Noiva em confluência

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Noiva em Fuga (Runaway Bride) é um longa de comédia romântica que recheia a lista de clássicos românticos da década de 90, foi pouco aclamado pela crítica, e traz pouca novidade para um gênero onde sobram clichês e falta originalidade de roteiro.

Protagonizado por Richard Gere e Julia Roberts, conta a história da jovem Maggie que fica falada em sua pequena e pacata cidade por fugir do altar três vezes consecutivas. Ike Graham, é um repórter de Nova York que quer salvar sua decadente carreira e resolve escrever a história da famosa “noiva em fuga”. Dentro dos exemplos de mecanismos de evitação de contato na Gestalt-terapia, podemos dizer que Maggie faz confluência.

A confluência foi um dos primeiros mecanismos de evitação de contato descritos por Perls, ele a explicou como sendo o tipo de interação em que o indivíduo não sente haver uma barreira entre ele e seu meio, quando sente que ele próprio e o meio são um só. Em estado patológico de confluência, a pessoa não consegue fazer contato consigo mesma, nem distinguir-se do meio. Em termos mais simplificados, confluir é perder-se no outro, portanto sua polaridade é o “isolamento”.

Um indivíduo quando conflui é aquele que sempre se esforça ou muda para agradar ao outro, que tem dificuldade de se posicionar ou agir quando suas ideias destoam do todo e prefere sempre evitar conflitos. A cena clássica do filme é quando Ike confronta Maggie sobre como ela gosta de comer ovos no café da manhã. Ao estudar seus relacionamentos passados ele descobre que ela gosta ovos de acordo com o que cada noivo prefere. “Você é a mulher mais perdida que conheço, tão perdida que não sabe nem como quer comer ovos! Com o padre, eram mexidos; com o hippie eram fritos; com o outro, eram escaldados, e agora, só com claras!”

Uma metáfora clássica para pessoas em confluência, que geralmente perdem-se mais ainda quando se apaixonam. Relacionar-se certamente inclui o movimento de moldar-se ao outro, faz parte de um bom contato e do crescimento da relação mudar, ceder, negociar. Mas, existe uma dose saudável para isso, que depende de cada pessoa e relação. O que não é saudável é tornar-se igual ou o que o outro deseja para agradá-lo. No fim das contas ninguém (em sanidade mental) gosta do que não é autêntico. Na maioria das vezes os relacionamentos com pessoas confluentes acabam justamente porque é cansativo e entediante relacionar-se com alguém que não tem opinião própria, nem firmeza de querer. A mesmice não gera crescimento nem mudança, só fazemos contato com aquilo que nos é diferente.

A jornada da “Noiva em Fuga” é interessante do ponto de vista da psicologia, pois no decorrer da historia ela se dá conta que precisa conhecer melhor sobre si antes de relacionar-se. Trata-se daquele antigo clichê, que merece ser revisitado. Para amar o outro, ela precisa antes descobrir quem é, o que gosta, o que quer. Conhecer suas fronteiras, e tornar-se inteira. “Queria dizer a você sobre porque fujo, às vezes, corro das coisas, quando eu caminhava até o altar, era para alguém que não fazia ideia de quem eu era realmente. E só a metade da culpa era dele, pois fiz todo o possível para convencê-lo de que eu era exatamente o que ele queria. Então, foi bom eu não ter levado adiante, porque teria sido uma mentira. Adoro ovos mexidos! Odeio todos os outros!”

Como todos os mecanismos de contato, a confluência também pode ser funcional, é importante e nobre cedermos em prol do outro, e muitas vezes evitar conflitos e discussões que não são importantes. “Escolher nossas batalhas” (pick your battles), mas para isso antes precisamos descobrir quais são nossas batalhas. O convite ao padrão confluente é aprender sobre si, experimentar coisas novas, pensar e decidir sem a interferência de outros ou a preocupação excessiva em agradar. Começa passando por gostos simples, como preparo de ovos, mas inclui também questões importantes como estilo de vida, sonhos, desejos, valores e crenças.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato:

Isolamento

Deflexão

Introjeção

A felicidade só é real quando é compartilhada

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Escrito e dirigido por Sean Penn, o filme “Na Natureza Selvagem” é baseado no livro homônimo do jornalista Jon Krakauer e conta a história verídica do jovem americano Christopher McCandless. Lançado em 2007, o longa recebeu diversas premiações e indicações, incluindo um Globo de Ouro de melhor canção e duas indicações ao Academy Awards (Oscar). A trilha sonora é assinada por Eddie Vedder e torna o filme ainda mais belo. Outro destaque fica por conta da fotografia com paisagens de tirar o fôlego.

Talvez o que faz da história interessante é a quebra contra o sistema por parte do protagonista: ao concluir a graduação em uma universidade renomada, ele muda de nome, abandona um futuro promissor e uma vida de luxos para percorrer sozinho parte dos Estados Unidos; em sua jornada faz explora novos contextos, faz novas amizades, vive amores e desamores. A história é emocionante, com ressalvas.

Embora a personalidade exploradora do jovem tenha encantado muitos, utilizando os mecanismos neuróticos de evitação de contato da Gestalt-terapia pode-se entender que o garoto funciona em mecanismo chamado “isolamento”. Apesar de não ter sido inicialmente descrito por Perls, o isolamento é utilizado por autores mais modernos, muitas vezes descrito como uma polaridade da “confluência”. Para a GT, não se trata necessariamente ou apenas de um afastamento físico é, principalmente, um afastamento emocional.

Assim como os outros mecanismos, o isolamento tem sua funcionalidade, muitas vezes precisamos dessa distância do outro, pois é importante estar bem sozinho. Mas, ele torna-se um mecanismo neurótico quando não conseguimos permanecer em situações e relacionamentos que podem nos trazer benefícios; quando evitamos o contato como uma defesa ou uma solução para não sofrer.

A dificuldade de tratar uma pessoa neste funcionamento neurótico é que raramente ela procurará ajuda. Uma das principais características do isolado é ter a ilusão de que se basta sozinho e muitas vezes não sentir necessidade ou falta do contato com o outro. Ainda, a pessoa nesse funcionamento pode estar cercada de gente e mesmo assim não estar acessível emocionalmente. Muitas vezes são pessoas que possuem muitos amigos, mas não se aprofundam em relação alguma, mantendo sempre uma distância emocional confortável e um certo mistério sobre si.

O que me chama atenção no filme é que, apesar de existir beleza e coragem na personalidade misteriosa e rebelde do jovem, ele claramente demonstra dificuldade em permanecer nos diferentes círculos sociais que exigem dele um maior envolvimento emocional, causando grande sofrimento naqueles que o amam. Assim, deixa para trás família, amigos, estilo de vida, e parece não se importar com isso. O paradoxo está justamente na frase de título que McCandless escreve em um livro pouco antes de morrer, sozinho e isolado, no frio congelante do Alasca.

É saudável questionar o sistema, buscar outros estilos de vida, viajar e percorrer lugares diferentes, fazer novas amizades, sozinho ou acompanhado. Mas, as escolhas que nos tornam emocionalmente indisponíveis e colocam nossas vidas em risco não são funcionais, são neuróticas. Nenhuma escolha pode ser saudável quando ela nos custa a vida. Entrar em contato com o que nos é diferente pode ser desconfortável, porém é também transformador. Afinal, as cercas que construímos para nos proteger não mantêm os outros para fora, elas nos aprisionam dentro de nossa mesmice e pequenez. Sim, a felicidade só é mesmo real quando é compartilhada.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato:

Deflexão

Introjeção

Comer, Rezar, Amar e Introjetar

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“E uma vez que já estou ali ajoelhada no chão em posição de súplica, deixem-me manter essa posição enquanto viajo no tempo até três anos atrás, até o instante em que toda esta história começou – um instante que também me encontrou nessa mesma exata posição: de joelhos, no chão, rezando. No entanto, tudo o mais em relação à cena de três anos atrás era diferente. Daquela vez eu não estava em Roma, mas sim no banheiro do andar de cima da grande casa no subúrbio de Nova York que eu acabara de comprar com meu marido. Eram mais ou menos três horas da manhã de um novembro gelado. Meu marido dormia na nossa cama. Eu estava escondida no banheiro pelo que deveria ser a 47a noite consecutiva, e – como em todas aquelas outras noites – estava soluçando. Soluçando com tanta força, na verdade, que uma grande poça de lágrimas e muco se espalhava à minha frente sobre os ladrilhos do banheiro, um verdadeiro lago formado por toda minha vergonha, medo, confusão e dor. Eu não quero mais estar casada. Eu estava tentando tanto não saber isso, mas a verdade continuava a insistir. Eu não quero mais estar casada. Não quero morar nesta casa grande. Não quero ter um filho.” Elizabeth Gilbert em Comer, Rezar, Amar.

Embora não seja próprio do espírito gestáltico falar em tipologia, Fritz Perls e outros gestaltistas descreveram alguns “modos operantes” utilizados para evitação de contato com o outro, com o meio ou com situações de conflitos emocionais. Os gestaltistas chamaram estes modos de se relacionar de “Mecanismos de Evitação do Contato” ou “Mecanismos de Defesa”.

Os mecanismos de evitação de contato são recursos que desenvolvemos desde muito cedo,  primeiramente como forma de ajustamento e sobrevivência ao modo (muitas vezes disfuncional) como nosso sistema familiar está organizado; posteriormente repetimos os mesmos padrões em outros círculos relacionais. Todos nós alternamos entre os diferentes mecanismos, de acordo com dada situação ou conflito, por isso não se deve “engessar” alguém em um determinado mecanismo. Porém, fala-se em prevalências, que moldam nosso funcionamento e personalidade.

A introjeção é uma manobra onde o sujeito incorpora ideias, sentimentos, comportamentos e uma série de outros aspectos do ambiente. Há um processo passivo de “engolir” o que vem de fora e assim a pessoa acaba entrelaçando as próprias escolhas, preferências e opiniões com as dos outros e tendo dificuldade de diferenciar o que é realmente seu.

Segundo Perls, “não há nada em nossas mentes que não venha do meio, e não há nada do meio para o qual não haja uma necessidade orgânica, física ou psicológica. Estas devem ser digeridas e dominadas se quiserem se tornar nossas de verdade, realmente uma parte da nossa personalidade. Mas se simplesmente as aceitamos completamente e sem crítica, baseados na palavra de outra pessoa, ou porque estão na moda, ou são de confiança, ou tradicionais, ou antiquadas ou revolucionárias – tornam-se um peso para nós. São realmente indigeríveis. Ainda são corpos estranhos, embora tenham se instalado em nossas mentes.” (Fritz Perls em “A abordagem gestáltica”, p. 46 e 47)

No livro “Comer, Rezar, Amar”, a personagem principal se vê em meio a uma crise existencial quando dá-se conta que a vida “nos eixos” que escolheu não é exatamente a vida que ela quer viver. Ela termina um relacionamento de anos, abandona uma vida considerada por muitos “perfeita” e embarca em uma jornada em busca de autoconhecimento, do que lhe serve, e o que não lhe serve, de desconstrução de crenças e valores.

A pessoa que introjeta é aquela que segue regras, faz tudo “certinho”, mas nem sempre é feliz. Introjetores são pessoas que se esforçam para manter e seguir regras, muitas vezes são religiosos, conservadores e radicais em seus posicionamentos. Introjetores podem ser extremamente incoerentes, pois não conseguem manter conexão clara entre o que acreditam e o que fazem. Outras vezes, esforçam-se demasiadamente para manter essa coerência, tornando-se pessoas cristalizadas, sem autenticidade e espontaneidade. As crises surgem quando encontram-se em situações conflituosas e de grandes impasses emocionais e dão-se conta que mesmo fazendo tudo “certinho”, os resultados nem sempre são aqueles esperados.

Lembrando que todo mecanismo pode ser funcional, a introjeção é saudável quando utilizada em situações em que as regras precisam ser cumpridas para que a ordem seja mantida. Ninguém pode sair nu na rua, por exemplo, existe um senso comum em que nos baseamos para que tenhamos uma vida relativamente harmoniosa em comunidade. Introjetar torna-se um mecanismo neurótico quando passamos a seguir regras, sem questionar, a nos esforçar para agradar os demais, quando nos tornamos radicais em nossas crenças e valores sem considerar ou ponderar crenças e valores alheios.

Para uma vida emocionalmente saudável é preciso que aprendamos a “mastigar” antes de engolir os muitos introjetos que nos são impostos desde pequenos. A partir da maturidade podemos criar autonomia para fazer nossas próprias escolhas e filtrar aquilo que nos serve. O convite é ampliar o mapa mental através da análise individual de cada conflito e queixa, com contextualização para aquela situação específica, também é importante falar sem utilizar-se de generalizações e entender o que funciona para si, que é diferente do que funciona para os outros. Sim, a saúde consiste no equilíbrio, e temos que lembrar sempre que ele é diferente para cada um de nós.

Anne with an “E”, defletindo para sobreviver

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“Deflexão é uma manobra para evitar o contato direto com outra pessoa ou conflito; uma forma de tirar o calor do contato real. Isso é feito ao se falar em rodeios, usar linguagem excessiva, rir-se do que a outra pessoa diz, desviar o olhar de quem fala, ser subjetivo em vez de específico, não ir direto ao ponto, ser polido em vez de falar diretamente, usar linguagem estereotipada em vez de uma fala original, exprimir emoções brandas em vez das emoções intensas; falar sobre o passado quando o presente é mais relevante. A pessoa que deflete, ao responder à outra age quase como se tivesse um escudo invisível, muitas vezes experiencia a si mesma como imóvel, entediada, confusa, vazia, cínica, não-amada, sem importância e deslocada.” (Erving e Miriam Polster, 2001).

Baseada no clássico “Anne of Green Gables” da escritora canadense L. M. Montgomery, a série da Netflix “Anne with an E” conta a história de Anne Shirley, uma menina órfã aos três meses que desde cedo trabalha duro para sobreviver. Os olhos azuis e vívidos da jovem Anne escondem o peso de uma curta existência, porém carregada de complexidade emocional e traumas.

A história começa quando os irmãos Marilla e Matthew Cuthbert resolvem adotar um menino com braços fortes e ágeis para ajudar na lida diária do campo, Matthew surpreende-se ao encontrar uma menina aguardando por ele na estação de trem. O primeiro encontro da garota com os novos pais adotivos é pautado por decepção, frustração e rejeição. A menina Anne é miúda e desajeitada, tem imaginação viva e fala incessante. Dentro de uma tipologia gestáltica, pode-se dizer que Anne é deflexiva.

Embora não seja próprio do espírito gestáltico falar em tipologia, Fritz Perls e outros gestaltistas descreveram alguns “modos operantes” utilizados para evitação de contato com o outro, com o meio ou com situações de conflitos emocionais. Os gestaltistas chamaram estes modos de se relacionar de “Mecanismos de Evitação do Contato” ou “Mecanismos de Defesa”.

Os mecanismos de evitação de contato são recursos que desenvolvemos desde muito cedo,  primeiramente como forma de ajustamento e sobrevivência ao modo (muitas vezes disfuncional) como nosso sistema familiar está organizado; posteriormente repetimos os mesmos padrões em outros círculos relacionais. Todos nós alternamos entre os diferentes mecanismos, de acordo com dada situação ou conflito, por isso não se deve “engessar” alguém em um determinado mecanismo. Porém, fala-se em prevalências, que moldam nosso funcionamento e personalidade.

A menina Anne é muito jovem e desde cedo vive desamparada em orfanatos e trabalhando em casa de terceiros. Por diversas vezes foi rejeitada, maltratada, agredida, experienciou traumas psicológicos e físicos que com pouca idade não possuía recursos emocionais para “processar”. Ela se utiliza da fala excessiva e da imaginação para criar ambientes mais leves; assim tira o calor das relações e evita contato com a realidade dos fatos, com o peso e a dor que eles trazem. A fim de sobreviver com tão pouca idade em um mundo tão emocionalmente complexo e caótico, Anne deflete.

A deflexão é o mecanismo de evitação que se utiliza do desvio do contato direto ou da energia do objeto de desejo. A pessoa deflexiva nunca adere à situação, sempre falando de outras coisas, fala muito e ao mesmo tempo não diz nada.

É importante ressaltar que todos os mecanismos são funcionais quando utilizados de maneira adequada. Defletir é um ótimo recurso em situações que requerem contatos superficiais, polidez e diplomacia. Também é um recurso muito utilizado na arte e na escrita, tornando as palavras mais ricas e floreadas. As pessoas com prevalência de funcionamento deflexivo, por terem dificuldade de fixação em uma só coisa ou pessoa, são curiosas, criativas e têm conhecimento de assuntos variados.

Os mecanismos de evitação de contato tornam-se neuróticos quando utilizados em situações que requerem novas maneiras de lidar com conflitos, ou seja, quando se tornam anacrônicos. Defletir é inadequado quando precisamos ser objetivos, assertivos, ao falarmos de nós, quando se faz necessário silenciar e entrar em contato com nossas dores e frustrações. Defletir não nos ajuda quando temos que focar ou aprofundar em algo e, principalmente, quando desejamos criar intimidade e vínculo emocional legítimo e duradouro com o outro.

O exercício para pessoas que defletem é aprender a falar assertiva e objetivamente, manter foco e atenção em algo ou alguém, fazer e manter contato visual ao falar, escutar e, claro, silenciar. 

“Anne with an E” é uma história sobre reconstrução, novos aprendizados e oportunidades, e também sobre deixar velhos padrões (deflexivos) de comportamentos. A menina Anne precisa reinventar-se, aprender a permanecer e criar vínculos e recontar sua historia. A série não acerta sempre, mas me surpreendeu em conteúdo, produção e fotografia. A narrativa, apesar de complexa em conteúdo emocional, se desenvolve de forma leve e divertida. Assistir “Anne With an E” requer ainda contextualização histórica de uma época onde não existia infância e as crianças eram tratadas como “mini-adultos”. Para os chorões como eu, sugiro manter uma caixa de lenços por perto.

Eu sou eu, você é você

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“Eu sou eu, você é você. Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas. Eu sou eu, você é você. Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas. E nem você o está para viver de acordo com as minhas. Eu sou eu, você é você. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.” Fritz Perls

A Gestalt-terapia, também como conhecida como terapia do contato, é uma das muitas abordagens humanistas da psicoterapia. O contato para a GT é tão fundamental que grande parte da literatura gestáltica é baseada nisso (fronteiras de contato, mecanismos de evitação de contato). Porém, esse contato a que se referem os estudiosos da GT não é exatamente o contato como entendemos de maneira literal, nem somente o encontro com o outro. As formas possíveis de contato descritas na GT são diversas e dinâmicas.

Perls, Hefferline e Goodman descreveram: “contato é todo tipo de relação viva que se dê na fronteira, na interação entre o organismo e o ambiente, é um processo contínuo de reciprocidade em que homem e mundo se transformam. O contato acontece no diferente, é o reconhecimento do outro, o lidar com o outro, o que eu sou, o diferente, o novo, o estranho. O contato acontece na fronteira eu-outro, conhecido-desconhecido, velho-novo, todo contato é dinâmico e criativo”.

Em um sentido mais abstrato, conseguimos encerrar nossos conflitos emocionais quando finalmente entramos em contato com a verdade dos fatos como eles são; quando nos damos conta das verdades que tantas vezes evitamos, justamente por serem tão dolorosas; quando lamentamos nossas histórias mais tristes. Esse momento do “dar-se conta” é fundamental para que deixemos de repetir antigos padrões (neuróticos) de comportamento, que se tornaram anacrônicos e, portanto, inadequados. Dar fechamento aos nossos conflitos emocionais, ou “gestalten”, é fundamental para que façamos as pazes com nossa história e possamos então trazer para o mundo um “eu” mais completo e emocionalmente saudável.

Quando nos referimos ao contato com o outro, ele é autêntico quando ocorre na fronteira, ou seja, quando existe interesse e disponibilidade emocional de ambos, sem que haja manipulações ou invasões. Não é necessário que haja esforço, não é necessário que uma pessoa precise ajustar-se à outra para ser amada ou aceita. Contato autêntico é aquele que inclui as duas partes, e todas as partes dessas duas partes.

Eu sou eu, você é você.

Constantemente me pergunto quanto de mim devo deixar de lado para ser amada? A resposta da GT é clara, nada. Dentro da visão gestáltica, para sermos verdadeiramente amados, devemos incluir (e não alienar) todas as nossas partes que muitas vezes tentamos anular na ânsia de sermos amados. Na prática isso requer um boa dose de bom senso, maturidade, auto-conhecimento e (muito) treino. Isso não quer dizer que não devo me moldar para incluir o desejo do outro, mas que esse desejo de mudar deve ser voluntário.

Nos escritos que ficaram conhecidos como “Oração da Gestalt-terapia” o convite de Fritz Perls, considerado o pai da GT, é para que nos empenhemos em trazer para nossa vida e nossos relacionamentos auto-responsabilização. Eu sou responsável pelo meu caminho, você é responsável pelo seu. Eu sou responsável pelas minhas dores, você é responsável pelas suas. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.

 

Crônicas de uma vida anunciada

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“Seja como você é. De maneira que possa ver quem é. Quem é e como é. Deixe por um momento o que deve fazer e descubra o que realmente faz. Arrisque um pouco, se puder. Sinta seus próprios sentimentos. Diga suas próprias palavras. Pense seus próprios pensamentos. Seja seu próprio ser. Descubra. Deixe que o plano pra você surja de dentro de você.” Fritz Perls

Pertencimento é uma necessidade vital, somos seres sociais, dependemos do outro para existir. Nada disso é novidade. Mas, tenho constantemente me perguntado: Qual parte minha devo alienar a fim de pertencer a um determinado grupo? Quais são as vozes que ficam caladas para que eu possa me sentir amada?

“Saúde é um equilíbrio apropriado da coordenação de tudo aquilo (e aqueles) que somos” dizia Fritz Perls, um dos principais nomes da Gestalt-terapia. Na visão gestáltica, possuímos um organismo completo e inteligente que se autoregula de acordo com o meio em que está inserido. E é através desse processo de autoregulação que desenvolvemos determinados padrões de comportamento em resposta ao que o meio exige de nós, e que alienamos importantes partes nossas (e às vezes menos “populares”).

As muitas regras sociais e morais, a organização de nosso sistema familiar, os ambientes e pessoas em nosso redor, e tantos outros fatores, compõem as diversas crenças e introjetos que ao longo dos anos moldam nosso comportamento. Nossa grande tragédia está no fato de que quanto mais nos moldamos (a fim de sermos aceitos), mais partes nossas são alienadas e menos autênticos nos tornamos. Dessa forma, aniquilamos pedaços importantes de tudo que nos torna o que somos: únicos e irrepetíveis. E anulamos nossa melhor parte, nossa essência.

Perls dizia que estamos sempre representando um papel, manipulados ou manipulando o meio em prol de alcançar o que desejamos e de suprir nossas necessidades mais latentes. Essas representações existem em maior e menor grau, dependendo do nível de consciência e autoconhecimento de cada um. A representação de um papel significa que minhas respostas não são espontâneas e honestas; que estou constantemente suprimindo meu querer mais irracional e visceral. Pois, nem sempre podemos explicar nossos desejos de maneira lógica, mas para os valores morais da sociedade o que não pode ser logicamente explicado, ou justificado, não pode ser validado. Assim viro plágio, engesso minhas respostas, copio minhas ações. Quanto mais cristalizado é meu comportamento, menos autêntico sou.

A Gestalt-terapia entende toda resposta não autêntica como neurótica.

Nesse contexto as redes sociais atuam como amplificadores de uma vida anunciada, ensaiada e editada. Na internet podemos representar nosso melhor papel, mais ainda, aprimorá-lo. Esses papéis virtuais são perigosos porque endossam uma narrativa romântica de felicidade fácil e de perfeição, de relacionamentos desprovidos de grandes conflitos e negociações. A rede permite ensaios, filtros e edições que a vida real não permite. E uma vida ensaiada não é apenas caluniosa, como também bloqueia o fluxo criador e transformador que podemos devolver ao mundo. Ela nos priva de viver com prontidão, improviso, espontaneidade e (muita) imperfeição. Ela nos priva da liberdade de sermos quem de fato somos.

Anunciamos nossos passos, nossas melhores experiências, onde estamos, com quem estamos. Nas redes cabe nosso eu inteligente, solidário, justo, ativista, alegre, bem sucedido. Gritamos nossas revoltas diante das injustiças do mundo, nossa fé e esperança de um futuro melhor. Tudo meticulosamente pensado para caber no olhar alheio. E mesmo quando dividimos nossas dores, são dores editadas, aquelas que podem ser acolhidas pelo olhar compassivo do outro. Dessa maneira, só me arrisco a compartilhar o que de certa forma pode ser aceito e validado pelo outro. E quando isso não acontece, tenho a opção de deletar. É preciso cautela ao equilibrar e dosar o uso que fazemos dos canais virtuais. Pois, é muito fácil e sedutor buscar reconhecimento e acolhimento através deles. Tanto quanto é vazio e ilusório.

Nunca estivemos tão conectados, nem tão solitários.

Uma vida anunciada é desprovida de contato real e de intimidade. E a intimidade é o que de fato nos desnuda e nos conecta em um nível muito mais profundo e verdadeiro. Quando me privo de viver com prontidão, quando não me utilizo dos recursos que tenho e da expressão de minhas emoções de maneira instantânea e espontânea, sou apenas mais um personagem. E assim, aos poucos, minha vida anunciada e encenada me torna mais cristalizada, neurótica e solitária.

As palavras de Perls nos lembram como é libertador o trabalho de tomada de consciência, ainda que custoso. “Eu acredito que esta é a grande coisa a ser compreendida: a tomada de consciência em si – e de si mesmo – pode ter efeito de cura”, escreveu ele. Esse é um trabalho interno que deve ser feito em silêncio e longe dos holofotes.

Quando criamos consciência de nossos processos podemos elaborar respostas mais imediatas e autênticas aos nossos conflitos e integrar partes importantes nossas que foram censuradas. Podemos viver com prontidão e sem ensaios. Só assim seremos completos, só assim estaremos em paz e devolveremos algo inteiramente único para o mundo. Sim, ser autêntico requer muita coragem e um caminhar solitário e vulnerável. Mas, quem o faz vive uma vida em liberdade de ser quem se é; devolve ao mundo calor, víscera e pulso.

Afinal, não é isso que chamamos de vida?

Viva as perguntas

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“Quero lhe implorar para que seja paciente com tudo o que não está resolvido em seu coração e tente amar as perguntas como quartos trancados e como livros escritos em língua estrangeira. Não procure respostas que não podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las. E a questão é viver tudo. Viva as perguntas agora. Talvez assim, gradualmente, você sem perceber, viverá a resposta num dia distante.”

Rainer Maria Rilke

A Gestalt-terapia é uma abordagem da Psicologia pouco conhecida, porém fascinante. Não somente por ser atual, mas muito por sua simplicidade. Fritz Perls, um de seus pensadores, criticava os processos de racionalização e intelectualização nos quais tentamos (em vão) explicar eventos psicológicos. Para ele, a grande maioria das nossas vivências mais marcantes não carecem de uma explicação lógica, elas apenas precisam ser sentidas.

A Gestalt-terapia é conhecida também como a terapia do aqui agora e sofre muitas críticas por simplificar uma área da academia que com os anos tornou-se extremamente teorizada e elitizada. Para Fritz, o processo terapêutico deve ser acessível, simples e objetivo. Principalmente, ele deve devolver autonomia ao cliente para que ele possa desenvolver auto-apoio e auto-responsabilização ao fazer escolhas, para que ele aprenda a utilizar seus próprios recursos no momento, dependendo cada vez menos da validação do meio ou de um profissional.

“O intelecto é a prostituta da inteligência”, dizia Perls que condenava a Academia atuando na formação de psicoterapeutas e as áreas de estudo que buscam incessantemente sentido e entendimento racional de tudo. O intelecto se vende fácil ao que faz sentido lógico, mas nem sempre isso combina com nosso entendimento emocional dos eventos. Constantemente tentamos racionalizar e entender nossas frustrações através da razão e explicá-las a fim de encontrar paz e conforto, e na maioria das vezes essas tentativas geram mais conflitos emocionais do que resoluções.

A grande “sacada” de Fritz envolve a validação de nossas emoções, ele entendeu que os eventos psicológicos não podem (nem devem) ser compreendidos racionalmente. Entender que a morte é uma certeza de quem vive, conhecer as religiões e crenças, acreditar em um plano espiritual além da vida, não faz a perda de alguém que amamos menos sofrida, tampouco faz a possibilidade da morte menos assustadora. Mais do que explicar racionalmente, é preciso sentir, lamentar e chorar a dor da perda.

Tudo isso parece muito simples se não vivêssemos em uma sociedade cartesiana, altamente intelectualizada, onde se busca fazer sentido lógico de tudo, onde é tão difícil falar de sentimentos, medos, frustrações, perdas, fracassos, dores. Para evitar a inconveniência da verdade, maquiamos as partes duras de nossa história na tentativa de deixá-las mais “emocionalmente suportáveis”.

É mais fácil dizer que gasto muito do que admitir que sustento meu marido. É mais fácil falar que ele anda muito ocupado e não consegue me responder a admitir que estou sendo rejeitada. É mais fácil apontar culpados para o que vivo de disfuncional do que admitir que sou tão responsável pelas minhas vitórias quanto sou pelos meus fracassos. Esses são exemplos bem simplificados de como construímos as histórias fantasiosas que nos contamos. Geralmente nos contamos mentiras, “enfeitamos” os fatos, porque é muito doloroso encarar a verdade, ironicamente é só quando validamos nossas verdades mais duras que encontramos consolo e paz.

Fritz falava de um outro tipo de inteligência, que nada tem a ver com o intelecto. A inteligência que ele reconhecia era uma inteligência criativa e emocional, ele reforçava que saúde emocional  tem a ver com desenvolver uma maneira de viver a vida com autonomia, autoresponsabilização, responsibility, ou seja, habilidade de resposta adequada para cada novo conflito que se apresenta (na língua inglesa: responsibility  = response+ability).

O propósito do Gestalt-terapeuta é auxiliar o cliente a descobrir suas verdades por si só e frustrar todas as tentativas de racionalização e fuga. É comum que a pessoa chegue ao consultório com a história já ensaiada, racionalizada, tentando fazer sentido de todos os fatos. “A verdade só pode ser tolerada quando descoberta por conta própria”. O Gestalt-terapeuta deve agir como facilitador, nunca como mensageiro da “verdade”.

A Gestalt-terapia me ensina todos os dias que as respostas que buscamos encontram-se em um caminho tão mais acessível que quem sabe não ousamos percorrer pelo prazer que temos em complicar o que é simples. Mas, para aqueles que se arriscam, o convite é o mesmo feito por Rilke em seu livro “Cartas a um jovem poeta”: pare de procurar as respostas e comece a viver as perguntas.