Sinta medo e aja mesmo assim

           Forjando a armadura

(tradução Ute Crãmer)

Nego-me a me submeter ao medo
que me tira a alegria de minha liberdade,
que não me deixa arriscar nada,
que me toma pequeno e mesquinho,
que me amarra,
que não me deixa ser direto e franco,
que me persegue,que ocupa negativamente minha imaginação,
que sempre pinta visões sombrias.

No entanto não quero levantar barricadas por medo
do medo. Eu quero viver, e não quero encerrar-me.
Não quero ser amigável por ter medo de ser sincero.
Quero pisar firme porque estou seguro e não
para encobrir meu medo.

E, quando me calo, quero
fazê-lo por amor
e não por temer as
conseqüências de minhas
palavras.

Não quero acreditar em algo
só pelo medo de
não acreditar.
Não quero filosofar por medo
que algo possa
atingir-me de perto.
Não quero dobrar-me só
porque tenho medo
de não ser amável.
Não quero impor algo aos
outros pelo medo
de que possam impor algo a mim;
por medo de errar, não quero
tomar-me inativo.
Não quero fugir de volta para
o velho, o inaceitável,
por medo de não me sentir
seguro no novo.
Não quero fazer-me de
importante porque tenho medo
de que senão poderia ser ignorado.

Por convicção e amor, quero
fazer o que faço e
deixar de fazer o que deixo de fazer.

Do medo quero arrancar o
domínio e dá-lo ao amor.
E quero crer no reino que
existe em mim.

Rudolf Steiner

Em 2004 embarquei para uma aventura ao desconhecido, talvez uma das maiores até então, resolvi passar um tempo em Israel, um país do qual sabia muito pouco e eu estava com medo. Uma amiga querida me deu um livro chamado “Feel the fear and do it anyway” (algo como: sinta medo e aja mesmo assim), sim estava com muito medo, mas fui. E foi uma das experiências mais marcantes da minha vida.

Muito tempo depois deparei-me com esse poema de Rudolf Steiner e colei-o na geladeira. Na época ainda morava com meu pai, ele já estava acostumado com minhas esquisitices, então não estranhou quando coloquei o poema lá, mas depois que ele leu, cuidadoso como era, perguntou se eu estava com medo de algo.

Eu disse que não, mas não era verdade, foi apenas aquelas respostas impacientes para não prolongar o assunto. Medo eu sempre tive, de tipos variados. Mas acho que os meus medos na época eram mais simples do que são hoje.

Eu e meu pai tínhamos uma estranha mania de conversar através de livros, eu gostava de ler os dele e vice-versa. E cada um sublinhava as partes mais importantes, assim quando o outro lia, nós sabíamos os trechos que mais tínhamos gostado. Um dia vi que ele estava lendo o livro que minha amiga havia me presenteado, novamente ele me perguntou do que eu tinha medo e mais uma vez eu não respondi com a verdade.

Acho que é uma grande invenção da vida que nossa mente seja tão limitada que não possa prever o futuro, na época eu não sabia, mas o maior medo que já senti até hoje foi quando descobri que meu pai estava morrendo. Hoje voltei a pensar em meus medos, ainda tenho vários, mas descobri uma coisa sobre eles: eles costumam ser muito maiores em nossa imaginação e quando você é confrontado com aquilo que mais teme, acaba descobrindo que não nada é tão assustador assim. É só assim que descobrimos que somos de fato mais fortes do que imaginamos.

Esses dias conversei com um amigo sobre outro tipo de medo que encontro em muitas pessoas: o medo de ser feliz. Eu estava justamente tentando elaborar de onde vinha todo esse auto-boicote que nos impomos, as armadilhas que nos pregamos, essas rasteiras que nos damos. Eu conheço bem isso. Claro que hoje com um olhar mais atento já consigo aquebrantar mais facilmente alguns desses padrões de comportamento. Então perguntei à ele: “Por que será que nós passamos tantas rasteiras em nós mesmos? Por que boicotamos tanto nossas chances de ser felizes?”. Ele me respondeu com uma simplicidade que nunca havia me ocorrido: “Se nós formos felizes, o que mais nos restará buscar?”

É isso, nós somos desde pequenos condicionados a buscar a felicidade, mas assim como nos contos de fadas, ninguém nos conta o que vem depois. Talvez seja porque felicidade não se busca nem se encontra em lugar algum e contos de fadas não são reais, ser feliz é um estado de espírito, é uma escolha diária, sem receita pronta; e não existe felicidade eterna, nem permanente, o que existe são momentos felizes. Felicidade eterna só mesmo nos contos.  Ser feliz na vida real é um ato quase heroico, é preciso muita coragem para ser feliz.

Muitos costumam transportar esse medo da felicidade para os relacionamentos amorosos e confesso que esse medo ainda não superei, porque amar dá medo sim. Amar dá medo porque para amar é preciso deixar morrer um pouco de nós a cada dia. Amar é não se acomodar, amar é perder batalhas todos os dias em prol do outro e de si; amar é desnudar-se, é criar intimidade, e intimidade também é algo que da medo. Amar é dançar um baile compassado que só se baila a dois (e nem tente ir ao baile sozinho). Amar é mudar, é mudar-se, é transformar, é transformar-se. Amar é perder o controle, amar é perder-se.

É perder-se e entender que nada na vida é permanente, portanto para amar é preciso deixar que o amor seja leve, seja solto e se transforme todos os dias, é preciso reinventá-lo.  É preciso deixar que ele morra e volte a renascer para então morrer novamente e assim sucessivamente numa dança eterna. Amar é ganhar e perder. É dar e receber. Amar é deixar ir. E de fato, amar assim de coração tão aberto, é só para os bravos.

Hoje abri o pequeno livro em inglês, com várias passagens sobre o medo sublinhadas pelo meu pai, através delas pude entender melhor seus medos, lembrei da pergunta dele sobre meus medos e que tantos anos depois quando finalmente resolvi falar a verdade já era tarde. Eu nunca consegui falar para ele sobre o medo que tinha de perdê-lo, ele também não soube me dizer como era encarar a morte assim, de maneira tão repentina e dormir com ela todos os dias. Enquanto ele esteve doente, falamos sobre muitas outras coisas, mas tive medo de falar sobre o medo. E então pensei muito nessa resposta que nunca lhe dei, se hoje ele me perguntasse, ela seria:

Eu tenho medo sim, tenho muitos medos e de intensidades variadas. E sei que às vezes ele me paralisa, mas todos os dias fazemos acordos de trégua para que eu possa seguir. Tenho medo de tudo que não posso controlar, tenho medo do desconhecido, tenho medo de perder-me, tenho medo de me encontrar; tenho medo de morrer sem conhecer o amor, tenho medo de chegar ao fim da vida e me dar conta que não realizei todos os mais profundos desejos da minha alma.

Hoje sei que para perder o medo é preciso ter valentia para enfrentá-lo, só assim ele vai perdendo força. Portanto, antes de mais nada, quero aprender a amar o medo, porque sei que é preciso senti-lo e ainda assim ter coragem para seguir.

vai-e-se-der-medo-vai-com-medo-mesmo

A Moça Tecelã

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte. Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava. Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos de algodão mais felpudo.

Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela. Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza. Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias. Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao seu lado. Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta. Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida. Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade. E feliz foi, durante algum tempo.

Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar. – Uma casa melhor é necessária, — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer. Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. – Para que ter casa, se podemos ter palácio? – perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira. Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre. – É para que ninguém saiba do tapete, — disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos! Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo. Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear. Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido.

Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela. A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu. Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

Marina Colasanti

A Azarenta

Conto segundo Sfurtana, Palermo, por Agatuzza Messia, Pitré

Era uma vez um rei, uma rainha e suas sete filhas. Naquele tempo havia sido declarada guerra ao pai. Derrotado nas batalhas, ele caiu prisioneiro e perdeu o trono. Durante o cativeiro, a família real passou por sérias dificuldades. A rainha foi obrigada a deixar o castelo e a recolher-se, com suas filhas, em uma modesta cabana. As agruras eram tantas que mesmo para comer contavam com milagres.

Certo dia um vendedor de frutas, que passava pelo local, foi chamado pela rainha, que desejava comprar figos. Enquanto fazia a compra, uma mulher muito velha aproximou-se e lhe pediu uma esmola.

-Ai, boa mãe! – retrucou a rainha. – Se eu pudesse, não lhe daria apenas uma esmola. Mas eu também sou uma pobre alma, não tenho nada.

-E o que houve? Por que sois tão pobre? – perguntou a velha.

-Não o sabeis? Eu sou a rainha da Espanha. Caí na desgraça por causa da guerra que fizeram contra meu marido.

-Pobre alma! Tendes razão: por tudo vossa família fracassa! Uma de vossas filhas é perseguida pela desgraça… Enquanto a moça permanecer entre vós, jamais podereis ter sorte.

-Ah sim, minha senhora?! Porventura, qual delas é essa filha desafortunada?

-É aquela que dorme com as mãos cruzadas sobre o peito.

-E o que devo fazer?

-À noite, enquanto elas dormem, deveis acender uma vela e observá-las. Aquela que encontrardes com as mãos cruzadas devereis mandar embora. Só assim podereis reconquistar vosso reino perdido.

Na mesma noite, à meia-noite, a rainha com uma vela na mão, colocou-se diante dos leitos de suas filhas. Todas dormiam: a primeira com as mãos juntas; a segunda com as mãos sob o rosto; a terceira com as mãos sob o travesseiro, e assim por diante. Quando chegou junto à mais nova, viu que ela dormia com as mãos cruzadas.

-Ai, minha filhinha! Justamente a ti é que devo mandar embora!

Enquanto dizia isso, a pequena acordou e viu a mãe com a vela na mão e os olhos cheios de lágrimas.

-Mamãe, o que se passa?

-Ah… minha filhinha…, é que por aqui passou uma velha que me disse que uma de minhas filhas – aquela que dorme com as mãos cruzadas – encontra-se sob o signo da desgraça. E que não voltaríamos a ter sorte na vida enquanto não a mandarmos embora. E essa infeliz és tu!

-Não deveis chorar por isso, mãe. Logo me visto e de nossa casa partirei.

Vestiu-se, atou suas coisas numa trouxa e imediatamente partiu. Depois de muito andar, chegou a uma relva deserta onde só havia uma única casa. Quando se aproximava, ouviu o taramelar de um tear e viu um grupo de mulheres que teciam.

-Queres entrar? – perguntou uma das tecelãs.

-Sim, boa mulher.

-Como te chamas?

-Azarenta.

-E tu queres servir-nos?

-Sim, boa mulher.

E ela começou a varrer e fazer o trabalho de casa. Chegada a noite, as mulheres lhe disseram:

-Escuta, Azarenta, agora partiremos e te fecharemos à chave pelo lado de fora. Tu deves trancar a casa por dentro. Quando voltarmos, nós abriremos pelo lado de fora e tu pelo lado de dentro. Deves ter cuidado para que não nos roubem a seda, os debruns, e os panos de linho que foram tecidos.

Dito isto, elas partiram.

Por volta da meia-noite, Azarenta ouviu o bater de tesouras. Pegou uma vela e se aproximou do tear. Viu uma mulher que estava cortando com uma tesoura todo o pano de linho dourado que havia sido tecido.

Naquele momento ela compreendeu que a mulher era a sua má sina, que a havia seguido até ali.

Na manhã seguinte as tecelãs voltaram. Enquanto abriam a porta pelo lado de fora, a moça abria pelo lado de dentro. Assim que entraram viram todo o seu trabalho destruído e espalhado pelo chão.

-Oh, sua impertinente! É essa a recompensa por te darmos abrigo? Vai embora, imediatamente! Fora!

E a puseram para fora a pontapés.

Azarenta continuou peregrinando pelos campos, à mercê do destino. Chegando a uma aldeia, deteve-se diante de um armazém de pão, verduras, vinho e outras coisas. Pediu uma esmola. A dona lhe deu pão, verduras, toucinho e um copo de vinho. Nisso entrou o dono. Com pena da moça ele a convidou para passar a noite com eles, acomodando-a sobre os sacos do depósito do armazém.

Durante a noite, os donos, que dormiam no cômodo no andar de cima do depósito, ouviram barulhos e se levantaram: todos os tampões dos tonéis haviam sido retirados; o vinho corria por toda a casa. Quando viu a desgraça, o homem foi ter com a moça – que estava deitada sobre os sacos e gemia, lamentando-se.

-Impertinente! Só tu podes ter feito isso! – E pegou uma vara e bateu nela. Em seguida enxotou-a para a rua.

Ela não sabia para onde se dirigir e se exauriu chorando.

Quando se fêz dia, Azarenta encontrou uma mulher no campo, que estava lavando roupa.

-Por que tu olhas dessa maneira? – inquiriu a mulher.

-Senhora, não sei aonde devo ir.

-Sabes lavar?

-Sim, boa mulher.

-Então fica aqui e ajuda a lavar. Eu ensabôo a roupa e tu a enxáguas.

Azarenta começou a enxaguar a roupa e a pendurá-la no varal. A roupa secou, Azarenta recolheu-a, pôs-se a remendá-la e passou-a a ferro cuidadosamente.

Era a roupa do filho de um rei. Quando esse príncipe a viu, pareceu-lhe maravilhosamente limpa.

-Dona Francisca – disse ele -, jamais me lavaste a roupa assim tão bem! Desta vez, fizestes por merecer uma boa gorjeta.

Ele lhe deu dez pratas. Com as dez pratas, dona Francisca vestiu Azarenta da mais bela maneira. Também comprou um saco de farinha e assou pães. Junto com os pães preparou ainda dois bolos redondos e generosamente carregados de anis e sésamo; bolos que pareciam dizer: “Comam-me, comam-me.” E dirigiu-se para Azarenta, instruindo-a:

-Deves ir à beira-mar com estes dois bolos. Lá deves chamar a minha sina da seguinte maneira: “-Aaah! Sina de dona Franciscaaa…!” Assim deves fazer por três vezes. À terceira vez, minha sina aparecerá diante de ti. Entregarás a ela um dos bolos e em meu nome tu lhe darás as minhas saudações. Depois peça que te ensine onde mora a tua sina e procede com a última da maneira como vou te dizer.

Rapidamente Azarenta foi até a beira do mar.

-Aaah, sina de dona Franciscaaa! Aaah, sina de dona Franciscaaa! Aaah, sina de dona Franciscaaa! – E a sina de dona Francisca apareceu. Azarenta lhe transmitiu a mensagem e entregou o bolo. E perguntou:

-Sina de dona Francisca, poderia Vossa Excelência ter a bondade de me explicar onde mora a minha própria sina?

-Escuta, tu segues um trecho por essa trilha de muar, até chegar a um forno. Ao lado do buraco para o esfregão do forno verás uma velha bruxa sentada. Sê especialmente amável para com ela e oferece-lhe o bolo. Ela é a tua sina. Verás que ela não o aceitará e te tratará rudemente. Tu, porém, deves deixar o bolo com ela e prosseguir teu caminho.

Azarenta chegou no local indicado e encontrou a velha sentada junto ao forno.

Quase não pôde conter seu mal-estar ao vê-la, tão suja, remelenta e fedorenta era ela.

-Querida mulherzinha da sina, não quereis dar-me uma alegria… – disse, bajulando-a e oferecendo o bolo.

-Some-te! Quem te pediu o bolo? – respondeu ríspida e imediatamente a velha, virando-se de costas para Azarenta. Assim mesmo, a moça docemente depositou o bolo junto a ela e voltou para a casa de dona Francisca.

O dia seguinte, uma segunda-feira, era dia de lavar roupa. Dona Francisca pôs a roupa de molho, Azarenta esfregou e enxaguou; enquanto estava seca, ela a remendou e passou a ferro. Dona Francisca colocou a roupa numa cesta e levou-a ao castelo. Quando o príncipe a viu, exclamou:

-Dona Francisca, a mim não podeis enganar! Tal roupa como esta jamais me entregastes. – E lhe deu dez pratas de gorjeta.

Novamente a lavadeira comprou farinha, assou mais dois bolos e mandou Azarenta com eles para as mulheres da sina.

No dia de lavar seguinte, o príncipe, que queria se casar e que dava muita importância a que a roupa estivesse bem limpa, deu uma gorjeta de vinte pratas a dona Francisca. Desta vez ela não comprou apenas farinha para dois bolos, mas também comprou, para a mulher da sina de Azarenta, uma bela blusa com uma saia de crinolina e combinação. Comprou ainda delicados lenços, um pente, pomada de cabelo e outras quinquilharias.

Azarenta foi ao forno.

-Querida mulherzinha da sina, eis aqui um bolo para ti…

A mulher da sina, que entrementes já se havia tornado um pouco mais meiga, achegou-se, resmungando, para receber o pão. Nesse momento, Azarenta se lançou em cima dela, agarrou-a e passou a lavá-la com esponja e sabão, a penteá-la e a vestir a velha, da cabeça aos pés, de roupa nova. A velha, que inicialmente se havia torcido como uma cobra, mudava a olhos vistos seu comportamento quando viu como ela brilhava de tanto asseio.

-Escuta, Azarenta – disse ela -, porque tu foste tão boazinha comigo, eu te dou esta caixinha.

E ela lhe deu uma caixinha que era tão pequena quanto uma caixinha de fósforos. Azarenta correu de volta para a casa de D. Francisca e abriu a caixinha. Nela estava um pequenino pedaço de debrum. As duas ficaram um pouco desapontadas.

-Oh, ela é realmente muito generosa… – disseram; e guardaram o debrum na última gaveta de uma cômoda.

Na semana seguinte, quando dona Francisca levou a roupa ao castelo, ela encontrou o príncipe de péssimo humor. A lavadeira, que estava bem familiarizada com o príncipe, perguntou:

-O que se passa, príncipe?

-Devo me casar, mas agora ocorre que no vestido de noiva falta um pequenino pedaço de debrum. E em todo o reino não é possível encontrar o mesmo desenho de debrum.

-Esperai, majestade – disse dona Francisca.

Correu para casa, procurou a caixinha na cômoda e levou ao príncipe o pequenino pedaço de debrum. Compararam-no com o desenho do debrum do vestido de noiva e ele coincidia exatamente. O príncipe disse:

-Como tu me salvaste de tal constrangimento, eu quero pagar o debrum a peso de ouro.

Buscou uma balança, colocou o debrum em um dos pratos e no outro o ouro. Porém, o ouro jamais era suficiente. Quis pesar mais uma vez, noutro tipo de balança, uma de tipo romano: mais uma vez se deu o mesmo resultado.

-Dona Francisca, contai-me a verdade. Como é possível um pedaço de debrum pesar tanto? De quem o ganhastes?

Dona Francisca, quer quisesse, quer não, teve de contar tudo  e o príncipe quis ver Azarenta.

A lavadeira aconselhou-a a vestir-se com muita beleza – com as peças que com o tempo elas haviam guardado – e levou a moça ao castelo. Azarenta entrou no aposento do príncipe e fez diante dele uma profunda reverência, pois ela era a filha de um soberano e não lhe faltava uma boa educação. O príncipe saudou-a e, oferecendo-lhe um lugar, perguntou:

-Quem és tu em verdade?

Azarenta disse:

-Sou a filha mais nova do rei da Espanha, que foi expulso de seu trono e tornado prisioneiro. Minha má sina obrigou-me a vagar pelo mundo e a suportar toda sorte de grosserias, desrespeito e pancadas.

E contou todas as suas experiências. Então, em primeiro lugar, o príncipe mandou buscar as tecelãs, às quais a má sina havia cortado a seda e o debrum.

-E qual foi o vosso prejuízo?

-Duzentas pratas.

-Aqui tendes as duzentas pratas. Sabei que esta moça em quem batestes é uma princesa. Não esqueçais! Desaparecei daqui depressa!

Depois ele mandou que trouxessem os donos do armazém, a quem a má sina havia esvaziado os tonéis.

-E qual foi o vosso prejuízo?

-Trezentas pratas.

-Aqui tendes as trezentas pratas. A próxima vez, porém, pensai duas vezes antes de surrar uma princesa. Fora daqui!

Em seguida, ele desmanchou o noivado com a sua primeira noiva e se casou com Azarenta. Como dama de honra, deu-lhe D. Francisca.

Então chegaram notícias do que havia acontecido à mãe de Azarenta. Quando sua filha mais nova partiu, a roda da sorte começou a girar em seu favor. Um belo dia chegaram seu irmão e seus sobrinhos à frente de um forte exército. Eles reconquistaram o reino. A rainha voltou com suas filhas para o castelo, onde novamente passaram a viver com todo o conforto de antes, embora a mãe vivesse atormentada pela lembrança da filha mais nova, de quem ela não sabia quase nada.

O príncipe, quando soube que a mãe de Azarenta retomara seu reino, enviou seus mensageiros e mandou dizer a ela que havia se casado com sua filha. Encantada, a mãe se pôs a viajar, acompanhada de cavaleiros e damas de honra. Também acompanhada de cavaleiros e damas de honra, a filha foi alcançá-la. Encontraram-se na fronteira e se abraçaram por muito tempo. Muito comovidas, as seis irmãs acompanharam a cena. E nos dois reinos houve uma grande festa.

Os sapatinhos vermelhos


Era uma vez uma pobre órfã que não tinha sapatos. Essa criança guardava os trapos que pudesse encontrar e, com o tempo, conseguiu costurar um par de sapatos vermelhos. Eles eram grosseiros, mas ela os adorava. Eles faziam com que ela se sentisse rica, apesar de ela passar seus dias procurando alimento nos bosques espinhosos até muito depois de escurecer.

Um dia, porém, quando ela vinha caminhando com dificuldade pela estrada, maltrapilha e com seus sapatos vermelhos, uma carruagem dourada parou ao seu lado. Dentro dela, havia uma senhora de idade que lhe disse que ia levá-la para casa e tratá-la como se fosse sua própria filhinha. E assim lá foram elas para a casa da rica senhora, e o cabelo da menina foi lavado e penteado. Deram-lhe roupas de baixo de um branco puríssimo, um belo vestido de lã, meias brancas e reluzentes sapatos pretos. Quando a menina perguntou pelas roupas velhas, e em especial pelos sapatos vermelhos, a senhora disse que as roupas estavam tão imundas e os sapatos eram tão ridículos que ela os jogara no fogo, onde se reduziram a cinzas.

A menina ficou muito triste, pois, mesmo com toda a fortuna que a cercava, os modestos sapatos vermelhos feitos por suas próprias mãos haviam lhe dado uma felicidade imensa. Agora, ela era obrigada a ficar sentada quieta o tempo todo, a caminhar sem saltitar e a não falar a não ser que falassem com ela, mas uma chama secreta começou a arder no seu coração e ela continuou a suspirar pelos seus velhos sapatos vermelhos mais do que por qualquer outra coisa.

Como a menina tinha idade suficiente para ser crismada no dia do sacramento, a senhora levou-a a um velho sapateiro aleijado para que ele fizesse um par de sapatos especiais para a ocasião. Na vitrina do sapateiro havia um par de lindíssimos sapatos vermelhos do melhor couro. Eles praticamente refulgiam. Pois, apesar de sapatos vermelhos serem escandalosos para se ir à igreja, a menina, que só sabia decidir com seu coração faminto, escolheu os sapatos vermelhos. A vista da velha senhora era tão fraca que ela, sem perceber a cor dos sapatos, pagou por eles. O velho sapateiro piscou para a menina e embrulhou os sapatos.

No dia seguinte, os membros da congregação ficaram alvoroçados com os sapatos da menina. Os sapatos vermelhos brilhavam como maçãs polidas, como corações, como ameixas tingidas de vermelho. Todos olhavam carrancudos. Até os ícones na parede, até as estátuas não tiravam os olhos reprovadores dos sapatos. A menina, no entanto, gostava cada vez mais deles. Por isso, quando o bispo começou a salmodiar, o coro a cantarolar, o órgão a soar, a menina não achou que nada disso fosse mais belo que os seus sapatos vermelhos.

Antes do final do dia, a velha senhora já estava informada dos sapatos vermelhos da sua protegida.

— Nunca, nunca mais use esses sapatos vermelhos!  — ameaçou a velha. No domingo seguinte, porém, a menina não conseguiu deixar de preferir os sapatos vermelhos aos pretos, e ela e a velha senhora caminharam até a igreja como de costume.

À porta do templo estava um velho soldado com o braço numa tipóia. Ele usava uma jaqueta curta e tinha a barba ruiva. Ele fez uma mesura e pediu permissão para tirar o pó dos sapatos da menina. Ela estendeu o pé, e ele tamborilou na sola dos sapatos uma musiquinha compassada que lhe deu cócegas nas solas dos pés.

— Lembre-se de ficar para o baile — disse ele, sorrindo e piscando um olho para ela.

Mais uma vez, todos lançaram olhares reprovadores para os sapatos vermelhos da menina. Ela, no entanto, adorava tanto esses sapatos que brilhavam como o carmim, como framboesas, como romãs, que não conseguia pensar em mais nada, que mal prestou atenção no culto. Estava tão ocupada virando os pés para lá e para cá para admirar os sapatos que se esqueceu de cantar.

— Que belas sapatilhas!  — exclamou o soldado ferido quando ela e a velha senhora saíam da igreja. Essas palavras fizeram a menina dar alguns rodopios ali mesmo. No entanto, depois que seus pés começaram a se movimentar, eles não queriam mais parar; e ela atravessou dançando os canteiros e dobrou a esquina da igreja até dar a impressão de ter perdido totalmente o controle de si mesma. Ela dançou uma gavota, depois uma csárdás e saiu valsando pelos campos do outro lado da estrada.

O cocheiro da velha senhora saltou do seu banco e correu atrás da menina. Ele a segurou e a trouxe de volta para a carruagem, mas os pés da menina, nos sapatos vermelhos, continuavam a dançar no ar como se ainda estivessem no chão. A velha senhora e o cocheiro começaram a puxar e a forçar, na tentativa de arrancar os sapatos vermelhos dos pés da menina. Foi um horror. Só se viam chapéus caídos e pernas que escoiceavam, mas afinal os pés da menina se acalmaram.

De volta à casa, a velha senhora enfiou os sapatos vermelhos no alto de uma prateleira e avisou a menina para nunca mais calçá-los. No entanto, a menina não conseguia deixar de olhar para eles e ansiar por eles. Para ela, eles eram o que havia de mais lindo no planeta.

Não muito tempo depois, o destino quis que a velha senhora caísse de cama e, assim que os médicos saíram, a menina entrou sorrateira no quarto onde eram guardados os sapatos vermelhos. Ela os contemplou lá no alto da prateleira. Seu olhar tornou-se fixo e provocou nela um desejo tão forte que a menina tirou os sapatos da prateleira e os calçou, na crença de que eles não lhe fariam mal algum. Só que, no instante em que eles tocaram seus calcanhares e seus dedos, ela foi dominada pelo impulso de dançar.

E saiu dançando porta afora e escada abaixo, primeiro uma gavota, depois uma csárdás e em seguida giros arrojados de valsa em rápida sucessão. A menina estava num momento de glória e não percebeu que enfrentava dificuldades até que teve vontade de dançar para a esquerda e os sapatos insistiram em dançar para a direita. Quando ela queria dançar em círculos, os sapatos teimavam em seguir em linha reta. E, como eram os sapatos que comandavam a menina, em vez do contrário, eles a fizeram dançar estrada abaixo, atravessar os campos enlameados e penetrar na floresta soturna e sombria.

Ali, encostado numa árvore, estava o velho soldado de barba ruiva, com o braço na tipóia e usando sua jaqueta curta.

— Puxa — disse ele —, que belas sapatilhas!

Apavorada, a menina tentou tirar os sapatos, mas por mais que puxasse, eles continuavam firmes. Ela saltava primeiro num pé, depois no outro, para tentar tirá-los, mas o pé que estava no chão continuava dançando assim mesmo e o outro pé na sua mão também fazia seu papel na dança.

E assim, ela dançava e dançava sem parar. Por sobre os montes mais altos e pelos vales afora, na chuva, na neve e ao sol, ela dançava. Ela dançava na noite mais escura, no amanhecer e continuava dançando também ao escurecer. Só que não era uma dança agradável. Era terrível, e não havia descanso para a menina.

Ela entrou no adro de uma igreja e ali um espírito guardião não quis permitir que ela entrasse.

— Você irá dançar com esses sapatos vermelhos — proclamou o espírito — até que fique como uma alma penada, como um fantasma, até que sua pele pareça suspensa dos ossos, até que não sobre nada de você a não ser entranhas dançando. Você irá dançar de porta em porta por todas as aldeias e baterá três vezes a cada porta. E, quando as pessoas espiarem quem é, verão que é você e temerão que seu destino se abata sobre elas. Dancem, sapatos vermelhos. Vocês devem dançar.

A menina implorou misericórdia mas, antes que pudesse continuar a suplicar, os sapatos vermelhos a levaram embora. Ela dançou por cima das urzes, através dos riachos, por cima de cercas-vivas, sem parar. Ainda dançava quando voltou à sua antiga casa e viu pessoas de luto. A velha senhora que a havia abrigado estava morta. Mesmo assim, ela passou dançando. Dançava porque não podia deixar de dançar. Totalmente exausta e apavorada, ela entrou dançando numa floresta onde morava o carrasco da cidade. E o machado na parede começou a tremer assim que pressentiu que ela se aproximava.

— Por favor! — implorou ela ao carrasco quando passou pela sua porta. — Por favor, corte fora meus sapatos para me livrar desse destino horrível.

O carrasco cortou fora as tiras dos sapatos vermelhos com o machado, mas os sapatos não se soltaram dos pés da menina. Ela se lamentou, então, dizendo que sua vida não valia mesmo nada e que ele deveria amputar-lhe os pés. Foi o que ele fez. Com isso, os sapatos vermelhos com os pés neles continuaram dançando floresta afora e morro acima até desaparecerem. A menina era, agora, uma pobre aleijada e teve de descobrir um jeito de sobreviver no mundo trabalhando como criada. E nunca mais ansiou por sapatos vermelhos.

Mulheres Que Correm Com Os Lobos
Mitos e Histórias dos Arquétipos da Mulher Selvagem
Clarissa Pinkola Estés
Editora Rocco

Ensaios sobre a calma

Eu não fui uma criança tranquila, da minha infância tenho algumas recordações marcantes de como eu era curiosa. Lembro-me bem de como enchia meu pai de perguntas.

Meu pai às vezes perdia a paciência, minha irmã se irritava “não seja tão curiosa!”, um conselho praticamente impossível de se seguir, ainda mais quando se é criança. Eu queria saber e entender de tudo! Com o tempo aprendi a buscar as respostas sozinha. Nessa ânsia para encontrá-las, desmontava e remontava brinquedos, virava horas montando quebra-cabeças, devorava livros e, com os olhos grandes e redondos que herdei de minha mãe, observava tudo com muita atenção.

Minha curiosidade cresceu, e junto à ela, veio uma grande inquietação, que sempre me movia a buscar mais e mais. Eu não acho que ser curiosa é algo ruim, pelo contrário, mas minha curiosidade rapidamente aliou-se à muita ansiedade. No intuito de saciar toda aquela energia, meus pais me mantinham sempre ocupada. Eu nadava e competia desde cedo, jazz, sapateado e inglês. 

Sempre tive pressa, ao contrário de mim, meu pai sempre foi um homem calmo, tranquilo, planejador. Os nossos tempos eram descompassados e ficaram ainda mais no seu último ano de vida. Ele se incomodava com a minha personalidade enérgica, falante e rápida. Eu lembro que entrava na casa dele falando e gesticulando sem parar e ele me pedia calma. 

Foi desassossegadamente que caminhei pela vida durante anos e de certa maneira sou grata à isso, pois a pressa me fez continuar sempre, me trouxe aprendizados, conhecimento, me fez alcançar objetivos diversos, viajar e correr o mundo, e buscar sempre o novo: uma nova maneira de olhar o mundo, de me relacionar, de encarar a vida. Mas com essa pressa toda era impossível parar para absorver e digerir tudo que eu vivia.

A doença do meu pai me trouxe profundas reflexões sobre a calma. Tinha dias que eu o observava, sentado, lendo, emagrecido, sem sair de casa e com um semblante tranquilo, parecia que era com a mesma calma que a vida lhe escorria pelos dedos. Eu tentava entender como era viver naquele tempo dele, que estava tão descompassado do meu. Quando lhe perguntava sobre como eram seus dias, ele me dizia sobre a importância de ser paciente e de como as horas passavam de maneira diferente para os atarefados e para quem tinha tempo de sobra. E o que eu queria mesmo era parar o tempo.

Entre tudo que ele me ensinava, ele sempre me pedia calma. Muitas das nossas discussões eram em torno disso. “Calma, minha filha, você é muito rápida!”. O que ele não entendia é que eu não tinha calma e o seu adoecimento me deixava com muita pressa. Era difícil de vencer os dias pensando em tudo que eu tinha para dizer e queria dizer para ele e pensando se seria suficiente, será que não surgiriam novos assuntos? Com pressa, eu tentava falar mais rápido para caber tudo naquele curto espaço de tempo que nos restava e antecipar todos os assuntos e dúvidas que viessem um dia a surgir. Tinha tanta coisa que eu queria falar e ouvir. Tantas perguntas que sei que ficariam sem respostas. Então, eu tentava prever todos os assuntos do futuro e queria acelerar o passo para que pudesse viver mais coisas e compartilhar com ele o máximo possível da minha vida. Não tem como ter calma quando seus dias com a pessoa mais importante da sua vida estão contados.

Em dezembro de 2014 senti que essa pressa toda me pesava na alma, me dei conta de que vinha carregando em minha bagagem muito peso extra, a doença de meus pais me consumira, e foi então que resolvi olhar com calma para esse sentimento de cansaço que se apresentava. Senti um cansaço de alma. Senti uma tristeza profunda. Assim, antes de terminar o ano, sentei-me à beira do mar e sob a luz do sol poente fiz uma lista de tudo que me pesava, tentei escutar o que minha pressa me dizia. E finalmente decidi que era hora de aprender sobre a calma.

Os meses seguintes me trouxeram esse aprendizado. Meu pai ficou quase dois (longos) meses internado e todos os dias eu ia para o hospital e me sentava ao seu lado, lá passava horas calada e imóvel. Já não havia espaço para palavras. Era inútil falar sobre qualquer assunto, era inútil ter pressa. Pois nada, nenhum assunto tem importância diante da morte. Então é preciso parar, é preciso ter calma.

O tempo no hospital, como meu pai mesmo havia me dito, passava diferente de como eu estava acostumada. O tempo da despedida é um tempo também descompassado, onde o futuro desvanece-se, onde o passado fica borrado em meio às lágrimas e onde cada batida dos ponteiros traz a dura certeza de que somos pequenos e insignificantes diante da infinitude do Universo e da finitude da vida; a certeza de que nem toda a curiosidade do mundo, nem toda a pressa, nem todos os brinquedos que desmontei, nem os quebra-cabeças que montei ou os livros que li, nem os lugares por onde andei, nada disso me serviu quando tive que sentar ao lado de meu pai, segurar-lhe a mão já fria e pacientemente contemplar a vida que, agora com pressa, lhe esvaia junto às batidas rápidas dos ponteiros do relógio.

Durante o tempo que meu pai esteve internado, aprendi que a pressa não me servia, a vida deve ser pacientemente degustada. Aprendi também que muitas perguntas ficam mesmo sem respostas, não tem como questionar a morte. A morte não responde à nenhum “Por quê?” ou “Como?”. Na despedida final, permaneci calma ao seu lado, nossos corações finalmente pareciam ter acertado o compasso, era como se o tempo tivesse parado, e lá no fundo ainda podia ouvir a voz de meu pai, que para sempre me pediria:

“- tenha calma, minha filha!”

pai

Os dispostos se atraem

O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração. Os gregos, mais sensíveis do que nós, tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio – embora eles não tivessem relógios como os nossos – eles davam o nome de chronos. O pêndulo do relógio oscila numa absoluta indiferença à vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilhão, indiferente à vida e à morte, ao riso e ao choro. Agora os cronômetros partem o tempo em fatias ainda menores, que o corpo é incapaz de perceber. Centésimos de segundo: que posso sentir num centésimo de segundo? O tempo do relógio é indiferente às tristezas e alegrias.

Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão dos cronômetros. Suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Por vezes tranqüilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo amor. Dá saltos. Tropeça. Trina. Retoma à rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de kairós. Chronos é um tempo sem surpresas: a próxima música do carrilhão do relógio de parede acontecerá no exato segundo previsto. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música vai soar.

Rubem Alves em O AMOR QUE ACENDE A LUA – Um caso de amor com a vida.

Tenho um grupo de amigas muito queridas e de longa data, a vida nos colocou em caminhos diferentes, porém sempre que possível tentamos nos reunir para celebrar nossa amizade e colocar a conversa em dia. Nos últimos meses têm sido extremamente difícil de conseguir uma data em que todas possam participar. No começo do ano, fiz algum movimento no sentido de manter nossos encontros mais constantes e, ao ver que isso me estava exigindo esforço, resolvi não mais insistir.

Esses dias uma delas fez outra tentativa e logo começaram as falas de incompatibilidade de agendas e falta de tempo. Então disse que havia desistido de tentar, que nossa amizade não mudaria, mas não vejo sentido em desprender tanta energia e esforço para encontrar alguém, entendo que temos estilos e ritmos de vida totalmente diferentes, mas para mim, no fundo mesmo apenas falta vontade. Claro, minha sinceridade provocou certo desconforto entre todas, para elas eu estava sendo intolerante, mas eu fui apenas honesta.

Certamente o fato de ser tão difícil de nos encontrarmos não muda o que sinto por elas, mas eu quero mesmo é me cercar de pessoas disponíveis. Pessoas disponíveis são aquelas que enviam e respondem mensagens, que atendem ou retornam ligações, que ligam, que aceitam convites e fazem questão de ir, que convidam e fazem questão que eu vá, que perguntam e respondem, que se interessam, que compartilham experiências e sorrisos, que olham no olho, que sabem o valor de ter e ser uma boa companhia; são pessoas que estão disponíveis para celebrar a vida.

Estar disponível não é abrir mão de sua vida em prol do outro, não é ficar à mercê e esperando por ele, é apenas se abrir para viver aquele encontro que se apresenta de maneira leve e despretensiosa, por inteiro. 

Estar disponível é estar presente e estar presente é de fato o maior presente que podemos dar e receber de alguém. Disponibilidade é desacelerar os ponteiros do relógio, é transformar Chronos em Kairós, é imprimir pequenos fragmentos de tempo no coração e construir elos que nos fazem melhores para a vida e para o mundo.

Tatiana na janela

Em 2010 quando o dono do apartamento que eu alugava colocou-o a venda, resolvi voltar para casa do meu pai temporariamente. Mas, o que era para ser temporário se transformou em um período de cinco anos. Nesse tempo meus irmãos já moravam em outras cidades, meu pai se mudou para morar com minha madrasta. Todas as coisas que meus irmãos e meu pai não usavam, porém não queriam se desfazer estavam naquele apartamento. Era muita coisa sem utilidade ou uso e tinha muita coisa minha. Aos poucos comecei a limpar e arrumar a desordem da casa.

Dizem que para você saber se a vida de uma pessoa está “nos eixos” você deve olhar para seu guarda-roupa. E eu diria que o inverso também pode valer, ou seja, se você quiser colocar sua vida “nos eixos”, comece por arrumar seu guarda-roupa. Foi por lá que comecei. Aos poucos virei quase uma profissional de “fazer limpas”. O mais difícil disso é que não é simplesmente pegar tudo e jogar fora, é preciso cautela para olhar coisa por coisa e dar uma destinação correta para cada uma.

Passei muitos meses me desfazendo de tudo e organizando a casa. Gaveta por gaveta, prateleira por prateleira, todas as pastas, os livros, os papéis, aliás muitos papéis. Aproveitei também para limpar meu carro, as bolsas e os bolsos. Estendi para minha vida virtual: álbum de fotos, folders, caixas de e-mail, contas em desuso. Cada canto da minha vida recebeu uma boa limpeza. Nesse período foi bom olhar para o coração, nele também é possível de se acumular mágoas, dores e muita carga extra que também precisam encontrar uma destinação correta.

Somos uma geração de acumuladores. Acho que nunca na história da humanidade o homem acumulou tanto. Nós acumulamos tudo. E não paramos de acumular nunca. E quando prestei mais atenção nisso pude entender como estamos vivendo em um mundo com tanta desordem. 

O meu processo se intensificou quando finalmente mudei para meu apartamento. Mudança de casa é algo que dá trabalho, porém renovador. Quando fiz a mudança me certifiquei de deixar algumas gavetas vazias na casa nova, porque era um pouco assim que me sentia, porque eu quero deixar espaço para o novo entrar.

Me mudei com o coração vazio, pois foi logo que meu pai faleceu e minha mãe foi morar com minha irmã em Manaus. Por ser uma  longa viagem, ela levou quase nada. E eu, que havia acabado de organizar a minha bagunça, me vi novamente cercada de coisas. E não era pouca coisa ou coisas sem importância. Era toda a vida material da minha mãe. Tudo que ela acumulou estava em minhas mãos. Meu pai sempre me dizia para que eu doasse duas peças de roupa para cada uma que comprasse. Ele era um cara extremamente econômico e organizado. Ainda assim, a gente acumula coisas. E agora que ele se foi, minha mãe se foi, restou tudo que eles acumularam em minhas mãos.

O problema do que acumulamos não são as bugigangas em si, essas são até fácil de dar destinação, o complexo nos acúmulos são as lembranças que ficam impressas em cada objeto, isso faz com que algumas coisas tenham valor difícil de mensurar. É mesmo um processo dolorido esse de fazer limpas, é como se eu estivesse a desempoeirar o passado, a reviver cada memória, toda nossa história. E no caso das coisas deles, quanta história que ficou impressa e que eu sozinha não saberei contar.

É fácil doar os utensílios domésticos e as roupas de cama, mas é difícil encaixotar algumas coisas, como os antigos álbuns de fotos. Consegui dar destinação para muitas miudezas, mas ainda não sei o que fazer com os dentes de leite que meu pai guardou em um potinho de filme etiquetado com o nome de cada filho. Rasguei muitos papéis, mas me detive ao encontrar por entre as coisas dele a passagem da minha primeira viagem internacional em vôo solo.

E por ser algo assim tão minucioso, levei quase dois meses só para esvaziar o apartamento da minha mãe (e ainda não consegui organizar as coisas do meu pai). Hoje finalmente consegui tirar as últimas caixas de lá. Meu coração ficou pequeno e não contive as lágrimas diante daquele apartamento vazio, mas que guarda tanta memória.

No ano em que nasci, meu pai comprou em minha homenagem um quadro chamado “Tatiana na janela”. Sempre gostei muito dele. O nome do quadro é bem literal: uma menina de costas olhando pela janela. Cresci olhando para ele e imaginando o que a menina Tatiana estava contemplando daquela janela. Quando meus pais se separaram o quadro ficou para minha mãe. Hoje ele virou meu. E agora pendurei-o na parede do meu quarto que é para acordar todos os dias e contemplar o mundo através da janela de Tatiana; e lembrar sempre que, apesar da pintura me agradar muito, a vida é mesmo feita de momentos e memórias e que as melhores coisas da vida, de fato, não são coisas.

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ReLOVution

REVOLUTION-CAPA

“Pessoalmente, desejo que o século XXI seja chamado de “século do amor”, porque necessitamos desesperadamente de amor, o tipo de amor que não produz sofrimento. Se não tivermos suficiente bondade e compaixão, não seremos capazes de sobreviver enquanto planeta. Há um Buda que supostamente nascerá para nós chamado Maitreya ou Bondade Amorosa, o Buda do Amor. Cada um de nós é uma célula no corpo do Buda do Amor.”

Thich Nhat Hanh no livro Eu Busco Refúgio na Sangha – um caminho espiritual

O século XXI segundo o monge budista Thich Nhat Hanh será marcado pela busca espiritual. Segundo ele, o século XX que foi marcado pelo individualismo, violência, confusão e medo, e nós temos uma grande missão para esse novo século: trazer consciência e atenção para nossas escolhas e atos, fazer com o coração. E é no coração que mora o remédio para salvar o mundo que está em um sentimento bem simples, mas que engloba uma complexidade enorme em si, o amor.

Se quisermos mesmo viver em um mundo melhor precisamos também com urgência, ressignificar o amor. O amor ou afeto, como dizem os psicólogos, é um dos sentimentos primordiais do ser humano, é instintivo, assim como todos os outros seres do planeta, nascemos programados para amar, isso está em nosso DNA. Mas o amor de hoje não é o mesmo que Jesus pregava, que o budismo se refere, o amor de Eros na mitologia Grega. Esse amor (juntamente com muitas outras palavras) é erroneamente confundido com outros sentimentos, e tornou-se tudo, menos amor.

O amor é um sentimento inerente ao ser humano, um bebê já nasce instintivamente amando e buscando a face da mãe, e sem nunca antes tê-la visto, ele já sabe reconhecê-la. Darwin quando escreveu a “Descendência do Homem” mencionou duas vezes a sobrevivência do melhor e 95 vezes a palavra amor. Mas Darwin, assim como muitos outros, foi mal interpretado, ou melhor, interpretado para ser utilizado como instrumento de domínio. A religião também fez esse papel, a essência da palavra pregada por Jesus ou Maomé é de amor puro e cooperação, não é de punição, nem pecado, nem sofrimento, nem guerra.

Os contos, livros e filmes fizeram seu papel construindo o mito do amor romântico e, ao mesmo tempo que isso é belo e “feliz para sempre” na ficção, na vida real é um tanto utópico. A maneira como as sociedades foram se organizando e criando uma gama de polarizações ao longo dos séculos acabaram por condicionar o amor. Hoje em dia fatores como crenças, religião, cor da pele, traços culturais, opção sexual, posicionamento político, aparência física e dinheiro são condições para amar e ser amado.

E assim, por buscarmos algo tão utópico e condicionado, amar hoje pode gerar muito sofrimento criando pessoas angustiadas, ansiosas, inseguras, deprimidas, que se sentem rejeitadas. O sentimento de posse que permeia os relacionamentos “românticos” é uma espécie de “cereja do bolo” na receita de um relacionamento fadado a ruir. O século mudou, o estilo de vida mudou, o mundo está em profunda “ebulição”, as sociedades estão se reorganizando com uma rapidez absurda, as distâncias encurtaram, está mais do que na hora de inventarmos também uma nova maneira de amar.

Para trazer mudança nesse padrão, inicialmente precisamos reaprender a amar nossas crianças. Ensiná-las a amar. Uma criança que cresce sentindo-se rejeitada, sem amor e acolhimento, torna-se um adulto inseguro e dessensibilizado. Uma criança que cresce sem referências de amor autêntico, tem dificuldades para amar e muito medo, aprende logo cedo que amar é sofrer e recria esse padrão constantemente em sua vida e acredita que amor exige de sua parte muito esforço. Mas o amor mesmo vem de graça, sem grandes esforços e sem sofrimento, ele apenas é.

Também precisamos amar a nós mesmos, é um clichê que poucos realmente seguem, sim amar a si próprio, aprender a perdoar-se, a ser menos crítico e mais gentil com nossas imperfeições e a aprender a amá-las também. Depois que nós nos amamos tudo fica mais leve, também o amor pelo outro fica mais leve. Quando entendemos que todos nós somos passíveis de sermos amados e merecedores de receber amor de graça pelo (muito) que somos, todos os relacionamentos se tornam mais leves. Antes de amar o outro, é preciso que também nos tornemos pessoas mais fáceis de serem amadas.

Nesse contexto atual, drenamos do amor o seu elemento primordial e que o torna tão especial: a liberdade. A liberdade de apenas ser, a liberdade de escolher, a liberdade de fluxo e movimento, a liberdade de viver livre de sofrimentos e apegos. Sim, o amor é a lei maior, o remédio para todos os nossos males e só ele pode salvar o mundo, mas antes que o amor possa revolucionar o mundo, precisamos ainda revolucionar o amor.

Um sonho de liberdade

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Após um longo período de “reclusão”, ontem quis sair para dançar. A noite é um ambiente que te faz perder a fé no amor e nas pessoas. Hoje em dia, para mim, é um ambiente hostil, completamente desprovido de amor. Nesse período “reclusa”, aprendi muita coisa sobre mim e ao olhar com mais cuidado para a maneira como nos relacionamos, escutando nossos discursos com mais atenção, descobri muita escassez. Falta amor, falta cuidado, falta verdade, falta diálogo.

É triste que nossas grandes decepções venham justamente de nosso lado mais bonito que é essa capacidade e vontade de amarmos e sermos amados. Mas, entendi que estamos fazendo isso de maneira equivocada. Sim, cada um aceita o amor que acha que merece, portanto sei que não posso mudar isso no outro, mas tenho 100% de responsabilidade perante a maneira como escolho me relacionar, o que dou e o que aceito.

Os discursos são todos muito parecidos, as histórias também. Onde falta amor e cuidado para com si e para com o outro, sobra muita incoerência. Sobram também rótulos. As mulheres discursam sobre os homens e os homens sobre as mulheres. E entristece-me ver a quantidade de migalhas que damos e que aceitamos.

A verdade é que, todo mundo já foi descuidado com o coração do outro ou sofreu por causa do outro. E ao olhar para tantos corações partidos, e para o meu próprio coração que também já foi partido, me dei conta de que estava me fazendo as perguntas erradas. Se pensarmos bem dá para substituir o “por que ele/ela me fez sofrer?” por “por que coloco na mão do outro a responsabilidade de me fazer feliz?”. Não dá para achar que a felicidade é algo tão simples assim que possa vir de fora. Não dá para superestimar os relacionamentos e viver achando que a felicidade mora no outro.

Me parece um erro dizer “não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você”. Nós não temos controle sobre como o outro vai agir ou nos tratar, então não dá para agir sempre pautado pelo que o outro faria e viver esperando que o outro faça por você algo que só você mesmo pode fazer por você. Colocamos no outro uma responsabilidade que é tão somente nossa. A felicidade é uma escolha consciente que deve ser feita todos os dias. E se o outro faz algo que pode te fazer sofrer, você ainda tem escolha de como se sente em relação à isso.

Houve um tempo em que as escolhas eram muito limitadas ou quase nulas. A regra era casar e ter filhos. Hoje nos foi dado poder de escolha, é difícil falar nesse assunto sem parecer conservadora. Vejo que muitos papéis foram invertidos, que estamos confusos nessa busca, e principalmente que ter muita opção é quase igual a não ter escolha alguma. Então é preciso retomar alguns valores que foram perdidos. É preciso mais cuidado para consigo mesmo e para com o outro. Se engana quem acha que liberdade tem a ver com status de relacionamento. O que observo é o contrário, muita gente solteira que está atada, presa à rótulos e fragmentos, vivendo de  migalhas.

A liberdade não tem a ver com estar solteiro ou não, mas sim com  ficar bem sozinho e mesmo assim escolher alguém para estar ao seu lado, em entender que somos responsáveis por  nossas escolhas e pela nossa própria felicidade,  e nesse processo não dá para confundir estar solteiro com estar bem sozinho.

Para mim, não existe alegria em tratar pessoas como se fossem descartáveis, muito menos em se fazer descartável. Não tem nada de alegre em viver constantemente viciado na busca e não no encontro, não existe alegria em palavras rasas, sem olho no olho, sem propósito, em promessas vazias. Somos uma geração que vive de raspas e restos e confunde isso com liberdade, sem enxergar que a verdadeira liberdade está mesmo na escolha de sermos inteiros para nós, para o outro, para o mundo.

Da morte, da solitude e do vazio

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Existe no português uma palavra chamada solitude, que diferente de solidão é uma solidão voluntária, escolhida, desejada. Nós não somos muito acostumados a ligar vontade com solidão, por isso a palavra solitude é pouco usada. É meio óbvio pensar que as sociedades antigas só podiam dar nomes àquilo que elas viam ou que existia, pois é essencialmente da necessidade de dar nome e sentido às coisas que nasceram as palavras. Por isso ela existe não apenas no português, como também no inglês, e em muitas outras línguas.

Mas estão aí os dicionários a misturar sentidos e neles “solus” em Latim vem do ato de estar/sentir-se sozinho trazendo em si uma conotação meio triste, talvez porque a solitude contenha também certa melancolia em si. A verdade é que ninguém nos ensina sobre a tristeza, que é um dos nossos sentimentos primários*. As escritas, as religiões e a economia se encarregaram de transformar a felicidade em “commodity”, algo rentável incentivando assim uma busca excessiva por ela, e nessa busca não podemos dar espaço para algo (tão precioso) como a tristeza, ou entender que a vida é feita de ciclos e que devemos vivê-los inteiramente com a sabedoria de que não são eternos, pois tudo na vida é impermanente. A desconstrução faz parte de nosso crescimento e ela só nasce na tristeza. E acima de tudo isso, nós precisamos nos libertar das polaridades e aprender a substituir o “ou” pelo “e”, uma coisa sempre complementa a outra, sendo assim nós não somos felizes ou tristes, nós somos felizes e somos também tristes.

Se a solitude é melancólica, é também ela que dá força ao processo de morte e ressurreição; que dá beleza à arte; que os poetas declamam; que os músicos cantam; que os grandes filósofos tentam há anos entender; que a psicologia entende; que dá sentido ao ditado “antes só do que mal acompanhado”; que clama para que “conheça-te a ti mesmo”; é ela que dá sentido à insignificância. Aprender que o copo não precisa estar meio cheio, nem meio vazio. Ele está apenas vazio.

Mas não aprendemos a encontrar alegria na tristeza, queremos ser apenas felizes, então não escutamos falar da morte, nem da tristeza e muito menos da solitude, pois isso tudo não cabe na felicidade. Mas a verdade mesmo é que só amando e conhecendo esses três grandes conceitos é que encontramos a felicidade. Não falamos de solitude, mas fala-se em meditação, essa é a palavra da moda e confesso que não vejo toda essa grandiosidade no ato em si, porque aprendi a reverenciar a solitude de diversas maneiras, para mim ela não mora apenas no ato de meditar. E finalmente eu acredito que aprendi a amar o encontro e não a busca. Por isso não preciso de livros, mestres e dizeres. Para mim basta escutar o vazio. Viver a solidão voluntária, escolhida, desejada, amada, sagrada. Aprendi a sentar no desconforto e enfrentá-lo. Ele. O nada. The void. Aquele que tanto nos amedronta, paralisa. E entendo também agora porque passei a vida toda fugindo desse vazio ou tentando preenchê-lo.

Enfrentar o vazio é mesmo um ato de coragem, muita coragem. Olhar para a morte, olhar para a tristeza, olhar para o vazio e encontrar beleza neles, requer muita coragem. E eu achava que tinha coragem de sobra, pois me senti corajosa em muitos momentos de minha vida. Mas hoje entendo que coragem é algo muito mais grandioso do que eu sentia, pois enfrentar o vazio requer algo maior, uma coragem que eu não sabia que existia e muito menos que eu poderia ter. É essa coragem que precisamos para enfrentar nossa própria sombra, para desviar das muitas distrações que o caminho traz, para enfrentar os olhos desconfiados dos que nos cercam e confundem solitude com isolamento; é preciso muita coragem para olhar a morte na cara e parar para sentir a dor dilacerante que emerge dela; para sentir-se vazio; precisamos de coragem para entender e amar a grandiosidade que existe em nossa completa insignificância. Uma coragem que vem do seu próprio significado: no Latim coragem deriva da palavra “cor”, que tem a mesma raiz que a palavra coração.

Uma das minhas passagens favoritas, que muito já citei, diz “um homem não é uma ilha isolada em si”, mas hoje discordo em partes. Somos ilhas porque somos únicos, porque o nosso mundo é inteiramente baseado no que experenciamos sozinhos, mesmo quando estamos cercados, mesmo quando nos distraímos, nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos, pois a experiência é única para cada ser. Ninguém nem nada pode nos tirar dessa condição de solitude, por tudo isso faz-se necessário conhecê-la e aprender a amá-la. O Budismo entende a beleza da solitude e usa a flor de lótus como uma bela analogia para isso. A flor de lótus nasce da lama do fundo da lagoa e é ali que ela encontra forças para crescer solitária e emergir na superfície e assim florescer. Uma vez que floresce nenhuma sujeira prende-se às suas pétalas que mantém-se sempre limpas e sua semente pode germinar novamente após longos períodos dormentes. Apesar de poder estar rodeada de outras flores, ela faz todo o processo em solitude.

E a busca, essa busca toda desenfreada, vem justamente da não apreciação dessa solitude, do medo que dá de vivê-la, da tentativa de preencher esse vazio. Mas ele está lá, sempre esteve e sempre estará. Todo mundo sente esse vazio, em maior ou menor escala, nas diferentes fases da vida, só não aprendemos ainda o que devemos fazer com ele. Então buscamos refúgio nas religiões, crenças, na medicina, nos outros para preenchê-lo sem lembrar que ele é o que nos faz humanos, únicos, isolados em nós mesmos.

Em seu recente livro “A festa da insignificância”, o grandioso e sábio escritor tcheco Milan Kundera nos convida a amar a insignificância e a insignificância traz o vazio em si. Insignificante é aquilo que é vazio de significado. E para aprender a amar o vazio, não precisamos ter posses, nem conhecimento de nada ou manual, aliás nem alfabetamento requer. Digo esse alfabetamento convencional, ler e escrever. Do contrário requer um profundo alfabetamento emocional, é preciso aprender a ler e escrever no vazio. Hoje olho para tudo que busquei um dia, e após minha tão recente experiência com a morte aprendi que é tudo tão mais simples do que eu pensava, a resposta está apenas em aprender a amar o vazio. Mas a sensação que tenho é que alguns amam mais a busca do que o encontro. Mas, há quem ame o encontro também. E o que posso dizer para estes é: escute o vazio, a tristeza, escute a morte. Porque tudo, tudo, tudo é insignificante diante dela. E mesmo assim a nossa libertação está em aprender a amá-la. E o vazio é aquilo que ela traz, é também o que nos faz maiores e melhores; pois é só o vazio que nos preenche.

“Agora, a insignificância me aparece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la.”
Milan Kundera em A Festa da Insignificância

*são consideradas por algumas linhas da psicologia como emoções primárias: medo, alegria, raiva, tristeza, afeto