Da coragem de partir

dca9f2a07f70fabfb017f72038272c08

“Portanto, nem todo contato é saudável, nem toda fuga é doentia. Uma das características do neurótico é não poder fazer bom contato, nem organizar sua fuga.”

Fritz Perls

Existe uma linha tênue entre a escolha de permanecer e a coragem de partir, muitas vezes é difícil mapear racionalmente os motivos que nos fazem ficar em uma relação que se mostra disfuncional ou tóxica. Dentro da abordagem da Gestalt-terapia, sempre que permanecemos em uma situação, mesmo reconhecendo que ela não é saudável é porque existe alguma necessidade sendo suprida em tal dinâmica. O que acontece em um estado de neurose ou quando estamos dessensibilizados é que muitas vezes não conseguimos reconhecer essa necessidade para supri-la da melhor forma. Entendemos de alguma maneira que temos que ir, mas não conseguimos entrar em contato com o que nos faz ficar e assim ficamos paralisados, imóveis, sem a capacidade de tomarmos escolhas mais saudáveis para nós mesmos.

Na tentativa de justificar a covardia que nos paralisa e corrói, nos contamos histórias e meias verdades que geralmente começam com uma promessa ilusória de que o amor tudo deve suportar, de que amor verdadeiro é incondicional. Assim, aceitamos as migalhas que nos são jogadas e o pouco, muito pouco, que se torna cada vez mais escasso. Enquanto vivemos do pouco que nos é dado, aniquilamos toda riqueza e toda grandeza que existe em sermos capazes de escolher para nós caminhos mais harmoniosos e saudáveis, de troca e crescimento; de assumirmos as verdades de nossas fraquezas e necessidades não ou mal supridas; de sermos responsáveis por buscar supri-las de maneiras mais autênticas e menos caóticas.

Como muitos relacionamentos estão fundados nos frangalhos que damos e recebemos, temos uma falsa impressão de que a escassez é normal. Para nós, mulheres, um agravante: somos criadas para tudo suportar, para sermos tolerantes, para nos adequar. A sociedade patriarcal faz questão de nos lembrar durante todas as fases de nosso crescimento da importância da adequação, de anulação, de ficarmos caladas – ou homem nenhum vai nos amar ou tolerar.

O que ninguém menciona é que nós também não gostamos de diversas coisas nos homens, mas ao contrário deles, somos o tempo todo convidadas a tolerá-las. E o custo é alto, nos adequamos, nos podamos, nos diminuímos para caber dentro de uma dinâmica de relacionamento que não contempla nem metade de nossa grandeza.  Na solidão das dores que brotam de um viver tentando se adequar – mas sempre sentindo-se inadequada – nossa alma clama por aceitação e liberdade.

Fritz Perls, um dos pensadores da Gestalt-terapia, falou sobre essa adequação e como a necessidade dela acaba com o ser humano autêntico, que é funcional para seu meio, segundo ele: “Quanto mais a sociedade exige que o indivíduo corresponda aos seus conceitos e ideias, menos eficientemente ele consegue funcionar”. Ou seja, a exigência de adequação aniquila a possibilidade de vivermos uma vida mais autêntica e gera neurose. Não é à toa que estamos vivendo tempos com o maior número de transtornos mentais e neuroses da história da humanidade.

Então, mais do que adequar-se, é preciso ter coragem para partir. Partir quando o pouco é quase nada, quando o outro não consegue enxergar a beleza que existe em nossa inadequação. Quanta essência existe em nossa indignação; quanta autenticidade vive em nossa frustração; quanta liberdade habita em um grito de basta!

É preciso coragem para partir antes que nos partam, para seguir quando o outro traz à tona apenas o pior de nós, quando a alma está cansada de adequar-se, de tudo suportar. Não, o amor verdadeiro não é incondicional nem tudo tolera. Ele é exigente, nos provoca, instiga e questiona para que a gente se sinta vulnerável, desconfortável e inadequado. E para que a gente sinta quanta vida brota da nossa inadequação. Amor também é feito de limites. E quando uma relação nos exige medir as palavras, auto-controle  e adequação é quando entendemos: é preciso ter coragem e saúde emocional para organizar nossa fuga e partir.

 

Da coragem de permanecer

452a6a5330bd7ef5fe7bbb258dfb4044

“Contato é todo tipo de relação viva que se dê na fronteira, na interação entre o organismo e o ambiente, é um processo contínuo de reciprocidade em que homem e mundo se transformam. O contato acontece no diferente, é o reconhecimento do outro, o lidar com o outro, o que eu sou, o diferente, o novo, o estranho. O contato acontece na fronteira eu-outro, conhecido-desconhecido, velho-novo, todo contato é dinâmico e criativo.”

Perls, Hefferline e Goodman, (no livro “Gestalt-terapia”, 1967)

Para Gestalt-terapia o contato é a maneira mais autêntica e criativa de transformação do homem. Os anos de estudo e vivência me ensinaram que contato tem muito mais a ver com permanência do que com brevidade. Também aprendi que permanecer em tempos de relacionamentos líquidos, é uma arte que nem todos dominam. Em tempos de quantidade e muitas escolhas, onde tudo se faz tão efêmero, permanecer pode ser a mais autêntica prova de celebração do encontro, de honrar o que é diferente, novo, e tudo aquilo que nos incomoda ou fascina no outro.

Permanecer tem sido para mim um grande aprendizado e um ato de coragem, é dar ao outro o benefício da dúvida mesmo sabendo que as dúvidas me desestabilizam, me tornam vulnerável, apesar de me engrandecerem. Duvidar nos transforma enquanto as certezas nos engessam. Paralisados, tentamos manter o controle e garantias de que não sofreremos grandes danos, esse controle por si só já é sofrimento. Então, quando você tiver apenas certezas, vá embora.

Permanecer é aprender sobre ser paciente e observar. Ficar enquanto as dúvidas assolam os corações medrosos. Sim, ficar dá medo. Mudanças dão medo. E se na dinâmica do encontro temos poucas certezas, a única garantia que temos é que entrar em contato com o outro significa mudança.

Mas, permanecer é também uma escolha que nos convida ao crescimento e nos concede autonomia. É confiar na nossa capacidade de distinguir o que é saudável do que nos faz mal; que teremos a coragem de partir, se ou quando necessário; que teremos a capacidade de superar as possíveis dores e de sobreviver as consequências de nossas escolhas. É saber que ficar não é uma escolha permanente. E enfim entender que as cercas que construímos para nos proteger não mantêm os outros fora, elas nos aprisionam dentro de nossa mesmice e pequenez.

É importante lembrar que permanecer não é uma desculpa para viver de pequenas doses ou metades, o ato de permanecer deve ser usado com prudência. Os gestaltistas alertam: o contato só se dá na fronteira. Ou seja, ele não é unilateral. É fundamental que exista reciprocidade, ainda que o desequilíbrio na troca seja saudável. Portanto, permanecer é suportar, mas não é suportar tudo desmedidamente.

E se essa matemática tão ilógica que nos faz escolher ficar ou partir ainda é um mistério, uma coisa é certa: permanecer é uma escolha pessoal e solitária. Devemos escolher sozinhos, da nossa maneira, com o que podemos, sem garantias nem certezas. Devemos escolher ficar ou partir pelo nosso próprio bem, e não pelo bem do outro. E entender que o outro também tem essa liberdade de escolha. Portanto, é inútil tentar  dosar igualmente ou tornar lógica essa fórmula.

E mesmo que haja tantos riscos e incertezas, se queremos mudar  e evoluir eventualmente precisamos ter coragem e paciência para ficar. Ficar e aprender a enxergar no outro uma escola, entender que os riscos não podem ser calculados, e mesmo assim valem a pena serem vividos.

Na liquidez que escorre entre os dedos e os medos daqueles que escolhem partir, a grandeza dos relacionamentos transborda nos corações de quem tem gana e coragem,  dos que fazem questão, que celebram os encontros e desencontros, que se colocam disponíveis e, apesar de tudo, por causa de tudo, permanecem.

Nossas memórias são traiçoeiras

tumblr_lphq473qnu1qa2txho1_500_large

Certa vez li um estudo que diz que quando recordamos um fato do passado, na verdade recordamos a última lembrança que tivemos de tal ocorrido. Ou seja, com o passar do tempo, nossas memórias são construídas em cima de memórias e não do que de fato aconteceu. Além disso, nosso mecanismo de memorização é seletivo e excludente, e nós esquecemos muito mais do que memorizamos. E ainda, temos certa tendência em “editar” o passado, tornando-o melhor do que foi. Portanto, nossas memórias são traiçoeiras, elas não são acuradas, verdadeiras, elas são nada mais que nossa versão editada da real história.

Talvez esse seja um mecanismo de defesa ou sobrevivência que desenvolvemos em nossa evolução. Pois, dar sentido à nossa historia é um fator importante para sobrevivência. É compreensível que queiramos florear nossa própria história deixando-a mais bonita e significativa. Encontrar beleza e dar sentido às nossas feridas é talvez o maior ato de redenção e gratidão aos nossos antepassados, às suas dores, às nossas dores. Talvez seja por isso que lembramos do passado com tanto apreço, certo romantismo até, que insistimos em recordar das partes boas e melhorar as ruins.

Isso explica aquele relacionamento antigo que você insiste em lembrar como um ótimo relacionamento, tão perfeito, tão feliz, e atenta-se pouco aos detalhes, às brigas e incompatibilidades, ao término em si e os fatos que levaram à ele. Também explica essa nostalgia que permeia nossa infância, as recordações que geralmente temos de uma infância doce e feliz.

Da memória excluímos todas as vezes que ainda tão pequenos, sentimos medo, raiva, impotência, angústia, solidão. Esquecemos das vezes que vivenciamos episódios que sequer tínhamos repertório emocional para compreender. A nossa mente faz um trabalho de certa forma poético ao tentar nos proteger dessas (re)vivências traumáticas, aprimorando-as ou apagando-as.

Mas, independente de como nossa memória funciona, o que interessa na prática é que por mais “traiçoeira” que ela seja, por mais que nosso cérebro tente nos proteger de reviver grandes dores, nosso corpo como organismo completo que é, tem uma sabedoria imensurável, e ele registra tudo, e ele não esquece nada. Assim, muitas vezes desenvolvemos ansiedade, raiva, tristeza, depressão e tantas outras agonias emocionais que não sabemos nomear de eventos que não podemos recordar.

Além disso, para sobreviver, aos poucos nos adaptamos aos ambientes caóticos em que crescemos e criamos vícios de comportamento, padrões aprendidos e repetidos, crenças engessadas, histórias melhoradas (e portanto fantasiosas). Geralmente agimos inconscientemente, por amor aos nossos progenitores, para pertencer ao nosso núcleo familiar, seja qual for a razão, fato é que tudo isso nos gera uma alta dívida emocional. E essa dívida sempre nos é “cobrada”, é como se de alguma maneira nossa alma nos cobrasse essa dívida para que busquemos a verdade e reaprendamos a contar a nossa história mais verdadeira.

A boa notícia é que o passado, como diz o nome, passou e sempre temos a escolha de construir novos caminhos e possibilidades com os recursos que temos hoje. Portanto, não somos reféns do que foi. Por mais importante que seja revisitar nosso passado para entender de onde viemos, o que ajuda mesmo é entender como essas memórias perdidas e os traumas não solucionados no passado se manifestam em nosso dia-a-dia.

Entenda, a verdadeira possibilidade de mudança está apenas no presente. Portanto, aprender a deixar para trás o que foi (e não temos poder de mudar), compreender nossos medos e estarmos por inteiros em nossas escolhas é uma tarefa libertadora e curativa. É o antídoto infalível para qualquer sofrimento da alma. Pois, só o presente é verdadeiro e a verdade, muitas vezes pode ser dura, mas ela sempre nos é fiel.

E nossa alma só sossega quando encontra a verdade.

Ele não está tão a fim de você

coracao

“Ensinam muitas coisas às garotas: se um cara lhe machuca, ele gosta de você. Nunca tente aparar a própria franja. E que um dia, você vai conhecer um cara incrível e ser feliz para sempre. Todo filme e toda história implora para esperarmos por isso: a reviravolta no terceiro ato, a declaração de amor inesperada, a exceção à regra. Mas às vezes focamos tanto em achar nosso final feliz que não aprendemos a ler os sinais, a diferenciar entre quem nos quer e quem não nos quer, entre os que vão ficar e os que vão te deixar. E talvez esse final feliz não inclua um cara incrível. Talvez seja você sozinha recolhendo os cacos e recomeçando, ficando livre para algo melhor no futuro. Talvez o final feliz seja só seguir em frente. Ou talvez o final feliz seja isso. Saber que mesmo com ligações sem retorno e corações partidos, com todos os erros estúpidos e sinais mal interpretados, com toda a vergonha e todo constrangimento, você nunca perdeu a esperança.”

Trecho do filme “Ele não está tão a fim de você”

“Ele não está tão a fim de você” é o nome de um filme que marcou não pelo filme em si, mas pela obviedade do título. Na época, a frase virou tema de muitas das minhas conversas de bar. Apesar de concordar que a máxima em muitos casos é verdadeira, também a acho um tanto simplista diante das possibilidades infinitas que se apresentam ao longo do caminho e da complexibilidade dos relacionamentos.

Com um olhar mais crítico, essa frase também me soa como um produto de uma sociedade que acredita em um tipo de amor idealizado, romântico, utópico. Um amor que é replicado incansavelmente na literatura, na arte, nos filmes. O amor do “felizes para sempre”, onde estamos sempre dispostos e prontos para amar; onde o relacionamento amoroso é a grande prioridade e alegria de nossas vidas, do qual temos a certeza do que queremos, não importando nossos traumas, medos, feridas do passado. Pois bem, eu não acredito nesse amor.

Os relacionamentos na “vida real” geralmente são muito mais conturbados, incertos, desconexos, descompassados, egoístas, imperfeitos.  Seria presunçoso e até ingênuo tentar mapeá-los ou formulá-los. Não existe manual ou fórmula para gostar de alguém, é preciso viver na pele, escolher, permanecer, construir, tentar, desistir, tentar de novo, dia após dia, com o melhor e o pior de nós. Fora isso, nem sempre temos clareza do que queremos ou sabemos reconhecer o que é melhor para nós; às vezes o medo de sofrer é maior do que a vontade de se apaixonar, enfim, as possibilidades são infinitas. Nesses casos o lema “ele não está tão a fim de você”, quando levado ao pé da letra, pode excluir muitos desencontros que poderiam, eventualmente, com um pouco mais de calma, tornar-se grandes encontros.

De certa forma entendo porque a tal frase ficou tão popular e serve tão bem em algumas situações. Se a pessoa não demonstra interesse, realmente não tem porque ficar. Fato. Com um pouco de bom senso e amor próprio, dá para aprender a ler os sinais, da para entender que um bom contato se dá sempre na fronteira, eu não posso fazer sozinha o caminho de dois. Muitas vezes manipulamos, contamos mentiras, fantasiamos, inventamos desculpas, evitamos enxergar os fatos como eles são, porque a verdade da rejeição pode ser inconveniente demais. Daí a frase é um convite para olhar para o que é real. Porque no final das contas, viver uma rejeição ainda é melhor do que viver uma mentira.

Por outro lado, quando estamos emocionalmente equilibrados, naturalmente o pouco não nos será funcional. E ainda, é preciso desenvolver um olhar mais gentil para nossos processos, acreditar que pouco ou muito, muitas vezes é a medida exata que estamos precisando. Assim, o que a gente precisa é adquirir confiança de que quando não estiver bom para nós, teremos a coragem necessária para partir. Com um olhar atento, percebemos que gostar não tem nada a ver com controle, nem é lógico, é uma escolha pessoal. E o que nos move a ela ainda permanece um grande mistério.

Mas, se tem uma coisa que aprendi, é que gostar é um sentimento que a gente aprende com o tempo, não acontece à primeira vista, o que acontece à primeira vista é uma projeção, uma ilusão. Gostar não é perder-se, é se encontrar. Portanto, gostar mesmo acontece de mansinho, não é fruto de esforço, nem de atos grandiosos ou mirabolantes. Nem sempre é uma escolha racional ou acontece na hora que a gente quer. De repente a gente se dá conta. De repente, aquela ausência nos faz falta e a presença nos faz bem.

Então, ele pode não estar tão a fim de mim. Ou sim. E tudo bem. Porque no fim do dia o que o outro sente ou faz é de responsabilidade dele, mas é importante conhecer meus limites e saber o que me é suficiente, porque o tanto que quero ou aceito, se fico ou parto, isso sim é responsabilidade minha.

Não apresse o rio

O livro “Não apresse o rio (ele corre sozinho)” de Barry Stevens é um relato a respeito do uso que a autora faz da Gestalt-terapia e dos caminhos do Zen, Krishnamurti e índios americanos para aprofundar e expandir a experiência pessoal e o trabalho através das dificuldades. ‘Temos que nos colocar de cabeça para baixo e inverter a nossa maneira de abordar a vida.’

Aqui alguns trechos:

“Às vezes quando tudo sai errado, acontecem coisas maravilhosas e eu aproveito coisas que teria perdido se tudo tivesse dado certo. Se não, sempre posso dormir”.

“Não são as correntes que atam os corpos dos homens, mas as correntes que atam as mentes dos homens”.

“Em seu livro Freedom from the know, Krishnamurti conta um fato que se passou quando viajava de carro pela Índia, com mais dois homens e um motorista. Os dois homens estavam discutindo sobre tomada de consciência e fazendo perguntas a Krishnamurti. O chofer não notou uma cabra e atropelou-a. Os dois homens não notaram. “E com a maioria de nós se dá o mesmo. Não tomamos consciência das coisas de fora e das coisas de dentro”.

“Saí do futuro onde não posso fazer nada exceto em fantasia, e entrei no presente, onde tudo acontece”.

“Total naturalidade, e sem erros. Isto é perfeição. “Buscar a perfeição” não faz sentido para mim”.

“Nan-in, um mestre japonês, recebeu um professor de universidade que veio indagar a respeito do Zen. Nan-in serviu chá. Encheu a xícara do visitante, e continuou derramando. O professor observou a enchente até que não pode mais se conter. “Ela já está cheia. Não cabe mais nada!” “Como esta xícara”, disse Nan-in, “você está cheio – de opiniões e especulações. Como posso lhe mostrar o Zen a menos que você antes esvazie a sua xícara?”

“Nos dizem que cometer erros é “ruim”. Mas isto é parte da aprendizagem – cometer erros e notá-los. Então – se não os combatermos – eles se corrigem. Como é que um bebê aprende a andar?”

“O estilo de vida se mostra no corpo. É claro. De que outra forma poderia ser? Eu sou meu corpo, meu corpo é eu. De que outra forma posso me expressar? Se eu fico encolhida e não digo nada, estou me expressando. Quando torço os meus dedos dos pés, estou me expressando. Quando enrijeço os ombros, estou me expressando. Quando “não ouço”, estou me expressando. Quando entro num padrão habitual, estou me expressando como artefato, uma espécie de estátua que se move e respira de forma artificial. Eu fiz a mim”.

“É preciso viver sozinho. É só então que a gente realmente chega perto de outra pessoa”.

“A vida não se movimenta conforme dizemos ou escrevemos – nem conforme pensamos que deveria se movimentar – nem conforme tentamos fazer que se movimente”.

Trechos do livro: “Não apresse o rio (ele corre sozinho)” de Barry Stevens

Perca a razão, recupere os sentidos

arya-large_trans++eo_i_u9APj8RuoebjoAHt0k9u7HhRJvuo-ZLenGRumA

“A vida não é violino e rosas” essa frase constantemente repetida no curso de formação em Gestalt-terapia martela em minha cabeça e decido usá-la como uma espécie de mantra para lembrar que nem tudo que existe é belo ou justo, que nem tudo faz sentido. Justiça é um conceito inventado, criado, produzido e reproduzido pelo homem e para aquilo que não conseguimos explicar, um Deus. Mas, para aqueles que já viveram o suficiente e sofreram, para todas as perdas e todos os ganhos sabemos: a vida não é justa.

Game of Thrones me fascina, pois traz muito dos conceitos da Gestalt-terapia. A verdade é mostrada sem piedade, como ela é. Cada episódio nos lembra da máxima gestáltica citada acima: a vida não é violino e rosas. A justiça é cega, é falha, é unilateral, é relativa, é humana, é desumana. Ninguém é  mocinho nem vilão.

Game of Thrones é a verdade jogada na cara, sem rodeios ou floreios, nos lembrando que a verdade sempre é amoral, antiética, visceral. A cada episódio erramos ao tentar fazer sentido do que não faz sentido, aguardando fechamentos que talvez nunca venham a surgir, pois não são eles que importam, o que importa é a jornada. 

E nossa tragédia em vida real não é diferente da que vivem os personagens da série: reféns da própria racionalidade, tentamos em vão buscar um sentido para tudo que vivemos ou fechar um ciclo que não tem fim.

O que importa é a jornada.

No cerne de tudo que não faz sentido existe nosso cérebro dando “loops” infinitos, incansavelmente tentando fazer conexões dos acontecimentos, dar sentido aos fatos, querendo completar o que falta. Sim, biologicamente ele é programado para isso. É preciso um esforço para deixar de lado a razão. Perca a razão.

A vida não é violino e rosas.

A falta faz parte da jornada e não tem Deus que nos console, não há amor, dinheiro, sucesso que preencha esse vazio existencial que é parte essencial do que somos. O encantamento da série vem justamente daí, ela repete na ficção a tragédia da vida real: uma jornada torta, bruta, esse vazio dilacerante dos ciclos que não fecham, do sentido que não encontramos, de tudo aquilo que não conseguimos nomear, que sentimos e não conseguimos validar, necessidades não atendidas ou mal atendidas, os jogos de ego, em vão buscamos refúgio na razão. A vida não nos devolve com razão ou sentido, ela é apenas feita de escolhas que levam a escolhas que levam a escolhas que levam a escolhas. E na falta do sentido transborda o melhor de nós: nossas sensações e sentimentos. Recupere os sentidos.

O título do sétimo episódio da sexta temporada, “O homem quebrado”, nos convida a lembrar exatamente do que somos, quebrados. Nas escolhas feitas por Arya que a deixam ferida, na força do ódio que mantém Santor Clegane vivo, no castigo divino que não vem, na justiça que falha. “Não busque justiça, busque vingança” é o conselho que a irmã de Theon Greyjoy lhe dá.  Não busque justiça, não busque a razão; busque vingança, busque sentir. A vida existe para ser sentida, não para fazer sentido. 

A vida não é violino e rosas e o sentido dela é algo tão pessoal que não deve ser compartilhado muito menos julgado. Mas, para aqueles que o buscam um sentido, para aqueles que querem senti-la, um conselho: é preciso estar disposto a desconstruir crenças e mitos romantizados  e entender que as coisas são apenas como elas são, nem tudo faz sentido, nem sempre há razão. O que importa é a jornada. Finalizando esse texto, repito as palavras de Fritz Perls, o grande intuitivo da Gestalt-terapia: “perca a razão, recupere os sentidos”.

Era uma vez…

era uma vez joao

Os contos de fadas, as lendas, fábulas e outras formas de narrativas populares possuem um papel importante na formação, fortalecimento e empoderamento do nosso senso crítico. Apesar de fictícios, muitas vezes as narrativas populares atuam em nossa mente racional através de projeções e espelhamentos. Elas trazem ainda, questionamentos que todos nós compartilhamos como dúvidas, angústias, dificuldades e desejos de felicidade.

Nos contos encontramos personagens imperfeitos que trazem à tona situações e conflitos que vivenciamos na realidade. Podemos encontrá-los através de uma mãe ou madrasta que odeia ou inveja sua filha ou enteada, a morte através da perda dos provedores e entes queridos, o sentimento de vulnerabilidade e solidão e ainda o encontro com aqueles que nos aconselham e auxiliam a cumprir nossas missões.

Nas histórias, ao contrário da realidade, existe uma separação nítida entre o bem e mal, essas forças são polarizadas, e isso também nos ajuda a afinar o olhar e aprender a diferenciar pessoas e atitudes saudáveis e que nos fazem bem, das que nos fazem mal. Durante a fantasia então, podemos descobrir novas possibilidades de desfechos para situações que vivenciamos na realidade e recriá-los em nossas vidas.

Dentro da visão da Gestalt-terapia, podemos dizer que as histórias espelham projeções e situações por nós idealizadas e assim podem nos ajudar a viver um “awareness”, o momento do “dar-se conta” dos fatos como eles são. Muitas vezes não percebemos que a maioria das vezes usamos narrativas na vida real que são feitas com tempos verbais que excluem o tempo presente. Porém, a Gestalt-terapia nos convida à viver no “aqui agora”, à lidar apenas com aquilo que “damos conta” no momento, pois não é construtivo imaginar situações futuras com os recursos que temos no presente.

Dessa forma, qualquer fala que não inclua o “aqui agora” é uma fala que não nos ajuda a sair dos nossos padrões de comportamentos e ciclos viciosos. Vivemos de fantasia quando utilizamos tempos verbais como o futuro do pretérito (gostaria, desejaria) ou situações hipotéticas como “e se” ou “quando”.  Pois, quem gostaria, não gosta. Quando eu for feliz, eu não sou feliz. Se eu fizer isso, eu ainda não fiz. Assim, nenhuma dessas falas nos conduz à ação, elas são falas fantasiosas que apenas nos mantém paralisados, imaginando, idealizando, revivendo situações e possibilidades irreais.

Para a Gestalt tudo “é o que é”, e é importante que façamos um exercício de aceitar as coisas e as pessoas como elas são, sem fantasias ou idealizações. Além disso, os contos trazem fortalecimento de alma, pois atuam espelhando situações e desfechos que muitas vezes não temos coragem de buscar para nós mesmos e assim podemos ver como, seguindo um passo de cada vez em uma jordana, o herói ouve o chamado, ouve conselhos, cumpre tarefas e é bem sucedido naquilo que se propõe a fazer. Quando trazemos para a nossa realidade as possibilidades levantadas durante a fantasia, temos a oportunidade de fazer diferente, de não repetir e de viver de forma mais saudável e criativa.

Fora isso, os heróis trazem questionamentos e dúvidas que nós também temos, e apesar disso, seguem adiante para cumprir suas missões. O livre-arbítrio está presente na vida do herói, ele tem escolhas, ele faz escolhas e sofre consequências por suas escolhas. O herói sabe que é responsável pelo seu próprio destino. Na vida real isso também é válido, mas muitas vezes nos esquecemos.

Mais ainda, o final feliz de uma história, representado pelo “felizes para sempre”, espelha um desejo que todos nós compartilhamos: encontrar paz e harmonia. Essa é uma busca real instintiva de todo e qualquer ser. E dentro da abordagem gestáltica o final feliz pode também representar nossa ânsia por fechamentos de Gestalts que não foram fechadas e, portanto, nos causam dor, inquietação, ansiedade e descontentamento. A alma só encontra paz através da verdade, por isso muitas vezes passamos uma vida toda, sem nos darmos conta, buscando a verdade e fechamentos mais felizes para nossas histórias infelizes.

As histórias também atuam em nossa ânsia por justiça e, se na vida real nem sempre conseguimos dar fechamentos que consideramos justos para nossos conflitos, nas histórias, vilão e mocinho são personagens que desempenham papéis de fácil distinção, a justiça é frequente e o bem prevalece diante do mal. Mas, ao contrário da ficção, a vida não é violino e rosas, justiça na vida real é algo muito mais complexo, além de ser um conceito criado pelo homem, muitas vezes embasado em fortes valores morais e culturais, que mudam conforme as gerações.

Portanto, a justiça é um fechamento tão relativo e individual, que muitas vezes não agrada ao coletivo. Mesmo assim, o senso de justiça é algo muito latente em nós seres racionais e, se na vida real nem sempre podemos ter o final justo que desejamos, através da ficção, as histórias podem sim trazer justiça e apaziguamento para nossos corações.

E finalmente, é importante lembrar que as fantasias e projeções podem ser de grande ajuda no nosso caminho quando conseguimos transitar livremente entre a fantasia e a realidade. E, se tivermos sabedoria, podemos viver a vida real no presente e deixar para imaginar e idealizar um paralelo na fantasia. Pois, na vida real, não é o “felizes para sempre” que importa, mas sim o feliz no aqui e no agora.