Try a little tenderness

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“Ooh she may be weary
And them girls they do get weary
Wearing that same old shaggy dress
But when they get weary
[You gotta] try a little tenderness”

Sento solitária no chão frio da sala, a chuva cai la fora, a noite escura assola e reflito em tudo que eu deveria ter sido e não fui, deveria ter sido menos isso, mais aquilo. E perco tempo de vida precioso divagando sobre erros e passado, sobre a necessidade de me transformar em alguém que não sou, nem nunca fui, nem nunca serei.

Enquanto tempo e lágrimas escorrem incansáveis, faço uma pausa, respiro fundo e me acalmo: sou o que sou, o que deu para ser, fui o que tinha que ter sido. E se fui inteira, então fui meu melhor, mesmo que isso não baste aos outros. Além disso, nada que eu fale ou faça agora pode mudar o que já está feito.

Se perco energia pensando em tudo que poderia ter sido diferente, esqueço-me de viver e celebrar tudo aquilo que de fato foi.

E finalmente me dou conta do quanto sofremos, projetamos, fantasiamos enquanto deixamos de ficar com o que se apresenta para nós, com o que é, com o que somos, com tudo que nos trouxe até aqui. Naquele momento eu estava assim. Nem sempre fui meu melhor, mas certamente o melhor que consegui ser com os recursos que tinha.

O passado nos torna escravos, nossas feridas ferem também os outros, nossos medos nos paralisam, o que fomos, o que sofremos, o que sangramos muitas vezes nos impede de enxergar a beleza do novo que se apresenta diante de nós.

Desconfiados exigimos provas e certezas, queremos controle e garantias. Sem notar, perdemos boas oportunidades de felicidade, analisando-as, comparando-as com o que já vivemos, fantasiando com o que queremos que elas sejam. A dor me recorda que nunca tive nem terei controle de nada, que para ser inteira preciso correr o risco de me machucar. E as lágrimas que insistem em  cair me trazem esta única certeza e me convidam a estar presente.

Enquanto me condeno pelas escolhas que fiz, que me trouxeram até aqui, a sensação de que muitas vezes a vida segue repetidas vezes em um “loop” infinito, como um disco de vinil riscado, a letra de um antigo clássico me conforta.

Try a little tenderness.

Deixe ir. Viva o presente, com os recursos que você tem agora, abra-se para o novo, entenda que o novo nunca é igual ao que foi. Os erros não se repetem, são diferentes, com vivências diferentes que me trazem novos aprendizados.

Tente.

Com os meus processos na vida, com os processos dos outros. Para todas as falhas que foram e as que ainda estão por vir, só um pouco de ternura.

Tente.

Para os fim das linhas, os atalhos e encruzilhadas. Os caminhos tortos que percorremos. Para o cansaço e lágrimas. Para os novos começos.

Tente. 

O caminho só se faz ao caminhar. 

Então enxugo as lágrimas, me acalmo e decido tentar, só por hoje, só um pouco, de conforto, de afeto e ternura.

Try a litte tenderness

A vida ensina!

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Minha mãe não era de proferir ensinamentos e ditados como meu pai fazia, mas ela sempre repetia “a vida ensina”. Desde cedo eu lia muito, quando jovem possuía grandes e belas ideologias, queria e ainda quero um mundo melhor. Aos 18 anos lia pensadores densos como Marx e Hegel, prestei Filosofia na UFPR, era fã incondicional de Chico Buarque, na parede do meu quarto pendurei um pôster com a foto do Che que a tia de uma amiga trouxe para mim diretamente de Cuba, tamanha era minha paixão por sua luta. Fui presidente do Centro Acadêmico na Faculdade de Turismo na PUC e como presidente também fazia parte do DCE (Diretório Central de Estudantes) e participei de muitas votações e reuniões, na época sentamos com o reitor para debater contra o aumento das mensalidades. Ganhamos a causa.

Por tudo isso eu era uma jovem muito efusiva nas minhas crenças e ideologias, e na verdade acho que o papel do jovem é esse mesmo, trazer essa sede de mudança que encontramos nas grandes utopias. Enquanto jovem, tinha convicção das minhas lutas, me sentia politizada e achava que sabia tudo. Pensava que com a ajuda dos livros havia encontrado respostas para muitas das minhas perguntas. Dai veio a vida. Veio a vida e mudou todas as respostas e, junto com elas, as regras do “jogo”. Hoje entendo muito bem o que minha mãe queria dizer quando repetia continuamente como se fosse uma espécie de “punição” contra meus posicionamentos: a vida ensina.

Sim, ela ensina. O tempo e os anos de vida nos trazem uma sabedoria que não se encontra nos livros. Nenhum conhecimento é maior do que o conhecimento de causa daquilo que aprendemos “na pele”. É isso que faz uma pessoa de certa idade sábia, independente de letramento. E é essa sabedoria que me interessa. Hoje eu não troco ela pelo que acreditava saber quando tinha vinte e poucos anos.

A vida me colocou em contato com o socialismo da realidade e não dos livros. Passei quatro meses em trabalho voluntário em um Kibbutz em Israel e descobri que o socialismo na prática não funciona. Daí veio o que considero a sabedoria da vida, aprendi a pegar o que acredito e me serve da prática dele e deixar de lado o que existe nos livros. Os jovens dos Kibbutz em Israel também entenderam isso e criaram os “Moshav”, que é uma versão bem melhorada do sistema do Kibbutz. Depois fui levando esse mesmo “molde” de aprendizado para muitas outras ideologias. Um dia me desfiz do quadro do Che. 

A vida também me ensinou sobre hipocrisia, porque ela mesma se encarregou de me transformar em hipócrita. Muito do que você acredita e quer para o mundo cai por terra quando você é confrontado com situações bem controversas. 

A vida ensina. E, apesar de ainda ser jovem, já aprendi muita coisa. Aprendi com a vida sobre prudência, e a medir a altura do tombo; sobre a importância de cercar-me de boas companhias; sobre escolher de quais abismos devo me atirar e quais batalhas valem a pena travar; que ser feliz muitas vezes é melhor do que estar certo. Aprendi que meu corpo é sagrado e por isso não vou usá-lo para declarar “guerra” contra sistema algum, quero me preservar, quero tratá-lo com cuidado e gentileza. Autopreservação é de fato algo muito importante, por isso quero me proteger de pessoas e ambientes que considero hostis.

Aprendi que não tenho controle algum sobre como o outro vai me enxergar ou me receber, cada um me enxerga da maneira que quiser e não como eu acho que ele tem que me enxergar. Aliás, ninguém “tem que” nada. O que posso é escolher o que aceitar e o que deixar ir. A vida também me ensinou que muitos conflitos surgem da expectativa que tenho sobre o outro e que não é atendida. Então aprendi a esperar e cobrar menos dos outros. Aprendi sobre a importância que meus pais exercem em minha vida e a honrá-los com todo meu coração, independente das divergências e de como eles me criaram, porque a vida sem eles é muito mais dura.

Aprendi que na prática a teoria é outra; aprendi a gostar e entender de clichês, e sobre a importância de respeitar essa sabedoria de vida que só quem viveu tem. Portanto é importante respeitar os mais velhos pelo simples fato de que eles viveram mais do que eu, não importa a diferença de idade. Aprendi a tomar cuidado com radicalismos e aprender a duvidar de minhas convicções, as convicções podem nos tornar burros. Aprendi muito sobre levar as coisas menos a sério e a deixar para lá.

E essa é a grande sabedoria da vida: os aprendizados que vamos colecionando pelo caminho que são trazidos pelos anos vividos, na maioria das vezes a duras penas; o “conhecimento de causa” que vamos incorporando aos nossos discursos; essas marcas e cicatrizes na pele e no coração que não nos deixam esquecer importantes lições; os ensinamentos que nos convidam a ressignificar nossas ideologias, a rever conceitos, a mudar de opinião. Essa sabedoria talvez te faça parecer prepotente ou arrogante ao olhar de algumas pessoas, mas a vida também ensina a ficar em paz com os conflitos.

Fecho esse (longo) texto com as palavras de um sábio escritor que aprendeu muito com a vida, Eduardo Galeano:

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”