Para o jogo da vida: raça

Há muito tempo quando eu frequentava os jogos do Atlético Paranaense, ainda na Baixadinha, lembro que sempre no começo do jogo ou quando o jogo não ia bem, a torcida gritava para os jogadores “RAÇA”. Eu que sempre enxerguei a vida com poesia achava aquilo muito emocionante. Era o momento que mais gostava no jogo. E o grito alto e compassado da torcida até hoje ecoa dentro de mim: RAÇA.

Às vezes me pego olhando para pessoas em momentos de dificuldade ou quando estão indecisas ou quando querem desistir e tenho vontade de gritar como gritava nos jogos: RAÇA! Às vezes me olho no espelho e penso: RAÇA. O mundo anda meio mal e o que sinto é que a vida nos pede raça. Porque não tem quem passe ileso por ela sem dificuldades, problemas, problemas de gente grande, daqueles que fazem você duvidar da sua capacidade e achar que não vai dar conta. Muitas vezes eu acho que não darei conta. E o que aprendi é que para dar conta é preciso saber que não estamos sozinhos, e é preciso agir, por nós e pelos outros, precisamos “arregaçar as mangas” e fazer.

E aprendi também que para ter raça é preciso ter certezas. Certeza de que você arregaçou as mangas e fez o que podia, certeza das tuas escolhas, certeza que você estava presente no momento por inteiro e que deu o seu melhor. Mesmo que “seu melhor” às vezes pareça muito pouco.

A indecisão surge quando não estamos presentes por inteiro em nossas escolhas, quando elas são tomadas por outros ou pela vida, quando somos reativos.  Quem é indeciso vive sempre pela metade, dividido entre o que foi e o que poderia ter sido. Ter raça é fazer escolhas e estar disposto a assumir as consequências. Porque a felicidade não espera pelos indecisos, ela só chega para quem tem raça. E para ser feliz é preciso coragem. Ter raça nos exige completude. Para sermos inteiros precisamos olhar para a dor do outro com mais cuidado, porque nós não somos completos sem o outro.

Por isso que quando penso em ter raça, penso também em empatia. A empatia é saber que somos compreendidos, que não estamos sós. Empatia é alguém gritando para nós: raça. Empatia é mais que amor, é validar a dor do outro e estar ali presente por inteiro para ele e entender que nem sempre a vida tem a ver com os nossos dramas.

É fundamental validar a dor do outro para sentir empatia. O mundo hoje pede ação e a ação só vem quando entendemos que fazemos parte de algo maior e somos empáticos perante as injustiças e dores que nos saltam aos olhos. O mundo pede empatia e ao mesmo tempo raça. Raça gera ação. E precisamos agir, precisamos nos envolver. “Se envolver” é algo que tem pouco a ver com palavras e virtualidades e muito a ver com presença e ação.

Em momentos difíceis é que me lembro da torcida gritando: raça. Quando as dores do mundo forem tão grandiosas que nos fazem sentir impotentes: raça. Quando a dor do outro lhe sangrar o coração: raça. Quando você sentir que não dará conta: raça. Para os indecisos: raça. Quando passa o furacão: raça. Para que todo o mal e toda dor não nos paralisem: raça. Para o jogo da vida: RAÇA.

Porque a vida é mesmo um jogo e assim como o futebol é um jogo jogado em equipe; um jogo que nos pede muita raça e o bom de ter raça é que ela não é solitária, a raça vem da certeza; e vem principalmente da plena certeza de que juntos sempre iremos mais longe.

Adendo:

Aprendi muito sobre empatia e comecei a olhar com mais atenção para esse sentimento quando assisti à esse vídeo

Invictus

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“Todos nós morreremos um dia. Não podemos escolher como ou quando, mas podemos decidir como vamos viver. Então faça, decida, escolha. É esta a vida que você quer viver? É esta a pessoa que quer amar? É este o melhor que consegue ser? Você pode ser mais forte? Mais gentil? Mais compassivo? Decida. Inspire. Respire. E decida.” Meredith Grey

Nunca antes na história tivemos tanta opção e liberdade para escolher. Em um universo de inúmeras possibilidades e oportunidades escolher muitas vezes é complexo, e é comum que sejamos inundados e até paralisados pelas dúvidas. Acredito que isso acontece porque racionalizamos demais nossas escolhas. Talvez então a razão nem sempre seja a melhor ferramenta na hora de escolher.

O peso de nossas escolhas e nossa maneira de escolher muda muito conforme vamos amadurecendo. As crianças dominam a arte de escolher com o coração. Quando crescemos passamos a racionalizar toda e qualquer escolha, a pesar as consequências, a ter muitas dúvidas, a sentir culpa e remorso. Claro, não é uma boa ideia escolher sempre tão impulsivamente como uma criança, a maturidade é de fato um acervo valioso, mas é preciso  sim aprender a equilibrar melhor essa balança.

A palavra coragem vem do latim “coraticum”, que literalmente significa “a ação do coração”. Muitas vezes coragem é aprender a escutar nossos desejos mais profundos, aquilo que nos faz bem mesmo que não tenha lógica alguma, ter coragem é aprender a escolher com o coração. Geralmente as escolhas mais autênticas são aquelas feitas pelo coração.

Todos os dias fazemos pequenas ou grandes escolhas que aos poucos vão escrevendo nossa história “a vida é ligar os pontos, mas só conseguimos ligá-los olhando para trás” disse Steve Jobs. Nesse processo, precisamos acreditar em nossos instintos, desenvolver segurança e confiança de que sabemos o que é bom para nós e escolher. Precisamos também conhecer nossas prioridades, segurança, amor, reconhecimento, dinheiro. Escolha a sua.

Para a psicologia, a chave para escolhas saudáveis está em ampliar nosso mapa mental. Temos que incluir nele um leque maior de possibilidades, para que exista mais flexibilidade na hora de decidir. Quanto mais “estreito” o mapa mental de uma pessoa, menos possibilidades caberão nas suas escolhas e mais limitadas elas serão.

Outro fato comum é acharmos que porque algo nos aconteceu no passado como consequência de uma escolha, todas as vezes que escolhermos parecido sofreremos as mesmas consequências. Tudo isso parece fácil de resolver na teoria, o problema é que temos amarras em nossos mapas mentais que nem sempre são conscientes. O esforço vem em desconstruir crenças engessadas e aumentar o campo de visão. Para fazer escolhas mais completas e saudáveis é preciso ampliar o mapa mental e aprender a analisar os fatos como eles se apresentam, com os recursos que existem no momento da escolha.

Conta a história que Thomas Edison falhou inúmeras vezes antes de inventar a lâmpada elétrica, quando questionado como se sentia por ter errado tantas vezes, ele respondeu “Eu não falhei, apenas encontrei 10 mil maneiras de como não se fazer uma lâmpada”. Por mais parecida que seja, nehuma escolha é exatamente a mesma, nenhum erro ou aprendizado são iguais. Cada situação, pessoa, cada escolha é única.

E na hora de escolher temos que levar em conta que não existem escolhas que tragam apenas boas consequências, tampouco existe uma escolha ideal ou perfeita. Aliás, o perfeccionismo pode ser muito prejudicial na hora de escolher. Escolher, na maioria das vezes nada mais é do que um ato de coragem, do que um grande jogo de sorte ou azar.

Escolher é abrir uma porta e  fechar muitas outras, é ganhar oportunidades e perder tantas outras, é arriscar e apostar as fichas em algo que pode ser muito bom, ou não. Mas, de qualquer forma só existe uma maneira de saber. A sabedoria na hora de escolher vem ao lembrarmos que nada na vida é estático, permanente, e que podemos sim mudar de ideia, a qualquer momento; tomar novos caminhos, escolher diferente, melhor, pior. Arriscar. Errar. Acertar. 

Liberdade para mim tem muito a ver com a proatividade ao escolher, pois se você não escolher, alguém fará suas escolhas por você. Quem não escolhe, é escolhido. Assim, caminhará pela vida passivamente, e me parece um desperdício de energia vital deixar que nosso destino seja traçado pelos outros. O poema “Invictus” termina com um trecho que levo como mantra e que me convida a fazer minhas próprias escolhas: “Eu sou o senhor do meu destino, eu sou o comandante da minha alma”.

Sejamos todos senhores e senhoras de nossos destinos e comandantes de nossas almas.

Decida. Inspire. Respire. Escolha.

One Art

 

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The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant  to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother’s watch. And look! my last, or next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.
—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Elizabeth Bishop

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Uma arte 

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las,
que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente da viagem não feita.
Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas.
E um império que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreva!) muito sério.

Elizabeth Bishop

Da coragem de permanecer

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“Contato é todo tipo de relação viva que se dê na fronteira, na interação entre o organismo e o ambiente, é um processo contínuo de reciprocidade em que homem e mundo se transformam. O contato acontece no diferente, é o reconhecimento do outro, o lidar com o outro, o que eu sou, o diferente, o novo, o estranho. O contato acontece na fronteira eu-outro, conhecido-desconhecido, velho-novo, todo contato é dinâmico e criativo.”

Perls, Hefferline e Goodman, (no livro “Gestalt-terapia”, 1967)

Para Gestalt-terapia o contato é a maneira mais autêntica e criativa de transformação do homem. Os anos de estudo e vivência me ensinaram que contato tem muito mais a ver com permanência do que com brevidade. Também aprendi que permanecer em tempos de relacionamentos líquidos, é uma arte que nem todos dominam. Em tempos de quantidade e muitas escolhas, onde tudo se faz tão efêmero, permanecer pode ser a mais autêntica prova de celebração do encontro, de honrar o que é diferente, novo, e tudo aquilo que nos incomoda ou fascina no outro.

Permanecer tem sido para mim um grande aprendizado e um ato de coragem, é dar ao outro o benefício da dúvida mesmo sabendo que as dúvidas me desestabilizam, me tornam vulnerável, apesar de me engrandecerem. Duvidar nos transforma enquanto as certezas nos engessam. Paralisados, tentamos manter o controle e garantias de que não sofreremos grandes danos, esse controle por si só já é sofrimento. Então, quando você tiver apenas certezas, vá embora.

Permanecer é aprender sobre ser paciente e observar. Ficar enquanto as dúvidas assolam os corações medrosos. Sim, ficar dá medo. Mudanças dão medo. E se na dinâmica do encontro temos poucas certezas, a única garantia que temos é que entrar em contato com o outro significa mudança.

Mas, permanecer é também uma escolha que nos convida ao crescimento e nos concede autonomia. É confiar na nossa capacidade de distinguir o que é saudável do que nos faz mal; que teremos a coragem de partir, se ou quando necessário; que teremos a capacidade de superar as possíveis dores e de sobreviver as consequências de nossas escolhas. É saber que ficar não é uma escolha permanente. E enfim entender que as cercas que construímos para nos proteger não mantêm os outros fora, elas nos aprisionam dentro de nossa mesmice e pequenez.

É importante lembrar que permanecer não é uma desculpa para viver de pequenas doses ou metades, o ato de permanecer deve ser usado com prudência. Os gestaltistas alertam: o contato só se dá na fronteira. Ou seja, ele não é unilateral. É fundamental que exista reciprocidade, ainda que o desequilíbrio na troca seja saudável. Portanto, permanecer é suportar, mas não é suportar tudo desmedidamente.

E se essa matemática tão ilógica que nos faz escolher ficar ou partir ainda é um mistério, uma coisa é certa: permanecer é uma escolha pessoal e solitária. Devemos escolher sozinhos, da nossa maneira, com o que podemos, sem garantias nem certezas. Devemos escolher ficar ou partir pelo nosso próprio bem, e não pelo bem do outro. E entender que o outro também tem essa liberdade de escolha. Portanto, é inútil tentar  dosar igualmente ou tornar lógica essa fórmula.

E mesmo que haja tantos riscos e incertezas, se queremos mudar  e evoluir eventualmente precisamos ter coragem e paciência para ficar. Ficar e aprender a enxergar no outro uma escola, entender que os riscos não podem ser calculados, e mesmo assim valem a pena serem vividos.

Na liquidez que escorre entre os dedos e os medos daqueles que escolhem partir, a grandeza dos relacionamentos transborda nos corações de quem tem gana e coragem,  dos que fazem questão, que celebram os encontros e desencontros, que se colocam disponíveis e, apesar de tudo, por causa de tudo, permanecem.

É preciso despedida 

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“Quando dizemos coisas como “as pessoas não mudam”, deixamos os cientistas loucos, porque a mudança é literalmente a única constante da ciência. Energia. Matéria. Estão sempre mudando, transformando-se, fundindo-se, crescendo, morrendo. O modo como as pessoas tentam não mudar que não é natural. Como queremos que as coisas voltem, em vez de as aceitarmos. Como nos prendemos a velhas memórias, em vez de criar novas. O modo como insistimos em acreditar, apesar de todas as provas contrárias, de que algo nessa vida é permanente. A mudança é constante. Como experimentamos a mudança é que depende de nós.”

Despedidas são parte essencial da vida, despedir-se é validar as experiências vividas em algum lugar ou com o outro, um bom contato é aquele que permite que a experiência seja vivida em seu ciclo completo, começo, meio e fim. Portanto, o fim faz parte de um contato saudável.

Despedidas nos transformam porque nos dão possibilidades de começar de novo, um novo ciclo, com novos aprendizados, diferente. Mudar, viver o que é diferente não deveria ser assustador para ninguém; desejar estar para sempre no mesmo lugar com as mesmas pessoas, sim.

Há despedidas que parecem tardias, mas há aquelas que são precoces e por mais duras que pareçam, nos fazem viver polaridades importantes da vida: a alegria e a tristeza, o encontro e as saudades, o eterno e o efêmero, a presença e a ausência. Viver é despedir-se constante e eternamente daquilo que um dia foi e que já não pode mais ser. Daquilo que um dia fui, e já não posso mais ser. E as despedidas nos lembram que o sentido da vida está nas conexões que fazemos, nas pessoas que conhecemos, nos caminhos que percorremos; e se eu não puder viver a ausência de tudo isso, nunca viverei o que foi presença por completo.

Além disso, é na ausência, no fechamento de ciclos, nas despedidas, nos recomeços que está contido o que nos faz humanos, que nos torna vulneráveis: coragem, lágrimas, saudades, gratidão e o reconhecimento de que a vida é feita de pequenos recortes felizes; de que o maior presente que podemos dar à alguém é a nossa presença, é estarmos inteiro e disponíveis naquele momento. Dar adeus é despedir-se de alguém com a certeza de que ninguém deve ser insubstituível, ou de que seremos lembrados com carinho,  que aquele encontro não ficou “em branco”, e nossa falta será sentida tanto quanto nossa presença.

Então é preciso despedir-se do que ficou velho e mudar. Porque sempre há chance de fazer diferente, melhor, pior, errar mais, acertar mais, aprender mais, fazer escolhas mais saudáveis, experimentar, tentar, perder, ganhar e viver um pouco mais.

É preciso mudar, porque na mesmice não existe crescimento, porque ter disponibilidade emocional para viver o acaso e a impermanência da vida é algo extremamente engrandecedor. Mudar para conhecer lugares e pessoas diferentes, percorrer novas estradas, para entender que o que vivemos no passado é importante para nós; para entender que o que vivemos no passado não foi tão importante assim. É preciso mudar, para ressignificar nossas memórias mais tristes, para construir novas memórias.

É preciso mudar, porque a única constante na vida é a mudança.

A insustentável leveza de ser

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“Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza? O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. O que escolher, então? O peso ou a leveza?” Milan Kundera

A complexidade do viver e dos conceitos morais não é assunto novo nem pouco abordado, foram temas muito explorados por existencialistas como Schopenhauer e Nietzsche. O escritor Milan Kundera inicia um de seus mais famosos romances citando o conceito do eterno retorno de Nietzsche. Kundera é genial porque conseguiu traduzir em suas palavras a dualidade que propõe, “A insustentável leveza do ser” é um romance complexo e denso, ao mesmo tempo que tem leveza.

O livro nos apresenta quatro personagens, todos perdidos diante da contradição entre valores que alguns consideram anacrônicos, de cujos pesos, querem ver-se livres, e os valores que criam para si mesmos a fim de darem sustentação aos seus seres. Pois uma vida que se pretende mais leve pode ser tão opressora à existência quanto uma em que são incontáveis os fardos. Kundera é gênio e sábio, ele sabe que grandes experiências, de fato, tornam a vida mais pesada.

Life is messy.

A verdade é que a vida real é bagunçada, complicada, densa. Existe de um lado tudo que é considerado moral e que nossa mente tenta racionalmente entender e processar; e do outro lado existem os sentimentos, as incontroláveis emoções que fazem a gente perder o ar e a vida valer a pena, ao mesmo tempo que complicam tudo aquilo que nossa mente racional tenta (em vão) manter organizado, limpo, descomplicado, leve.

Na vida, a realidade é bem diferente do ideal, daquilo que planejamos, que sonhamos, que desejamos, porque nós somos complicados. Então, com o passar dos anos, os problemas vão ficando mais densos, as raízes mais profundas. O fundo do poço torna-se cada mais mais fundo. E o buraco é sempre mais embaixo. E por mais que tentamos viver a vida com leveza, tem certas coisas que merecem seu devido peso e importância.

Life is limited.

A vida é limitada. Nós somos limitados. Nossa história nos limita, nossa condição nos limita, nossos sentimentos nos limitam. Nossas escolhas nos limitam. Somos o que somos. É o que é. E com certeza somos responsáveis pelas nossas escolhas, mas a vida não é (e não deve ser) tão “preto no branco” como teimamos em acreditar. Porque o “preto no branco” é muito leve, não dá espaço para o peso que tem o colorido.

Life is heavy.

A vida não é violino e rosas. Viver é pesado. A vida é complicada, bagunçada, complexa nas mais inconcebíveis proporções. Dinâmica. Tudo acontece ao mesmo tempo. As pessoas têm processos e momentos diferentes, não chegam prontas e nós nunca estamos prontos, porque somos seres inacabados, imperfeitos. E carregamos bagagens grandes, com cargas pesadas. Pois, assim como escreveu Kundera, não existe leveza onde há profundidade de alma, de sentimentos, de experiências. Somos todos complicados, complicando tudo, travando nossas próprias batalhas, sonhando com oportunidades melhores enquanto o peso de nossas escolhas nos afunda ainda mais na areia movediça.

O que nos resta é saber o que queremos absorver de tudo isso e o que vai ficar de fora. Podemos aprender a traçar linhas, criar barreiras, delimitar fronteiras. Mas, é preciso ter em mente que se queremos experiências significativas precisamos cruzar essas linhas, derrubar barreiras, construir pontes no lugar de muros. Resta saber qual é o limite do emaranhado. Qual é a força de cada nó. Quando devemos desatá-lo e quando devemos apertá-lo. Quando devemos criar laços no lugar de nós. Nós. Encontros são feitos de nós. E encontros são pontos de chegada ou são pontos de partida. Resta saber o que escolher então, o peso ou a leveza?

“Tudo na vida tem a ver com as linhas que delimitamos. Não é aconselhável criar muita intimidade com os outros. Fazer amigos, fazer amantes. Precisamos de fronteiras, entre nós e o resto do mundo, porque os outros são muito complicados. E tudo tem a ver com as linhas. Limites. Fronteiras. Barreiras. Podemos passar a vida desenhando essas linhas e torcendo para que ninguém as cruze ou, em alguns momentos, podemos escolher cruzá-las. É preciso decidir. Mas, saiba que muitas vezes as fronteiras não deixam os outros para fora, elas nos engaiolam dentro. A vida é complicada. Nós somos complicados. É assim que somos feitos. Cheios de desejos, sentimentos e emoções. Então podemos escolher passar toda uma vida delimitando fronteiras, desenhando linhas, ou, podemos escolher viver a vida cruzando essas fronteiras, apagando linhas. Mesmo sabendo que algumas dessas fronteiras são muito perigosas para serem cruzadas. Mas isso é o que eu sei: se vez ou outra você optar por jogar no vento toda essa cautela e dar uma chance ao complicado, a vista do outro lado pode ser espetacular.”

Adaptado de Grey’s Anatomy S. 01 E. 02 – The first cut is the deepest

Melhor do que ser bonzinho, é ser verdadeiro

“Não podemos cuidar adequadamente dos outros sendo incapazes de fazer isso por nós mesmos; não podemos estar atentos às necessidades dos outros sem escutar e compreender as nossas; não podemos ter respeito e complacência pelo outro em sua diversidade, e até em suas contradições, sem conseguir fazer o mesmo por nós. Volto a repetir: no caminho rumo ao outro não podemos dispensar o caminho rumo ao nosso próprio eu.”

Thomas D’Ansembourg 

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Com o novo ano que se aproxima, chega também aquele momento de fazer um balanço geral do ano, revisar aprendizados e desafios vividos e, inevitavelmente, pensar em resoluções e mudanças para o futuro. Já dizia Einstein: “Insanidade é continuar sempre fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Se há algo para melhorar (e sempre há), esse é um bom tempo para traçar caminhos novos, repaginar comportamentos, remodelar antigas crenças, aprender a olhar o mundo de outros ângulos e, ainda, desapegar de tudo aquilo que precisa ficar para trás.

E nesse processo de crescimento e mudanças, é possível criar um olhar diferente sobre o que é cuidar. Thomas D´Ansembourg, um estudioso das relações interpessoais, escreveu: “Se eu cuido do outro negligenciando a mim mesmo, eu cultivo a negligência e não o cuidado”. E a impressão que dá é essa mesmo, que sabemos cuidar do outro, enquanto desaprendemos a cuidar de nós mesmos. Sim, estamos praticando muito mais a negligencia do que o cuidado. Pudera, vivemos na era do altruísmo, nunca ouviu-se, leu-se, prezou-se tanto o cuidado para com o outro. Na era do marketing e da promoção pessoal, ninguém nos parabeniza por cuidar bem de nós mesmos. Dessa forma, cuidar do outro parece tão mais fácil, engrandecedor e reconhecido pelos outros do que praticar o auto-cuidado.

Enquanto somos crianças, temos pais e mães nos orientando o tempo todo sobre o que devemos fazer, com quem andar, aonde ir. E nos acostumamos com isso. Mas, em algum período nessa transição entre ser criança e virar “gente grande”, proclamamos nossa independência. Adquirimos o direito de ir e vir, de ter autonomia sobre nossas escolhas e fazer o que bem entendermos, esse tal livre-arbítrio que tanto escutamos falar, mas que nem sempre temos sabedoria para usar. Os pais um dia, para os que têm sorte, viram conselheiros, mas todos nós, adultos, deveríamos praticar o autocuidado e exercer o papel de pais e mães de nós mesmos. Sim, deveríamos, mas nem sempre é o que fazemos.

A liberdade sobre nossas escolhas não significa exatamente que devemos fazer tudo que queremos, significa que podemos escolher o que nos serve e deixar o que não nos faz bem. Não se trata mais de certo e errado,  mas sim de escolhas mais emocionalmente e fisicamente saudáveis para nós e para os outros. Mas, na correria dos dias, nós esquecemos de cuidar de nós mesmos e é comum colocarmos o desejo do outro diante do que desejamos, é fácil esquecer que temos direito de negar ajuda ou de aprender a dar apenas o que podemos dar. Vivemos ocupados da vida alheia, porque a vida é mesmo assim, sempre tem e terá alguém que precisa de nós e, pode ser difícil admitir, mas isso de certa forma também nos preenche.

Vivendo no modo “piloto automático”, com a forte necessidade de pertencimento, de sermos amados, de não desagradar aqueles ao nosso redor, muitas vezes nem nos damos conta dos vários sapos que engolimos, de quão custoso é fazer o papel do bom, de quanta carga extra vamos adicionando à nossa bagagem, e de quantos “sim” dizemos, quando no fundo queríamos dizer “não”. Evitamos o desconforto social e os conflitos e perdemos batalhas importantes, sem nem sequer lutarmos. É assim, nessa correria e cheios de afazeres que os dias passam voando, que nem vemos mais um ano passar e que vamos cada vez mais nos tornando negligentes ao olhar de D´Ansembourg,  mas bons diante do olhar dos outros.

Além disso, existe ainda um olhar distorcido sobre achar que ser bom é cuidar do outro que nós nem sempre conseguimos perceber: todas as vezes que eu faço alguma coisa com o intuito de proteger, absorver o impacto da queda ou poupar alguém de algo que considero doloroso para ele, estou dizendo: você não tem força para dar conta disso, eu não acredito que você é capaz de viver as consequências de suas próprias escolhas.

Brené Brown, uma pesquisadora americana, também sugeriu um novo olhar sobre o autocuidado, ela diz: “prefira o desconforto no lugar do ressentimento”. Prefira o desconforto ao arrependimento. Aprenda a dizer não para o que não te faz bem, para quem não te faz bem, para  evitar os tantos “tenho que´s” que vamos incorporando em nossa rotina, para tudo aquilo que dizemos “sim” apenas para não desagradar ao olhar do outro. Aprenda a ser a mãe que não te deixava andar em más companhias, o pai que te proibia de chegar tarde em casa, lembre-se de levar o casaco para se proteger do frio e saiba dizer não para tudo que não te faz bem, mesmo que isso cause desconforto entre os demais. Porque, na maioria das vezes, dizer não para o outro, é dizer sim para si mesmo. E por fim, é importante desenvolver sabedoria para praticar o autocuidado, pois a linha entre o egocentrismo e o autocuidado pode ser tênue.

E, que nesse novo ano, aproveitemos todos os dias para criar novos sentidos, para aprender a dizer não para o outro e sim para nós mesmos, para escolher o desconforto no lugar do ressentimento, para saber identificar e expressar o que sentimos, para deixar de sermos bonzinhos, e nos tornarmos algo muito mais valioso para nós e para os outros: verdadeiros.

Sem título

Em tempo, uma boa citação sobre o que é “cuidar”:

“Cuidar, é ajudar o outro a viver o que ele tem de viver. Não é impedi-lo disso, nem tentar poupá-lo a um sofrimento que está no seu caminho, minimizando-o (Não é assim tão mau, não penses nisso, vem distrair-te) ou carregando com o seu peso (A culpa é minha, não devia ter feito isso, vou fazer isto ou aquilo por ele), é sim ajudá-lo a enfrentar a sua dificuldade, a mergulhar no seu sofrimento, para dele se poder libertar, com a consciência de que esse caminho só ao outro pertence e que ninguém o poderá percorrer no seu lugar. Cuidar é dar toda a nossa atenção à faculdade, existente no outro, de curar o seu próprio sofrimento ou de resolver a sua própria dificuldade, bem mais do que lhe levar uma cura. É confiar que o outro dispõe de todos os recursos necessários para resolver a situação se for capaz de se escutar ou de ser escutado no sítio certo.”

(Em Seja Verdadeiro, de Thomas d’Ansembourg, ed. Ésquilo, p.161)

 

Tatiana na janela

Em 2010 quando o dono do apartamento que eu alugava colocou-o a venda, resolvi voltar para casa do meu pai temporariamente. Mas, o que era para ser temporário se transformou em um período de cinco anos. Nesse tempo meus irmãos já moravam em outras cidades, meu pai se mudou para morar com minha madrasta. Todas as coisas que meus irmãos e meu pai não usavam, porém não queriam se desfazer estavam naquele apartamento. Era muita coisa sem utilidade ou uso e tinha muita coisa minha. Aos poucos comecei a limpar e arrumar a desordem da casa.

Dizem que para você saber se a vida de uma pessoa está “nos eixos” você deve olhar para seu guarda-roupa. E eu diria que o inverso também pode valer, ou seja, se você quiser colocar sua vida “nos eixos”, comece por arrumar seu guarda-roupa. Foi por lá que comecei. Aos poucos virei quase uma profissional de “fazer limpas”. O mais difícil disso é que não é simplesmente pegar tudo e jogar fora, é preciso cautela para olhar coisa por coisa e dar uma destinação correta para cada uma.

Passei muitos meses me desfazendo de tudo e organizando a casa. Gaveta por gaveta, prateleira por prateleira, todas as pastas, os livros, os papéis, aliás muitos papéis. Aproveitei também para limpar meu carro, as bolsas e os bolsos. Estendi para minha vida virtual: álbum de fotos, folders, caixas de e-mail, contas em desuso. Cada canto da minha vida recebeu uma boa limpeza. Nesse período foi bom olhar para o coração, nele também é possível de se acumular mágoas, dores e muita carga extra que também precisam encontrar uma destinação correta.

Somos uma geração de acumuladores. Acho que nunca na história da humanidade o homem acumulou tanto. Nós acumulamos tudo. E não paramos de acumular nunca. E quando prestei mais atenção nisso pude entender como estamos vivendo em um mundo com tanta desordem. 

O meu processo se intensificou quando finalmente mudei para meu apartamento. Mudança de casa é algo que dá trabalho, porém renovador. Quando fiz a mudança me certifiquei de deixar algumas gavetas vazias na casa nova, porque era um pouco assim que me sentia, porque eu quero deixar espaço para o novo entrar.

Me mudei com o coração vazio, pois foi logo que meu pai faleceu e minha mãe foi morar com minha irmã em Manaus. Por ser uma  longa viagem, ela levou quase nada. E eu, que havia acabado de organizar a minha bagunça, me vi novamente cercada de coisas. E não era pouca coisa ou coisas sem importância. Era toda a vida material da minha mãe. Tudo que ela acumulou estava em minhas mãos. Meu pai sempre me dizia para que eu doasse duas peças de roupa para cada uma que comprasse. Ele era um cara extremamente econômico e organizado. Ainda assim, a gente acumula coisas. E agora que ele se foi, minha mãe se foi, restou tudo que eles acumularam em minhas mãos.

O problema do que acumulamos não são as bugigangas em si, essas são até fácil de dar destinação, o complexo nos acúmulos são as lembranças que ficam impressas em cada objeto, isso faz com que algumas coisas tenham valor difícil de mensurar. É mesmo um processo dolorido esse de fazer limpas, é como se eu estivesse a desempoeirar o passado, a reviver cada memória, toda nossa história. E no caso das coisas deles, quanta história que ficou impressa e que eu sozinha não saberei contar.

É fácil doar os utensílios domésticos e as roupas de cama, mas é difícil encaixotar algumas coisas, como os antigos álbuns de fotos. Consegui dar destinação para muitas miudezas, mas ainda não sei o que fazer com os dentes de leite que meu pai guardou em um potinho de filme etiquetado com o nome de cada filho. Rasguei muitos papéis, mas me detive ao encontrar por entre as coisas dele a passagem da minha primeira viagem internacional em vôo solo.

E por ser algo assim tão minucioso, levei quase dois meses só para esvaziar o apartamento da minha mãe (e ainda não consegui organizar as coisas do meu pai). Hoje finalmente consegui tirar as últimas caixas de lá. Meu coração ficou pequeno e não contive as lágrimas diante daquele apartamento vazio, mas que guarda tanta memória.

No ano em que nasci, meu pai comprou em minha homenagem um quadro chamado “Tatiana na janela”. Sempre gostei muito dele. O nome do quadro é bem literal: uma menina de costas olhando pela janela. Cresci olhando para ele e imaginando o que a menina Tatiana estava contemplando daquela janela. Quando meus pais se separaram o quadro ficou para minha mãe. Hoje ele virou meu. E agora pendurei-o na parede do meu quarto que é para acordar todos os dias e contemplar o mundo através da janela de Tatiana; e lembrar sempre que, apesar da pintura me agradar muito, a vida é mesmo feita de momentos e memórias e que as melhores coisas da vida, de fato, não são coisas.

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ReLOVution

REVOLUTION-CAPA

“Pessoalmente, desejo que o século XXI seja chamado de “século do amor”, porque necessitamos desesperadamente de amor, o tipo de amor que não produz sofrimento. Se não tivermos suficiente bondade e compaixão, não seremos capazes de sobreviver enquanto planeta. Há um Buda que supostamente nascerá para nós chamado Maitreya ou Bondade Amorosa, o Buda do Amor. Cada um de nós é uma célula no corpo do Buda do Amor.”

Thich Nhat Hanh no livro Eu Busco Refúgio na Sangha – um caminho espiritual

O século XXI segundo o monge budista Thich Nhat Hanh será marcado pela busca espiritual. Segundo ele, o século XX que foi marcado pelo individualismo, violência, confusão e medo, e nós temos uma grande missão para esse novo século: trazer consciência e atenção para nossas escolhas e atos, fazer com o coração. E é no coração que mora o remédio para salvar o mundo que está em um sentimento bem simples, mas que engloba uma complexidade enorme em si, o amor.

Se quisermos mesmo viver em um mundo melhor precisamos também com urgência, ressignificar o amor. O amor ou afeto, como dizem os psicólogos, é um dos sentimentos primordiais do ser humano, é instintivo, assim como todos os outros seres do planeta, nascemos programados para amar, isso está em nosso DNA. Mas o amor de hoje não é o mesmo que Jesus pregava, que o budismo se refere, o amor de Eros na mitologia Grega. Esse amor (juntamente com muitas outras palavras) é erroneamente confundido com outros sentimentos, e tornou-se tudo, menos amor.

O amor é um sentimento inerente ao ser humano, um bebê já nasce instintivamente amando e buscando a face da mãe, e sem nunca antes tê-la visto, ele já sabe reconhecê-la. Darwin quando escreveu a “Descendência do Homem” mencionou duas vezes a sobrevivência do melhor e 95 vezes a palavra amor. Mas Darwin, assim como muitos outros, foi mal interpretado, ou melhor, interpretado para ser utilizado como instrumento de domínio. A religião também fez esse papel, a essência da palavra pregada por Jesus ou Maomé é de amor puro e cooperação, não é de punição, nem pecado, nem sofrimento, nem guerra.

Os contos, livros e filmes fizeram seu papel construindo o mito do amor romântico e, ao mesmo tempo que isso é belo e “feliz para sempre” na ficção, na vida real é um tanto utópico. A maneira como as sociedades foram se organizando e criando uma gama de polarizações ao longo dos séculos acabaram por condicionar o amor. Hoje em dia fatores como crenças, religião, cor da pele, traços culturais, opção sexual, posicionamento político, aparência física e dinheiro são condições para amar e ser amado.

E assim, por buscarmos algo tão utópico e condicionado, amar hoje pode gerar muito sofrimento criando pessoas angustiadas, ansiosas, inseguras, deprimidas, que se sentem rejeitadas. O sentimento de posse que permeia os relacionamentos “românticos” é uma espécie de “cereja do bolo” na receita de um relacionamento fadado a ruir. O século mudou, o estilo de vida mudou, o mundo está em profunda “ebulição”, as sociedades estão se reorganizando com uma rapidez absurda, as distâncias encurtaram, está mais do que na hora de inventarmos também uma nova maneira de amar.

Para trazer mudança nesse padrão, inicialmente precisamos reaprender a amar nossas crianças. Ensiná-las a amar. Uma criança que cresce sentindo-se rejeitada, sem amor e acolhimento, torna-se um adulto inseguro e dessensibilizado. Uma criança que cresce sem referências de amor autêntico, tem dificuldades para amar e muito medo, aprende logo cedo que amar é sofrer e recria esse padrão constantemente em sua vida e acredita que amor exige de sua parte muito esforço. Mas o amor mesmo vem de graça, sem grandes esforços e sem sofrimento, ele apenas é.

Também precisamos amar a nós mesmos, é um clichê que poucos realmente seguem, sim amar a si próprio, aprender a perdoar-se, a ser menos crítico e mais gentil com nossas imperfeições e a aprender a amá-las também. Depois que nós nos amamos tudo fica mais leve, também o amor pelo outro fica mais leve. Quando entendemos que todos nós somos passíveis de sermos amados e merecedores de receber amor de graça pelo (muito) que somos, todos os relacionamentos se tornam mais leves. Antes de amar o outro, é preciso que também nos tornemos pessoas mais fáceis de serem amadas.

Nesse contexto atual, drenamos do amor o seu elemento primordial e que o torna tão especial: a liberdade. A liberdade de apenas ser, a liberdade de escolher, a liberdade de fluxo e movimento, a liberdade de viver livre de sofrimentos e apegos. Sim, o amor é a lei maior, o remédio para todos os nossos males e só ele pode salvar o mundo, mas antes que o amor possa revolucionar o mundo, precisamos ainda revolucionar o amor.

Você é o que você viaja

Para a ciência há três tipos de memória: a ultra-rápida, que dura mais que alguns segundos, a de curto prazo, que nos proporciona o sentido do presente e a de longo prazo, que estabelece engramas – traços duradouros. Segundo os cientistas, se não houvesse esta forma de armazenamento mental de representações do passado, não teríamos uma solução para tirar proveito da experiência.

É por meio das memórias que vivenciamos, experimentamos e aprendemos. Elas formam a base do enorme quebra-cabeças que é nossa trajetória pessoal. Tudo que vivenciamos ao longo de nossa existência nos faz aprender, crescer, mudar, evoluir. Enfim, é nossa bagagem de vida que define quem somos.

Crescemos escutando frases do tipo: “diga-me com quem andas e te direi quem és” ou “você é o que come ou o que veste”. Eu completaria dizendo: você é aquilo que você lembra, suas memórias, os engramas estabelecidos. E iria mais longe: você é o que você viaja. Os lugares por onde passou, culturas que conheceu, comidas que experimentou, imãs de geladeira, cartões-postais, ruas e ruelas, museus, estradas, aeroportos, fotos, histórias – tudo que trouxe em sua bagagem.

Hoje, revirando caixas e fotos antigas na casa de meus avós, parei longamente nas fotos de viagens de meus avós e meu tio. Antigos passaportes e carimbos de todos os lugares em que estiveram. Não contive as lágrimas e me pus a refletir: nós somos mesmo o que viajamos!

Do meu tio e padrinho, sei muito pouco. Quando faleceu, eu tinha apenas cinco anos. Sei que ele era especial, querido por todos e que se foi muito jovem. Mas o que eu mais conheço dele vem dos lugares por onde andou. Entre tantas praias, gostava de ir para Ilha do Mel e Farol de Santa Marta. Fez uma desbravadora viagem pela Europa e Ásia. Passou meses na Índia e caminhou pelo Nepal. Tinha uma mania curiosa: mandava postais para ele mesmo para, acredito, ter o prazer de viver a viagem de novo quando retornasse.

Minha avó, recentemente falecida, era uma pessoa muito lúcida, lembrava bem os fatos de sua vida e contava com alegria detalhes de cada viagem que fez. Países da Europa que visitou, as diversas vezes que esteve na Argentina, a subida – de burrinho – da ladeira em Santorini. Apaixonada por viagens, ela tinha uma coleção de imãs de geladeira. Todos da família contribuíam com a coleção, trazendo imãs de suas viagens. Virou tradição na família. Família, aliás, formada por amantes desse ato tão enriquecedor que é viajar. Somos bons e velhos viajantes do mundo.

E até hoje, quando visito meu avô, uma de minhas diversões preferidas é resguardar uns minutos para olhar os imãs e imaginar todos aqueles mundos tão distantes e diferentes. A antiga geladeira branca abriga imãs do mundo todo; lugares exóticos, comuns e inusitados. Imãs de todas as cores, tamanhos, formatos e sabores trazem um pouco da história de cada lugar. São tantos que mal cabem na velha geladeira. Volta e meia minha avó os remanejava, colocava novos, guardava antigos, depois voltava a colocá-los numa dança contínua e infinita de mundos distantes. Era sua diversão trocá-los de lugar, descobrir a harmonia perfeita entre eles. A minha, até hoje, admirá-los.

Viagens fazem parte das poucas memórias que conseguimos carregar conosco para sempre. Vencem a barreira do tempo, da lucidez e da idade. Vencem também as barreiras da vida, pois são memórias que nos fazem ser lembrados pelos que ficam e pelos que ainda estão por vir. São os links mais fortes com nosso passado e o que nos mantém vivos mesmo quando partimos para nossa mais longa e misteriosa viagem. As viagens são os nossos mais valiosos trunfos de momentos bem vividos. As melhores fotos que tiramos de nossa vida, aquelas que guardamos eternamente e que constituem nosso mais valioso presente para o mundo: a nossa memória.

*Texto escrito em nov/2010