Sobre tatiananicz

Libriana com ascendente em Touro. Católica com ascendente em Buda. Amo a natureza e as viagens. Eterna curiosa. Educadora e contadora de histórias. Divagadora de todas as horas. Escrevo nas horas vagas para aliviar cargas, compartilhar experiências e dormir bem. "Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia." Alfredo Bosi em "Céu, Inferno"

Anne with an “E”, defletindo para sobreviver

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“Deflexão é uma manobra para evitar o contato direto com outra pessoa ou conflito; uma forma de tirar o calor do contato real. Isso é feito ao se falar em rodeios, usar linguagem excessiva, rir-se do que a outra pessoa diz, desviar o olhar de quem fala, ser subjetivo em vez de específico, não ir direto ao ponto, ser polido em vez de falar diretamente, usar linguagem estereotipada em vez de uma fala original, exprimir emoções brandas em vez das emoções intensas; falar sobre o passado quando o presente é mais relevante. A pessoa que deflete, ao responder à outra age quase como se tivesse um escudo invisível, muitas vezes experiencia a si mesma como imóvel, entediada, confusa, vazia, cínica, não-amada, sem importância e deslocada.” (Erving e Miriam Polster, 2001).

Baseada no clássico “Anne of Green Gables” da escritora canadense L. M. Montgomery, a série da Netflix “Anne with an E” conta a história de Anne Shirley, uma menina órfã aos três meses que desde cedo trabalha duro para sobreviver. Os olhos azuis e vívidos da jovem Anne escondem o peso de uma curta existência, porém carregada de complexidade emocional e traumas.

A história começa quando os irmãos Marilla e Matthew Cuthbert resolvem adotar um menino com braços fortes e ágeis para ajudar na lida diária do campo, Matthew surpreende-se ao encontrar uma menina aguardando por ele na estação de trem. O primeiro encontro da garota com os novos pais adotivos é pautado por decepção, frustração e rejeição. A menina Anne é miúda e desajeitada, tem imaginação viva e fala incessante. Dentro de uma tipologia gestáltica, pode-se dizer que Anne é deflexiva.

Embora não seja próprio do espírito gestáltico falar em tipologia, Fritz Perls e outros gestaltistas descreveram alguns “modos operantes” utilizados para evitação de contato com o outro, com o meio ou com situações de conflitos emocionais. Os gestaltistas chamaram estes modos de se relacionar de “Mecanismos de Evitação do Contato” ou “Mecanismos de Defesa”.

Os mecanismos de evitação de contato são recursos que desenvolvemos desde muito cedo,  primeiramente como forma de ajustamento e sobrevivência ao modo (muitas vezes disfuncional) como nosso sistema familiar está organizado; posteriormente repetimos os mesmos padrões em outros círculos relacionais. Todos nós alternamos entre os diferentes mecanismos, de acordo com dada situação ou conflito, por isso não se deve “engessar” alguém em um determinado mecanismo. Porém, fala-se em prevalências, que moldam nosso funcionamento e personalidade.

A menina Anne é muito jovem e desde cedo vive desamparada em orfanatos e trabalhando em casa de terceiros. Por diversas vezes foi rejeitada, maltratada, agredida, experienciou traumas psicológicos e físicos que com pouca idade não possuía recursos emocionais para “processar”. Ela se utiliza da fala excessiva e da imaginação para criar ambientes mais leves; assim tira o calor das relações e evita contato com a realidade dos fatos, com o peso e a dor que eles trazem. A fim de sobreviver com tão pouca idade em um mundo tão emocionalmente complexo e caótico, Anne deflete.

A deflexão é o mecanismo de evitação que se utiliza do desvio do contato direto ou da energia do objeto de desejo. A pessoa deflexiva nunca adere à situação, sempre falando de outras coisas, fala muito e ao mesmo tempo não diz nada.

É importante ressaltar que todos os mecanismos são funcionais quando utilizados de maneira adequada. Defletir é um ótimo recurso em situações que requerem contatos superficiais, polidez e diplomacia. Também é um recurso muito utilizado na arte e na escrita, tornando as palavras mais ricas e floreadas. As pessoas com prevalência de funcionamento deflexivo, por terem dificuldade de fixação em uma só coisa ou pessoa, são curiosas, criativas e têm conhecimento de assuntos variados.

Os mecanismos de evitação de contato tornam-se neuróticos quando utilizados em situações que requerem novas maneiras de lidar com conflitos, ou seja, quando se tornam anacrônicos. Defletir é inadequado quando precisamos ser objetivos, assertivos, ao falarmos de nós, quando se faz necessário silenciar e entrar em contato com nossas dores e frustrações. Defletir não nos ajuda quando temos que focar ou aprofundar em algo e, principalmente, quando desejamos criar intimidade e vínculo emocional legítimo e duradouro com o outro.

O exercício para pessoas que defletem é aprender a falar assertiva e objetivamente, manter foco e atenção em algo ou alguém, fazer e manter contato visual ao falar, escutar e, claro, silenciar. 

“Anne with an E” é uma história sobre reconstrução, novos aprendizados e oportunidades, e também sobre deixar velhos padrões (deflexivos) de comportamentos. A menina Anne precisa reinventar-se, aprender a permanecer e criar vínculos e recontar sua historia. A série não acerta sempre, mas me surpreendeu em conteúdo, produção e fotografia. A narrativa, apesar de complexa em conteúdo emocional, se desenvolve de forma leve e divertida. Assistir “Anne With an E” requer ainda contextualização histórica de uma época onde não existia infância e as crianças eram tratadas como “mini-adultos”. Para os chorões como eu, sugiro manter uma caixa de lenços por perto.

Eu sou eu, você é você

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“Eu sou eu, você é você. Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas. Eu sou eu, você é você. Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas. E nem você o está para viver de acordo com as minhas. Eu sou eu, você é você. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.” Fritz Perls

A Gestalt-terapia, também como conhecida como terapia do contato, é uma das muitas abordagens humanistas da psicoterapia. O contato para a GT é tão fundamental que grande parte da literatura gestáltica é baseada nisso (fronteiras de contato, mecanismos de evitação de contato). Porém, esse contato a que se referem os estudiosos da GT não é exatamente o contato como entendemos de maneira literal, nem somente o encontro com o outro. As formas possíveis de contato descritas na GT são diversas e dinâmicas.

Perls, Hefferline e Goodman descreveram: “contato é todo tipo de relação viva que se dê na fronteira, na interação entre o organismo e o ambiente, é um processo contínuo de reciprocidade em que homem e mundo se transformam. O contato acontece no diferente, é o reconhecimento do outro, o lidar com o outro, o que eu sou, o diferente, o novo, o estranho. O contato acontece na fronteira eu-outro, conhecido-desconhecido, velho-novo, todo contato é dinâmico e criativo”.

Em um sentido mais abstrato, conseguimos encerrar nossos conflitos emocionais quando finalmente entramos em contato com a verdade dos fatos como eles são; quando nos damos conta das verdades que tantas vezes evitamos, justamente por serem tão dolorosas; quando lamentamos nossas histórias mais tristes. Esse momento do “dar-se conta” é fundamental para que deixemos de repetir antigos padrões (neuróticos) de comportamento, que se tornaram anacrônicos e, portanto, inadequados. Dar fechamento aos nossos conflitos emocionais, ou “gestalten”, é fundamental para que façamos as pazes com nossa história e possamos então trazer para o mundo um “eu” mais completo e emocionalmente saudável.

Quando nos referimos ao contato com o outro, ele é autêntico quando ocorre na fronteira, ou seja, quando existe interesse e disponibilidade emocional de ambos, sem que haja manipulações ou invasões. Não é necessário que haja esforço, não é necessário que uma pessoa precise ajustar-se à outra para ser amada ou aceita. Contato autêntico é aquele que inclui as duas partes, e todas as partes dessas duas partes.

Eu sou eu, você é você.

Constantemente me pergunto quanto de mim devo deixar de lado para ser amada? A resposta da GT é clara, nada. Dentro da visão gestáltica, para sermos verdadeiramente amados, devemos incluir (e não alienar) todas as nossas partes que muitas vezes tentamos anular na ânsia de sermos amados. Na prática isso requer um boa dose de bom senso, maturidade, auto-conhecimento e (muito) treino. Isso não quer dizer que não devo me moldar para incluir o desejo do outro, mas que esse desejo de mudar deve ser voluntário.

Nos escritos que ficaram conhecidos como “Oração da Gestalt-terapia” o convite de Fritz Perls, considerado o pai da GT, é para que nos empenhemos em trazer para nossa vida e nossos relacionamentos auto-responsabilização. Eu sou responsável pelo meu caminho, você é responsável pelo seu. Eu sou responsável pelas minhas dores, você é responsável pelas suas. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.

 

Tomara que caia

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Nunca fui uma mulher dessas “femme fatale”, sabe? A minha rebeldia contra alguns dos padrões impostos pelo patriarcado começa desde que me conheço por gente. Minha mãe contava que ainda bebê me incomodava com os laços e fitas com os quais ela insistia em adornar meu cabelo, em cinco minutos arrancava tudo.

Quando garota passávamos as férias na fazenda da minha tia, minha irmã e prima gostavam de fazer coisas aleatórias de férias, dormir até tarde, assistir TV, ler Agatha Christe, eu tinha outras pequenas ambições: aprender a cilhar cavalos e a cavalgar. Meu primo, três anos mais velho que eu, era entendido do assunto, acordava antes do sol nascer todos os dias para encilhar os cavalos e tocar os bois.

Meu sonho era fazer o mesmo, mas sabendo da minha condição de prima mais nova, da cidade – e menina – aprender a encilhar um cavalo já estava de “bom tamanho”. Ele tentava sair em silêncio para não me acordar. Eu era determinada, antes dele sair, já o aguardava ansiosamente. Descia atrás dele, caminhando apressadamente pelo trecho da estradinha de chão que levava até o barracão, me esforçava para acompanhar seu ritmo, ele caminhava com passos rápidos e largos, com andar confiante de quem, desde cedo, conhecia seu lugar no mundo, eu ia ficando para trás, chegava lá embaixo ofegante – e feliz.

Observava atenta enquanto ele ia até o pasto pegar o cavalo, se aproximando devagar do bicho, colocando primeiro o cabresto, depois o freio e ajeitando a rédea. Então ele o trazia para perto do barracão e colocava o pelego e o arreio ou a sela, por último apertava a barrigueira. Decorei a sequência que nunca usei. Às vezes, ele me deixava colocar o freio ou ajeitar a sela, segundo ele, eu era “fracote” e não tinha força para apertar a cilha da barrigueira.

Meu primo não era um guri “ruim”, eu que era teimosa demais (era o que me diziam) e ele sempre me deixava andar no “Campeão”, que teoricamente era o cavalo “mais bravo” que tinha para as meninas. E o Campeão foi meu companheiro de cavalgadas, até hoje lembro daquela sensação, me sentia livre e capaz.

Pois é, posso não ser nenhuma “femme fatale” (será que na “vida real” elas existem mesmo?), mas com os anos aprendi a celebrar minha feminilidade, aprendi que ser mulher vai além da roupagem, é um dom adquirido com a maturidade e as cicatrizes deixadas por uma sociedade que não contempla nossas grandes ambições. Noite dessas quis usar um vestido “fatale” tomara que caia, preto, curto e que há tempos não vestia. Por via das dúvidas (e por ser Curitiba) resolvi levar um casaquinho.

Meus amigos vestiam moletom e camiseta, senti inveja deles, eles estavam confortáveis e ninguém (além de mim) parecia se importar com o que vestiam. Os rapazes na balada exibem sorrisos despretensiosos, tênis, moletons e camisetas, e assim como meu primo, parecem nem se dar conta do conforto e facilidade que desfrutam pelo simples fato de terem nascido homens. Privilégio é algo difícil de entender porque nunca saberemos como é viver sem os que temos ou na pele daqueles que não tem.

Às vezes sinto que ser mulher é como aquela caminhada de passos ligeiros que fazia tentando alcançar meu primo;  em terreno desregular, tropeçando no breu da noite que findava, aliviada quando o sol despontava no horizonte como se fora aliado ajudando a iluminar o caminho. Ser mulher é constantemente se esforçar e sentir-se ficando para trás. É viver desconstruindo padrões, arrancando laços e fitas diante do olhar de reprovação de muitos. Não, claro que não é assim para todas, para a maioria é muito pior. Muitas não têm nem a chance de fazer a caminhada. Eu tenho consciência dos meus privilégios.

Deu calor, resolvi prender o cabelo, o  rapaz, um estranho, ao meu lado achou-se suficientemente familiar para dizer “prende o cabelo bem alto que fica gata, hein?”. E quando eu ia tirando o casaco ele também sentiu-se no direito de acrescentar um “agora sim!”.  Eu não quero sair de moletom na balada, gosto de usar vestidos, mas quero poder vesti-los sem sentir que serei devorada, e definitivamente sem os comentários de estranhos.

Sim, ser mulher é ter alguém (estranho ou não) constantemente te dizendo o que você deve ou não fazer, como deve ou não se comportar. Vestir-se. Pensar. Agir. Falar. Sonhar. Desejar. E ainda assim sentir-se, de diversas maneiras e em diversas situações, inadequada. É o que aprendi desde cedo, como uma menina-moleca que arrancava laços e fitas diante do olhar reprovador da minha mãe.

Soltei o cabelo, vesti o casaco, resolvi que minha noite já tinha chegado ao fim. No meu tempo de menina já estaria quase na hora de ir encilhar os cavalos. A caminhada todavia parece-me longa e escura. Talvez o sol ainda seja aliado, torço para que a luz que brilha no horizonte ilumine nossos caminhos, sigo ofegante e com grandes ambições, torcendo e lutando para que um dia esse tal patriarcado – tomara – caia.

A escolha do coração

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Das escolhas que fazemos na vida, algumas fáceis outras mais complexas, talvez a mais desafiadora de todas é a escolha do coração. Escolher com o coração requer desapego dos antigos padrões, requer criatividade e transformação. Para escolher com o coração precisamos aprender a abrir mão do que nos foi ensinado pelos nossos pais, mestres e amigos, com muito carinho, mas que não nos serve.

Quanto mais tenho caminhado, amadurecido e aprendido, mais entendo que é muito fácil cairmos nos antigos padrões, no que esperam de nós, em escolher a trilha mais percorrida. Muitas abordagens da Psicologia tentam explicar porque temos a sensação de estarmos sempre repetindo os mesmos padrões de comportamento, como se nossa vida fosse um eterno “déjà vu”. Estudos na neurociência se aproximam da explicação lógica, hoje existem técnicas eficientes de reprogramação cerebral e ressignificação de traumas. Mas, para mim, leiga, curiosa, entusiasta, a única mudança vem mesmo de aprender a escolher com o coração.

A escolha do coração é uma escolha difícil porque ela é única, intransferível, individual. Conselhos e experiências alheias não se aplicam, pois ninguém, além de você mesmo, pode fazer essa escolha. E não se engane, a tendência é sempre voltar para a trilha mais percorrida, para os antigos padrões, é voltar a cair na mesmice. E na mesmice, não há crescimento.

Cresça.

Percorrer o novo é desconfortável, pois os caminhos não percorridos nos levam à lugares por poucos conhecidos, nos demandam desapego, uma grande dose de fé e um caminhar titubeante já que esse caminho desconhecido ninguém nunca nos ensinou a percorrer.

Percorra.

A escolha do coração é uma escolha difícil, porém fiel. Fiel à minha história e luta, leal à pessoa que me tornei, aos valores que me empenhei em manter e aos que abri mão, é uma escolha fiel às minhas renúncias. Para cada escolha, muitas renúncias. 

Renuncie.

Escolher com o coração é fazer diferente, é honrar o caminho que nossos pais e os pais de nossos pais percorreram, aprendendo através de seus erros, aprimorando seus acertos. Escolher com o coração é escolher sem precisar se justificar, é abandonar a razão e desafiar as lógicas que te convencem a ficar, que te convidam a voltar para o caminho já percorrido, é ser visto por muitos como louco.

Enlouqueça.

É certo, repetir é muito mais fácil do que criar. Escolher com o coração é um pedido para que criemos: nossa própria história, nosso próprio destino, nosso caminhar; e que refaçamos nossos votos, reforçando os desejos de nosso coração, todos os dias, a cada obstáculo, desafio, a cada convite para ficar, para voltar, para não se perder.

Perca-se.

A escolha do coração é uma escolha salgada banhada de suor e lágrimas. A escolha do coração é solitária e vulnerável. É desconfortável. É aquela que te desestabiliza, sem promessas nem garantias. Escolher com o coração é correr riscos.

Arrisque-se.

Mas, escolher com o coração, traçar seu próprio caminho tem muito a ver com exemplo e legado. O legado das nossas escolhas, de como escolhemos criar nossa história, daqueles que escolhemos para compartilhar nosso caminho, da nossa caminhada única e irrepetível. E esse é o único legado que vale a pena deixar para o mundo.

Escolha.

O sonho de Ismar

             Há muitos e muitos anos, vivia na cidade de Damasco, na Síria, um pobre homem chamado Ismar. Ismar sempre lutara para ganhar a vida dignamente; não tendo podido estudar e aprender uma profissão sujeitava-se a qualquer espécie de serviço: limpava jardins, carregava pedras, buscava água, sempre com boa vontade, trabalhando sem se queixar. Com o passar dos anos, porém, Ismar começou a sentir-se cansado e preocupado. Durante a vida toda só trabalhara e nunca conseguira juntar qualquer dinheiro, nenhuma economia que pudesse socorrê-lo em caso de necessidade. A única coisa que tinha de seu era uma casa, herança antiga da família.

            A casa ficava num bairro pobre de Damasco, no fim de uma rua esburacada. Era feita de pedras e protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corria um riacho; à beira do riacho crescia uma velha figueira e era à sombra dessa figueira que Ismar costumava descansar depois de trabalhar a manhã toda. Ali ele refletia sobre sua vida e se perguntava o que seria dele quando a velhice não lhe permitisse mais o esforço físico. Estou ficando velho, pensava, não tenho filhos que me possam sustentar. Será que Alá, meu pai divino, vai me abandonar?

            Sempre assim cismando, um dia Ismar dormiu, recostado à figueira, e teve um sonho; sonhou que estava na cidade do Egito. Ele nunca havia estado realmente no Egito, mas no sonho passeava com desembaraço pela avenida central da cidade e distinguia perfeitamente os mercadores de tapetes, os minaretes das mesquitas. Atravessando uma praça, ele dobrava à direita, descia uma rua estreita, chegava a um rio. Sobre o rio havia uma ponte e embaixo da ponte – ó maravilha! – um cofre repleto de moedas e jóias reluzentes!

            Quando acordou, Ismar teve certeza de que aquele era o tesouro que Alá lhe reservara. O sonho tinha sido tão nítido, tão preciso nos detalhes, não havia engano! Sem pensar em mais nada, ele arrumou sua trouxa e pôs-se a caminho do Cairo. Era uma longa distância, principalmente para ele, que ia a pé e sem dinheiro. No entanto, movido pela convicção de encontrar sua fortuna, Ismar atravessou desertos e vales, rios e florestas, até chegar, finalmente, exausto e maltrapilho, à cidade que lhe aparecera em sonho. Sua fé, então, redobrou de vigor, pois o Cairo era exatamente como ele havia sonhado! Ele reconheceu a avenida principal, os mercadores de tapetes, os minaretes das mesquitas; chegou à praça, virou à direita, desceu a rua, avistou o rio, aproximou-se da ponte, mas… no exato lugar em que deveria estar o tesouro, não havia cofre algum; havia, isso sim, um mendigo mais pobre e maltrapilho que ele.

            Chocado, Ismar deu-se conta da sua loucura! Como pudera acreditar tão piamente num simples sonho? Que tolo fora! E agora, com que forças enfrentaria a viagem de volta? Que impulso de fé ou esperança sustentaria aquela alma tão esvaziada pela decepção? Não, pensou ele. Melhor será acabar com os meus dias aqui mesmo. Nenhuma esperança me resta. E, decidido a se afogar, subiu à ponte. Já estava quase se atirando quando sentiu que alguém o segurava, agarrando sua perna por debaixo da ponte.

            Era o mendigo que gritava:

– Hei amigo! Cuidado, você pode morrer! Esse rio é perigoso!

– Ainda bem! – respondeu Ismar – É isso mesmo que desejo: matar-me.

– Não faça isso. – ponderou o mendigo – Você ainda tem muito que viver. Escute, desça até aqui e conte-me a sua história. Faça sua última boa ação, entretendo um miserável como eu. Depois, se quiser, pode se matar!

            Ismar hesitou, mas resolveu afinal repartir suas dores com aquele desconhecido. Contou-lhe o sonho, concluindo:

– Então, no mesmo lugar em que deveria estar o cofre, estava você… Agora, diga-me, não tenho razão em querer acabar com minha vida?

– Olhe, – exclamou o mendigo – não queria dizer isso, mas acho que você tem razão. Você foi muito irresponsável, um louco!!! Acreditar num sonho! E que você sonhou só uma vez? Veja se tem cabimento! Pois fique sabendo que eu, há cinco anos, tenho o mesmo sonho, que se repete quase todas as noites. E não é por isso que vou sair correndo atrás do que sonhei.

– E o que você sonha? – perguntou curioso Ismar.

– Escute só: eu sonho que estou na Síria, na cidade de Damasco, o que já é uma asneira, pois nunca estive na Síria. Estou num bairro pobre, seguindo por uma rua esburacada. No fim da rua há uma casa de pedra, protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corre um riacho; à beira do riacho cresce uma figueira e, dentro dessa figueira, que é oca, há um tesouro! Não é uma bobagem? Eu é que não sou louco de acreditar em sonhos, não acha?

            Ismar não respondeu. Estava pasmo, pois reconhecera, pela descrição do mendigo, a sua rua, a sua casa, a sua amada figueira!

            Compreendendo os laços do destino, abraçou o mendigo, tomou o caminho de volta e chegando à sua casa, foi direto à velha árvore, onde o tão sonhado tesouro o aguardava.

por Rosane Pamplona em “Novas Histórias Antigas”, ed. Brinque-Book

 

Crônicas de uma vida anunciada

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“Seja como você é. De maneira que possa ver quem é. Quem é e como é. Deixe por um momento o que deve fazer e descubra o que realmente faz. Arrisque um pouco, se puder. Sinta seus próprios sentimentos. Diga suas próprias palavras. Pense seus próprios pensamentos. Seja seu próprio ser. Descubra. Deixe que o plano pra você surja de dentro de você.” Fritz Perls

Pertencimento é uma necessidade vital, somos seres sociais, dependemos do outro para existir. Nada disso é novidade. Mas, tenho constantemente me perguntado: Qual parte minha devo alienar a fim de pertencer a um determinado grupo? Quais são as vozes que ficam caladas para que eu possa me sentir amada?

“Saúde é um equilíbrio apropriado da coordenação de tudo aquilo (e aqueles) que somos” dizia Fritz Perls, um dos principais nomes da Gestalt-terapia. Na visão gestáltica, possuímos um organismo completo e inteligente que se autoregula de acordo com o meio em que está inserido. E é através desse processo de autoregulação que desenvolvemos determinados padrões de comportamento em resposta ao que o meio exige de nós, e que alienamos importantes partes nossas (e às vezes menos “populares”).

As muitas regras sociais e morais, a organização de nosso sistema familiar, os ambientes e pessoas em nosso redor, e tantos outros fatores, compõem as diversas crenças e introjetos que ao longo dos anos moldam nosso comportamento. Nossa grande tragédia está no fato de que quanto mais nos moldamos (a fim de sermos aceitos), mais partes nossas são alienadas e menos autênticos nos tornamos. Dessa forma, aniquilamos pedaços importantes de tudo que nos torna o que somos: únicos e irrepetíveis. E anulamos nossa melhor parte, nossa essência.

Perls dizia que estamos sempre representando um papel, manipulados ou manipulando o meio em prol de alcançar o que desejamos e de suprir nossas necessidades mais latentes. Essas representações existem em maior e menor grau, dependendo do nível de consciência e autoconhecimento de cada um. A representação de um papel significa que minhas respostas não são espontâneas e honestas; que estou constantemente suprimindo meu querer mais irracional e visceral. Pois, nem sempre podemos explicar nossos desejos de maneira lógica, mas para os valores morais da sociedade o que não pode ser logicamente explicado, ou justificado, não pode ser validado. Assim viro plágio, engesso minhas respostas, copio minhas ações. Quanto mais cristalizado é meu comportamento, menos autêntico sou.

A Gestalt-terapia entende toda resposta não autêntica como neurótica.

Nesse contexto as redes sociais atuam como amplificadores de uma vida anunciada, ensaiada e editada. Na internet podemos representar nosso melhor papel, mais ainda, aprimorá-lo. Esses papéis virtuais são perigosos porque endossam uma narrativa romântica de felicidade fácil e de perfeição, de relacionamentos desprovidos de grandes conflitos e negociações. A rede permite ensaios, filtros e edições que a vida real não permite. E uma vida ensaiada não é apenas caluniosa, como também bloqueia o fluxo criador e transformador que podemos devolver ao mundo. Ela nos priva de viver com prontidão, improviso, espontaneidade e (muita) imperfeição. Ela nos priva da liberdade de sermos quem de fato somos.

Anunciamos nossos passos, nossas melhores experiências, onde estamos, com quem estamos. Nas redes cabe nosso eu inteligente, solidário, justo, ativista, alegre, bem sucedido. Gritamos nossas revoltas diante das injustiças do mundo, nossa fé e esperança de um futuro melhor. Tudo meticulosamente pensado para caber no olhar alheio. E mesmo quando dividimos nossas dores, são dores editadas, aquelas que podem ser acolhidas pelo olhar compassivo do outro. Dessa maneira, só me arrisco a compartilhar o que de certa forma pode ser aceito e validado pelo outro. E quando isso não acontece, tenho a opção de deletar. É preciso cautela ao equilibrar e dosar o uso que fazemos dos canais virtuais. Pois, é muito fácil e sedutor buscar reconhecimento e acolhimento através deles. Tanto quanto é vazio e ilusório.

Nunca estivemos tão conectados, nem tão solitários.

Uma vida anunciada é desprovida de contato real e de intimidade. E a intimidade é o que de fato nos desnuda e nos conecta em um nível muito mais profundo e verdadeiro. Quando me privo de viver com prontidão, quando não me utilizo dos recursos que tenho e da expressão de minhas emoções de maneira instantânea e espontânea, sou apenas mais um personagem. E assim, aos poucos, minha vida anunciada e encenada me torna mais cristalizada, neurótica e solitária.

As palavras de Perls nos lembram como é libertador o trabalho de tomada de consciência, ainda que custoso. “Eu acredito que esta é a grande coisa a ser compreendida: a tomada de consciência em si – e de si mesmo – pode ter efeito de cura”, escreveu ele. Esse é um trabalho interno que deve ser feito em silêncio e longe dos holofotes.

Quando criamos consciência de nossos processos podemos elaborar respostas mais imediatas e autênticas aos nossos conflitos e integrar partes importantes nossas que foram censuradas. Podemos viver com prontidão e sem ensaios. Só assim seremos completos, só assim estaremos em paz e devolveremos algo inteiramente único para o mundo. Sim, ser autêntico requer muita coragem e um caminhar solitário e vulnerável. Mas, quem o faz vive uma vida em liberdade de ser quem se é; devolve ao mundo calor, víscera e pulso.

Afinal, não é isso que chamamos de vida?

No caminho inexistente

Ia a filha muda guiando o pai cego quando, depois de muito caminhar, chegaram ao deserto. E sentindo o pai a areia nas sandálias, acreditou ter chegado ao mar e alegrou-se.

O mar estava para sempre gravado na sua memória, disse ele à filha que nunca o havia visto. E contou como podiam ser altas as ondas, e obedientes ao vento. E como, coroadas de espuma, faziam e desfaziam seu penteado. O mar, contou ainda, ocupa nossos olhos por inteiro e, se o vemos nascer, o fim não vemos. O mar sempre se move e sempre está parado. O mar, à noite, veste-se de lua.

O mar pareceu duas vezes belo à menina, pelo que era e pelas palavras do pai. Olhou à sua frente, viu as altas dunas e chamou-as ondas no seu coração. Elas obedeciam ao vento e no alto entregavam-lhe seus cabelos para que os desmanchasse com dedos ligeiros.

Sentaram-se os dois, o pai olhando no escuro o mar que guardava na memória, a filha deixando que o mar de luz sem fim ocupasse todo o espaço do seu olhar. Parado diante dela, ainda assim se movia. E quando a noite chegou, vestiu o cetim que a lua lhe entregara.

Dormiram ali os dois, pai e filha, deitados na areia, sonhando com o que haviam visto. E ao amanhecer seguiram caminho, afastando-se do deserto.
Andaram, que o mundo é vasto. Até que um dia, numa curva do caminho, desembocaram na praia.

O velho, sentindo a areia nas sandálias, alegrou-se, certo de ter chegado ao deserto, talvez o mesmo deserto que atravessara quando jovem.

Sentaram. O deserto, disse o pai à menina, é filho dileto do sol. E a menina olhando à frente, viu os raios deitando na superfície, partindo-se, rejuntando-se, mosaico de sol, e sorriu. Os pés afundam no deserto, acrescentou o pai, e ele acaricia nossos tornozelos. A menina soltou sua mão da dele e foi molhar os pés, deixando que a água lhe acariciasse os tornozelos. O deserto, disse ainda o pai, é plano como um lençol ao vento, sem montanhas, ondeando nas costas das dunas. A menina correu o olhar pela linha do horizonte que nenhuma montanha interrompia, viu as ondas, e em seu coração chamou-as dunas.

No deserto, disse ainda o pai à filha tentando explicar o mundo sobre o qual não podia fazer perguntas, anda-se sempre em frente porque não há caminhos, e a pegada do pé direito já se apaga quando o pé esquerdo pisa adiante.

Levantaram-se, caminhando. E porque o velho pisava seguro no deserto da sua lembrança, e porque a menina pisava tranquila no deserto que lhe havia sido entregue pelo pai, seguiram adiante serenos por cima da água que lhes acolhia os pés acarinhando os tornozelos, enquanto suas pegadas se apagavam no caminho inexistente.

em “23 histórias de um viajante” de Marina Colasanti