Vá como um rio

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“Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros.” Nietzsche

Certa vez na prática de Zazen (meditação sentada) escutávamos lá fora na praça um jovem a tocar violão,  ele tocava alto acompanhado pelo coro de outros jovens enquanto eu tentava (em vão) me concentrar. Quanto mais tentava, mais me incomodava com a música alta. Minha atenção persistia no som que vinha lá de fora, meu incômodo também.

Ao final da prática, o monge usou a música externa como metáfora para a vida, o caos sempre existirá, mas dentro de nós podemos criar um reduto pacífico e tranquilo. “Existe ordem no caos” disse ele. Eu duvidei. Naquele dia deixei a meditação mais estressada do que cheguei. Mas, essa experiência serviu como reflexão para que eu passasse a observar com mais cuidado meu movimento (e incômodo) diante do caos. É fato, a bagunça, o barulho, o caos me incomodam, muito.

De uns tempos para cá tornei-me excessivamente preocupada em manter a ordem, dedico tempo e energia para manter tudo em seu devido lugar. Começando pela parte mais fácil, mantenho a casa arrumada, deleto e-mails, organizo documentos e aplicativos em pastas, apago as fotos mal batidas, desfocadas, todos os meus históricos e minhas conversas no whatsapp, mantenho a louça e meu carro em ordem, faço limpas constantes nos armários, não deixo papéis e bugiganga acumular.

Então vem a parte mais complexa: passo conflitos, sentimentos e palavras a limpo, evito pessoas e pensamentos tóxicos, tenho aprendido a dizer não, e certamente preciso do silêncio para meditar. Talvez essa obsessão me transmita uma falsa ilusão de que tenho controle sob algo. Ironicamente desenvolvi esse comportamento justamente quando tudo ao meu redor parecia desmoronar.

Para Gestalt-terapia, somos um organismo inteligente que se autorregula e adapta diante dos diversos estímulos e demandas externas, manter a ordem em meio ao caos foi uma resposta que encontrei para sobreviver. Sinto que é hora de deixar o caos fluir dentro e fora de mim.

Naquilo que resisto, persisto.

Escutei essa frase na aula de formação em Gestalt-terapia, naquele mesmo dia havia tido um dia caótico, tentando fazer meus alunos de 10 anos trabalharem em silêncio, me esforcei em vão para manter a ordem na sala. Quanto mais insistia no silêncio, mais barulho ouvia. “As aulas andam um tanto caóticas, acho que eles não estão prontos para a prova”, disse em tom preocupado à minha coordenadora. Na semana seguinte, apesar do caos, decidi manter a data da prova, ninguém tirou abaixo de 90.

O caos e a ordem.

“Tome uma atitude caórdica”, lia o pequeno papel que tirei certa vez em um grupo de apoio. Fui em um encontro e nunca mais voltei, mas não esqueci dessa palavra.

Tantas vezes nas aulas de formação em Gestalt-terapia falamos sobre a importância de fundir polaridades, “é preciso aprender a trocar o OU pelo E”. “Uma pessoa pode estar feliz e triste ao mesmo tempo” dizia nossa “mestre”, Yara. Ontem, um dos meus alunos referiu-se ao colega como “inteligentemente burro”. Antes de interferir, observei a reação do colega que não se ofendeu, do contrário, achou graça e concordou. As crianças parecem entender esse conceito com mais facilidade.

E enquanto eles faziam os exercícios, contavam suas histórias, conversavam alto, resolvi deixá-los trabalhar e não mais pedir silêncio. Parece que eles se organizam assim, aprendi com eles que caos é algo muito relativo e que ordem é um conceito um tanto utópico ainda que necessário, é também um trabalho interno. Se não resistirmos, dá para aprender no caos, meditar com música alta e dentro de nós podemos construir sim um reduto de paz. 

“Go as a river”, dizia um dos quadros de caligrafia impecável escritos pelo mestre zen-budista Thich Nhat Hahn em sua comunidade na França, todos os dias eu meditava em frente àquele quadro com esperança de absorver suas palavras. Vá como um rio. Os mais importantes aprendizados são tão simples de entender, ainda que difíceis de praticar.

Fato, quanto menos atenção colocamos em algo, menos aquilo nos incomodará. Não resista. Deixe fluir. Hoje deixei a cama desarrumada, e quem sabe possa aprender por fim que o caos contém muita ordem em si, basta validá-lo.

Try a little tenderness

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“Ooh she may be weary
And them girls they do get weary
Wearing that same old shaggy dress
But when they get weary
[You gotta] try a little tenderness”

Sento solitária no chão frio da sala, a chuva cai la fora, a noite escura assola e reflito em tudo que eu deveria ter sido e não fui, deveria ter sido menos isso, mais aquilo. E perco tempo de vida precioso divagando sobre erros e passado, sobre a necessidade de me transformar em alguém que não sou, nem nunca fui, nem nunca serei.

Enquanto tempo e lágrimas escorrem incansáveis, faço uma pausa, respiro fundo e me acalmo: sou o que sou, o que deu para ser, fui o que tinha que ter sido. E se fui inteira, então fui meu melhor, mesmo que isso não baste aos outros. Além disso, nada que eu fale ou faça agora pode mudar o que já está feito.

Se perco energia pensando em tudo que poderia ter sido diferente, esqueço-me de viver e celebrar tudo aquilo que de fato foi.

E finalmente me dou conta do quanto sofremos, projetamos, fantasiamos enquanto deixamos de ficar com o que se apresenta para nós, com o que é, com o que somos, com tudo que nos trouxe até aqui. Naquele momento eu estava assim. Nem sempre fui meu melhor, mas certamente o melhor que consegui ser com os recursos que tinha.

O passado nos torna escravos, nossas feridas ferem também os outros, nossos medos nos paralisam, o que fomos, o que sofremos, o que sangramos muitas vezes nos impede de enxergar a beleza do novo que se apresenta diante de nós.

Desconfiados exigimos provas e certezas, queremos controle e garantias. Sem notar, perdemos boas oportunidades de felicidade, analisando-as, comparando-as com o que já vivemos, fantasiando com o que queremos que elas sejam. A dor me recorda que nunca tive nem terei controle de nada, que para ser inteira preciso correr o risco de me machucar. E as lágrimas que insistem em  cair me trazem esta única certeza e me convidam a estar presente.

Enquanto me condeno pelas escolhas que fiz, que me trouxeram até aqui, a sensação de que muitas vezes a vida segue repetidas vezes em um “loop” infinito, como um disco de vinil riscado, a letra de um antigo clássico me conforta.

Try a little tenderness.

Deixe ir. Viva o presente, com os recursos que você tem agora, abra-se para o novo, entenda que o novo nunca é igual ao que foi. Os erros não se repetem, são diferentes, com vivências diferentes que me trazem novos aprendizados.

Tente.

Com os meus processos na vida, com os processos dos outros. Para todas as falhas que foram e as que ainda estão por vir, só um pouco de ternura.

Tente.

Para os fim das linhas, os atalhos e encruzilhadas. Os caminhos tortos que percorremos. Para o cansaço e lágrimas. Para os novos começos.

Tente. 

O caminho só se faz ao caminhar. 

Então enxugo as lágrimas, me acalmo e decido tentar, só por hoje, só um pouco, de conforto, de afeto e ternura.

Try a litte tenderness

Sou eu tentando me equilibrar

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Época de Natal é certamente nostálgica, hoje revirando fotos antigas na casa da minha irmã, pensei nos meus pais, pensei nos meus avós, tanto meu avô quanto meu pai nos deixaram no mesmo ano. Desde então o Natal tem sido muito sobre aprender a ficar mais confortável nessa nova configuração familiar. Desde que meu pai faleceu, venho caminhando pela vida como estrangeira, pois viver já não me é tão familiar. E assim vivo tentando me equilibrar.

Perder alguém que amamos pode deixar sequelas incorrigíveis em nosso caminhar. Eu choro porque sinto saudades; choro quando estou feliz porque a sensação de seguir em frente por vezes parece quase uma traição; choro porque ser feliz, eu sei, é o maior desejo que um pai pode ter para os filhos, mas ele não está aqui para me ver triunfar. A sombra da morte traz certezas dilacerantes e ao mesmo tempo libertadoras: que a vida é um sopro, que o tempo é precioso, que a gente não sabe mesmo o dia de amanhã, que viver é agora. Que a felicidade por vezes pode ser aterrorizadora e o equilibro é uma utopia necessária.

E quando estou feliz, sou eu tentando me equilibrar; quando falo demais, quando me calo, estou sempre tentando. Quando a saudade dói, quando rio, quando choro alto, sou eu tentando me equilibrar. E quando me desequilibro, sou eu fazendo um baita esforço, torcendo para que ninguém repare, nesse meu caminhar torto em que tento me equilibrar.

Viver é uma corda bamba na qual vale a pena (tentar) se equilibrar.

Feminismo: o mais precioso legado que minha mãe me deixou

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Minha mãe era uma mulher à frente de seu tempo, ela não contentou-se apenas com o papel de mulher e mãe que a vida lhe deu, ela queria mais, sempre mais. Minha mãe tinha uma beleza de causar inveja, talvez por isso ela nunca teve muitas amigas, mas além da beleza, ela tinha coragem e teimosia, e ousava tanto que tornava  quase insuportavelmente pequena a vida daqueles que a cercavam. Ela tinha uma elegância que nunca passava despercebida, e uma audácia instigante que tornava grandiosa qualquer uma de suas empreitadas. Ela foi mulher pioneira, esposa, mãe, amante, errante, empresária, socialite, fazendeira, livre.

Sob os olhares de reprovação e o julgamento dos acomodados e dos covardes que nunca ousavam, minha mãe fazia o que queria, quando queria, da forma como queria. Ela não quis exercer o papel de esposa, nem o de mãe, daquelas que ficam em casa cuidado da prole, ela preferiu a rua, o mundo, ela quis recriar, resignificar, transformar o papel que lhe foi imposto. E mesmo assim ela era feminina, vaidosa, bela, foi miss e rainha. E levei anos para aprender a admirá-la, para entender quão grandiosa foi sua rebeldia. Minha  mãe não foi mulher feita para quem pensa pequeno. Ela reinventou a roda, surpreendeu a todos, no amor e na dor.

Dentre tantas lições que ficaram, só recentemente consegui assimilar a maior delas, minha mãe foi a mulher mais feminista que já conheci, ela me ensinou que como mulher posso ser quem eu quiser, que posso fazer o que quiser, que não preciso me contentar com o papel que a sociedade insiste em entregar às mulheres, que para ser mulher não preciso viver pedindo aprovação nem “andar na linha”. Posso ser tudo, bela, feia, recatada, mal criada, posso me reinventar todos os dias. Mesmo com o relacionamento conturbado que tivemos de mãe e filha, talvez eu tenha sido um de seus mais árduos juízes, hoje posso dizer, de mulher para mulher: obrigada mãe, você me ensinou a ser mais mulher, mais forte, corajosa, autêntica e livre. Você me ensinou que a liberdade de ser quem se é, é o legado mais precioso que uma mãe pode deixar para uma filha.

Repara bem no que não digo

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“Repara bem no que não digo.”

Paulo Leminski

Há alguns meses uma amiga de longa data ficou chateada com algo que postei e me enviou uma coleção de áudios falando tudo que ela achava sobre mim e que não soavam nem um pouco como elogios, ela terminou com a famosa frase que a turma-dos-extremamente-sinceros usa para tentar amenizar o peso de suas palavras: “estou falando isso porque gosto de você, porque sou sua amiga”. Após o ocorrido não nos falamos mais, eu até pensei em procurá-la para conversarmos pessoalmente, mas achei melhor me calar.

Calei-me porque o que queria dizer para ela também não vinha do melhor de mim: que ela estava infeliz com suas escolhas e incomodada com as minhas, que ela não estava falando nada daquilo porque gosta de mim ou porque é minha amiga, mas para esgotar sua raiva e frustração, para se sentir melhor com ela mesma. Ela estava dizendo aquilo por qualquer outro motivo, menos porque se importava comigo. E isso me fez entender que naquele momento da nossa amizade não existia mais espaço para diálogos construtivos, então era melhor calar.

É certo que nos tempos atuais, com tanta facilidade de comunicação o que não sobra são opiniões rápidas e sinceras, que em sua maioria, são desprovidas de afeto ou cuidado. Mas, o pior tipo de informação é aquela que não foi pedida, que vem de graça e sem avisar. Não tem cuidado, não tem carinho. E palavras sinceras sem afeto, sem contexto, sem um convite para serem faladas, não são sinceridades, são retaliações. Quem fala o que pensa, sem se preocupar com a maneira, com o meio ou em como isso pode ser recebido pelo outro, não é sincero, é insensível.

Em situações assim calar não é uma escolha arrogante, mas sim respeitosa. É importante preservar o que foi bom na relação e o outro. Diálogos construtivos somente são feitos quando existe disponibilidade emocional de ambas as partes, e é difícil criar essa disponibilidade em momentos de raiva, tristeza ou tensão.

O escritor japonês Haruki Murakami escreve em seu romance 1Q84: “Se você não consegue entender uma coisa sem receber explicações, você continuará não entendendo, apesar das explicações”. Pois é, existem muitas pessoas que não entenderão nossas explicações e situações que não precisam ser conversadas. Levei tempo para entender isso e para aprender que em alguns momentos na vida é preciso falar, mas existem tantos outros que o mais importante é aprender a calar, saber distingui-los é essencial.

Muitas vezes fazemos o contrário: calamos quando deveríamos falar e falamos quando deveríamos calar. Temos coragem para discutir sobre política, religião ou outros assuntos diversos e polêmicos. Somos bravos quando falamos dos outros, mas nos falta coragem para falar de nós, sobre nossas dores, frustrações e medos.

O mundo não precisa do barulho da nossa ira e indignação, o mundo não precisa saber tudo o que pensamos, que nos empenhemos em desprender tanta energia em explicar o óbvio. O mundo não precisa de nossos textões e lições de moral. O que o mundo precisa é de falas mais presentes e assertivas, é de verdades construtivas. O que o mundo precisa é de mais gente que sabe quando é hora de calar. O mundo precisa de mais atitude e silêncio.

A insustentável leveza de ser

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“Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza? O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. O que escolher, então? O peso ou a leveza?” Milan Kundera

A complexidade do viver e dos conceitos morais não é assunto novo nem pouco abordado, foram temas muito explorados por existencialistas como Schopenhauer e Nietzsche. O escritor Milan Kundera inicia um de seus mais famosos romances citando o conceito do eterno retorno de Nietzsche. Kundera é genial porque conseguiu traduzir em suas palavras a dualidade que propõe, “A insustentável leveza do ser” é um romance complexo e denso, ao mesmo tempo que tem leveza.

O livro nos apresenta quatro personagens, todos perdidos diante da contradição entre valores que alguns consideram anacrônicos, de cujos pesos, querem ver-se livres, e os valores que criam para si mesmos a fim de darem sustentação aos seus seres. Pois uma vida que se pretende mais leve pode ser tão opressora à existência quanto uma em que são incontáveis os fardos. Kundera era gênio e sábio, ele sabia que grandes experiências, de fato, tornam a vida mais pesada.

Life is messy.

A verdade é que a vida real é bagunçada, complicada, densa. Existe de um lado tudo que é considerado moral e que nossa mente tenta racionalmente entender e processar; e do outro lado existem os sentimentos, as incontroláveis emoções que fazem a gente perder o ar e a vida valer a pena, ao mesmo tempo que complicam tudo aquilo que nossa mente racional tenta (em vão) manter organizado, limpo, descomplicado, leve.

Na vida, a realidade é bem diferente do ideal, daquilo que planejamos, que sonhamos, que desejamos, porque nós somos complicados. Então, com o passar dos anos, os problemas vão ficando mais densos, as raízes mais profundas. O fundo do poço torna-se cada mais mais fundo. E o buraco é sempre mais embaixo. E por mais que tentamos viver a vida com leveza, tem certas coisas que merecem seu devido peso e importância.

Life is limited.

A vida é limitada. Nós somos limitados. Nossa história nos limita, nossa condição nos limita, nossos sentimentos nos limitam. Nossas escolhas nos limitam. Somos o que somos. É o que é. E com certeza somos responsáveis pelas nossas escolhas, mas a vida não é (e não deve ser) tão “preto no branco” como teimamos em acreditar. Porque o “preto no branco” é muito leve, não dá espaço para o peso que tem o colorido.

Life is heavy.

A vida não é violino e rosas. Viver é pesado. A vida é complicada, bagunçada, complexa nas mais inconcebíveis proporções. Dinâmica. Tudo acontece ao mesmo tempo. As pessoas têm processos e momentos diferentes, não chegam prontas e nós nunca estamos prontos, porque somos seres inacabados, imperfeitos. E carregamos bagagens grandes, com cargas pesadas. Pois, assim como escreveu Kundera, não existe leveza onde há profundidade de alma, de sentimentos, de experiências. Somos todos complicados, complicando tudo, travando nossas próprias batalhas, sonhando com oportunidades melhores enquanto o peso de nossas escolhas nos afunda ainda mais na areia movediça.

O que nos resta é saber o que queremos absorver de tudo isso e o que vai ficar de fora. Podemos aprender a traçar linhas, criar barreiras, delimitar fronteiras. Mas, é preciso ter em mente que se queremos experiências significativas precisamos cruzar essas linhas, derrubar barreiras, construir pontes no lugar de muros. Resta saber qual é o limite do emaranhado. Qual é a força de cada nó. Quando devemos desatá-lo e quando devemos apertá-lo. Quando devemos criar laços no lugar de nós. Nós. Encontros são feitos de nós. E encontros são pontos de chegada ou são pontos de partida. Resta saber o que escolher então, o peso ou a leveza?

“Tudo na vida tem a ver com as linhas que delimitamos. Não é aconselhável criar muita intimidade com os outros. Fazer amigos, fazer amantes. Precisamos de fronteiras, entre nós e o resto do mundo, porque os outros são muito complicados. E tudo tem a ver com as linhas. Limites. Fronteiras. Barreiras. Podemos passar a vida desenhando essas linhas e torcendo para que ninguém as cruze ou, em alguns momentos, podemos escolher cruzá-las. É preciso decidir. Mas, saiba que muitas vezes as fronteiras não deixam os outros para fora, elas nos engaiolam dentro. A vida é complicada. Nós somos complicados. É assim que somos feitos. Cheios de desejos, sentimentos e emoções. Então podemos escolher passar toda uma vida delimitando fronteiras, desenhando linhas, ou, podemos escolher viver a vida cruzando essas fronteiras, apagando linhas. Mesmo sabendo que algumas dessas fronteiras são muito perigosas para serem cruzadas. Mas isso é o que eu sei: se vez ou outra você optar por jogar no vento toda essa cautela e dar uma chance ao complicado, a vista do outro lado pode ser espetacular.”

Adaptado de Grey’s Anatomy S. 01 E. 02 – The first cut is the deepest

Melhor do que ser bonzinho, é ser verdadeiro

“Não podemos cuidar adequadamente dos outros sendo incapazes de fazer isso por nós mesmos; não podemos estar atentos às necessidades dos outros sem escutar e compreender as nossas; não podemos ter respeito e complacência pelo outro em sua diversidade, e até em suas contradições, sem conseguir fazer o mesmo por nós. Volto a repetir: no caminho rumo ao outro não podemos dispensar o caminho rumo ao nosso próprio eu.”

Thomas D’Ansembourg 

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Com o novo ano que se aproxima, chega também aquele momento de fazer um balanço geral do ano, revisar aprendizados e desafios vividos e, inevitavelmente, pensar em resoluções e mudanças para o futuro. Já dizia Einstein: “Insanidade é continuar sempre fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Se há algo para melhorar (e sempre há), esse é um bom tempo para traçar caminhos novos, repaginar comportamentos, remodelar antigas crenças, aprender a olhar o mundo de outros ângulos e, ainda, desapegar de tudo aquilo que precisa ficar para trás.

E nesse processo de crescimento e mudanças, é possível criar um olhar diferente sobre o que é cuidar. Thomas D´Ansembourg, um estudioso das relações interpessoais, escreveu: “Se eu cuido do outro negligenciando a mim mesmo, eu cultivo a negligência e não o cuidado”. E a impressão que dá é essa mesmo, que sabemos cuidar do outro, enquanto desaprendemos a cuidar de nós mesmos. Sim, estamos praticando muito mais a negligencia do que o cuidado. Pudera, vivemos na era do altruísmo, nunca ouviu-se, leu-se, prezou-se tanto o cuidado para com o outro. Na era do marketing e da promoção pessoal, ninguém nos parabeniza por cuidar bem de nós mesmos. Dessa forma, cuidar do outro parece tão mais fácil, engrandecedor e reconhecido pelos outros do que praticar o auto-cuidado.

Enquanto somos crianças, temos pais e mães nos orientando o tempo todo sobre o que devemos fazer, com quem andar, aonde ir. E nos acostumamos com isso. Mas, em algum período nessa transição entre ser criança e virar “gente grande”, proclamamos nossa independência. Adquirimos o direito de ir e vir, de ter autonomia sobre nossas escolhas e fazer o que bem entendermos, esse tal livre-arbítrio que tanto escutamos falar, mas que nem sempre temos sabedoria para usar. Os pais um dia, para os que têm sorte, viram conselheiros, mas todos nós, adultos, deveríamos praticar o autocuidado e exercer o papel de pais e mães de nós mesmos. Sim, deveríamos, mas nem sempre é o que fazemos.

A liberdade sobre nossas escolhas não significa exatamente que devemos fazer tudo que queremos, significa que podemos escolher o que nos serve e deixar o que não nos faz bem. Não se trata mais de certo e errado,  mas sim de escolhas mais emocionalmente e fisicamente saudáveis para nós e para os outros. Mas, na correria dos dias, nós esquecemos de cuidar de nós mesmos e é comum colocarmos o desejo do outro diante do que desejamos, é fácil esquecer que temos direito de negar ajuda ou de aprender a dar apenas o que podemos dar. Vivemos ocupados da vida alheia, porque a vida é mesmo assim, sempre tem e terá alguém que precisa de nós e, pode ser difícil admitir, mas isso de certa forma também nos preenche.

Vivendo no modo “piloto automático”, com a forte necessidade de pertencimento, de sermos amados, de não desagradar aqueles ao nosso redor, muitas vezes nem nos damos conta dos vários sapos que engolimos, de quão custoso é fazer o papel do bom, de quanta carga extra vamos adicionando à nossa bagagem, e de quantos “sim” dizemos, quando no fundo queríamos dizer “não”. Evitamos o desconforto social e os conflitos e perdemos batalhas importantes, sem nem sequer lutarmos. É assim, nessa correria e cheios de afazeres que os dias passam voando, que nem vemos mais um ano passar e que vamos cada vez mais nos tornando negligentes ao olhar de D´Ansembourg,  mas bons diante do olhar dos outros.

Além disso, existe ainda um olhar distorcido sobre achar que ser bom é cuidar do outro que nós nem sempre conseguimos perceber: todas as vezes que eu faço alguma coisa com o intuito de proteger, absorver o impacto da queda ou poupar alguém de algo que considero doloroso para ele, estou dizendo: você não tem força para dar conta disso, eu não acredito que você é capaz de viver as consequências de suas próprias escolhas.

Brené Brown, uma pesquisadora americana, também sugeriu um novo olhar sobre o autocuidado, ela diz: “prefira o desconforto no lugar do ressentimento”. Prefira o desconforto ao arrependimento. Aprenda a dizer não para o que não te faz bem, para quem não te faz bem, para  evitar os tantos “tenho que´s” que vamos incorporando em nossa rotina, para tudo aquilo que dizemos “sim” apenas para não desagradar ao olhar do outro. Aprenda a ser a mãe que não te deixava andar em más companhias, o pai que te proibia de chegar tarde em casa, lembre-se de levar o casaco para se proteger do frio e saiba dizer não para tudo que não te faz bem, mesmo que isso cause desconforto entre os demais. Porque, na maioria das vezes, dizer não para o outro, é dizer sim para si mesmo. E por fim, é importante desenvolver sabedoria para praticar o autocuidado, pois a linha entre o egocentrismo e o autocuidado pode ser tênue.

E, que nesse novo ano, aproveitemos todos os dias para criar novos sentidos, para aprender a dizer não para o outro e sim para nós mesmos, para escolher o desconforto no lugar do ressentimento, para saber identificar e expressar o que sentimos, para deixar de sermos bonzinhos, e nos tornarmos algo muito mais valioso para nós e para os outros: verdadeiros.

Sem título

Em tempo, uma boa citação sobre o que é “cuidar”:

“Cuidar, é ajudar o outro a viver o que ele tem de viver. Não é impedi-lo disso, nem tentar poupá-lo a um sofrimento que está no seu caminho, minimizando-o (Não é assim tão mau, não penses nisso, vem distrair-te) ou carregando com o seu peso (A culpa é minha, não devia ter feito isso, vou fazer isto ou aquilo por ele), é sim ajudá-lo a enfrentar a sua dificuldade, a mergulhar no seu sofrimento, para dele se poder libertar, com a consciência de que esse caminho só ao outro pertence e que ninguém o poderá percorrer no seu lugar. Cuidar é dar toda a nossa atenção à faculdade, existente no outro, de curar o seu próprio sofrimento ou de resolver a sua própria dificuldade, bem mais do que lhe levar uma cura. É confiar que o outro dispõe de todos os recursos necessários para resolver a situação se for capaz de se escutar ou de ser escutado no sítio certo.”

(Em Seja Verdadeiro, de Thomas d’Ansembourg, ed. Ésquilo, p.161)