Eu sou eu, você é você

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“Eu sou eu, você é você. Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas. Eu sou eu, você é você. Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas. E nem você o está para viver de acordo com as minhas. Eu sou eu, você é você. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.” Fritz Perls

A Gestalt-terapia, também como conhecida como terapia do contato, é uma das muitas abordagens humanistas da psicoterapia. O contato para a GT é tão fundamental que grande parte da literatura gestáltica é baseada nisso (fronteiras de contato, mecanismos de evitação de contato). Porém, esse contato a que se referem os estudiosos da GT não é exatamente o contato como entendemos de maneira literal, nem somente o encontro com o outro. As formas possíveis de contato descritas na GT são diversas e dinâmicas.

Perls, Hefferline e Goodman descreveram: “contato é todo tipo de relação viva que se dê na fronteira, na interação entre o organismo e o ambiente, é um processo contínuo de reciprocidade em que homem e mundo se transformam. O contato acontece no diferente, é o reconhecimento do outro, o lidar com o outro, o que eu sou, o diferente, o novo, o estranho. O contato acontece na fronteira eu-outro, conhecido-desconhecido, velho-novo, todo contato é dinâmico e criativo”.

Em um sentido mais abstrato, conseguimos encerrar nossos conflitos emocionais quando finalmente entramos em contato com a verdade dos fatos como eles são; quando nos damos conta das verdades que tantas vezes evitamos, justamente por serem tão dolorosas; quando lamentamos nossas histórias mais tristes. Esse momento do “dar-se conta” é fundamental para que deixemos de repetir antigos padrões (neuróticos) de comportamento, que se tornaram anacrônicos e, portanto, inadequados. Dar fechamento aos nossos conflitos emocionais, ou “gestalten”, é fundamental para que façamos as pazes com nossa história e possamos então trazer para o mundo um “eu” mais completo e emocionalmente saudável.

Quando nos referimos ao contato com o outro, ele é autêntico quando ocorre na fronteira, ou seja, quando existe interesse e disponibilidade emocional de ambos, sem que haja manipulações ou invasões. Não é necessário que haja esforço, não é necessário que uma pessoa precise ajustar-se à outra para ser amada ou aceita. Contato autêntico é aquele que inclui as duas partes, e todas as partes dessas duas partes.

Eu sou eu, você é você.

Constantemente me pergunto quanto de mim devo deixar de lado para ser amada? A resposta da GT é clara, nada. Dentro da visão gestáltica, para sermos verdadeiramente amados, devemos incluir (e não alienar) todas as nossas partes que muitas vezes tentamos anular na ânsia de sermos amados. Na prática isso requer um boa dose de bom senso, maturidade, auto-conhecimento e (muito) treino. Isso não quer dizer que não devo me moldar para incluir o desejo do outro, mas que esse desejo de mudar deve ser voluntário.

Nos escritos que ficaram conhecidos como “Oração da Gestalt-terapia” o convite de Fritz Perls, considerado o pai da GT, é para que nos empenhemos em trazer para nossa vida e nossos relacionamentos auto-responsabilização. Eu sou responsável pelo meu caminho, você é responsável pelo seu. Eu sou responsável pelas minhas dores, você é responsável pelas suas. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.

 

Crônicas de uma vida anunciada

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“Seja como você é. De maneira que possa ver quem é. Quem é e como é. Deixe por um momento o que deve fazer e descubra o que realmente faz. Arrisque um pouco, se puder. Sinta seus próprios sentimentos. Diga suas próprias palavras. Pense seus próprios pensamentos. Seja seu próprio ser. Descubra. Deixe que o plano pra você surja de dentro de você.” Fritz Perls

Pertencimento é uma necessidade vital, somos seres sociais, dependemos do outro para existir. Nada disso é novidade. Mas, tenho constantemente me perguntado: Qual parte minha devo alienar a fim de pertencer a um determinado grupo? Quais são as vozes que ficam caladas para que eu possa me sentir amada?

“Saúde é um equilíbrio apropriado da coordenação de tudo aquilo (e aqueles) que somos” dizia Fritz Perls, um dos principais nomes da Gestalt-terapia. Na visão gestáltica, possuímos um organismo completo e inteligente que se autoregula de acordo com o meio em que está inserido. E é através desse processo de autoregulação que desenvolvemos determinados padrões de comportamento em resposta ao que o meio exige de nós, e que alienamos importantes partes nossas (e às vezes menos “populares”).

As muitas regras sociais e morais, a organização de nosso sistema familiar, os ambientes e pessoas em nosso redor, e tantos outros fatores, compõem as diversas crenças e introjetos que ao longo dos anos moldam nosso comportamento. Nossa grande tragédia está no fato de que quanto mais nos moldamos (a fim de sermos aceitos), mais partes nossas são alienadas e menos autênticos nos tornamos. Dessa forma, aniquilamos pedaços importantes de tudo que nos torna o que somos: únicos e irrepetíveis. E anulamos nossa melhor parte, nossa essência.

Perls dizia que estamos sempre representando um papel, manipulados ou manipulando o meio em prol de alcançar o que desejamos e de suprir nossas necessidades mais latentes. Essas representações existem em maior e menor grau, dependendo do nível de consciência e autoconhecimento de cada um. A representação de um papel significa que minhas respostas não são espontâneas e honestas; que estou constantemente suprimindo meu querer mais irracional e visceral. Pois, nem sempre podemos explicar nossos desejos de maneira lógica, mas para os valores morais da sociedade o que não pode ser logicamente explicado, ou justificado, não pode ser validado. Assim viro plágio, engesso minhas respostas, copio minhas ações. Quanto mais cristalizado é meu comportamento, menos autêntico sou.

A Gestalt-terapia entende toda resposta não autêntica como neurótica.

Nesse contexto as redes sociais atuam como amplificadores de uma vida anunciada, ensaiada e editada. Na internet podemos representar nosso melhor papel, mais ainda, aprimorá-lo. Esses papéis virtuais são perigosos porque endossam uma narrativa romântica de felicidade fácil e de perfeição, de relacionamentos desprovidos de grandes conflitos e negociações. A rede permite ensaios, filtros e edições que a vida real não permite. E uma vida ensaiada não é apenas caluniosa, como também bloqueia o fluxo criador e transformador que podemos devolver ao mundo. Ela nos priva de viver com prontidão, improviso, espontaneidade e (muita) imperfeição. Ela nos priva da liberdade de sermos quem de fato somos.

Anunciamos nossos passos, nossas melhores experiências, onde estamos, com quem estamos. Nas redes cabe nosso eu inteligente, solidário, justo, ativista, alegre, bem sucedido. Gritamos nossas revoltas diante das injustiças do mundo, nossa fé e esperança de um futuro melhor. Tudo meticulosamente pensado para caber no olhar alheio. E mesmo quando dividimos nossas dores, são dores editadas, aquelas que podem ser acolhidas pelo olhar compassivo do outro. Dessa maneira, só me arrisco a compartilhar o que de certa forma pode ser aceito e validado pelo outro. E quando isso não acontece, tenho a opção de deletar. É preciso cautela ao equilibrar e dosar o uso que fazemos dos canais virtuais. Pois, é muito fácil e sedutor buscar reconhecimento e acolhimento através deles. Tanto quanto é vazio e ilusório.

Nunca estivemos tão conectados, nem tão solitários.

Uma vida anunciada é desprovida de contato real e de intimidade. E a intimidade é o que de fato nos desnuda e nos conecta em um nível muito mais profundo e verdadeiro. Quando me privo de viver com prontidão, quando não me utilizo dos recursos que tenho e da expressão de minhas emoções de maneira instantânea e espontânea, sou apenas mais um personagem. E assim, aos poucos, minha vida anunciada e encenada me torna mais cristalizada, neurótica e solitária.

As palavras de Perls nos lembram como é libertador o trabalho de tomada de consciência, ainda que custoso. “Eu acredito que esta é a grande coisa a ser compreendida: a tomada de consciência em si – e de si mesmo – pode ter efeito de cura”, escreveu ele. Esse é um trabalho interno que deve ser feito em silêncio e longe dos holofotes.

Quando criamos consciência de nossos processos podemos elaborar respostas mais imediatas e autênticas aos nossos conflitos e integrar partes importantes nossas que foram censuradas. Podemos viver com prontidão e sem ensaios. Só assim seremos completos, só assim estaremos em paz e devolveremos algo inteiramente único para o mundo. Sim, ser autêntico requer muita coragem e um caminhar solitário e vulnerável. Mas, quem o faz vive uma vida em liberdade de ser quem se é; devolve ao mundo calor, víscera e pulso.

Afinal, não é isso que chamamos de vida?

Viva as perguntas

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“Quero lhe implorar para que seja paciente com tudo o que não está resolvido em seu coração e tente amar as perguntas como quartos trancados e como livros escritos em língua estrangeira. Não procure respostas que não podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las. E a questão é viver tudo. Viva as perguntas agora. Talvez assim, gradualmente, você sem perceber, viverá a resposta num dia distante.”

Rainer Maria Rilke

A Gestalt-terapia é uma abordagem da Psicologia pouco conhecida, porém fascinante. Não somente por ser atual, mas muito por sua simplicidade. Fritz Perls, um de seus pensadores, criticava os processos de racionalização e intelectualização nos quais tentamos (em vão) explicar eventos psicológicos. Para ele, a grande maioria das nossas vivências mais marcantes não carecem de uma explicação lógica, elas apenas precisam ser sentidas.

A Gestalt-terapia é conhecida também como a terapia do aqui agora e sofre muitas críticas por simplificar uma área da academia que com os anos tornou-se extremamente teorizada e elitizada. Para Fritz, o processo terapêutico deve ser acessível, simples e objetivo. Principalmente, ele deve devolver autonomia ao cliente para que ele possa desenvolver auto-apoio e auto-responsabilização ao fazer escolhas, para que ele aprenda a utilizar seus próprios recursos no momento, dependendo cada vez menos da validação do meio ou de um profissional.

“O intelecto é a prostituta da inteligência”, dizia Perls que condenava a Academia atuando na formação de psicoterapeutas e as áreas de estudo que buscam incessantemente sentido e entendimento racional de tudo. O intelecto se vende fácil ao que faz sentido lógico, mas nem sempre isso combina com nosso entendimento emocional dos eventos. Constantemente tentamos racionalizar e entender nossas frustrações através da razão e explicá-las a fim de encontrar paz e conforto, e na maioria das vezes essas tentativas geram mais conflitos emocionais do que resoluções.

A grande “sacada” de Fritz envolve a validação de nossas emoções, ele entendeu que os eventos psicológicos não podem (nem devem) ser compreendidos racionalmente. Entender que a morte é uma certeza de quem vive, conhecer as religiões e crenças, acreditar em um plano espiritual além da vida, não faz a perda de alguém que amamos menos sofrida, tampouco faz a possibilidade da morte menos assustadora. Mais do que explicar racionalmente, é preciso sentir, lamentar e chorar a dor da perda.

Tudo isso parece muito simples se não vivêssemos em uma sociedade cartesiana, altamente intelectualizada, onde se busca fazer sentido lógico de tudo, onde é tão difícil falar de sentimentos, medos, frustrações, perdas, fracassos, dores. Para evitar a inconveniência da verdade, maquiamos as partes duras de nossa história na tentativa de deixá-las mais “emocionalmente suportáveis”.

É mais fácil dizer que gasto muito do que admitir que sustento meu marido. É mais fácil falar que ele anda muito ocupado e não consegue me responder a admitir que estou sendo rejeitada. É mais fácil apontar culpados para o que vivo de disfuncional do que admitir que sou tão responsável pelas minhas vitórias quanto sou pelos meus fracassos. Esses são exemplos bem simplificados de como construímos as histórias fantasiosas que nos contamos. Geralmente nos contamos mentiras, “enfeitamos” os fatos, porque é muito doloroso encarar a verdade, ironicamente é só quando validamos nossas verdades mais duras que encontramos consolo e paz.

Fritz falava de um outro tipo de inteligência, que nada tem a ver com o intelecto. A inteligência que ele reconhecia era uma inteligência criativa e emocional, ele reforçava que saúde emocional  tem a ver com desenvolver uma maneira de viver a vida com autonomia, autoresponsabilização, responsability, ou seja, habilidade de resposta adequada para cada novo conflito que se apresenta (na língua inglesa: responsibility  = response+ability).

O propósito do Gestalt-terapeuta é auxiliar o cliente a descobrir suas verdades por si só e frustrar todas as tentativas de racionalização e fuga. É comum que a pessoa chegue ao consultório com a história já ensaiada, racionalizada, tentando fazer sentido de todos os fatos. “A verdade só pode ser tolerada quando descoberta por conta própria”. O Gestalt-terapeuta deve agir como facilitador, nunca como mensageiro da “verdade”.

A Gestalt-terapia me ensina todos os dias que as respostas que buscamos encontram-se em um caminho tão mais acessível que quem sabe não ousamos percorrer pelo prazer que temos em complicar o que é simples. Mas, para aqueles que se arriscam, o convite é o mesmo feito por Rilke em seu livro “Cartas a um jovem poeta”: pare de procurar as respostas e comece a viver as perguntas.

Da coragem de partir

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“Portanto, nem todo contato é saudável, nem toda fuga é doentia. Uma das características do neurótico é não poder fazer bom contato, nem organizar sua fuga.”

Fritz Perls

Existe uma linha tênue entre a escolha de permanecer e a coragem de partir, muitas vezes é difícil mapear racionalmente os motivos que nos fazem ficar em uma relação que se mostra disfuncional ou tóxica. Dentro da abordagem da Gestalt-terapia, sempre que permanecemos em uma situação, mesmo reconhecendo que ela não é saudável é porque existe alguma necessidade sendo suprida em tal dinâmica. O que acontece em um estado de neurose ou quando estamos dessensibilizados é que muitas vezes não conseguimos reconhecer essa necessidade para supri-la da melhor forma. Entendemos de alguma maneira que temos que ir, mas não conseguimos entrar em contato com o que nos faz ficar e assim ficamos paralisados, imóveis, sem a capacidade de tomarmos escolhas mais saudáveis para nós mesmos.

Na tentativa de justificar a covardia que nos paralisa e corrói, nos contamos histórias e meias verdades que geralmente começam com uma promessa ilusória de que o amor tudo deve suportar, de que amor verdadeiro é incondicional. Assim, aceitamos as migalhas que nos são jogadas e o pouco, muito pouco, que se torna cada vez mais escasso. Enquanto vivemos do pouco que nos é dado, aniquilamos toda riqueza e toda grandeza que existe em sermos capazes de escolher para nós caminhos mais harmoniosos e saudáveis, de troca e crescimento; de assumirmos as verdades de nossas fraquezas e necessidades não ou mal supridas; de sermos responsáveis por buscar supri-las de maneiras mais autênticas e menos caóticas.

Como muitos relacionamentos estão fundados nos frangalhos que damos e recebemos, temos uma falsa impressão de que a escassez é normal. Para nós, mulheres, um agravante: somos criadas para tudo suportar, para sermos tolerantes, para nos adequar. A sociedade patriarcal faz questão de nos lembrar durante todas as fases de nosso crescimento da importância da adequação, de anulação, de ficarmos caladas – ou homem nenhum vai nos amar ou tolerar.

O que ninguém menciona é que nós também não gostamos de diversas coisas nos homens, mas ao contrário deles, somos o tempo todo convidadas a tolerá-las. E o custo é alto, nos adequamos, nos podamos, nos diminuímos para caber dentro de uma dinâmica de relacionamento que não contempla nem metade de nossa grandeza.  Na solidão das dores que brotam de um viver tentando se adequar – mas sempre sentindo-se inadequada – nossa alma clama por aceitação e liberdade.

Fritz Perls, um dos pensadores da Gestalt-terapia, falou sobre essa adequação e como a necessidade dela acaba com o ser humano autêntico, que é funcional para seu meio, segundo ele: “Quanto mais a sociedade exige que o indivíduo corresponda aos seus conceitos e ideias, menos eficientemente ele consegue funcionar”. Ou seja, a exigência de adequação aniquila a possibilidade de vivermos uma vida mais autêntica e gera neurose. Não é à toa que estamos vivendo tempos com o maior número de transtornos mentais e neuroses da história da humanidade.

Então, mais do que adequar-se, é preciso ter coragem para partir. Partir quando o pouco é quase nada, quando o outro não consegue enxergar a beleza que existe em nossa inadequação. Quanta essência existe em nossa indignação; quanta autenticidade vive em nossa frustração; quanta liberdade habita em um grito de basta!

É preciso coragem para partir antes que nos partam, para seguir quando o outro traz à tona apenas o pior de nós, quando a alma está cansada de adequar-se, de tudo suportar. Não, o amor verdadeiro não é incondicional nem tudo tolera. Ele é exigente, nos provoca, instiga e questiona para que a gente se sinta vulnerável, desconfortável e inadequado. E para que a gente sinta quanta vida brota da nossa inadequação. Amor também é feito de limites. E quando uma relação nos exige medir as palavras, auto-controle  e adequação é quando entendemos: é preciso ter coragem e saúde emocional para organizar nossa fuga e partir.

 

Da coragem de permanecer

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“Contato é todo tipo de relação viva que se dê na fronteira, na interação entre o organismo e o ambiente, é um processo contínuo de reciprocidade em que homem e mundo se transformam. O contato acontece no diferente, é o reconhecimento do outro, o lidar com o outro, o que eu sou, o diferente, o novo, o estranho. O contato acontece na fronteira eu-outro, conhecido-desconhecido, velho-novo, todo contato é dinâmico e criativo.”

Perls, Hefferline e Goodman, (no livro “Gestalt-terapia”, 1967)

Para Gestalt-terapia o contato é a maneira mais autêntica e criativa de transformação do homem. Os anos de estudo e vivência me ensinaram que contato tem muito mais a ver com permanência do que com brevidade. Também aprendi que permanecer em tempos de relacionamentos líquidos, é uma arte que nem todos dominam. Em tempos de quantidade e muitas escolhas, onde tudo se faz tão efêmero, permanecer pode ser a mais autêntica prova de celebração do encontro, de honrar o que é diferente, novo, e tudo aquilo que nos incomoda ou fascina no outro.

Aprender a permanecer tem sido para mim um grande aprendizado e um ato de coragem, é dar ao outro o benefício da dúvida mesmo sabendo que as dúvidas me desestabilizam, me tornam vulnerável, apesar de me engrandecerem. Duvidar nos transforma enquanto as certezas nos engessam. Paralisados, tentamos manter o controle e garantias de que não sofreremos grandes danos, esse controle por si só já é sofrimento. Então, quando você tiver apenas certezas, vá embora.

Permanecer é aprender sobre ser paciente e observar. Ficar enquanto as dúvidas assolam os corações medrosos. Sim, ficar dá medo. Mudanças dão medo. E se na dinâmica do encontro temos poucas certezas, a única garantia que temos é que entrar em contato com o outro significa mudança.

Mas, permanecer é também uma escolha que nos convida ao crescimento e nos aufere autonomia. É confiar na nossa capacidade de distinguir o que é saudável do que nos faz mal; que teremos a coragem de partir, se ou quando necessário; que teremos a capacidade de superar as possíveis dores e de sobreviver as consequências de nossas escolhas. É saber que ficar não é uma escolha permanente. E enfim entender que as cercas que criamos para nos proteger não mantêm os outros para fora, elas nos aprisionam dentro de nossa mesmice e pequenez.

É importante lembrar que permanecer não é uma desculpa para viver de pequenas doses ou metades, o ato de permanecer deve ser usado com prudência e amorosidade. Os gestaltistas alertam: o contato só se dá na fronteira. Ou seja, ele não é unilateral. É fundamental que exista reciprocidade, ainda que o desequilíbrio na troca seja saudável. Portanto, permanecer é suportar, mas não é suportar tudo desmedidamente.

E se essa matemática tão ilógica que nos faz escolher ficar ou partir ainda é um mistério, uma coisa é certa: permanecer é uma escolha pessoal e solitária. Devemos escolher sozinhos, da nossa maneira, com o que podemos, sem garantias nem certezas. Devemos escolher ficar ou partir pelo nosso próprio bem, e não pelo bem do outro. E entender que o outro também tem essa liberdade de escolha solitária. Portanto, é inútil tentar  dosar igualmente ou tornar lógica essa fórmula.

E mesmo que haja tantos riscos e incertezas, se queremos mudar  e evoluir eventualmente precisamos desenvolver coragem e paciência para ficar. Ficar e aprender a enxergar no outro uma escola, entender que os riscos não podem ser calculados, e mesmo assim valem a pena serem vividos. E se (ou quando) eu sofrer, é bom lembrar que o que me fez ficar vem do melhor de mim, daquilo que me torna mais autêntica e  portanto melhor para o outro e para o mundo.

Na liquidez que escorre entre os dedos e os medos daqueles que escolhem partir, a grandeza dos relacionamentos transborda nos corações de quem tem gana e coragem,   dos que fazem questão, que celebram os encontros e desencontros, que se colocam disponíveis, entram em contato e, apesar de tudo, por causa de tudo, permanecem.

Nossas memórias são traiçoeiras

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Certa vez li um estudo que diz que quando recordamos um fato do passado, na verdade recordamos a última lembrança que tivemos de tal ocorrido. Ou seja, com o passar do tempo, nossas memórias são construídas em cima de memórias e não do que de fato aconteceu. Além disso, nosso mecanismo de memorização é seletivo e excludente, e nós esquecemos muito mais do que memorizamos. E ainda, temos certa tendência em “editar” o passado, tornando-o melhor do que foi. Portanto, nossas memórias são traiçoeiras, elas não são acuradas, verdadeiras, elas são nada mais que nossa versão editada da real história.

Talvez esse seja um mecanismo de defesa ou sobrevivência que desenvolvemos em nossa evolução. Pois, dar sentido à nossa historia é um fator importante para sobrevivência. É compreensível que queiramos florear nossa própria história deixando-a mais bonita e significativa. Encontrar beleza e dar sentido às nossas feridas é talvez o maior ato de redenção e gratidão aos nossos antepassados, às suas dores, às nossas dores. Talvez seja por isso que lembramos do passado com tanto apreço, certo romantismo até, que insistimos em recordar das partes boas e melhorar as ruins.

Isso explica aquele relacionamento antigo que você insiste em lembrar como um ótimo relacionamento, tão perfeito, tão feliz, e atenta-se pouco aos detalhes, às brigas e incompatibilidades, ao término em si e os fatos que levaram à ele. Também explica essa nostalgia que permeia nossa infância, as recordações que geralmente temos de uma infância doce e feliz.

Da memória excluímos todas as vezes que ainda tão pequenos, sentimos medo, raiva, impotência, angústia, solidão. Esquecemos das vezes que vivenciamos episódios que sequer tínhamos repertório emocional para compreender. A nossa mente faz um trabalho de certa forma poético ao tentar nos proteger dessas (re)vivências traumáticas, aprimorando-as ou apagando-as.

Mas, independente de como nossa memória funciona, o que interessa na prática é que por mais “traiçoeira” que ela seja, por mais que nosso cérebro tente nos proteger de reviver grandes dores, nosso corpo como organismo completo que é, tem uma sabedoria imensurável, e ele registra tudo, e ele não esquece nada. Assim, muitas vezes desenvolvemos ansiedade, raiva, tristeza, depressão e tantas outras agonias emocionais que não sabemos nomear de eventos que não podemos recordar.

Além disso, para sobreviver, aos poucos nos adaptamos aos ambientes caóticos em que crescemos e criamos vícios de comportamento, padrões aprendidos e repetidos, crenças engessadas, histórias melhoradas (e portanto fantasiosas). Geralmente agimos inconscientemente, por amor aos nossos progenitores, para pertencer ao nosso núcleo familiar, seja qual for a razão, fato é que tudo isso nos gera uma alta dívida emocional. E essa dívida sempre nos é “cobrada”, é como se de alguma maneira nossa alma nos cobrasse essa dívida para que busquemos a verdade e reaprendamos a contar a nossa história mais verdadeira.

A boa notícia é que o passado, como diz o nome, passou e sempre temos a escolha de construir novos caminhos e possibilidades com os recursos que temos hoje. Portanto, não somos reféns do que foi. Por mais importante que seja revisitar nosso passado para entender de onde viemos, o que ajuda mesmo é entender como essas memórias perdidas e os traumas não solucionados no passado se manifestam em nosso dia-a-dia.

Entenda, a verdadeira possibilidade de mudança está apenas no presente. Portanto, aprender a deixar para trás o que foi (e não temos poder de mudar), compreender nossos medos e estarmos por inteiros em nossas escolhas é uma tarefa libertadora e curativa. É o antídoto infalível para qualquer sofrimento da alma. Pois, só o presente é verdadeiro e a verdade, muitas vezes pode ser dura, mas ela sempre nos é fiel.

E nossa alma só sossega quando encontra a verdade.

Ele não está tão a fim de você

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“Ensinam muitas coisas às garotas: se um cara lhe machuca, ele gosta de você. Nunca tente aparar a própria franja. E que um dia, você vai conhecer um cara incrível e ser feliz para sempre. Todo filme e toda história implora para esperarmos por isso: a reviravolta no terceiro ato, a declaração de amor inesperada, a exceção à regra. Mas às vezes focamos tanto em achar nosso final feliz que não aprendemos a ler os sinais, a diferenciar entre quem nos quer e quem não nos quer, entre os que vão ficar e os que vão te deixar. E talvez esse final feliz não inclua um cara incrível. Talvez seja você sozinha recolhendo os cacos e recomeçando, ficando livre para algo melhor no futuro. Talvez o final feliz seja só seguir em frente. Ou talvez o final feliz seja isso. Saber que mesmo com ligações sem retorno e corações partidos, com todos os erros estúpidos e sinais mal interpretados, com toda a vergonha e todo constrangimento, você nunca perdeu a esperança.”

Trecho do filme “Ele não está tão a fim de você”

“Ele não está tão a fim de você” é o nome de um filme que marcou não pelo filme em si, mas pela obviedade do título. Na época, a frase virou tema de muitas das minhas conversas de bar. Apesar de concordar que a máxima em muitos casos é verdadeira, também a acho um tanto simplista diante das possibilidades infinitas que se apresentam ao longo do caminho e da complexibilidade dos relacionamentos.

Com um olhar mais crítico, essa frase também me soa como um produto de uma sociedade que acredita em um tipo de amor idealizado, romântico, utópico. Um amor que é replicado incansavelmente na literatura, na arte, nos filmes. O amor do “felizes para sempre”, onde estamos sempre dispostos e prontos para amar; onde o relacionamento amoroso é a grande prioridade e alegria de nossas vidas, do qual temos a certeza do que queremos, não importando nossos traumas, medos, feridas do passado. Pois bem, eu não acredito nesse amor.

Os relacionamentos na “vida real” geralmente são muito mais conturbados, incertos, desconexos, descompassados, egoístas, imperfeitos.  Seria presunçoso e até ingênuo tentar mapeá-los ou formulá-los. Não existe manual ou fórmula para gostar de alguém, é preciso viver na pele, escolher, permanecer, construir, tentar, desistir, tentar de novo, dia após dia, com o melhor e o pior de nós. Fora isso, nem sempre temos clareza do que queremos ou sabemos reconhecer o que é melhor para nós; às vezes o medo de sofrer é maior do que a vontade de se apaixonar, enfim, as possibilidades são infinitas. Nesses casos o lema “ele não está tão a fim de você”, quando levado ao pé da letra, pode excluir muitos desencontros que poderiam, eventualmente, com um pouco mais de calma, tornar-se grandes encontros.

De certa forma entendo porque a tal frase ficou tão popular e serve tão bem em algumas situações. Se a pessoa não demonstra interesse, realmente não tem porque ficar. Fato. Com um pouco de bom senso e amor próprio, dá para aprender a ler os sinais, da para entender que um bom contato se dá sempre na fronteira, eu não posso fazer sozinha o caminho de dois. Muitas vezes manipulamos, contamos mentiras, fantasiamos, inventamos desculpas, evitamos enxergar os fatos como eles são, porque a verdade da rejeição pode ser inconveniente demais. Daí a frase é um convite para olhar para o que é real. Porque no final das contas, viver uma rejeição ainda é melhor do que viver uma mentira.

Por outro lado, quando estamos emocionalmente equilibrados, naturalmente o pouco não nos será funcional. E ainda, é preciso desenvolver um olhar mais gentil para nossos processos, acreditar que pouco ou muito, muitas vezes é a medida exata que estamos precisando. Assim, o que a gente precisa é adquirir confiança de que quando não estiver bom para nós, teremos a coragem necessária para partir. Com um olhar atento, percebemos que gostar não tem nada a ver com controle, nem é lógico, é uma escolha pessoal. E o que nos move a ela ainda permanece um grande mistério.

Mas, se tem uma coisa que aprendi, é que gostar é um sentimento que a gente aprende com o tempo, não acontece à primeira vista, o que acontece à primeira vista é uma projeção, uma ilusão. Gostar não é perder-se, é se encontrar. Portanto, gostar mesmo acontece de mansinho, não é fruto de esforço, nem de atos grandiosos ou mirabolantes. Nem sempre é uma escolha racional ou acontece na hora que a gente quer. De repente a gente se dá conta. De repente, aquela ausência nos faz falta e a presença nos faz bem.

Então, ele pode não estar tão a fim de mim. Ou sim. E tudo bem. Porque no fim do dia o que o outro sente ou faz é de responsabilidade dele, mas é importante conhecer meus limites e saber o que me é suficiente, porque o tanto que quero ou aceito, se fico ou parto, isso sim é responsabilidade minha.