O sonho de Ismar

             Há muitos e muitos anos, vivia na cidade de Damasco, na Síria, um pobre homem chamado Ismar. Ismar sempre lutara para ganhar a vida dignamente; não tendo podido estudar e aprender uma profissão sujeitava-se a qualquer espécie de serviço: limpava jardins, carregava pedras, buscava água, sempre com boa vontade, trabalhando sem se queixar. Com o passar dos anos, porém, Ismar começou a sentir-se cansado e preocupado. Durante a vida toda só trabalhara e nunca conseguira juntar qualquer dinheiro, nenhuma economia que pudesse socorrê-lo em caso de necessidade. A única coisa que tinha de seu era uma casa, herança antiga da família.

            A casa ficava num bairro pobre de Damasco, no fim de uma rua esburacada. Era feita de pedras e protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corria um riacho; à beira do riacho crescia uma velha figueira e era à sombra dessa figueira que Ismar costumava descansar depois de trabalhar a manhã toda. Ali ele refletia sobre sua vida e se perguntava o que seria dele quando a velhice não lhe permitisse mais o esforço físico. Estou ficando velho, pensava, não tenho filhos que me possam sustentar. Será que Alá, meu pai divino, vai me abandonar?

            Sempre assim cismando, um dia Ismar dormiu, recostado à figueira, e teve um sonho; sonhou que estava na cidade do Egito. Ele nunca havia estado realmente no Egito, mas no sonho passeava com desembaraço pela avenida central da cidade e distinguia perfeitamente os mercadores de tapetes, os minaretes das mesquitas. Atravessando uma praça, ele dobrava à direita, descia uma rua estreita, chegava a um rio. Sobre o rio havia uma ponte e embaixo da ponte – ó maravilha! – um cofre repleto de moedas e jóias reluzentes!

            Quando acordou, Ismar teve certeza de que aquele era o tesouro que Alá lhe reservara. O sonho tinha sido tão nítido, tão preciso nos detalhes, não havia engano! Sem pensar em mais nada, ele arrumou sua trouxa e pôs-se a caminho do Cairo. Era uma longa distância, principalmente para ele, que ia a pé e sem dinheiro. No entanto, movido pela convicção de encontrar sua fortuna, Ismar atravessou desertos e vales, rios e florestas, até chegar, finalmente, exausto e maltrapilho, à cidade que lhe aparecera em sonho. Sua fé, então, redobrou de vigor, pois o Cairo era exatamente como ele havia sonhado! Ele reconheceu a avenida principal, os mercadores de tapetes, os minaretes das mesquitas; chegou à praça, virou à direita, desceu a rua, avistou o rio, aproximou-se da ponte, mas… no exato lugar em que deveria estar o tesouro, não havia cofre algum; havia, isso sim, um mendigo mais pobre e maltrapilho que ele.

            Chocado, Ismar deu-se conta da sua loucura! Como pudera acreditar tão piamente num simples sonho? Que tolo fora! E agora, com que forças enfrentaria a viagem de volta? Que impulso de fé ou esperança sustentaria aquela alma tão esvaziada pela decepção? Não, pensou ele. Melhor será acabar com os meus dias aqui mesmo. Nenhuma esperança me resta. E, decidido a se afogar, subiu à ponte. Já estava quase se atirando quando sentiu que alguém o segurava, agarrando sua perna por debaixo da ponte.

            Era o mendigo que gritava:

– Hei amigo! Cuidado, você pode morrer! Esse rio é perigoso!

– Ainda bem! – respondeu Ismar – É isso mesmo que desejo: matar-me.

– Não faça isso. – ponderou o mendigo – Você ainda tem muito que viver. Escute, desça até aqui e conte-me a sua história. Faça sua última boa ação, entretendo um miserável como eu. Depois, se quiser, pode se matar!

            Ismar hesitou, mas resolveu afinal repartir suas dores com aquele desconhecido. Contou-lhe o sonho, concluindo:

– Então, no mesmo lugar em que deveria estar o cofre, estava você… Agora, diga-me, não tenho razão em querer acabar com minha vida?

– Olhe, – exclamou o mendigo – não queria dizer isso, mas acho que você tem razão. Você foi muito irresponsável, um louco!!! Acreditar num sonho! E que você sonhou só uma vez? Veja se tem cabimento! Pois fique sabendo que eu, há cinco anos, tenho o mesmo sonho, que se repete quase todas as noites. E não é por isso que vou sair correndo atrás do que sonhei.

– E o que você sonha? – perguntou curioso Ismar.

– Escute só: eu sonho que estou na Síria, na cidade de Damasco, o que já é uma asneira, pois nunca estive na Síria. Estou num bairro pobre, seguindo por uma rua esburacada. No fim da rua há uma casa de pedra, protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corre um riacho; à beira do riacho cresce uma figueira e, dentro dessa figueira, que é oca, há um tesouro! Não é uma bobagem? Eu é que não sou louco de acreditar em sonhos, não acha?

            Ismar não respondeu. Estava pasmo, pois reconhecera, pela descrição do mendigo, a sua rua, a sua casa, a sua amada figueira!

            Compreendendo os laços do destino, abraçou o mendigo, tomou o caminho de volta e chegando à sua casa, foi direto à velha árvore, onde o tão sonhado tesouro o aguardava.

por Rosane Pamplona em “Novas Histórias Antigas”, ed. Brinque-Book

 

No caminho inexistente

Ia a filha muda guiando o pai cego quando, depois de muito caminhar, chegaram ao deserto. E sentindo o pai a areia nas sandálias, acreditou ter chegado ao mar e alegrou-se.

O mar estava para sempre gravado na sua memória, disse ele à filha que nunca o havia visto. E contou como podiam ser altas as ondas, e obedientes ao vento. E como, coroadas de espuma, faziam e desfaziam seu penteado. O mar, contou ainda, ocupa nossos olhos por inteiro e, se o vemos nascer, o fim não vemos. O mar sempre se move e sempre está parado. O mar, à noite, veste-se de lua.

O mar pareceu duas vezes belo à menina, pelo que era e pelas palavras do pai. Olhou à sua frente, viu as altas dunas e chamou-as ondas no seu coração. Elas obedeciam ao vento e no alto entregavam-lhe seus cabelos para que os desmanchasse com dedos ligeiros.

Sentaram-se os dois, o pai olhando no escuro o mar que guardava na memória, a filha deixando que o mar de luz sem fim ocupasse todo o espaço do seu olhar. Parado diante dela, ainda assim se movia. E quando a noite chegou, vestiu o cetim que a lua lhe entregara.

Dormiram ali os dois, pai e filha, deitados na areia, sonhando com o que haviam visto. E ao amanhecer seguiram caminho, afastando-se do deserto.
Andaram, que o mundo é vasto. Até que um dia, numa curva do caminho, desembocaram na praia.

O velho, sentindo a areia nas sandálias, alegrou-se, certo de ter chegado ao deserto, talvez o mesmo deserto que atravessara quando jovem.

Sentaram. O deserto, disse o pai à menina, é filho dileto do sol. E a menina olhando à frente, viu os raios deitando na superfície, partindo-se, rejuntando-se, mosaico de sol, e sorriu. Os pés afundam no deserto, acrescentou o pai, e ele acaricia nossos tornozelos. A menina soltou sua mão da dele e foi molhar os pés, deixando que a água lhe acariciasse os tornozelos. O deserto, disse ainda o pai, é plano como um lençol ao vento, sem montanhas, ondeando nas costas das dunas. A menina correu o olhar pela linha do horizonte que nenhuma montanha interrompia, viu as ondas, e em seu coração chamou-as dunas.

No deserto, disse ainda o pai à filha tentando explicar o mundo sobre o qual não podia fazer perguntas, anda-se sempre em frente porque não há caminhos, e a pegada do pé direito já se apaga quando o pé esquerdo pisa adiante.

Levantaram-se, caminhando. E porque o velho pisava seguro no deserto da sua lembrança, e porque a menina pisava tranquila no deserto que lhe havia sido entregue pelo pai, seguiram adiante serenos por cima da água que lhes acolhia os pés acarinhando os tornozelos, enquanto suas pegadas se apagavam no caminho inexistente.

em “23 histórias de um viajante” de Marina Colasanti

A guardiã

No alto de uma colina, à beira de um rio caudaloso, muito largo e profundo, havia um castelo fortificado. Nesse castelo vivia um guerreiro que não tinha medo de nada. Sua mulher, bela como uma árvore florida, possuía um dom muito especial. Por causa dela, o marido sempre retornava vitorioso de suas expedições pelas redondezas e lugares muito distantes.
Acontecia sempre da mesma maneira. O guerreiro selava seu cavalo e partia antes do amanhecer, quando a neblina e a escuridão ainda tomavam conta do lugar. Assim que ele desaparecia pelos portões da fortaleza, a mulher subia à torre do castelo e abria a janela de onde avistava toda a região. Ela estendia as mãos delicadas para fora da janela, na direção do caminho por onde o marido cavalgava. No mesmo instante, poderosos raios de luz brotavam de seus dedos finos clareando a estrada para que o marido pudesse viajar com segurança.
Durante todo o dia ele percorria diversas aldeias, lutando e roubando os bens de todos os que derrotava nas suas andanças. Depois ele voltava para casa em disparada, e já fazia noite escura quando ele surgia lá embaixo ao pé da colina, quase sempre perseguido por valentes inimigos. No entanto eles nunca o alcançavam, pois a mulher já o aguardava sentada à mesma janela da torre altíssima. Assim que o via no caminho, ela enviava, através de suas mãos, uma ponte de luz sobre o rio, iluminando- o fortemente para que o marido passasse. Assim que ele atingia a outra margem, ela retirava as mãos rapidamente. A mais negra escuridão apoderava-se daquele lugar de tal modo que os inimigos do marido ficavam completamente desorientados e acabavam desistindo da perseguição.
Assim protegido e guiado, o guerreiro do castelo do alto da colina nunca havia sofrido nenhuma derrota. O tempo foi passando, e ele, cada vez mais, sentia-se como o homem mais poderoso daquelas terras. Orgulhava-se de seus feitos e dizia que era invencível. Um dia ele havia convidado várias pessoas para um grande banquete e, enquanto festejavam, começou a vangloriar-se:
– Eu sempre atravesso o rio trazendo comigo muitos animais, e meus perseguidores não conseguem alcançar-me. Ainda não nasceu o homem que poderá me vencer.
A mulher escutou por um tempo, contrariada, depois disse baixinho:
– Mas você não acredita que faz tudo isso sem a ajuda de ninguém.
O marido olhou-a indignado, reprovando aquela intervenção:
– Que eu saiba, quando vou caçar, não levo ninguém comigo. Enquanto você passa o dia em segurança dentro do castelo, sou eu que me arrisco, que enfrento emboscadas, que preciso lutar com quem aparece no caminho, seja homem ou animal. Acho melhor você pensar mais no que diz antes de abrir a boca, para não se arrepender depois.
A mulher permaneceu em silêncio por algum tempo, depois levantou-se e, antes de retirar-se do grande salão, disse com tristeza:
– Você está completamente dominado pelo orgulho e pela vaidade. Sinto muita vergonha ao ver você nesse estado.
O marido ficou furioso. Respondeu-lhe que não precisava dela para nada e que iria provar o que estava dizendo. Assim que os convidados se foram, ele montou no seu cavalo e deixou o castelo sem se despedir da mulher.
Pela primeira vez, a janela da torre não se abriu enquanto ele percorria as planícies brumosas. E pela primeira vez sua expedição encontrou obstáculos maiores do que seu poder de vencê-los.
Depois de vários dias infrutíferos, vagando pelas aldeias, tendo pilhado uma carga insignificante, o guerreiro achou melhor voltar para casa. Ainda tentou roubar alguma coisa no caminho, mas ele se sentia tão desafortunado, tão confuso pelas sucessivas derrotas, que não lutou com a costumeira audácia e acabou tendo que fugir com as mãos vazias e vários inimigos em seu encalço.
Enquanto isso, sua mulher ficou sentada diante da janela fechada no alto da torre, no escuro, atenta. Ela só se levantava para comer alguma coisa leve uma vez por dia, ou então para cochilar um pouco quando o sono tomava conta dela.
Numa noite tenebrosa, no silêncio do aposento ela escutou ao longe a voz do marido chamando por ela. A aflição que ela sentia estava grudada na ponta de seus dedos unidos, imóveis sobre os joelhos. Ela sabia que não deveria atender o pedido de socorro, mesmo que seu coração aos pulos, dentro do peito, lhe pedisse o contrário. Afinal, ele havia dito que demonstraria ser um guerreiro notável, e por isso era necessário que ele fizesse tudo sozinho.
Angustiada,ela esperou até não mais ouvir a voz do marido. Além do rumor constante das águas do rio, nada mais se escutava. Ela continuou esperando, tentando distinguir cascos de cavalo ressoando no pátio do castelo, o som duro das botas do marido subindo a escadaria. Em vão ela ficou espreitando quase a noite inteira, até que não pôde mais se conter e abriu a janela. Estendendo as mãos ela varreu toda a região em baixo do castelo com fachos de luz, poderosos como sempre, mesmo que dessa vez brotassem de seus dedos trêmulos. Vasculhou a planície, as margens do rio, a encosta da colina, as muralhas do castelo. Não encontrou nenhum vestígio do guerreiro.
Recomeçou outra vez, com movimentos mais lentos e precisos, até que o foco luminoso deteve-se sobre um vulto caído em um rochedo à beira do rio. Pouco depois, quando ela chegou esbaforida àquele lugar, com os cabelos desalinhados e a respiração entrecortada de tanto correr feito louca entre as pedras, reconheceu a capa preta do marido. Rasgada e molhada, ela cobria o corpo do guerreiro inerte sobre a pedra. Ali a mulher ficou imóvel com as mãos sobre a cabeça do homem morto, embalada pelo doce murmúrio do rio, estranhamente calmo ao nascer do sol.
Depois, ela enterrou o marido naquele mesmo lugar e chorou muito tempo sobre o túmulo, completamente entregue à sua dor. Uma semana inteira durou sua vigília solitária. Até que ela viu ao longe um cavaleiro que se aproximava. O jovem sorridente que desceu do cavalo e acercou-se dela era belo e forte.
– O que faz uma mulher tão desolada sozinha neste lugar deserto? – ele perguntou.
A mulher das mãos de luz respondeu-lhe que ninguém poderia fazer nada por ela e que ele deveria ir embora.
O homem montou outra vez no seu cavalo e lhe disse que voltaria em breve. E que durante o tempo em que estaria ausente, ela podia pensar melhor, quem sabe poderia confiar nele e contar por que estava tão triste.
Enquanto ele cavalgava rio adentro, na direção da outra margem, a mulher se assustou e pensou que, com certeza, ele iria afogar-se. Mas logo, conduzindo o cavalo com grande habilidade por dentro das águas turbulentas, ele chegou a salvo do outro lado do rio.
“Esse homem é de fato muito audacioso, eu preciso pôr à prova seu valor”, pensou a mulher à beira do túmulo do marido.
Pela primeira vez, depois de tanto sofrimento, ela se reanimou e invocou os poderes da Senhora das Águas. Levantando-se, com as mãos espalmadas na direção do céu, ela disse:
– Eu lhe peço, rainha poderosa, que esconda o sol atrás das nuvens e que uma grande tormenta torne o rio furioso, que suas águas invadam a terra em ondas gigantescas, que raios e trovões sacudam as árvores, que o dia se torne noite tenebrosa como se fosse o fim do mundo.
Seu pedido foi atendido. Talvez a temível deusa dos mares e dos rios tenha compreendido e concordado com as razões da mulher que chamava por ela, do fundo do coração. Deitada na relva, sacudida pela tempestade avassaladora, a mulher das mãos de luz percebeu que um cavalo galopava na sua direção. Quando se levantou, pôde ver o cavaleiro que tinha acabado de conhecer.
– Como você pôde voltar e arriscar-se a ser tragado pelas águas revoltas do rio? – ela perguntou muito assustada.
– É porque eu não poderia deixá-la sozinha nesta tempestade desvairada – ele respondeu.
Ela não soube o que dizer e finalmente sorriu, com uma satisfação que apenas brotava timidamente no seu peito machucado. O cavaleiro agasalhou-a com seu manto e, no instante em que os dois se sentaram juntos e aconchegados sobre uma pedra lisa, os poderes da Senhora das Águas fizeram-se presentes outra vez, serenando o tempo mais rapidamente do que as palavras seriam capazes de relatar. A tempestade cessou, o rio seguiu seu rumo mansamente, as águas brilhando à luz do sol que surgiu de repente no alto do céu azul. A terra verde respirava úmida, exalando um delicioso aroma de vida.
– O homem que está enterrado neste túmulo era meu marido – disse a mulher- E nós nos amávamos.
– Você se engana – retrucou o jovem cavaleiro. – Ele não a amava, ele amava apenas a si mesmo. Toda a terra à nossa volta está verde e coberta de flores, só este túmulo permanece seco, com a terra dura e inerte, sem florescer. Que este túmulo permaneça assim, estéril, para que as pessoas que só amam a si mesmas, ao passarem por aqui, sintam-se envergonhadas.
A mulher de mãos luminosas olhou para o céu e agradeceu à deusa em silêncio. O jovem cavaleiro a olhou com ternura e estendeu-lhe a mão. Ao segurá-la, a mulher sorriu e levantou-se. Ela teve a resposta que buscava quando sua mão deixou-se envolver pelo calor daquela mão valorosa, que num gesto firme devolveu-lhe, num único instante, o sentido de continuar viva.

Conto caucasiano, recontado por Regina Machado

De muito procurar

Aquele homem caminhava sempre de cabeça baixa. Por tristeza, não. Por atenção. Era um homem à procura. À procura de tudo o que os outros deixassem cair inadvertidamente, uma moeda, uma conta de colar, um botão de madrepérola, uma chave, a fivela de um sapato, um brinco frouxo, um anel largo demais.
Recolhia, e ia pondo nos bolsos. Tão fundos e pesados, que pareciam ancorá-lo à terra. Tão inchados, que davam contornos de gordo à sua magra silhueta.
Silencioso e discreto, sem nunca encarar quem quer que fosse, os olhos sempre voltados para o chão, o homem passava pelas ruas despercebido, como se invisível. Cruzasse duas ou três vezes diante da padaria, não se lembraria o padeiro de tê-lo visto, nem lhe endereçaria a palavra. Sequer ladravam os cães, quando se aproximava das casas.
Mas aquele homem que não era visto, via longe. Entre as pedras do calçamento, as rodas das carroças, os cascos dos cavalos e os pés das pessoas que passavam indiferentes, ele era capaz de catar dois elos de uma correntinha partida, sorrindo secreto como se tivesse colhido uma fruta.
À noite, no cômodo que era toda a sua moradia, revirava os bolsos sobre a mesa e, debruçado sobre seu tesouro espalhado, colhia com a ponta dos dedos uma ou outra mínima coisa, para que à luz da vela ganhasse brilho e vida. Com isso, fazia-se companhia. E a cabeça só se punha para trás quando, afinal, a deitava no travesseiro.
Estava justamente deitando-se, na noite em que bateram à porta. Acendeu a vela. Era um moço.
Teria por acaso encontrado a sua chave? Perguntou. Morava sozinho, não podia voltar para casa sem ela.
Eu… esquivou-se o homem. O senhor, sim, insistiu o moço acrescentando que ele próprio já havia vasculhado as ruas inutilmente.
Mas quem disse… resmungou o homem, segurando a porta com o pé para impedir a entrada do outro.
Foi a velha da esquina que se faz de cega, insistiu o jovem sem empurrar, diz que o senhor enxerga por dois.
O homem abriu a porta.
Entraram. Chaves havia muitas sobre a mesa. Mas não era nenhuma daquelas. O homem então meteu as mãos nos bolsos, remexeu, tirou uma pedrinha vermelha, um prego, três chaves. Eram parecidas, o moço levou as três, devolveria as duas que não fossem suas.
Passados dias bateram à porta. O homem abriu, pensando fosse o moço. Era uma senhora.
Um moço me disse… começou ela. Havia perdido o botão de prata da gola e o moço lhe havia garantido que o homem saberia encontrá-lo. Devolveu as duas chaves do outro. Saiu levando seu botão na palma da mão.
Bateram à porta várias vezes nos dias que se seguiram. Pouco a pouco se espalhava a fama do homem. Pouco a pouco se esvaziava a mesa dos seus haveres.
Soprava um vento quente, giravam folhas no ar, naquele fim de tarde, nem bem outono, em que a mulher veio. Não bateu à porta, encontrou-a aberta. Na soleira, o homem rastreava as juntas dos paralelepípedos. Seu olhar esbarrou na ponta delicada do sapato, na barra da saia. E manteve-se baixo.
Perdi o juízo, murmurou ela com voz abafada, por favor, me ajude.
Assim pela primeira vez, o homem passou a procurar alguma coisa que não sabia como fosse. E para reconhecê-la, caso desse com ela, levava consigo a mulher.
Saíam com a primeira luz. Ele trancando a porta, ela já a esperá-lo na rua. E sem levantar a cabeça – não fosse passar inadvertidamente pelo juízo perdido – o homem começava a percorrer rua após rua.
Mas a mulher não estava afeita a abaixar a cabeça. E andando, o homem percebia de repente que os passos dela já não batiam ao seu lado, que seu som se afastava em outra direção. Então parava, e sem erguer o olhar, deixava-se guiar pelo taque-taque dos saltos, até encontrar à sua frente a ponta delicada dos sapatos e recomeçar, junto deles, a busca.
Taque, taque hoje, taque-taque amanhã, aquela estranha dupla começou a percorrer caminhos que o homem nunca havia trilhado. Quem procura objetos perdidos vai pelas ruas movimentadas, onde as pessoas se esbarram, onde a pressa leva à distração, ruas onde vozes, rinchar de rodas, bater de pés, relinchos e chamados se fundem e ondeiam. Mas a mulher que andava com a cabeça para o alto ia onde pudesse ver árvores e pássaros e largos pedaços de céu, onde houvesse panos estendidos no varal. Aos poucos, mudavam os sons, chegavam ao homem latidos, cacarejar de galinhas.
O olhar que tudo sabia achar não parecia mais tão atento. O que procurar afinal entre fios de grama senão formigas e besouros? Os bolsos pendiam vazios. O homem distraía-se. Um caracol, uma poça d’água prendiam sua atenção, e o vento lhe fazia cócegas. Metia o pé na pegada achada na lama, como se brincasse.
Taque-taque, conduziam-no os pés pequenos dia após dia. Taque-taque crescia aquele som no coração do homem.
Achei! Exclamou afinal. E a mulher sobressaltou-se. Achei! Repetiu ele triunfalmente. Mas não era o que haviam combinado procurar. Na grama, colhida agora entre dois dedos, o homem havia encontrado a primeira violeta da primavera. E quando levantou a cabeça e endireitou o corpo para oferecê-la a ela, o homem soube que ele também acabava de perder o juízo.

Marina Colasanti

Do seu coração partido

Sentada junto à sacada para que a luz lhe chegasse a vida da rua, a jovem costurava o longo traje de seda cor de jade que alguma dama iria vestir. Essa seda agora muda – pensava a costureira enquanto a agulha que retinha nos dedos ia e vinha – haveria de farfalhar sobre mármores, ondeando a cada passo da dama, exibindo e ocultando a cada passo da dama, exibindo e ocultando nos poços das pregas seu suave verde. O traje luziria nobre como uma jóia. E dos pontos, dos pontos todos, pequenos e incontáveis que ela, aplicada, tecla dia após dia, ninguém saberia.


Assim ia pensando a moça, quando uma gota de sangue caiu sobre o tecido. 
De onde vinha esse sangue? perguntou-se em assombro, afastando a seda e olhando as próprias mãos limpas. Levantou o olhar. De um vaso na sacada, uma roseira subia a parede oferecendo, ao alto, uma única rosa flamejante.

– Foi ela – sussurrou o besouro que parecia dormir sobre uma folha. – Foi do seu coração partido.


Esfregou a cabeça com as patinhas. – Sensível demais, essa rosa – acrescentou, não sem um toque de censura. – Um mancebo acabou de passar lá embaixo, nem olhou para ela. E bastou esse nada, essa quase presença, para ela sofrer de amor.
Por um instante esquecida do traje, a moça debruçou-se na sacada. Lá ia o mancebo, afastando-se num esvoejar de capa em meio às gentes e cavalos.
– Senhor! Senhor! – gritou ela, mas nem tão alto, que não lhe ficaria bem. E agitava o braço.
O mancebo não chegou a ouvir. Afinal, não era o seu nome que chamavam. Mas voltou-se assim mesmo, voltou-se porque sentiu que devia voltar-se ou porque alguém do seu lado virou a cabeça de súbito como se não pudesse perder algo que estava acontecendo. E voltando-se viu , debruçada no alto de uma sacada, uma jovem que agitava o braço, uma jovem envolta em sol, cuja trança pendia tentadora como uma escada. E aquela jovem, sim, aquela jovem o chamava.
Retornar sobre os próprios passos, atravessar um portão, subir degraus, que tão rápido isso pode acontecer quando se tem pressa. E eis que o mancebo estava de pé junto à sacada, junto à moça. Ela não teve nem tempo de dizer por que o havia chamado, que já o mancebo extraía seu punhal e , de um golpe, decepava a rosa para lhe oferecer.
Uma ultima gota de sangue caiu sobre a seda verde esquecida no chão. Mas a moça costureira, que agora só tinha olhos para o mancebo, nem viu.

Marina Colasanti. 23 historias de um viajante. São Paulo: Global, 2005. P.157-9

O homem sem sorte

Era uma vez um homem que se achava o mais sem sorte do mundo e, num sonho, viu que a única solução era procurar o Criador no fim do mundo. Saiu, então, correndo à procura do Criador.

Ao passar pela floresta, ouviu o grunhido de um lobo doente e enfraquecido, que estava caído e lhe pedia ajuda.

– Agora não posso, pois tenho uma longa jornada até o fim do mundo, aonde vou me encontrar com o Criador – respondeu o homem apressadamente.

 O pobre lobo pediu então que ele falasse com o Criador e lhe pedisse a sua cura. O homem se comprometeu e continuando a correr, tropeçou na raiz exposta de uma grande e velha árvore, já quase sem folhas, que lhe disse:

– Meu nobre senhor, me ajude, estou morrendo, enfraquecida. Por favor, jogue um pouco de terra sobre minhas raízes expostas!

O homem respondeu:

– Infelizmente agora, não posso, pois estou indo encontrar o Criador que fica no fim do mundo.

– Peça, então, ao Criador por mim. Diga-lhe como estou e como posso me curar desse sofrimento.

O homem virou as costas e depois de muito correr, chegou a um vale muito florido, com flores de todas as cores e perfumes. Mas ele não reparou. Chegou até uma casa e na frente da casa estava uma jovem muito bonita que o convidou a entrar.

Eles conversaram longamente e de repente se levantou dizendo que não podia perder tempo e quando já estava saindo ela lhe pediu um favor:

– Você que vai procurar o Criador, podia perguntar uma coisa para mim? É que de vez em quando sinto um vazio no peito, que não tem motivo nem explicação. Gostaria de saber o que é e o que posso fazer por isto.

O homem prometeu que perguntaria e, depois de muito caminhar, chegou finalmente ao fim do mundo. Sentou-se e ficou esperando até que ouviu a voz do Criador chamando-o.

O homem falou-lhe então sobre a sua triste vida e sua imensa falta de sorte e o Criador lhe disse:

– Sua sorte está há muito tempo no mundo. Basta ficar atento que você vai encontrá-la.

Quando já estava indo embora, o Criador lhe perguntou:

– Você não tem que levar uma resposta para uma árvore, para um lobo e para uma jovem?

– Tem razão, Senhor.

Depois de escutar o que o Criador tinha para lhe dizer, correu mais rápido que o vento até que chegou à casa da jovem que, ao vê-lo passar, chamou:

– Ei! Você conseguiu encontrar o Criador?

– Sim! Claro! O Criador disse que minha sorte está há muito tempo no mundo. Só preciso ficar atento!

– E quanto a mim, você teve a chance de fazer a minha pergunta?

– Ah! O Criador disse que, o que você sente, é solidão. Assim que encontrar um companheiro vai ser completamente feliz, e mais feliz ainda vai ser o seu companheiro.

A jovem então abriu um sorriso e perguntou ao homem se ele queria ser este companheiro.

– Claro que não. Já trouxe a sua resposta. Não posso ficar aqui perdendo tempo com você, pois tenho que encontrar minha sorte. Adeus!

 Virando as costas, correu até a floresta onde estava a árvore. Ela perguntou se trazia a resposta do Criador, e o homem respondeu:

– Tenho muita pressa e vou ser breve, pois estou indo em busca de minha sorte. O Criador disse que você tem embaixo de suas raízes uma caixa de ferro cheia de moedas de ouro. O ferro desta caixa está corroendo suas raízes. Se você cavar e tirar este tesouro daí, vai terminar todo o seu sofrimento e você poderá virar uma árvore saudável novamente.

– Por favor! Faça isso por mim! Você pode ficar com o tesouro. Ele não serve para mim. Eu só quero de novo minha força e energia.

O homem respondeu furioso:

– Já lhe trouxe a resposta. Agora resolva o seu problema. Preciso procurar a minha sorte e eu não posso perder tempo aqui conversando com você, muito menos sujando minhas mãos na terra.

 Virando as costas, atravessou a floresta mais rápido do que antes, e chegou aonde estava o lobo, mais magro ainda e mais fraco. O homem falou-lhe apressadamente:

 – O Criador mandou lhe falar que você não está doente. O que você tem é fome. Está morrendo  de inanição, e como não tem mais forças para sair e caçar, vai morrer aí mesmo. A não ser que passe por aqui uma criatura bastante estúpida, e você consiga devorá-la.

Nesse momento, os olhos do lobo se encheram de um brilho estranho e, reunindo o restante de suas forças, deu um salto e devorou o homem ‘sem sorte’.

A roupa nova do imperador

por Hans Christian Andersen

Há muitos e muitos anos atrás, vivia um imperador que só pensava em comprar roupas novas, e com isso ele gastava todo o dinheiro do reino, sua única ambição era estar sempre bem vestido. Ele não se preocupava com os soldados, e jamais sentiu qualquer inclinação pelo teatro, a única coisa de fato, que o interessava era sair para exibir os seus novos trajes. Ele tinha um manto para cada hora do dia, e quando para um rei se costumava dizer: “Ele está em seu gabinete”, para ele se poderia dizer: “O imperador está em seu vestuário.”

A grande cidade onde ele residia era muito alegre; todos os dias muitos estrangeiros chegavam de todas as partes do globo. Um dia dois vigaristas chegaram à cidade; eles faziam as pessoas acreditarem que eram grandes tecelões, e afirmavam poder confeccionar as roupas mais finas que alguém poderia imaginar. As cores e os modelos que eles criavam, diziam, não eram apenas excepcionalmente lindas, mas as roupas feitas com o material que eles produziam, possuíam a maravilhosa capacidade de ser invisível a qualquer pessoa que não tivesse preparada para o cargo que ocupava ou fosse imperdoavelmente tola.

“Essa deve ser uma roupa maravilhosa,” pensou o imperador. “Se eu tivesse de vestir uma roupa feita com um tecido tão especial eu poderia descobrir quais ministros do meu império não estavam preparados para os seus cargos, e eu poderia distinguir o tolo do sábio. Eu preciso mandar fazer essa roupa para mim sem demora.” E mandou oferecer uma grande soma em dinheiro para os vigaristas, antecipadamente, para que eles iniciassem o trabalho imediatamente. Eles prepararam dois teares, e fingiam trabalhar com muita eficiência, porém, não produziam nada em nenhum dos teares. Eles solicitavam as sedas mais finas, e os tecidos de ouro mais preciosos, e tudo o que eles conseguiam eles pegavam para eles e trabalhavam nos teares vazios até tarde da noite.

“Preciso enviar o meu ministro mais velho e mais honesto até os tecelões,” pensava o imperador. “Não há ninguém melhor do que ele para avaliar como as coisas estão indo, porque ele é inteligente, e ninguém entende melhor do seu ofício do que ele.”

O velho e bom ministro foi até o local onde os vigaristas ficavam diante dos teares vazios. “Meu Deus do céu!” pensou ele, e arregalou os olhos, “Eu não estou conseguindo ver nada em absoluto!”, mas ele não disse isso. Os dois vigaristas pediram para que ele se aproximasse, e lhe perguntaram se ele não admirava os modelos primorosos e as cores belíssimas, e mostrava os teares vazios. O pobre e velho ministro se esforçava o melhor que podia, mas não conseguia ver nada, porque não havia nada mesmo para ser visto. “Oh, céus,” pensava ele, “como posso ser tão tolo? Jamais teria pensado assim, e ninguém pode saber disso! Será possível que eu não estou preparado para o posto que exerço? Não, não, eu não posso dizer que eu não consigo ver o tecido.”

“Então, o que você tem a dizer? disse um dos vigaristas, enquanto ele fingia estar super ocupado tecendo.

“Oh, é muito bonito, extremamente belo,” respondeu o velho ministro esforçando-se por enxergar através dos seus óculos. “Que modelo primoroso, que cores brilhantes! Irei imediatamente dizer ao imperador que eu gostei muito da roupa.”

“Ficamos muito contentes em ouvir isso,” disseram os dois tecelões, e descreveram para ele as cores e deram explicações sobre o curioso modelo. O velho ministro escutou tudo muito atenciosamente, para que ele pudesse relatar ao imperador o que eles haviam dito, e assim fez ele.

Então os vigaristas pediram mais dinheiro, seda, e tecido de ouro, que eles diziam serem necessários para o serviço de tecelagem. Eles escondiam tudo para si mesmos, e nem sequer uma linha chegava perto do tear, mas eles continuavam como até agora, a trabalhar em teares vazios.

Logo depois o imperador enviou um outro cortesão honesto até os tecelões para saber tudo o que estava acontecendo, e se a roupa já estava quase terminada. Do mesmo modo que o velho ministro, ele olhava e olhava mas não conseguia ver nada, mesmo porque não havia nada para ver.

“Não é uma linda peça de vestuário?” perguntaram os dois trapaceiros, mostrando e explicando os magníficos modelos, que todavia, jamais existiram.

“Eu não sou estúpido”, pensou o homem. “Deve ser por causa do elevado cargo que ocupo e para o qual eu não estou preparado. É muito estranho, mas eu não posso permitir que ninguém fique sabendo;” então ele elogiou a roupa, que ele não via, e expressou a sua alegria diante das cores maravilhosas, e do finíssimo modelo. “É muito lindo,” disse ele ao imperador.

Todo mundo na cidade inteira comentava sobre a beleza da roupa. Finalmente, o próprio imperador desejou ver com seus próprios olhos, quando a roupa ainda estava sendo tecida nos teares. Acompanhado por um séquito de cortesãos, incluindo os dois que já haviam estado lá, ele foi até os dois vigaristas espertos, que agora empregavam maior esforço no trabalho, sem usar nem sequer um fio de linha.

“Não é maravilhoso?” disseram os dois outros chefes de estado que já haviam estado lá anteriormente. “Com certeza a Vossa Majestade vai admirar as cores e os padrões.” E então apontavam para os teares vazios, pois acreditavam que os outros não estavam vendo o tecido.

“Mas o que é isso?” pensou o imperador, “eu não estou vendo nada. Isso é terrível! Serei eu um tolo? Será que estou despreparado para ser imperador? Essa seria a coisa mais terrível que poderia me acontecer.”

“Realmente,” disse o imperador, virando-se para os tecelões, “a sua roupa tem toda a nossa aprovação.” e balançando a cabeça satisfeito olhava para o tear vazio, pois ele não queria dizer que não estava vendo nada. Todos os acompanhantes, que faziam parte da sua comitiva, ficavam olhando e embora não pudessem ver nada mais do que viam os outros, ele concordaram com o imperador, “É muito lindo.” E todos aconselharam para que o rei usasse aquela roupa maravilhosa durante uma grande procissão que em breve estaria para ser realizada. “É magnífico, lindíssimo, excelente,” disse um deles, todos pareciam estar encantados, e o imperador nomeou os dois vigaristas como os “tecelões imperiais da corte”.

A noite toda que precedeu ao dia quando a grande procissão se realizaria, os trapaceiros fingiam trabalhar e só nesse dia queimaram mais de dezesseis velas. As pessoas deveriam ver que eles estavam ocupados fazendo os acabamentos da nova roupa do imperador. Eles fingiam tirar a roupa do tear, e pareciam estar trabalhando no ar com grandes tesouras, e costuravam com agulhas que não tinham linhas, e disseram no final: “A nova roupa do imperador ficou pronta.”

O imperador e todos os seus cortesãos foram até o salão, os vigaristas mantinham seus braços levantados como se estivessem segurando alguma coisa na mãos e disseram: “Estas são as calças!” “Este é o casaco!” e “Aqui está o manto!” e assim por diante. “Estes trajes são tão leves quanto teia de aranha, e a pessoa se sente como se não estivesse usando nada no corpo, mas aí é que está a beleza delas.”

“De fato!” disseram os cortesãos, mas eles não conseguiam ver nada, porque não havia mesmo nada para ser visto.

“Será que a Vossa Majestade por gentileza poderia se despir,” disseram os trapaceiros, “para que possamos auxiliar a Vossa Alteza nos ajustes da nova roupa diante do grande espelho?”

O imperador se despiu, e os vigaristas fingiram colocar nele a nova roupa, peça por peça, e o imperador olhava para si mesmo no espelho de todos os lados.

“Como ela lhe caiu bem!” “Como ficou bonita!” disseram todos. “Que modelo arrojado! Que cores belíssimas! Esse é um traje magnífico!”

O mestre das cerimônias anunciou que os carregadores do pálio, que haveriam de desfilar durante a procissão, já estavam prontos.

“Eu estou pronto,” disse o imperador. “A minha roupa nova não caiu perfeitamente bem?” Então ele se virou mais uma vez para o espelho, para que as pessoas pensassem que ele estava admirando os seus novos trajes.

Os camareiros, que iriam ajudá-lo a carregar a cauda, estenderam suas mãos até o chão como se estivessem levantando a cauda, e fingiam segurar alguma coisa em suas mãos, eles não queriam que as pessoas soubessem que eles não estavam vendo nada.

O imperador marchava na procissão sob o belo pálio, e todos que olhavam para ele na rua e pelas janelas exclamavam: “De fato, o novo traje do imperador é incomparável! que longa causa que ele tem! Como a roupa caiu bem para ele!” Ninguém queria que os outros soubessem que eles não viam nada, pois que seriam considerados incapacitados para o cargo que ocupavam ou tolos demais. Nunca as roupas do imperador foram tão admiradas.

“Mas ele não está usando nada,” disse uma pequena criança afinal.

“Deus do céu! ouçam a voz de uma criança inocente,” disse o pai, e um sussurrava para o outro o que a criança havia dito. “Mas ele não está usando nada”, gritaram afinal todas as pessoas. Isso causou uma forte impressão no imperador, pois lhe pareceu que as pessoas tinham razão, mas ele pensou consigo mesmo, “Agora eu vou ter de aguentar isso até o fim.” E os camareiros caminhavam com mais dignidade ainda, como se carregassem a cauda que não existia.