Perca a razão, recupere os sentidos

arya-large_trans++eo_i_u9APj8RuoebjoAHt0k9u7HhRJvuo-ZLenGRumA

“A vida não é violino e rosas” essa frase constantemente repetida no curso de formação em Gestalt-terapia martela em minha cabeça e decido usá-la como uma espécie de mantra para lembrar que nem tudo que existe é belo ou justo, que nem tudo faz sentido. Justiça é um conceito inventado, criado, produzido e reproduzido pelo homem e para aquilo que não conseguimos explicar, um Deus. Mas, para aqueles que já viveram o suficiente e sofreram, para todas as perdas e todos os ganhos sabemos: a vida não é justa.

Game of Thrones me fascina, pois traz muito dos conceitos da Gestalt-terapia. A verdade é mostrada sem piedade, como ela é. Cada episódio nos lembra da máxima gestáltica citada acima: a vida não é violino e rosas. A justiça é cega, é falha, é unilateral, é relativa, é humana, é desumana. Ninguém é  mocinho nem vilão.

Game of Thrones é a verdade jogada na cara, sem rodeios ou floreios, nos lembrando que a verdade sempre é amoral, antiética, visceral. A cada episódio erramos ao tentar fazer sentido do que não faz sentido, aguardando fechamentos que talvez nunca venham a surgir, pois não são eles que importam, o que importa é a jornada. 

E nossa tragédia em vida real não é diferente da que vivem os personagens da série: reféns da própria racionalidade, tentamos em vão buscar um sentido para tudo que vivemos ou fechar um ciclo que não tem fim.

O que importa é a jornada.

No cerne de tudo que não faz sentido existe nosso cérebro dando “loops” infinitos, incansavelmente tentando fazer conexões dos acontecimentos, dar sentido aos fatos, querendo completar o que falta. Sim, biologicamente ele é programado para isso. É preciso um esforço para deixar de lado a razão. Perca a razão.

A vida não é violino e rosas.

A falta faz parte da jornada e não tem Deus que nos console, não há amor, dinheiro, sucesso que preencha esse vazio existencial que é parte essencial do que somos. O encantamento da série vem justamente daí, ela repete na ficção a tragédia da vida real: uma jornada torta, bruta, esse vazio dilacerante dos ciclos que não fecham, do sentido que não encontramos, de tudo aquilo que não conseguimos nomear, que sentimos e não conseguimos validar, necessidades não atendidas ou mal atendidas, os jogos de ego, em vão buscamos refúgio na razão. A vida não nos devolve com razão ou sentido, ela é apenas feita de escolhas que levam a escolhas que levam a escolhas que levam a escolhas. E na falta do sentido transborda o melhor de nós: nossas sensações e sentimentos. Recupere os sentidos.

O título do sétimo episódio da sexta temporada, “O homem quebrado”, nos convida a lembrar exatamente do que somos, quebrados. Nas escolhas feitas por Arya que a deixam ferida, na força do ódio que mantém Santor Clegane vivo, no castigo divino que não vem, na justiça que falha. “Não busque justiça, busque vingança” é o conselho que a irmã de Theon Greyjoy lhe dá.  Não busque justiça, não busque a razão; busque vingança, busque sentir. A vida existe para ser sentida, não para fazer sentido. 

A vida não é violino e rosas e o sentido dela é algo tão pessoal que não deve ser compartilhado muito menos julgado. Mas, para aqueles que o buscam um sentido, para aqueles que querem senti-la, um conselho: é preciso estar disposto a desconstruir crenças e mitos romantizados  e entender que as coisas são apenas como elas são, nem tudo faz sentido, nem sempre há razão. O que importa é a jornada. Finalizando esse texto, repito as palavras de Fritz Perls, o grande intuitivo da Gestalt-terapia: “perca a razão, recupere os sentidos”.

A insustentável leveza de ser

post-kundera-header

“Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza? O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. O que escolher, então? O peso ou a leveza?” Milan Kundera

A complexidade do viver e dos conceitos morais não é assunto novo nem pouco abordado, foram temas muito explorados por existencialistas como Schopenhauer e Nietzsche. O escritor Milan Kundera inicia um de seus mais famosos romances citando o conceito do eterno retorno de Nietzsche. Kundera é genial porque conseguiu traduzir em suas palavras a dualidade que propõe, “A insustentável leveza do ser” é um romance complexo e denso, ao mesmo tempo que tem leveza.

O livro nos apresenta quatro personagens, todos perdidos diante da contradição entre valores que alguns consideram anacrônicos, de cujos pesos, querem ver-se livres, e os valores que criam para si mesmos a fim de darem sustentação aos seus seres. Pois uma vida que se pretende mais leve pode ser tão opressora à existência quanto uma em que são incontáveis os fardos. Kundera é gênio e sábio, ele sabe que grandes experiências, de fato, tornam a vida mais pesada.

Life is messy.

A verdade é que a vida real é bagunçada, complicada, densa. Existe de um lado tudo que é considerado moral e que nossa mente tenta racionalmente entender e processar; e do outro lado existem os sentimentos, as incontroláveis emoções que fazem a gente perder o ar e a vida valer a pena, ao mesmo tempo que complicam tudo aquilo que nossa mente racional tenta (em vão) manter organizado, limpo, descomplicado, leve.

Na vida, a realidade é bem diferente do ideal, daquilo que planejamos, que sonhamos, que desejamos, porque nós somos complicados. Então, com o passar dos anos, os problemas vão ficando mais densos, as raízes mais profundas. O fundo do poço torna-se cada mais mais fundo. E o buraco é sempre mais embaixo. E por mais que tentamos viver a vida com leveza, tem certas coisas que merecem seu devido peso e importância.

Life is limited.

A vida é limitada. Nós somos limitados. Nossa história nos limita, nossa condição nos limita, nossos sentimentos nos limitam. Nossas escolhas nos limitam. Somos o que somos. É o que é. E com certeza somos responsáveis pelas nossas escolhas, mas a vida não é (e não deve ser) tão “preto no branco” como teimamos em acreditar. Porque o “preto no branco” é muito leve, não dá espaço para o peso que tem o colorido.

Life is heavy.

A vida não é violino e rosas. Viver é pesado. A vida é complicada, bagunçada, complexa nas mais inconcebíveis proporções. Dinâmica. Tudo acontece ao mesmo tempo. As pessoas têm processos e momentos diferentes, não chegam prontas e nós nunca estamos prontos, porque somos seres inacabados, imperfeitos. E carregamos bagagens grandes, com cargas pesadas. Pois, assim como escreveu Kundera, não existe leveza onde há profundidade de alma, de sentimentos, de experiências. Somos todos complicados, complicando tudo, travando nossas próprias batalhas, sonhando com oportunidades melhores enquanto o peso de nossas escolhas nos afunda ainda mais na areia movediça.

O que nos resta é saber o que queremos absorver de tudo isso e o que vai ficar de fora. Podemos aprender a traçar linhas, criar barreiras, delimitar fronteiras. Mas, é preciso ter em mente que se queremos experiências significativas precisamos cruzar essas linhas, derrubar barreiras, construir pontes no lugar de muros. Resta saber qual é o limite do emaranhado. Qual é a força de cada nó. Quando devemos desatá-lo e quando devemos apertá-lo. Quando devemos criar laços no lugar de nós. Nós. Encontros são feitos de nós. E encontros são pontos de chegada ou são pontos de partida. Resta saber o que escolher então, o peso ou a leveza?

“Tudo na vida tem a ver com as linhas que delimitamos. Não é aconselhável criar muita intimidade com os outros. Fazer amigos, fazer amantes. Precisamos de fronteiras, entre nós e o resto do mundo, porque os outros são muito complicados. E tudo tem a ver com as linhas. Limites. Fronteiras. Barreiras. Podemos passar a vida desenhando essas linhas e torcendo para que ninguém as cruze ou, em alguns momentos, podemos escolher cruzá-las. É preciso decidir. Mas, saiba que muitas vezes as fronteiras não deixam os outros para fora, elas nos engaiolam dentro. A vida é complicada. Nós somos complicados. É assim que somos feitos. Cheios de desejos, sentimentos e emoções. Então podemos escolher passar toda uma vida delimitando fronteiras, desenhando linhas, ou, podemos escolher viver a vida cruzando essas fronteiras, apagando linhas. Mesmo sabendo que algumas dessas fronteiras são muito perigosas para serem cruzadas. Mas isso é o que eu sei: se vez ou outra você optar por jogar no vento toda essa cautela e dar uma chance ao complicado, a vista do outro lado pode ser espetacular.”

Adaptado de Grey’s Anatomy S. 01 E. 02 – The first cut is the deepest

Do seu coração partido

Sentada junto à sacada para que a luz lhe chegasse a vida da rua, a jovem costurava o longo traje de seda cor de jade que alguma dama iria vestir. Essa seda agora muda – pensava a costureira enquanto a agulha que retinha nos dedos ia e vinha – haveria de farfalhar sobre mármores, ondeando a cada passo da dama, exibindo e ocultando a cada passo da dama, exibindo e ocultando nos poços das pregas seu suave verde. O traje luziria nobre como uma jóia. E dos pontos, dos pontos todos, pequenos e incontáveis que ela, aplicada, tecla dia após dia, ninguém saberia.


Assim ia pensando a moça, quando uma gota de sangue caiu sobre o tecido. 
De onde vinha esse sangue? perguntou-se em assombro, afastando a seda e olhando as próprias mãos limpas. Levantou o olhar. De um vaso na sacada, uma roseira subia a parede oferecendo, ao alto, uma única rosa flamejante.

– Foi ela – sussurrou o besouro que parecia dormir sobre uma folha. – Foi do seu coração partido.


Esfregou a cabeça com as patinhas. – Sensível demais, essa rosa – acrescentou, não sem um toque de censura. – Um mancebo acabou de passar lá embaixo, nem olhou para ela. E bastou esse nada, essa quase presença, para ela sofrer de amor.
Por um instante esquecida do traje, a moça debruçou-se na sacada. Lá ia o mancebo, afastando-se num esvoejar de capa em meio às gentes e cavalos.
– Senhor! Senhor! – gritou ela, mas nem tão alto, que não lhe ficaria bem. E agitava o braço.
O mancebo não chegou a ouvir. Afinal, não era o seu nome que chamavam. Mas voltou-se assim mesmo, voltou-se porque sentiu que devia voltar-se ou porque alguém do seu lado virou a cabeça de súbito como se não pudesse perder algo que estava acontecendo. E voltando-se viu , debruçada no alto de uma sacada, uma jovem que agitava o braço, uma jovem envolta em sol, cuja trança pendia tentadora como uma escada. E aquela jovem, sim, aquela jovem o chamava.
Retornar sobre os próprios passos, atravessar um portão, subir degraus, que tão rápido isso pode acontecer quando se tem pressa. E eis que o mancebo estava de pé junto à sacada, junto à moça. Ela não teve nem tempo de dizer por que o havia chamado, que já o mancebo extraía seu punhal e , de um golpe, decepava a rosa para lhe oferecer.
Uma ultima gota de sangue caiu sobre a seda verde esquecida no chão. Mas a moça costureira, que agora só tinha olhos para o mancebo, nem viu.

Marina Colasanti. 23 historias de um viajante. São Paulo: Global, 2005. P.157-9

O homem sem sorte

Era uma vez um homem que se achava o mais sem sorte do mundo e, num sonho, viu que a única solução era procurar o Criador no fim do mundo. Saiu, então, correndo à procura do Criador.

Ao passar pela floresta, ouviu o grunhido de um lobo doente e enfraquecido, que estava caído e lhe pedia ajuda.

– Agora não posso, pois tenho uma longa jornada até o fim do mundo, aonde vou me encontrar com o Criador – respondeu o homem apressadamente.

 O pobre lobo pediu então que ele falasse com o Criador e lhe pedisse a sua cura. O homem se comprometeu e continuando a correr, tropeçou na raiz exposta de uma grande e velha árvore, já quase sem folhas, que lhe disse:

– Meu nobre senhor, me ajude, estou morrendo, enfraquecida. Por favor, jogue um pouco de terra sobre minhas raízes expostas!

O homem respondeu:

– Infelizmente agora, não posso, pois estou indo encontrar o Criador que fica no fim do mundo.

– Peça, então, ao Criador por mim. Diga-lhe como estou e como posso me curar desse sofrimento.

O homem virou as costas e depois de muito correr, chegou a um vale muito florido, com flores de todas as cores e perfumes. Mas ele não reparou. Chegou até uma casa e na frente da casa estava uma jovem muito bonita que o convidou a entrar.

Eles conversaram longamente e de repente se levantou dizendo que não podia perder tempo e quando já estava saindo ela lhe pediu um favor:

– Você que vai procurar o Criador, podia perguntar uma coisa para mim? É que de vez em quando sinto um vazio no peito, que não tem motivo nem explicação. Gostaria de saber o que é e o que posso fazer por isto.

O homem prometeu que perguntaria e, depois de muito caminhar, chegou finalmente ao fim do mundo. Sentou-se e ficou esperando até que ouviu a voz do Criador chamando-o.

O homem falou-lhe então sobre a sua triste vida e sua imensa falta de sorte e o Criador lhe disse:

– Sua sorte está há muito tempo no mundo. Basta ficar atento que você vai encontrá-la.

Quando já estava indo embora, o Criador lhe perguntou:

– Você não tem que levar uma resposta para uma árvore, para um lobo e para uma jovem?

– Tem razão, Senhor.

Depois de escutar o que o Criador tinha para lhe dizer, correu mais rápido que o vento até que chegou à casa da jovem que, ao vê-lo passar, chamou:

– Ei! Você conseguiu encontrar o Criador?

– Sim! Claro! O Criador disse que minha sorte está há muito tempo no mundo. Só preciso ficar atento!

– E quanto a mim, você teve a chance de fazer a minha pergunta?

– Ah! O Criador disse que, o que você sente, é solidão. Assim que encontrar um companheiro vai ser completamente feliz, e mais feliz ainda vai ser o seu companheiro.

A jovem então abriu um sorriso e perguntou ao homem se ele queria ser este companheiro.

– Claro que não. Já trouxe a sua resposta. Não posso ficar aqui perdendo tempo com você, pois tenho que encontrar minha sorte. Adeus!

 Virando as costas, correu até a floresta onde estava a árvore. Ela perguntou se trazia a resposta do Criador, e o homem respondeu:

– Tenho muita pressa e vou ser breve, pois estou indo em busca de minha sorte. O Criador disse que você tem embaixo de suas raízes uma caixa de ferro cheia de moedas de ouro. O ferro desta caixa está corroendo suas raízes. Se você cavar e tirar este tesouro daí, vai terminar todo o seu sofrimento e você poderá virar uma árvore saudável novamente.

– Por favor! Faça isso por mim! Você pode ficar com o tesouro. Ele não serve para mim. Eu só quero de novo minha força e energia.

O homem respondeu furioso:

– Já lhe trouxe a resposta. Agora resolva o seu problema. Preciso procurar a minha sorte e eu não posso perder tempo aqui conversando com você, muito menos sujando minhas mãos na terra.

 Virando as costas, atravessou a floresta mais rápido do que antes, e chegou aonde estava o lobo, mais magro ainda e mais fraco. O homem falou-lhe apressadamente:

 – O Criador mandou lhe falar que você não está doente. O que você tem é fome. Está morrendo  de inanição, e como não tem mais forças para sair e caçar, vai morrer aí mesmo. A não ser que passe por aqui uma criatura bastante estúpida, e você consiga devorá-la.

Nesse momento, os olhos do lobo se encheram de um brilho estranho e, reunindo o restante de suas forças, deu um salto e devorou o homem ‘sem sorte’.

Melhor do que ser bonzinho, é ser verdadeiro

“Não podemos cuidar adequadamente dos outros sendo incapazes de fazer isso por nós mesmos; não podemos estar atentos às necessidades dos outros sem escutar e compreender as nossas; não podemos ter respeito e complacência pelo outro em sua diversidade, e até em suas contradições, sem conseguir fazer o mesmo por nós. Volto a repetir: no caminho rumo ao outro não podemos dispensar o caminho rumo ao nosso próprio eu.”

Thomas D’Ansembourg 

35270_1

Com o novo ano que se aproxima, chega também aquele momento de fazer um balanço geral do ano, revisar aprendizados e desafios vividos e, inevitavelmente, pensar em resoluções e mudanças para o futuro. Já dizia Einstein: “Insanidade é continuar sempre fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Se há algo para melhorar (e sempre há), esse é um bom tempo para traçar caminhos novos, repaginar comportamentos, remodelar antigas crenças, aprender a olhar o mundo de outros ângulos e, ainda, desapegar de tudo aquilo que precisa ficar para trás.

E nesse processo de crescimento e mudanças, é possível criar um olhar diferente sobre o que é cuidar. Thomas D´Ansembourg, um estudioso das relações interpessoais, escreveu: “Se eu cuido do outro negligenciando a mim mesmo, eu cultivo a negligência e não o cuidado”. E a impressão que dá é essa mesmo, que sabemos cuidar do outro, enquanto desaprendemos a cuidar de nós mesmos. Sim, estamos praticando muito mais a negligencia do que o cuidado. Pudera, vivemos na era do altruísmo, nunca ouviu-se, leu-se, prezou-se tanto o cuidado para com o outro. Na era do marketing e da promoção pessoal, ninguém nos parabeniza por cuidar bem de nós mesmos. Dessa forma, cuidar do outro parece tão mais fácil, engrandecedor e reconhecido pelos outros do que praticar o auto-cuidado.

Enquanto somos crianças, temos pais e mães nos orientando o tempo todo sobre o que devemos fazer, com quem andar, aonde ir. E nos acostumamos com isso. Mas, em algum período nessa transição entre ser criança e virar “gente grande”, proclamamos nossa independência. Adquirimos o direito de ir e vir, de ter autonomia sobre nossas escolhas e fazer o que bem entendermos, esse tal livre-arbítrio que tanto escutamos falar, mas que nem sempre temos sabedoria para usar. Os pais um dia, para os que têm sorte, viram conselheiros, mas todos nós, adultos, deveríamos praticar o autocuidado e exercer o papel de pais e mães de nós mesmos. Sim, deveríamos, mas nem sempre é o que fazemos.

A liberdade sobre nossas escolhas não significa exatamente que devemos fazer tudo que queremos, significa que podemos escolher o que nos serve e deixar o que não nos faz bem. Não se trata mais de certo e errado,  mas sim de escolhas mais emocionalmente e fisicamente saudáveis para nós e para os outros. Mas, na correria dos dias, nós esquecemos de cuidar de nós mesmos e é comum colocarmos o desejo do outro diante do que desejamos, é fácil esquecer que temos direito de negar ajuda ou de aprender a dar apenas o que podemos dar. Vivemos ocupados da vida alheia, porque a vida é mesmo assim, sempre tem e terá alguém que precisa de nós e, pode ser difícil admitir, mas isso de certa forma também nos preenche.

Vivendo no modo “piloto automático”, com a forte necessidade de pertencimento, de sermos amados, de não desagradar aqueles ao nosso redor, muitas vezes nem nos damos conta dos vários sapos que engolimos, de quão custoso é fazer o papel do bom, de quanta carga extra vamos adicionando à nossa bagagem, e de quantos “sim” dizemos, quando no fundo queríamos dizer “não”. Evitamos o desconforto social e os conflitos e perdemos batalhas importantes, sem nem sequer lutarmos. É assim, nessa correria e cheios de afazeres que os dias passam voando, que nem vemos mais um ano passar e que vamos cada vez mais nos tornando negligentes ao olhar de D´Ansembourg,  mas bons diante do olhar dos outros.

Além disso, existe ainda um olhar distorcido sobre achar que ser bom é cuidar do outro que nós nem sempre conseguimos perceber: todas as vezes que eu faço alguma coisa com o intuito de proteger, absorver o impacto da queda ou poupar alguém de algo que considero doloroso para ele, estou dizendo: você não tem força para dar conta disso, eu não acredito que você é capaz de viver as consequências de suas próprias escolhas.

Brené Brown, uma pesquisadora americana, também sugeriu um novo olhar sobre o autocuidado, ela diz: “prefira o desconforto no lugar do ressentimento”. Prefira o desconforto ao arrependimento. Aprenda a dizer não para o que não te faz bem, para quem não te faz bem, para  evitar os tantos “tenho que´s” que vamos incorporando em nossa rotina, para tudo aquilo que dizemos “sim” apenas para não desagradar ao olhar do outro. Aprenda a ser a mãe que não te deixava andar em más companhias, o pai que te proibia de chegar tarde em casa, lembre-se de levar o casaco para se proteger do frio e saiba dizer não para tudo que não te faz bem, mesmo que isso cause desconforto entre os demais. Porque, na maioria das vezes, dizer não para o outro, é dizer sim para si mesmo. E por fim, é importante desenvolver sabedoria para praticar o autocuidado, pois a linha entre o egocentrismo e o autocuidado pode ser tênue.

E, que nesse novo ano, aproveitemos todos os dias para criar novos sentidos, para aprender a dizer não para o outro e sim para nós mesmos, para escolher o desconforto no lugar do ressentimento, para saber identificar e expressar o que sentimos, para deixar de sermos bonzinhos, e nos tornarmos algo muito mais valioso para nós e para os outros: verdadeiros.

Sem título

Em tempo, uma boa citação sobre o que é “cuidar”:

“Cuidar, é ajudar o outro a viver o que ele tem de viver. Não é impedi-lo disso, nem tentar poupá-lo a um sofrimento que está no seu caminho, minimizando-o (Não é assim tão mau, não penses nisso, vem distrair-te) ou carregando com o seu peso (A culpa é minha, não devia ter feito isso, vou fazer isto ou aquilo por ele), é sim ajudá-lo a enfrentar a sua dificuldade, a mergulhar no seu sofrimento, para dele se poder libertar, com a consciência de que esse caminho só ao outro pertence e que ninguém o poderá percorrer no seu lugar. Cuidar é dar toda a nossa atenção à faculdade, existente no outro, de curar o seu próprio sofrimento ou de resolver a sua própria dificuldade, bem mais do que lhe levar uma cura. É confiar que o outro dispõe de todos os recursos necessários para resolver a situação se for capaz de se escutar ou de ser escutado no sítio certo.”

(Em Seja Verdadeiro, de Thomas d’Ansembourg, ed. Ésquilo, p.161)

 

A roupa nova do imperador

por Hans Christian Andersen

Há muitos e muitos anos atrás, vivia um imperador que só pensava em comprar roupas novas, e com isso ele gastava todo o dinheiro do reino, sua única ambição era estar sempre bem vestido. Ele não se preocupava com os soldados, e jamais sentiu qualquer inclinação pelo teatro, a única coisa de fato, que o interessava era sair para exibir os seus novos trajes. Ele tinha um manto para cada hora do dia, e quando para um rei se costumava dizer: “Ele está em seu gabinete”, para ele se poderia dizer: “O imperador está em seu vestuário.”

A grande cidade onde ele residia era muito alegre; todos os dias muitos estrangeiros chegavam de todas as partes do globo. Um dia dois vigaristas chegaram à cidade; eles faziam as pessoas acreditarem que eram grandes tecelões, e afirmavam poder confeccionar as roupas mais finas que alguém poderia imaginar. As cores e os modelos que eles criavam, diziam, não eram apenas excepcionalmente lindas, mas as roupas feitas com o material que eles produziam, possuíam a maravilhosa capacidade de ser invisível a qualquer pessoa que não tivesse preparada para o cargo que ocupava ou fosse imperdoavelmente tola.

“Essa deve ser uma roupa maravilhosa,” pensou o imperador. “Se eu tivesse de vestir uma roupa feita com um tecido tão especial eu poderia descobrir quais ministros do meu império não estavam preparados para os seus cargos, e eu poderia distinguir o tolo do sábio. Eu preciso mandar fazer essa roupa para mim sem demora.” E mandou oferecer uma grande soma em dinheiro para os vigaristas, antecipadamente, para que eles iniciassem o trabalho imediatamente. Eles prepararam dois teares, e fingiam trabalhar com muita eficiência, porém, não produziam nada em nenhum dos teares. Eles solicitavam as sedas mais finas, e os tecidos de ouro mais preciosos, e tudo o que eles conseguiam eles pegavam para eles e trabalhavam nos teares vazios até tarde da noite.

“Preciso enviar o meu ministro mais velho e mais honesto até os tecelões,” pensava o imperador. “Não há ninguém melhor do que ele para avaliar como as coisas estão indo, porque ele é inteligente, e ninguém entende melhor do seu ofício do que ele.”

O velho e bom ministro foi até o local onde os vigaristas ficavam diante dos teares vazios. “Meu Deus do céu!” pensou ele, e arregalou os olhos, “Eu não estou conseguindo ver nada em absoluto!”, mas ele não disse isso. Os dois vigaristas pediram para que ele se aproximasse, e lhe perguntaram se ele não admirava os modelos primorosos e as cores belíssimas, e mostrava os teares vazios. O pobre e velho ministro se esforçava o melhor que podia, mas não conseguia ver nada, porque não havia nada mesmo para ser visto. “Oh, céus,” pensava ele, “como posso ser tão tolo? Jamais teria pensado assim, e ninguém pode saber disso! Será possível que eu não estou preparado para o posto que exerço? Não, não, eu não posso dizer que eu não consigo ver o tecido.”

“Então, o que você tem a dizer? disse um dos vigaristas, enquanto ele fingia estar super ocupado tecendo.

“Oh, é muito bonito, extremamente belo,” respondeu o velho ministro esforçando-se por enxergar através dos seus óculos. “Que modelo primoroso, que cores brilhantes! Irei imediatamente dizer ao imperador que eu gostei muito da roupa.”

“Ficamos muito contentes em ouvir isso,” disseram os dois tecelões, e descreveram para ele as cores e deram explicações sobre o curioso modelo. O velho ministro escutou tudo muito atenciosamente, para que ele pudesse relatar ao imperador o que eles haviam dito, e assim fez ele.

Então os vigaristas pediram mais dinheiro, seda, e tecido de ouro, que eles diziam serem necessários para o serviço de tecelagem. Eles escondiam tudo para si mesmos, e nem sequer uma linha chegava perto do tear, mas eles continuavam como até agora, a trabalhar em teares vazios.

Logo depois o imperador enviou um outro cortesão honesto até os tecelões para saber tudo o que estava acontecendo, e se a roupa já estava quase terminada. Do mesmo modo que o velho ministro, ele olhava e olhava mas não conseguia ver nada, mesmo porque não havia nada para ver.

“Não é uma linda peça de vestuário?” perguntaram os dois trapaceiros, mostrando e explicando os magníficos modelos, que todavia, jamais existiram.

“Eu não sou estúpido”, pensou o homem. “Deve ser por causa do elevado cargo que ocupo e para o qual eu não estou preparado. É muito estranho, mas eu não posso permitir que ninguém fique sabendo;” então ele elogiou a roupa, que ele não via, e expressou a sua alegria diante das cores maravilhosas, e do finíssimo modelo. “É muito lindo,” disse ele ao imperador.

Todo mundo na cidade inteira comentava sobre a beleza da roupa. Finalmente, o próprio imperador desejou ver com seus próprios olhos, quando a roupa ainda estava sendo tecida nos teares. Acompanhado por um séquito de cortesãos, incluindo os dois que já haviam estado lá, ele foi até os dois vigaristas espertos, que agora empregavam maior esforço no trabalho, sem usar nem sequer um fio de linha.

“Não é maravilhoso?” disseram os dois outros chefes de estado que já haviam estado lá anteriormente. “Com certeza a Vossa Majestade vai admirar as cores e os padrões.” E então apontavam para os teares vazios, pois acreditavam que os outros não estavam vendo o tecido.

“Mas o que é isso?” pensou o imperador, “eu não estou vendo nada. Isso é terrível! Serei eu um tolo? Será que estou despreparado para ser imperador? Essa seria a coisa mais terrível que poderia me acontecer.”

“Realmente,” disse o imperador, virando-se para os tecelões, “a sua roupa tem toda a nossa aprovação.” e balançando a cabeça satisfeito olhava para o tear vazio, pois ele não queria dizer que não estava vendo nada. Todos os acompanhantes, que faziam parte da sua comitiva, ficavam olhando e embora não pudessem ver nada mais do que viam os outros, ele concordaram com o imperador, “É muito lindo.” E todos aconselharam para que o rei usasse aquela roupa maravilhosa durante uma grande procissão que em breve estaria para ser realizada. “É magnífico, lindíssimo, excelente,” disse um deles, todos pareciam estar encantados, e o imperador nomeou os dois vigaristas como os “tecelões imperiais da corte”.

A noite toda que precedeu ao dia quando a grande procissão se realizaria, os trapaceiros fingiam trabalhar e só nesse dia queimaram mais de dezesseis velas. As pessoas deveriam ver que eles estavam ocupados fazendo os acabamentos da nova roupa do imperador. Eles fingiam tirar a roupa do tear, e pareciam estar trabalhando no ar com grandes tesouras, e costuravam com agulhas que não tinham linhas, e disseram no final: “A nova roupa do imperador ficou pronta.”

O imperador e todos os seus cortesãos foram até o salão, os vigaristas mantinham seus braços levantados como se estivessem segurando alguma coisa na mãos e disseram: “Estas são as calças!” “Este é o casaco!” e “Aqui está o manto!” e assim por diante. “Estes trajes são tão leves quanto teia de aranha, e a pessoa se sente como se não estivesse usando nada no corpo, mas aí é que está a beleza delas.”

“De fato!” disseram os cortesãos, mas eles não conseguiam ver nada, porque não havia mesmo nada para ser visto.

“Será que a Vossa Majestade por gentileza poderia se despir,” disseram os trapaceiros, “para que possamos auxiliar a Vossa Alteza nos ajustes da nova roupa diante do grande espelho?”

O imperador se despiu, e os vigaristas fingiram colocar nele a nova roupa, peça por peça, e o imperador olhava para si mesmo no espelho de todos os lados.

“Como ela lhe caiu bem!” “Como ficou bonita!” disseram todos. “Que modelo arrojado! Que cores belíssimas! Esse é um traje magnífico!”

O mestre das cerimônias anunciou que os carregadores do pálio, que haveriam de desfilar durante a procissão, já estavam prontos.

“Eu estou pronto,” disse o imperador. “A minha roupa nova não caiu perfeitamente bem?” Então ele se virou mais uma vez para o espelho, para que as pessoas pensassem que ele estava admirando os seus novos trajes.

Os camareiros, que iriam ajudá-lo a carregar a cauda, estenderam suas mãos até o chão como se estivessem levantando a cauda, e fingiam segurar alguma coisa em suas mãos, eles não queriam que as pessoas soubessem que eles não estavam vendo nada.

O imperador marchava na procissão sob o belo pálio, e todos que olhavam para ele na rua e pelas janelas exclamavam: “De fato, o novo traje do imperador é incomparável! que longa causa que ele tem! Como a roupa caiu bem para ele!” Ninguém queria que os outros soubessem que eles não viam nada, pois que seriam considerados incapacitados para o cargo que ocupavam ou tolos demais. Nunca as roupas do imperador foram tão admiradas.

“Mas ele não está usando nada,” disse uma pequena criança afinal.

“Deus do céu! ouçam a voz de uma criança inocente,” disse o pai, e um sussurrava para o outro o que a criança havia dito. “Mas ele não está usando nada”, gritaram afinal todas as pessoas. Isso causou uma forte impressão no imperador, pois lhe pareceu que as pessoas tinham razão, mas ele pensou consigo mesmo, “Agora eu vou ter de aguentar isso até o fim.” E os camareiros caminhavam com mais dignidade ainda, como se carregassem a cauda que não existia.

Menina bonita do laço de fita

Era uma vez uma menina linda, linda.
Os olhos pareciam duas azeitonas pretas brilhantes, os cabelos enroladinhos e bem negros.
A pele era escura e lustrosa, que nem o pelo da pantera negra na chuva.
Ainda por cima, a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo dela e enfeitar com laços de fita coloridas.
Ela ficava parecendo uma princesa das terras da áfrica, ou uma fada do Reino do Luar.
E, havia um coelho bem branquinho, com olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando. O coelho achava a menina a pessoa mais linda que ele tinha visto na vida.
E pensava:
– Ah, quando eu casar quero ter uma filha pretinha e linda que nem ela…
Por isso, um dia ele foi até a casa da menina e perguntou:
– Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:­
– Ah deve ser porque eu caí na tinta preta quando era pequenina…
O coelho saiu dali, procurou uma lata de tinta preta e tomou banho nela.
Ficou bem negro, todo contente. Mas aí veio uma chuva e lavou todo aquele pretume, ele ficou branco outra vez.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
– Menina bonita do laço de fita, qual é o seu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
– Ah, deve ser porque eu tomei muito café quando era pequenina.
O coelho saiu dali e tomou tanto café que perdeu o sono e passou a noite toda fazendo xixi.
Mas não ficou nada preto.
– Menina bonita do laço de fita, qual o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:­
– Ah, deve ser porque eu comi muita jabuticaba quando era pequenina.
O coelho saiu dali e se empanturrou de jabuticaba até ficar pesadão, sem conseguir sair do lugar. O máximo que conseguiu foi fazer muito cocozinho preto e redondo feito jabuticaba. Mas não ficou nada preto.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
– Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha?
A menina não sabia e… Já ia inventando outra coisa, uma história de feijoada, quando a mãe dela que era uma mulata linda e risonha, resolveu se meter e disse:
– Artes de uma avó preta que ela tinha…
Aí o coelho, que era bobinho, mas nem tanto, viu que a mãe da menina devia estar mesmo dizendo a verdade, porque a gente se parece sempre é com os pais, os tios, os avós e até
com os parentes tortos.E se ele queria ter uma filha pretinha e linda que nem a menina,
tinha era que procurar uma coelha preta para casar.
Não precisou procurar muito. Logo encontrou uma coelhinha escura como a noite, que achava aquele coelho branco uma graça.
Foram namorando, casando e tiveram uma ninhada de filhotes, que coelho quando desanda
a ter filhote não para mais! Tinha coelhos de todas as cores: branco, branco malhado de preto, preto malhado de branco e até uma coelha bem pretinha.
Já se sabe, afilhada da tal menina bonita que morava na casa ao lado.
E quando a coelhinha saía de laço colorido no pescoço sempre encontrava alguém que perguntava:
– Coelha bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?
E ela respondia:
– Conselhos da mãe da minha madrinha…
de Ana Maria Machado