O lugar comum

“Mariana é viciada em repetições. Precisa viver e reviver sempre as mesmas frustrações porque, assim, sente-se segura. Dessa maneira, ela acha, outras frustrações não viverá. As mesmas, ela já tira de letra, acostumada.”
Fernanda Young em Aritmética

A Gestalt-terapia, também conhecida como terapia do aqui e agora, propõe um desafio grande em cada sessão: o bom gestalt-terapeuta é aquele que frustra o cliente sem ser invasivo, para que o vínculo de confiança não seja quebrado. Na prática esse é um desafio maior do que parece. É natural que tenhamos um comportamento defensivo ao ouvirmos verdades que não combinam com as histórias (fantasiosas) que nos contamos. Saber quando o cliente está preparado para ouvir algo sem que se sinta invadido é um talento que precisa ser refinado e constantemente aprimorado, mas é extremamente necessário. Dentro da clínica gestáltica, não há evolução sem frustração.

Muitas vezes deixo as sessões com uma sensação de desconforto na boca do estômago e um nó na garganta. É difícil e vergonhoso verbalizar minhas incapacidades de mudança. Quando me dou conta que (mais uma vez) me tornei comum, repetindo os mesmos papéis, que já não me caem tão confortavelmente, que andei tanto e fui parar novamente no lugar conhecido, meu coração se angustia.

“- E aí você se torna comum!”. Essas palavras da minha terapeuta ainda me descem atravessadas e de difícil digestão. Sim, a verdade liberta, mas tem gosto amargo.

E então entendo que voltar ao lugar comum é um comportamento quase que automático, instintivo. As repetições nos mantém presos à uma zona de conforto onde as frustrações são familiares. São frustrações que damos conta de viver. Ficar é muito tentador. Sair do lugar comum requer prontidão e exige de mim que eu seja melhor, maior, a cada escolha, em cada momento. Às vezes, sair do lugar comum também me parece exaustivo e impossível.

É natural reagirmos assim às mudanças, desviamos os passos do desconhecido, pois ele nos amedronta. E evitamos. Evitamos entrar em contato com o que não sabemos de nós mesmos, com o que não sabemos do outro. Engessamos comportamentos repetidos, previsíveis, nossos papéis mais comuns e (quem sabe) mais aceitáveis. E repetimos frustrações, porque ser fiel ao que almejamos ser, nos distancia de quem já somos. E como é desconfortável!

Mas, também é desconfortável e angustiante andar em círculos, reviver as mesmas histórias, com os mesmos desfechos, e é mais angustiante ainda entrar em contato com nossas incapacidades, essa nossa parte tão exposta, tão vulnerável, tão errante, tão… comum.

Tomara que caia

tumblr_nxmjzyKRD31t5wz6ro1_500

Nunca fui uma mulher dessas “femme fatale”, sabe? A minha rebeldia contra alguns dos padrões impostos pelo patriarcado começa desde que me conheço por gente. Minha mãe contava que ainda bebê me incomodava com os laços e fitas com os quais ela insistia em adornar meu cabelo, em cinco minutos arrancava tudo.

Quando garota passávamos as férias na fazenda da minha tia, minha irmã e prima gostavam de fazer coisas mais simples, dormir até tarde, assistir TV, ler Agatha Christe, eu tinha outras ambições: aprender a cilhar cavalos e a cavalgar. Meu primo, três anos mais velho que eu, era entendido do assunto, acordava antes do sol nascer todos os dias para encilhar os cavalos e tocar os bois.

Meu sonho era fazer o mesmo, mas sabendo da minha condição de prima mais nova, da cidade – e menina – aprender a encilhar um cavalo já estava de “bom tamanho”. Ele tentava sair em silêncio para não me acordar. Eu era determinada, antes dele sair, já aguardava ansiosamente. Descia atrás dele, caminhando apressadamente pelo trecho da estradinha de chão que levava até o barracão, me esforçava para acompanhar seu ritmo, ele caminhava com passos rápidos e largos, com andar confiante de quem, desde cedo, conhecia seu lugar no mundo, eu ia ficando para trás, chegava lá embaixo ofegante – e feliz.

Observava atenta enquanto ele ia até o pasto pegar o cavalo, se aproximando devagar do bicho, colocando primeiro o cabresto, depois o freio e ajeitando a rédea. Então ele o trazia para perto do barracão e colocava o pelego e o arreio ou a sela, por último apertava a barrigueira. Decorei a sequência que nunca usei. Às vezes, ele me deixava colocar o freio ou ajeitar a sela, segundo ele, eu era “fracote” e não tinha força para apertar a cilha da barrigueira.

Meu primo não era um guri “ruim”, eu que era teimosa demais (era o que me diziam) e ele sempre me deixava andar no “Campeão”, que teoricamente era o cavalo “mais bravo” que tinha para as meninas. E o Campeão foi meu companheiro de cavalgadas, até hoje lembro daquela sensação, me sentia livre e capaz.

Pois é, posso não ser nenhuma “femme fatale” (será que na “vida real” elas existem mesmo?), mas com os anos aprendi a celebrar minha feminilidade, aprendi que ser mulher vai além da roupagem, é um dom adquirido com a maturidade e as cicatrizes deixadas por uma sociedade que não contempla nossas grandes ambições. Noite dessas quis usar um vestido “fatale” tomara que caia, preto, curto e que há tempos não vestia. Por via das dúvidas (e por ser Curitiba) resolvi levar um casaquinho.

Meus amigos vestiam moletom e camiseta, senti inveja deles, eles estavam confortáveis e ninguém (além de mim) parecia se importar com o que vestiam. Os rapazes na balada exibem sorrisos despretensiosos, tênis, moletons e camisetas, e assim como meu primo, parecem nem se dar conta do conforto e facilidade que desfrutam pelo simples fato de terem nascido homens. Privilégio é algo difícil de entender porque nunca saberemos como é viver sem os que temos ou na pele daqueles que não tem.

Às vezes sinto que ser mulher é como aquela caminhada de passos ligeiros que fazia tentando alcançar meu primo;  em terreno desregular, tropeçando no breu da noite que findava, aliviada quando o sol despontava no horizonte como se fora aliado ajudando a iluminar o caminho. Ser mulher é constantemente se esforçar e sentir-se ficando para trás. É viver desconstruindo padrões, arrancando laços e fitas diante do olhar de reprovação de muitos. Não, claro que não é assim para todas, para a maioria é muito pior. Muitas não têm nem a chance de fazer a caminhada. Eu tenho consciência dos meus privilégios.

Deu calor, resolvi prender o cabelo, o  rapaz, um estranho, ao meu lado achou-se suficientemente familiar para dizer “prende o cabelo bem alto que fica gata, hein?”. E quando eu ia tirando o casaco ele também sentiu-se no direito de acrescentar um “agora sim!”.  Eu não quero sair de moletom na balada, gosto de usar vestidos, mas quero poder vesti-los sem sentir que serei devorada, e definitivamente sem os comentários de estranhos.

Sim, ser mulher é ter alguém (estranho ou não) constantemente te dizendo o que você deve ou não fazer, como deve ou não se comportar. Vestir-se. Pensar. Agir. Falar. Sonhar. Desejar. E ainda assim sentir-se, de diversas maneiras e em diversas situações, inadequada. É o que aprendi desde cedo, como uma menina-moleca que arrancava laços e fitas diante do olhar reprovador da minha mãe.

Soltei o cabelo, vesti o casaco, resolvi que minha noite já tinha chegado ao fim. No meu tempo de menina já estaria quase na hora de ir cilhar os cavalos. A caminhada todavia parece-me longa e escura. Talvez o sol ainda seja aliado, torço para que a luz que brilha no horizonte ilumine nossos caminhos, sigo ofegante e com grandes ambições, torcendo e lutando para que um dia essa moda machista – tomara – caia.

A escolha do coração

Festa_del_libro_a_Barcellona-620x410

Das escolhas que fazemos na vida, algumas fáceis outras mais complexas, talvez a mais desafiadora de todas é a escolha do coração. Escolher com o coração requer desapego dos antigos padrões, requer criatividade e transformação. Para escolher com o coração precisamos aprender a abrir mão do que nos foi ensinado pelos nossos pais, mestres e amigos, com muito carinho, mas que não nos serve.

Quanto mais tenho caminhado, amadurecido e aprendido, mais entendo que é muito fácil cairmos nos antigos padrões, no que esperam de nós, em escolher a trilha mais percorrida. Muitas abordagens da Psicologia tentam explicar porque temos a sensação de estarmos sempre repetindo os mesmos padrões de comportamento, como se nossa vida fosse um eterno “déjà vu”. Estudos na neurociência se aproximam da explicação lógica, hoje existem técnicas eficientes de reprogramação cerebral e ressignificação de traumas. Mas, para mim, leiga, curiosa, entusiasta, a única mudança vem mesmo de aprender a escolher com o coração.

A escolha do coração é uma escolha difícil porque ela é única, intransferível, individual. Conselhos e experiências alheias não se aplicam, pois ninguém, além de você mesmo, pode fazer essa escolha. E não se engane, a tendência é sempre voltar para a trilha mais percorrida, para os antigos padrões, é voltar a cair na mesmice. E na mesmice, não há crescimento.

Cresça.

Percorrer o novo é desconfortável, pois os caminhos não percorridos nos levam à lugares por poucos conhecidos, nos demandam desapego, uma grande dose de fé e um caminhar titubeante já que esse caminho desconhecido ninguém nunca nos ensinou a percorrer.

Percorra.

A escolha do coração é uma escolha difícil, porém fiel. Fiel à minha história e luta, leal à pessoa que me tornei, aos valores que me empenhei em manter e aos que abri mão, é uma escolha fiel às minhas renúncias. Para cada escolha, muitas renúncias. 

Renuncie.

Escolher com o coração é fazer diferente, é honrar o caminho que nossos pais e os pais de nossos pais percorreram, aprendendo através de seus erros, aprimorando seus acertos. Escolher com o coração é escolher sem precisar se justificar, é abandonar a razão e desafiar as lógicas que te convencem a ficar, que te convidam a voltar para o caminho já percorrido, é ser visto por muitos como louco.

Enlouqueça.

É certo, repetir é muito mais fácil do que criar. Escolher com o coração é um pedido para que criemos: nossa própria história, nosso próprio destino, nosso caminhar; e que refaçamos nossos votos, reforçando os desejos de nosso coração, todos os dias, a cada obstáculo, desafio, a cada convite para ficar, para voltar, para não se perder.

Perca-se.

A escolha do coração é uma escolha salgada banhada de suor e lágrimas. A escolha do coração é solitária e vulnerável. É desconfortável. É aquela que te desestabiliza, sem promessas nem garantias. Escolher com o coração é correr riscos.

Arrisque-se.

Mas, escolher com o coração, traçar seu próprio caminho tem muito a ver com exemplo e legado. O legado das nossas escolhas, de como escolhemos criar nossa história, daqueles que escolhemos para compartilhar nosso caminho, da nossa caminhada única e irrepetível. E esse é o único legado que vale a pena deixar para o mundo.

Escolha.

Crônicas de uma vida anunciada

06fcca3d5297d36499d2441bc405df70

“Seja como você é. De maneira que possa ver quem é. Quem é e como é. Deixe por um momento o que deve fazer e descubra o que realmente faz. Arrisque um pouco, se puder. Sinta seus próprios sentimentos. Diga suas próprias palavras. Pense seus próprios pensamentos. Seja seu próprio ser. Descubra. Deixe que o plano pra você surja de dentro de você.” Fritz Perls

Pertencimento é uma necessidade vital, somos seres sociais, dependemos do outro para existir. Nada disso é novidade. Mas, tenho constantemente me perguntado: Qual parte minha devo alienar a fim de pertencer a um determinado grupo? Quais são as vozes que ficam caladas para que eu possa me sentir amada?

“Saúde é um equilíbrio apropriado da coordenação de tudo aquilo (e aqueles) que somos” dizia Fritz Perls, um dos principais nomes da Gestalt-terapia. Na visão gestáltica, possuímos um organismo completo e inteligente que se autoregula de acordo com o meio em que está inserido. E é através desse processo de autoregulação que desenvolvemos determinados padrões de comportamento em resposta ao que o meio exige de nós, e que alienamos importantes partes nossas (e às vezes menos “populares”).

As muitas regras sociais e morais, a organização de nosso sistema familiar, os ambientes e pessoas em nosso redor, e tantos outros fatores, compõem as diversas crenças e introjetos que ao longo dos anos moldam nosso comportamento. Nossa grande tragédia está no fato de que quanto mais nos moldamos (a fim de sermos aceitos), mais partes nossas são alienadas e menos autênticos nos tornamos. Dessa forma, aniquilamos pedaços importantes de tudo que nos torna o que somos: únicos e irrepetíveis. E anulamos nossa melhor parte, nossa essência.

Perls dizia que estamos sempre representando um papel, manipulados ou manipulando o meio em prol de alcançar o que desejamos e de suprir nossas necessidades mais latentes. Essas representações existem em maior e menor grau, dependendo do nível de consciência e autoconhecimento de cada um. A representação de um papel significa que minhas respostas não são espontâneas e honestas; que estou constantemente suprimindo meu querer mais irracional e visceral. Pois, nem sempre podemos explicar nossos desejos de maneira lógica, mas para os valores morais da sociedade o que não pode ser logicamente explicado, ou justificado, não pode ser validado. Assim viro plágio, engesso minhas respostas, copio minhas ações. Quanto mais cristalizado é meu comportamento, menos autêntico sou.

A Gestalt-terapia entende toda resposta não autêntica como neurótica.

Nesse contexto as redes sociais atuam como amplificadores de uma vida anunciada, ensaiada e editada. Na internet podemos representar nosso melhor papel, mais ainda, aprimorá-lo. Esses papéis virtuais são perigosos porque endossam uma narrativa romântica de felicidade fácil e de perfeição, de relacionamentos desprovidos de grandes conflitos e negociações. A rede permite ensaios, filtros e edições que a vida real não permite. E uma vida ensaiada não é apenas caluniosa, como também bloqueia o fluxo criador e transformador que podemos devolver ao mundo. Ela nos priva de viver com prontidão, improviso, espontaneidade e (muita) imperfeição. Ela nos priva da liberdade de sermos quem de fato somos.

Anunciamos nossos passos, nossas melhores experiências, onde estamos, com quem estamos. Nas redes cabe nosso eu inteligente, solidário, justo, ativista, alegre, bem sucedido. Gritamos nossas revoltas diante das injustiças do mundo, nossa fé e esperança de um futuro melhor. Tudo meticulosamente pensado para caber no olhar alheio. E mesmo quando dividimos nossas dores, são dores editadas, aquelas que podem ser acolhidas pelo olhar compassivo do outro. Dessa maneira, só me arrisco a compartilhar o que de certa forma pode ser aceito e validado pelo outro. E quando isso não acontece, tenho a opção de deletar. É preciso cautela ao equilibrar e dosar o uso que fazemos dos canais virtuais. Pois, é muito fácil e sedutor buscar reconhecimento e acolhimento através deles. Tanto quanto é vazio e ilusório.

Nunca estivemos tão conectados, nem tão solitários.

Uma vida anunciada é desprovida de contato real e de intimidade. E a intimidade é o que de fato nos desnuda e nos conecta em um nível muito mais profundo e verdadeiro. Quando me privo de viver com prontidão, quando não me utilizo dos recursos que tenho e da expressão de minhas emoções de maneira instantânea e espontânea, sou apenas mais um personagem. E assim, aos poucos, minha vida anunciada e encenada me torna mais cristalizada, neurótica e solitária.

As palavras de Perls nos lembram como é libertador o trabalho de tomada de consciência, ainda que custoso. “Eu acredito que esta é a grande coisa a ser compreendida: a tomada de consciência em si – e de si mesmo – pode ter efeito de cura”, escreveu ele. Esse é um trabalho interno que deve ser feito em silêncio e longe dos holofotes.

Quando criamos consciência de nossos processos podemos elaborar respostas mais imediatas e autênticas aos nossos conflitos e integrar partes importantes nossas que foram censuradas. Podemos viver com prontidão e sem ensaios. Só assim seremos completos, só assim estaremos em paz e devolveremos algo inteiramente único para o mundo. Sim, ser autêntico requer muita coragem e um caminhar solitário e vulnerável. Mas, quem o faz vive uma vida em liberdade de ser quem se é; devolve ao mundo calor, víscera e pulso.

Afinal, não é isso que chamamos de vida?

Vá como um rio

go

“Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros.” Nietzsche

Certa vez na prática de Zazen (meditação sentada) escutávamos lá fora na praça um jovem a tocar violão,  ele tocava alto acompanhado pelo coro de outros jovens enquanto eu tentava (em vão) me concentrar. Quanto mais tentava, mais me incomodava com a música alta. Minha atenção persistia no som que vinha lá de fora, meu incômodo também.

Ao final da prática, o monge usou a música externa como metáfora para a vida, o caos sempre existirá, mas dentro de nós podemos criar um reduto pacífico e tranquilo. “Existe ordem no caos” disse ele. Eu duvidei. Naquele dia deixei a meditação mais estressada do que cheguei. Mas, essa experiência serviu como reflexão para que eu passasse a observar com mais cuidado meu movimento (e incômodo) diante do caos. É fato, a bagunça, o barulho, o caos me incomodam, muito.

De uns tempos para cá tornei-me excessivamente preocupada em manter a ordem, dedico tempo e energia para manter tudo em seu devido lugar. Começando pela parte mais fácil, mantenho a casa arrumada, deleto e-mails, organizo documentos e aplicativos em pastas, apago as fotos mal batidas, desfocadas, todos os meus históricos e minhas conversas no whatsapp, mantenho a louça e meu carro em ordem, faço limpas constantes nos armários, não deixo papéis e bugiganga acumular.

Então vem a parte mais complexa: passo conflitos, sentimentos e palavras a limpo, evito pessoas e pensamentos tóxicos, tenho aprendido a dizer não, e certamente preciso do silêncio para meditar. Talvez essa obsessão me transmita uma falsa ilusão de que tenho controle sob algo. Ironicamente desenvolvi esse comportamento justamente quando tudo ao meu redor parecia desmoronar.

Para Gestalt-terapia, somos um organismo inteligente que se autorregula e adapta diante dos diversos estímulos e demandas externas, manter a ordem em meio ao caos foi uma resposta que encontrei para sobreviver. Sinto que é hora de deixar o caos fluir dentro e fora de mim.

Naquilo que resisto, persisto.

Escutei essa frase na aula de formação em Gestalt-terapia, naquele mesmo dia havia tido um dia caótico, tentando fazer meus alunos de 10 anos trabalharem em silêncio, me esforcei em vão para manter a ordem na sala. Quanto mais insistia no silêncio, mais barulho ouvia. “As aulas andam um tanto caóticas, acho que eles não estão prontos para a prova”, disse em tom preocupado à minha coordenadora. Na semana seguinte, apesar do caos, decidi manter a data da prova, ninguém tirou abaixo de 90.

O caos e a ordem.

“Tome uma atitude caórdica”, lia o pequeno papel que tirei certa vez em um grupo de apoio. Fui em um encontro e nunca mais voltei, mas não esqueci dessa palavra.

Tantas vezes nas aulas de formação em Gestalt-terapia falamos sobre a importância de fundir polaridades, “é preciso aprender a trocar o OU pelo E”. “Uma pessoa pode estar feliz e triste ao mesmo tempo” dizia nossa “mestre”, Yara. Ontem, um dos meus alunos referiu-se ao colega como “inteligentemente burro”. Antes de interferir, observei a reação do colega que não se ofendeu, do contrário, achou graça e concordou. As crianças parecem entender esse conceito com mais facilidade.

E enquanto eles faziam os exercícios, contavam suas histórias, conversavam alto, resolvi deixá-los trabalhar e não mais pedir silêncio. Parece que eles se organizam assim, aprendi com eles que caos é algo muito relativo e que ordem é um conceito um tanto utópico ainda que necessário, é também um trabalho interno. Se não resistirmos, dá para aprender no caos, meditar com música alta e dentro de nós podemos construir sim um reduto de paz. 

“Go as a river”, dizia um dos quadros de caligrafia impecável escritos pelo mestre zen-budista Thich Nhat Hahn em sua comunidade na França, todos os dias eu meditava em frente àquele quadro com esperança de absorver suas palavras. Vá como um rio. Os mais importantes aprendizados são tão simples de entender, ainda que difíceis de praticar.

Fato, quanto menos atenção colocamos em algo, menos aquilo nos incomodará. Não resista. Deixe fluir. Hoje deixei a cama desarrumada, e quem sabe possa aprender por fim que o caos contém muita ordem em si, basta validá-lo.

Try a little tenderness

dicovinilfoto01

“Ooh she may be weary
And them girls they do get weary
Wearing that same old shaggy dress
But when they get weary
[You gotta] try a little tenderness”

Sento solitária no chão frio da sala, a chuva cai la fora, a noite escura assola e reflito em tudo que eu deveria ter sido e não fui, deveria ter sido menos isso, mais aquilo. E perco tempo de vida precioso divagando sobre erros e passado, sobre a necessidade de me transformar em alguém que não sou, nem nunca fui, nem nunca serei.

Enquanto tempo e lágrimas escorrem incansáveis, faço uma pausa, respiro fundo e me acalmo: sou o que sou, o que deu para ser, fui o que tinha que ter sido. E se fui inteira, então fui meu melhor, mesmo que isso não baste aos outros. Além disso, nada que eu fale ou faça agora pode mudar o que já está feito.

Se perco energia pensando em tudo que poderia ter sido diferente, esqueço-me de viver e celebrar tudo aquilo que de fato foi.

E finalmente me dou conta do quanto sofremos, projetamos, fantasiamos enquanto deixamos de ficar com o que se apresenta para nós, com o que é, com o que somos, com tudo que nos trouxe até aqui. Naquele momento eu estava assim. Nem sempre fui meu melhor, mas certamente o melhor que consegui ser com os recursos que tinha.

O passado nos torna escravos, nossas feridas ferem também os outros, nossos medos nos paralisam, o que fomos, o que sofremos, o que sangramos muitas vezes nos impede de enxergar a beleza do novo que se apresenta diante de nós.

Desconfiados exigimos provas e certezas, queremos controle e garantias. Sem notar, perdemos boas oportunidades de felicidade, analisando-as, comparando-as com o que já vivemos, fantasiando com o que queremos que elas sejam. A dor me recorda que nunca tive nem terei controle de nada, que para ser inteira preciso correr o risco de me machucar. E as lágrimas que insistem em  cair me trazem esta única certeza e me convidam a estar presente.

Enquanto me condeno pelas escolhas que fiz, que me trouxeram até aqui, a sensação de que muitas vezes a vida segue repetidas vezes em um “loop” infinito, como um disco de vinil riscado, a letra de um antigo clássico me conforta.

Try a little tenderness.

Deixe ir. Viva o presente, com os recursos que você tem agora, abra-se para o novo, entenda que o novo nunca é igual ao que foi. Os erros não se repetem, são diferentes, com vivências diferentes que me trazem novos aprendizados.

Tente.

Com os meus processos na vida, com os processos dos outros. Para todas as falhas que foram e as que ainda estão por vir, só um pouco de ternura.

Tente.

Para os fim das linhas, os atalhos e encruzilhadas. Os caminhos tortos que percorremos. Para o cansaço e lágrimas. Para os novos começos.

Tente. 

O caminho só se faz ao caminhar. 

Então enxugo as lágrimas, me acalmo e decido tentar, só por hoje, só um pouco, de conforto, de afeto e ternura.

Try a litte tenderness

Feminismo: o mais precioso legado que minha mãe me deixou

image1

Minha mãe era uma mulher à frente de seu tempo, ela não contentou-se apenas com o papel de mulher e mãe que a vida lhe deu, ela queria mais, sempre mais. Minha mãe tinha uma beleza de causar inveja, talvez por isso ela nunca teve muitas amigas, mas além da beleza, ela tinha coragem e teimosia, e ousava tanto que tornava  quase insuportavelmente pequena a vida daqueles que a cercavam. Ela tinha uma elegância que nunca passava despercebida, e uma audácia instigante que tornava grandiosa qualquer uma de suas empreitadas. Ela foi mulher pioneira, esposa, mãe, amante, errante, empresária, socialite, fazendeira, livre.

Sob os olhares de reprovação e o julgamento dos acomodados e dos covardes que nunca ousavam, minha mãe fazia o que queria, quando queria, da forma como queria. Ela não quis exercer o papel de esposa, nem o de mãe, daquelas que ficam em casa cuidado da prole, ela preferiu a rua, o mundo, ela quis recriar, resignificar, transformar o papel que lhe foi imposto. E mesmo assim ela era feminina, vaidosa, bela, foi miss e rainha. E levei anos para aprender a admirá-la, para entender quão grandiosa foi sua rebeldia. Minha  mãe não foi mulher feita para quem pensa pequeno. Ela reinventou a roda, surpreendeu a todos, no amor e na dor.

Dentre tantas lições que ficaram, só recentemente consegui assimilar a maior delas, minha mãe foi a mulher mais feminista que já conheci, ela me ensinou que como mulher posso ser quem eu quiser, que posso fazer o que quiser, que não preciso me contentar com o papel que a sociedade insiste em entregar às mulheres, que para ser mulher não preciso viver pedindo aprovação nem “andar na linha”. Posso ser tudo, bela, feia, recatada, mal criada, posso me reinventar todos os dias. Mesmo com o relacionamento conturbado que tivemos de mãe e filha, talvez eu tenha sido um de seus mais árduos juízes, hoje posso dizer, de mulher para mulher: obrigada mãe, você me ensinou a ser mais mulher, mais forte, corajosa, autêntica e livre. Você me ensinou que a liberdade de ser quem se é, é o legado mais precioso que uma mãe pode deixar para uma filha.