrando que todo mecanismo pode ser funcional, a introjeção é saudável quando utilizada em situações em que as regras precisam ser cumpridas para que a ordem seja mantida. Ninguém pode sair nu na rua, por exemplo, existe um senso comum em que nos baseamos para que tenhamos uma vida relativamente harmoniosa em comunidade. Introjetar torna-se um mecanismo neurótico quando passamos a seguir regras, sem questionar, a nos esforçar para agradar os demais, quando nos tornamos radicais em nossas crenças e valores sem considerar ou ponderar crenças e valores alheios.

Para uma vida emocionalmente saudável é preciso que aprendamos a “mastigar” antes de engolir os muitos introjetos que nos são impostos desde pequenos. A partir da maturidade podemos criar autonomia para fazer nossas próprias escolhas e filtrar aquilo que nos serve. O convite é ampliar o mapa mental através da análise individual de cada conflito e queixa, com contextualização para aquela situação específica, também é importante falar sem utilizar-se de generalizações e entender o que funciona para si, que é diferente do que funciona para os outros. Sim, a saúde consiste no equilíbrio, e temos que lembrar sempre que ele é diferente para cada um de nós.

Anne with an “E”, defletindo para sobreviver

anne-with-an-e

“Deflexão é uma manobra para evitar o contato direto com outra pessoa ou conflito; uma forma de tirar o calor do contato real. Isso é feito ao se falar em rodeios, usar linguagem excessiva, rir-se do que a outra pessoa diz, desviar o olhar de quem fala, ser subjetivo em vez de específico, não ir direto ao ponto, ser polido em vez de falar diretamente, usar linguagem estereotipada em vez de uma fala original, exprimir emoções brandas em vez das emoções intensas; falar sobre o passado quando o presente é mais relevante. A pessoa que deflete, ao responder à outra age quase como se tivesse um escudo invisível, muitas vezes experiencia a si mesma como imóvel, entediada, confusa, vazia, cínica, não-amada, sem importância e deslocada.” (Erving e Miriam Polster, 2001).

Baseada no clássico “Anne of Green Gables” da escritora canadense L. M. Montgomery, a série da Netflix “Anne with an E” conta a história de Anne Shirley, uma menina órfã aos três meses que desde cedo trabalha duro para sobreviver. Os olhos azuis e vívidos da jovem Anne escondem o peso de uma curta existência, porém carregada de complexidade emocional e traumas.

A história começa quando os irmãos Marilla e Matthew Cuthbert resolvem adotar um menino com braços fortes e ágeis para ajudar na lida diária do campo, Matthew surpreende-se ao encontrar uma menina aguardando por ele na estação de trem. O primeiro encontro da garota com os novos pais adotivos é pautado por decepção, frustração e rejeição. A menina Anne é miúda e desajeitada, tem imaginação viva e fala incessante. Dentro de uma tipologia gestáltica, pode-se dizer que Anne é deflexiva.

Embora não seja próprio do espírito gestáltico falar em tipologia, Fritz Perls e outros gestaltistas descreveram alguns “modos operantes” utilizados para evitação de contato com o outro, com o meio ou com situações de conflitos emocionais. Os gestaltistas chamaram estes modos de se relacionar de “Mecanismos de Evitação do Contato” ou “Mecanismos de Defesa”.

Os mecanismos de evitação de contato são recursos que desenvolvemos desde muito cedo,  primeiramente como forma de ajustamento e sobrevivência ao modo (muitas vezes disfuncional) como nosso sistema familiar está organizado; posteriormente repetimos os mesmos padrões em outros círculos relacionais. Todos nós alternamos entre os diferentes mecanismos, de acordo com dada situação ou conflito, por isso não se deve “engessar” alguém em um determinado mecanismo. Porém, fala-se em prevalências, que moldam nosso funcionamento e personalidade.

A menina Anne é muito jovem e desde cedo vive desamparada em orfanatos e trabalhando em casa de terceiros. Por diversas vezes foi rejeitada, maltratada, agredida, experienciou traumas psicológicos e físicos que com pouca idade não possuía recursos emocionais para “processar”. Ela se utiliza da fala excessiva e da imaginação para criar ambientes mais leves; assim tira o calor das relações e evita contato com a realidade dos fatos, com o peso e a dor que eles trazem. A fim de sobreviver com tão pouca idade em um mundo tão emocionalmente complexo e caótico, Anne deflete.

A deflexão é o mecanismo de evitação que se utiliza do desvio do contato direto ou da energia do objeto de desejo. A pessoa deflexiva nunca adere à situação, sempre falando de outras coisas, fala muito e ao mesmo tempo não diz nada.

É importante ressaltar que todos os mecanismos são funcionais quando utilizados de maneira adequada. Defletir é um ótimo recurso em situações que requerem contatos superficiais, polidez e diplomacia. Também é um recurso muito utilizado na arte e na escrita, tornando as palavras mais ricas e floreadas. As pessoas com prevalência de funcionamento deflexivo, por terem dificuldade de fixação em uma só coisa ou pessoa, são curiosas, criativas e têm conhecimento de assuntos variados.

Os mecanismos de evitação de contato tornam-se neuróticos quando utilizados em situações que requerem novas maneiras de lidar com conflitos, ou seja, quando se tornam anacrônicos. Defletir é inadequado quando precisamos ser objetivos, assertivos, ao falarmos de nós, quando se faz necessário silenciar e entrar em contato com nossas dores e frustrações. Defletir não nos ajuda quando temos que focar ou aprofundar em algo e, principalmente, quando desejamos criar intimidade e vínculo emocional legítimo e duradouro com o outro.

O exercício para pessoas que defletem é aprender a falar assertiva e objetivamente, manter foco e atenção em algo ou alguém, fazer e manter contato visual ao falar, escutar e, claro, silenciar. 

“Anne with an E” é uma história sobre reconstrução, novos aprendizados e oportunidades, e também sobre deixar velhos padrões (deflexivos) de comportamentos. A menina Anne precisa reinventar-se, aprender a permanecer e criar vínculos e recontar sua historia. A série não acerta sempre, mas me surpreendeu em conteúdo, produção e fotografia. A narrativa, apesar de complexa em conteúdo emocional, se desenvolve de forma leve e divertida. Assistir “Anne With an E” requer ainda contextualização histórica de uma época onde não existia infância e as crianças eram tratadas como “mini-adultos”. Para os chorões como eu, sugiro manter uma caixa de lenços por perto.

Eu sou eu, você é você

1280px-Creation_of_Adam_Sistine_Chapel (1)

“Eu sou eu, você é você. Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas. Eu sou eu, você é você. Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas. E nem você o está para viver de acordo com as minhas. Eu sou eu, você é você. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.” Fritz Perls

A Gestalt-terapia, também como conhecida como terapia do contato, é uma das muitas abordagens humanistas da psicoterapia. O contato para a GT é tão fundamental que grande parte da literatura gestáltica é baseada nisso (fronteiras de contato, mecanismos de evitação de contato). Porém, esse contato a que se referem os estudiosos da GT não é exatamente o contato como entendemos de maneira literal, nem somente o encontro com o outro. As formas possíveis de contato descritas na GT são diversas e dinâmicas.

Perls, Hefferline e Goodman descreveram: “contato é todo tipo de relação viva que se dê na fronteira, na interação entre o organismo e o ambiente, é um processo contínuo de reciprocidade em que homem e mundo se transformam. O contato acontece no diferente, é o reconhecimento do outro, o lidar com o outro, o que eu sou, o diferente, o novo, o estranho. O contato acontece na fronteira eu-outro, conhecido-desconhecido, velho-novo, todo contato é dinâmico e criativo”.

Em um sentido mais abstrato, conseguimos encerrar nossos conflitos emocionais quando finalmente entramos em contato com a verdade dos fatos como eles são; quando nos damos conta das verdades que tantas vezes evitamos, justamente por serem tão dolorosas; quando lamentamos nossas histórias mais tristes. Esse momento do “dar-se conta” é fundamental para que deixemos de repetir antigos padrões (neuróticos) de comportamento, que se tornaram anacrônicos e, portanto, inadequados. Dar fechamento aos nossos conflitos emocionais, ou “gestalten”, é fundamental para que façamos as pazes com nossa história e possamos então trazer para o mundo um “eu” mais completo e emocionalmente saudável.

Quando nos referimos ao contato com o outro, ele é autêntico quando ocorre na fronteira, ou seja, quando existe interesse e disponibilidade emocional de ambos, sem que haja manipulações ou invasões. Não é necessário que haja esforço, não é necessário que uma pessoa precise ajustar-se à outra para ser amada ou aceita. Contato autêntico é aquele que inclui as duas partes, e todas as partes dessas duas partes.

Eu sou eu, você é você.

Constantemente me pergunto quanto de mim devo deixar de lado para ser amada? A resposta da GT é clara, nada. Dentro da visão gestáltica, para sermos verdadeiramente amados, devemos incluir (e não alienar) todas as nossas partes que muitas vezes tentamos anular na ânsia de sermos amados. Na prática isso requer um boa dose de bom senso, maturidade, auto-conhecimento e (muito) treino. Isso não quer dizer que não devo me moldar para incluir o desejo do outro, mas que esse desejo de mudar deve ser voluntário.

Nos escritos que ficaram conhecidos como “Oração da Gestalt-terapia” o convite de Fritz Perls, considerado o pai da GT, é para que nos empenhemos em trazer para nossa vida e nossos relacionamentos auto-responsabilização. Eu sou responsável pelo meu caminho, você é responsável pelo seu. Eu sou responsável pelas minhas dores, você é responsável pelas suas. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.

 

Tomara que caia

tumblr_nxmjzyKRD31t5wz6ro1_500

Nunca fui uma mulher dessas “femme fatale”, sabe? A minha rebeldia contra alguns dos padrões impostos pelo patriarcado começa desde que me conheço por gente. Minha mãe contava que ainda bebê me incomodava com os laços e fitas com os quais ela insistia em adornar meu cabelo, em cinco minutos arrancava tudo.

Quando garota passávamos as férias na fazenda da minha tia, minha irmã e prima gostavam de fazer coisas mais simples, dormir até tarde, assistir TV, ler Agatha Christe, eu tinha outras ambições: aprender a cilhar cavalos e a cavalgar. Meu primo, três anos mais velho que eu, era entendido do assunto, acordava antes do sol nascer todos os dias para encilhar os cavalos e tocar os bois.

Meu sonho era fazer o mesmo, mas sabendo da minha condição de prima mais nova, da cidade – e menina – aprender a encilhar um cavalo já estava de “bom tamanho”. Ele tentava sair em silêncio para não me acordar. Eu era determinada, antes dele sair, já aguardava ansiosamente. Descia atrás dele, caminhando apressadamente pelo trecho da estradinha de chão que levava até o barracão, me esforçava para acompanhar seu ritmo, ele caminhava com passos rápidos e largos, com andar confiante de quem, desde cedo, conhecia seu lugar no mundo, eu ia ficando para trás, chegava lá embaixo ofegante – e feliz.

Observava atenta enquanto ele ia até o pasto pegar o cavalo, se aproximando devagar do bicho, colocando primeiro o cabresto, depois o freio e ajeitando a rédea. Então ele o trazia para perto do barracão e colocava o pelego e o arreio ou a sela, por último apertava a barrigueira. Decorei a sequência que nunca usei. Às vezes, ele me deixava colocar o freio ou ajeitar a sela, segundo ele, eu era “fracote” e não tinha força para apertar a cilha da barrigueira.

Meu primo não era um guri “ruim”, eu que era teimosa demais (era o que me diziam) e ele sempre me deixava andar no “Campeão”, que teoricamente era o cavalo “mais bravo” que tinha para as meninas. E o Campeão foi meu companheiro de cavalgadas, até hoje lembro daquela sensação, me sentia livre e capaz.

Pois é, posso não ser nenhuma “femme fatale” (será que na “vida real” elas existem mesmo?), mas com os anos aprendi a celebrar minha feminilidade, aprendi que ser mulher vai além da roupagem, é um dom adquirido com a maturidade e as cicatrizes deixadas por uma sociedade que não contempla nossas grandes ambições. Noite dessas quis usar um vestido “fatale” tomara que caia, preto, curto e que há tempos não vestia. Por via das dúvidas (e por ser Curitiba) resolvi levar um casaquinho.

Meus amigos vestiam moletom e camiseta, senti inveja deles, eles estavam confortáveis e ninguém (além de mim) parecia se importar com o que vestiam. Os rapazes na balada exibem sorrisos despretensiosos, tênis, moletons e camisetas, e assim como meu primo, parecem nem se dar conta do conforto e facilidade que desfrutam pelo simples fato de terem nascido homens. Privilégio é algo difícil de entender porque nunca saberemos como é viver sem os que temos ou na pele daqueles que não tem.

Às vezes sinto que ser mulher é como aquela caminhada de passos ligeiros que fazia tentando alcançar meu primo;  em terreno desregular, tropeçando no breu da noite que findava, aliviada quando o sol despontava no horizonte como se fora aliado ajudando a iluminar o caminho. Ser mulher é constantemente se esforçar e sentir-se ficando para trás. É viver desconstruindo padrões, arrancando laços e fitas diante do olhar de reprovação de muitos. Não, claro que não é assim para todas, para a maioria é muito pior. Muitas não têm nem a chance de fazer a caminhada. Eu tenho consciência dos meus privilégios.

Deu calor, resolvi prender o cabelo, o  rapaz, um estranho, ao meu lado achou-se suficientemente familiar para dizer “prende o cabelo bem alto que fica gata, hein?”. E quando eu ia tirando o casaco ele também sentiu-se no direito de acrescentar um “agora sim!”.  Eu não quero sair de moletom na balada, gosto de usar vestidos, mas quero poder vesti-los sem sentir que serei devorada, e definitivamente sem os comentários de estranhos.

Sim, ser mulher é ter alguém (estranho ou não) constantemente te dizendo o que você deve ou não fazer, como deve ou não se comportar. Vestir-se. Pensar. Agir. Falar. Sonhar. Desejar. E ainda assim sentir-se, de diversas maneiras e em diversas situações, inadequada. É o que aprendi desde cedo, como uma menina-moleca que arrancava laços e fitas diante do olhar reprovador da minha mãe.

Soltei o cabelo, vesti o casaco, resolvi que minha noite já tinha chegado ao fim. No meu tempo de menina já estaria quase na hora de ir cilhar os cavalos. A caminhada todavia parece-me longa e escura. Talvez o sol ainda seja aliado, torço para que a luz que brilha no horizonte ilumine nossos caminhos, sigo ofegante e com grandes ambições, torcendo e lutando para que um dia essa moda machista – tomara – caia.

A escolha do coração

Festa_del_libro_a_Barcellona-620x410

Das escolhas que fazemos na vida, algumas fáceis outras mais complexas, talvez a mais desafiadora de todas é a escolha do coração. Escolher com o coração requer desapego dos antigos padrões, requer criatividade e transformação. Para escolher com o coração precisamos aprender a abrir mão do que nos foi ensinado pelos nossos pais, mestres e amigos, com muito carinho, mas que não nos serve.

Quanto mais tenho caminhado, amadurecido e aprendido, mais entendo que é muito fácil cairmos nos antigos padrões, no que esperam de nós, em escolher a trilha mais percorrida. Muitas abordagens da Psicologia tentam explicar porque temos a sensação de estarmos sempre repetindo os mesmos padrões de comportamento, como se nossa vida fosse um eterno “déjà vu”. Estudos na neurociência se aproximam da explicação lógica, hoje existem técnicas eficientes de reprogramação cerebral e ressignificação de traumas. Mas, para mim, leiga, curiosa, entusiasta, a única mudança vem mesmo de aprender a escolher com o coração.

A escolha do coração é uma escolha difícil porque ela é única, intransferível, individual. Conselhos e experiências alheias não se aplicam, pois ninguém, além de você mesmo, pode fazer essa escolha. E não se engane, a tendência é sempre voltar para a trilha mais percorrida, para os antigos padrões, é voltar a cair na mesmice. E na mesmice, não há crescimento.

Cresça.

Percorrer o novo é desconfortável, pois os caminhos não percorridos nos levam à lugares por poucos conhecidos, nos demandam desapego, uma grande dose de fé e um caminhar titubeante já que esse caminho desconhecido ninguém nunca nos ensinou a percorrer.

Percorra.

A escolha do coração é uma escolha difícil, porém fiel. Fiel à minha história e luta, leal à pessoa que me tornei, aos valores que me empenhei em manter e aos que abri mão, é uma escolha fiel às minhas renúncias. Para cada escolha, muitas renúncias. 

Renuncie.

Escolher com o coração é fazer diferente, é honrar o caminho que nossos pais e os pais de nossos pais percorreram, aprendendo através de seus erros, aprimorando seus acertos. Escolher com o coração é escolher sem precisar se justificar, é abandonar a razão e desafiar as lógicas que te convencem a ficar, que te convidam a voltar para o caminho já percorrido, é ser visto por muitos como louco.

Enlouqueça.

É certo, repetir é muito mais fácil do que criar. Escolher com o coração é um pedido para que criemos: nossa própria história, nosso próprio destino, nosso caminhar; e que refaçamos nossos votos, reforçando os desejos de nosso coração, todos os dias, a cada obstáculo, desafio, a cada convite para ficar, para voltar, para não se perder.

Perca-se.

A escolha do coração é uma escolha salgada banhada de suor e lágrimas. A escolha do coração é solitária e vulnerável. É desconfortável. É aquela que te desestabiliza, sem promessas nem garantias. Escolher com o coração é correr riscos.

Arrisque-se.

Mas, escolher com o coração, traçar seu próprio caminho tem muito a ver com exemplo e legado. O legado das nossas escolhas, de como escolhemos criar nossa história, daqueles que escolhemos para compartilhar nosso caminho, da nossa caminhada única e irrepetível. E esse é o único legado que vale a pena deixar para o mundo.

Escolha.

O sonho de Ismar

             Há muitos e muitos anos, vivia na cidade de Damasco, na Síria, um pobre homem chamado Ismar. Ismar sempre lutara para ganhar a vida dignamente; não tendo podido estudar e aprender uma profissão sujeitava-se a qualquer espécie de serviço: limpava jardins, carregava pedras, buscava água, sempre com boa vontade, trabalhando sem se queixar. Com o passar dos anos, porém, Ismar começou a sentir-se cansado e preocupado. Durante a vida toda só trabalhara e nunca conseguira juntar qualquer dinheiro, nenhuma economia que pudesse socorrê-lo em caso de necessidade. A única coisa que tinha de seu era uma casa, herança antiga da família.

            A casa ficava num bairro pobre de Damasco, no fim de uma rua esburacada. Era feita de pedras e protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corria um riacho; à beira do riacho crescia uma velha figueira e era à sombra dessa figueira que Ismar costumava descansar depois de trabalhar a manhã toda. Ali ele refletia sobre sua vida e se perguntava o que seria dele quando a velhice não lhe permitisse mais o esforço físico. Estou ficando velho, pensava, não tenho filhos que me possam sustentar. Será que Alá, meu pai divino, vai me abandonar?

            Sempre assim cismando, um dia Ismar dormiu, recostado à figueira, e teve um sonho; sonhou que estava na cidade do Egito. Ele nunca havia estado realmente no Egito, mas no sonho passeava com desembaraço pela avenida central da cidade e distinguia perfeitamente os mercadores de tapetes, os minaretes das mesquitas. Atravessando uma praça, ele dobrava à direita, descia uma rua estreita, chegava a um rio. Sobre o rio havia uma ponte e embaixo da ponte – ó maravilha! – um cofre repleto de moedas e jóias reluzentes!

            Quando acordou, Ismar teve certeza de que aquele era o tesouro que Alá lhe reservara. O sonho tinha sido tão nítido, tão preciso nos detalhes, não havia engano! Sem pensar em mais nada, ele arrumou sua trouxa e pôs-se a caminho do Cairo. Era uma longa distância, principalmente para ele, que ia a pé e sem dinheiro. No entanto, movido pela convicção de encontrar sua fortuna, Ismar atravessou desertos e vales, rios e florestas, até chegar, finalmente, exausto e maltrapilho, à cidade que lhe aparecera em sonho. Sua fé, então, redobrou de vigor, pois o Cairo era exatamente como ele havia sonhado! Ele reconheceu a avenida principal, os mercadores de tapetes, os minaretes das mesquitas; chegou à praça, virou à direita, desceu a rua, avistou o rio, aproximou-se da ponte, mas… no exato lugar em que deveria estar o tesouro, não havia cofre algum; havia, isso sim, um mendigo mais pobre e maltrapilho que ele.

            Chocado, Ismar deu-se conta da sua loucura! Como pudera acreditar tão piamente num simples sonho? Que tolo fora! E agora, com que forças enfrentaria a viagem de volta? Que impulso de fé ou esperança sustentaria aquela alma tão esvaziada pela decepção? Não, pensou ele. Melhor será acabar com os meus dias aqui mesmo. Nenhuma esperança me resta. E, decidido a se afogar, subiu à ponte. Já estava quase se atirando quando sentiu que alguém o segurava, agarrando sua perna por debaixo da ponte.

            Era o mendigo que gritava:

– Hei amigo! Cuidado, você pode morrer! Esse rio é perigoso!

– Ainda bem! – respondeu Ismar – É isso mesmo que desejo: matar-me.

– Não faça isso. – ponderou o mendigo – Você ainda tem muito que viver. Escute, desça até aqui e conte-me a sua história. Faça sua última boa ação, entretendo um miserável como eu. Depois, se quiser, pode se matar!

            Ismar hesitou, mas resolveu afinal repartir suas dores com aquele desconhecido. Contou-lhe o sonho, concluindo:

– Então, no mesmo lugar em que deveria estar o cofre, estava você… Agora, diga-me, não tenho razão em querer acabar com minha vida?

– Olhe, – exclamou o mendigo – não queria dizer isso, mas acho que você tem razão. Você foi muito irresponsável, um louco!!! Acreditar num sonho! E que você sonhou só uma vez? Veja se tem cabimento! Pois fique sabendo que eu, há cinco anos, tenho o mesmo sonho, que se repete quase todas as noites. E não é por isso que vou sair correndo atrás do que sonhei.

– E o que você sonha? – perguntou curioso Ismar.

– Escute só: eu sonho que estou na Síria, na cidade de Damasco, o que já é uma asneira, pois nunca estive na Síria. Estou num bairro pobre, seguindo por uma rua esburacada. No fim da rua há uma casa de pedra, protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corre um riacho; à beira do riacho cresce uma figueira e, dentro dessa figueira, que é oca, há um tesouro! Não é uma bobagem? Eu é que não sou louco de acreditar em sonhos, não acha?

            Ismar não respondeu. Estava pasmo, pois reconhecera, pela descrição do mendigo, a sua rua, a sua casa, a sua amada figueira!

            Compreendendo os laços do destino, abraçou o mendigo, tomou o caminho de volta e chegando à sua casa, foi direto à velha árvore, onde o tão sonhado tesouro o aguardava.

por Rosane Pamplona em “Novas Histórias Antigas”, ed. Brinque-Book