O sonho de Ismar

             Há muitos e muitos anos, vivia na cidade de Damasco, na Síria, um pobre homem chamado Ismar. Ismar sempre lutara para ganhar a vida dignamente; não tendo podido estudar e aprender uma profissão sujeitava-se a qualquer espécie de serviço: limpava jardins, carregava pedras, buscava água, sempre com boa vontade, trabalhando sem se queixar. Com o passar dos anos, porém, Ismar começou a sentir-se cansado e preocupado. Durante a vida toda só trabalhara e nunca conseguira juntar qualquer dinheiro, nenhuma economia que pudesse socorrê-lo em caso de necessidade. A única coisa que tinha de seu era uma casa, herança antiga da família.

            A casa ficava num bairro pobre de Damasco, no fim de uma rua esburacada. Era feita de pedras e protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corria um riacho; à beira do riacho crescia uma velha figueira e era à sombra dessa figueira que Ismar costumava descansar depois de trabalhar a manhã toda. Ali ele refletia sobre sua vida e se perguntava o que seria dele quando a velhice não lhe permitisse mais o esforço físico. Estou ficando velho, pensava, não tenho filhos que me possam sustentar. Será que Alá, meu pai divino, vai me abandonar?

            Sempre assim cismando, um dia Ismar dormiu, recostado à figueira, e teve um sonho; sonhou que estava na cidade do Egito. Ele nunca havia estado realmente no Egito, mas no sonho passeava com desembaraço pela avenida central da cidade e distinguia perfeitamente os mercadores de tapetes, os minaretes das mesquitas. Atravessando uma praça, ele dobrava à direita, descia uma rua estreita, chegava a um rio. Sobre o rio havia uma ponte e embaixo da ponte – ó maravilha! – um cofre repleto de moedas e jóias reluzentes!

            Quando acordou, Ismar teve certeza de que aquele era o tesouro que Alá lhe reservara. O sonho tinha sido tão nítido, tão preciso nos detalhes, não havia engano! Sem pensar em mais nada, ele arrumou sua trouxa e pôs-se a caminho do Cairo. Era uma longa distância, principalmente para ele, que ia a pé e sem dinheiro. No entanto, movido pela convicção de encontrar sua fortuna, Ismar atravessou desertos e vales, rios e florestas, até chegar, finalmente, exausto e maltrapilho, à cidade que lhe aparecera em sonho. Sua fé, então, redobrou de vigor, pois o Cairo era exatamente como ele havia sonhado! Ele reconheceu a avenida principal, os mercadores de tapetes, os minaretes das mesquitas; chegou à praça, virou à direita, desceu a rua, avistou o rio, aproximou-se da ponte, mas… no exato lugar em que deveria estar o tesouro, não havia cofre algum; havia, isso sim, um mendigo mais pobre e maltrapilho que ele.

            Chocado, Ismar deu-se conta da sua loucura! Como pudera acreditar tão piamente num simples sonho? Que tolo fora! E agora, com que forças enfrentaria a viagem de volta? Que impulso de fé ou esperança sustentaria aquela alma tão esvaziada pela decepção? Não, pensou ele. Melhor será acabar com os meus dias aqui mesmo. Nenhuma esperança me resta. E, decidido a se afogar, subiu à ponte. Já estava quase se atirando quando sentiu que alguém o segurava, agarrando sua perna por debaixo da ponte.

            Era o mendigo que gritava:

– Hei amigo! Cuidado, você pode morrer! Esse rio é perigoso!

– Ainda bem! – respondeu Ismar – É isso mesmo que desejo: matar-me.

– Não faça isso. – ponderou o mendigo – Você ainda tem muito que viver. Escute, desça até aqui e conte-me a sua história. Faça sua última boa ação, entretendo um miserável como eu. Depois, se quiser, pode se matar!

            Ismar hesitou, mas resolveu afinal repartir suas dores com aquele desconhecido. Contou-lhe o sonho, concluindo:

– Então, no mesmo lugar em que deveria estar o cofre, estava você… Agora, diga-me, não tenho razão em querer acabar com minha vida?

– Olhe, – exclamou o mendigo – não queria dizer isso, mas acho que você tem razão. Você foi muito irresponsável, um louco!!! Acreditar num sonho! E que você sonhou só uma vez? Veja se tem cabimento! Pois fique sabendo que eu, há cinco anos, tenho o mesmo sonho, que se repete quase todas as noites. E não é por isso que vou sair correndo atrás do que sonhei.

– E o que você sonha? – perguntou curioso Ismar.

– Escute só: eu sonho que estou na Síria, na cidade de Damasco, o que já é uma asneira, pois nunca estive na Síria. Estou num bairro pobre, seguindo por uma rua esburacada. No fim da rua há uma casa de pedra, protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corre um riacho; à beira do riacho cresce uma figueira e, dentro dessa figueira, que é oca, há um tesouro! Não é uma bobagem? Eu é que não sou louco de acreditar em sonhos, não acha?

            Ismar não respondeu. Estava pasmo, pois reconhecera, pela descrição do mendigo, a sua rua, a sua casa, a sua amada figueira!

            Compreendendo os laços do destino, abraçou o mendigo, tomou o caminho de volta e chegando à sua casa, foi direto à velha árvore, onde o tão sonhado tesouro o aguardava.

por Rosane Pamplona em “Novas Histórias Antigas”, ed. Brinque-Book

 

A guardiã

No alto de uma colina, à beira de um rio caudaloso, muito largo e profundo, havia um castelo fortificado. Nesse castelo vivia um guerreiro que não tinha medo de nada. Sua mulher, bela como uma árvore florida, possuía um dom muito especial. Por causa dela, o marido sempre retornava vitorioso de suas expedições pelas redondezas e lugares muito distantes.
Acontecia sempre da mesma maneira. O guerreiro selava seu cavalo e partia antes do amanhecer, quando a neblina e a escuridão ainda tomavam conta do lugar. Assim que ele desaparecia pelos portões da fortaleza, a mulher subia à torre do castelo e abria a janela de onde avistava toda a região. Ela estendia as mãos delicadas para fora da janela, na direção do caminho por onde o marido cavalgava. No mesmo instante, poderosos raios de luz brotavam de seus dedos finos clareando a estrada para que o marido pudesse viajar com segurança.
Durante todo o dia ele percorria diversas aldeias, lutando e roubando os bens de todos os que derrotava nas suas andanças. Depois ele voltava para casa em disparada, e já fazia noite escura quando ele surgia lá embaixo ao pé da colina, quase sempre perseguido por valentes inimigos. No entanto eles nunca o alcançavam, pois a mulher já o aguardava sentada à mesma janela da torre altíssima. Assim que o via no caminho, ela enviava, através de suas mãos, uma ponte de luz sobre o rio, iluminando- o fortemente para que o marido passasse. Assim que ele atingia a outra margem, ela retirava as mãos rapidamente. A mais negra escuridão apoderava-se daquele lugar de tal modo que os inimigos do marido ficavam completamente desorientados e acabavam desistindo da perseguição.
Assim protegido e guiado, o guerreiro do castelo do alto da colina nunca havia sofrido nenhuma derrota. O tempo foi passando, e ele, cada vez mais, sentia-se como o homem mais poderoso daquelas terras. Orgulhava-se de seus feitos e dizia que era invencível. Um dia ele havia convidado várias pessoas para um grande banquete e, enquanto festejavam, começou a vangloriar-se:
– Eu sempre atravesso o rio trazendo comigo muitos animais, e meus perseguidores não conseguem alcançar-me. Ainda não nasceu o homem que poderá me vencer.
A mulher escutou por um tempo, contrariada, depois disse baixinho:
– Mas você não acredita que faz tudo isso sem a ajuda de ninguém.
O marido olhou-a indignado, reprovando aquela intervenção:
– Que eu saiba, quando vou caçar, não levo ninguém comigo. Enquanto você passa o dia em segurança dentro do castelo, sou eu que me arrisco, que enfrento emboscadas, que preciso lutar com quem aparece no caminho, seja homem ou animal. Acho melhor você pensar mais no que diz antes de abrir a boca, para não se arrepender depois.
A mulher permaneceu em silêncio por algum tempo, depois levantou-se e, antes de retirar-se do grande salão, disse com tristeza:
– Você está completamente dominado pelo orgulho e pela vaidade. Sinto muita vergonha ao ver você nesse estado.
O marido ficou furioso. Respondeu-lhe que não precisava dela para nada e que iria provar o que estava dizendo. Assim que os convidados se foram, ele montou no seu cavalo e deixou o castelo sem se despedir da mulher.
Pela primeira vez, a janela da torre não se abriu enquanto ele percorria as planícies brumosas. E pela primeira vez sua expedição encontrou obstáculos maiores do que seu poder de vencê-los.
Depois de vários dias infrutíferos, vagando pelas aldeias, tendo pilhado uma carga insignificante, o guerreiro achou melhor voltar para casa. Ainda tentou roubar alguma coisa no caminho, mas ele se sentia tão desafortunado, tão confuso pelas sucessivas derrotas, que não lutou com a costumeira audácia e acabou tendo que fugir com as mãos vazias e vários inimigos em seu encalço.
Enquanto isso, sua mulher ficou sentada diante da janela fechada no alto da torre, no escuro, atenta. Ela só se levantava para comer alguma coisa leve uma vez por dia, ou então para cochilar um pouco quando o sono tomava conta dela.
Numa noite tenebrosa, no silêncio do aposento ela escutou ao longe a voz do marido chamando por ela. A aflição que ela sentia estava grudada na ponta de seus dedos unidos, imóveis sobre os joelhos. Ela sabia que não deveria atender o pedido de socorro, mesmo que seu coração aos pulos, dentro do peito, lhe pedisse o contrário. Afinal, ele havia dito que demonstraria ser um guerreiro notável, e por isso era necessário que ele fizesse tudo sozinho.
Angustiada,ela esperou até não mais ouvir a voz do marido. Além do rumor constante das águas do rio, nada mais se escutava. Ela continuou esperando, tentando distinguir cascos de cavalo ressoando no pátio do castelo, o som duro das botas do marido subindo a escadaria. Em vão ela ficou espreitando quase a noite inteira, até que não pôde mais se conter e abriu a janela. Estendendo as mãos ela varreu toda a região em baixo do castelo com fachos de luz, poderosos como sempre, mesmo que dessa vez brotassem de seus dedos trêmulos. Vasculhou a planície, as margens do rio, a encosta da colina, as muralhas do castelo. Não encontrou nenhum vestígio do guerreiro.
Recomeçou outra vez, com movimentos mais lentos e precisos, até que o foco luminoso deteve-se sobre um vulto caído em um rochedo à beira do rio. Pouco depois, quando ela chegou esbaforida àquele lugar, com os cabelos desalinhados e a respiração entrecortada de tanto correr feito louca entre as pedras, reconheceu a capa preta do marido. Rasgada e molhada, ela cobria o corpo do guerreiro inerte sobre a pedra. Ali a mulher ficou imóvel com as mãos sobre a cabeça do homem morto, embalada pelo doce murmúrio do rio, estranhamente calmo ao nascer do sol.
Depois, ela enterrou o marido naquele mesmo lugar e chorou muito tempo sobre o túmulo, completamente entregue à sua dor. Uma semana inteira durou sua vigília solitária. Até que ela viu ao longe um cavaleiro que se aproximava. O jovem sorridente que desceu do cavalo e acercou-se dela era belo e forte.
– O que faz uma mulher tão desolada sozinha neste lugar deserto? – ele perguntou.
A mulher das mãos de luz respondeu-lhe que ninguém poderia fazer nada por ela e que ele deveria ir embora.
O homem montou outra vez no seu cavalo e lhe disse que voltaria em breve. E que durante o tempo em que estaria ausente, ela podia pensar melhor, quem sabe poderia confiar nele e contar por que estava tão triste.
Enquanto ele cavalgava rio adentro, na direção da outra margem, a mulher se assustou e pensou que, com certeza, ele iria afogar-se. Mas logo, conduzindo o cavalo com grande habilidade por dentro das águas turbulentas, ele chegou a salvo do outro lado do rio.
“Esse homem é de fato muito audacioso, eu preciso pôr à prova seu valor”, pensou a mulher à beira do túmulo do marido.
Pela primeira vez, depois de tanto sofrimento, ela se reanimou e invocou os poderes da Senhora das Águas. Levantando-se, com as mãos espalmadas na direção do céu, ela disse:
– Eu lhe peço, rainha poderosa, que esconda o sol atrás das nuvens e que uma grande tormenta torne o rio furioso, que suas águas invadam a terra em ondas gigantescas, que raios e trovões sacudam as árvores, que o dia se torne noite tenebrosa como se fosse o fim do mundo.
Seu pedido foi atendido. Talvez a temível deusa dos mares e dos rios tenha compreendido e concordado com as razões da mulher que chamava por ela, do fundo do coração. Deitada na relva, sacudida pela tempestade avassaladora, a mulher das mãos de luz percebeu que um cavalo galopava na sua direção. Quando se levantou, pôde ver o cavaleiro que tinha acabado de conhecer.
– Como você pôde voltar e arriscar-se a ser tragado pelas águas revoltas do rio? – ela perguntou muito assustada.
– É porque eu não poderia deixá-la sozinha nesta tempestade desvairada – ele respondeu.
Ela não soube o que dizer e finalmente sorriu, com uma satisfação que apenas brotava timidamente no seu peito machucado. O cavaleiro agasalhou-a com seu manto e, no instante em que os dois se sentaram juntos e aconchegados sobre uma pedra lisa, os poderes da Senhora das Águas fizeram-se presentes outra vez, serenando o tempo mais rapidamente do que as palavras seriam capazes de relatar. A tempestade cessou, o rio seguiu seu rumo mansamente, as águas brilhando à luz do sol que surgiu de repente no alto do céu azul. A terra verde respirava úmida, exalando um delicioso aroma de vida.
– O homem que está enterrado neste túmulo era meu marido – disse a mulher- E nós nos amávamos.
– Você se engana – retrucou o jovem cavaleiro. – Ele não a amava, ele amava apenas a si mesmo. Toda a terra à nossa volta está verde e coberta de flores, só este túmulo permanece seco, com a terra dura e inerte, sem florescer. Que este túmulo permaneça assim, estéril, para que as pessoas que só amam a si mesmas, ao passarem por aqui, sintam-se envergonhadas.
A mulher de mãos luminosas olhou para o céu e agradeceu à deusa em silêncio. O jovem cavaleiro a olhou com ternura e estendeu-lhe a mão. Ao segurá-la, a mulher sorriu e levantou-se. Ela teve a resposta que buscava quando sua mão deixou-se envolver pelo calor daquela mão valorosa, que num gesto firme devolveu-lhe, num único instante, o sentido de continuar viva.

Conto caucasiano, recontado por Regina Machado

De muito procurar

Aquele homem caminhava sempre de cabeça baixa. Por tristeza, não. Por atenção. Era um homem à procura. À procura de tudo o que os outros deixassem cair inadvertidamente, uma moeda, uma conta de colar, um botão de madrepérola, uma chave, a fivela de um sapato, um brinco frouxo, um anel largo demais.
Recolhia, e ia pondo nos bolsos. Tão fundos e pesados, que pareciam ancorá-lo à terra. Tão inchados, que davam contornos de gordo à sua magra silhueta.
Silencioso e discreto, sem nunca encarar quem quer que fosse, os olhos sempre voltados para o chão, o homem passava pelas ruas despercebido, como se invisível. Cruzasse duas ou três vezes diante da padaria, não se lembraria o padeiro de tê-lo visto, nem lhe endereçaria a palavra. Sequer ladravam os cães, quando se aproximava das casas.
Mas aquele homem que não era visto, via longe. Entre as pedras do calçamento, as rodas das carroças, os cascos dos cavalos e os pés das pessoas que passavam indiferentes, ele era capaz de catar dois elos de uma correntinha partida, sorrindo secreto como se tivesse colhido uma fruta.
À noite, no cômodo que era toda a sua moradia, revirava os bolsos sobre a mesa e, debruçado sobre seu tesouro espalhado, colhia com a ponta dos dedos uma ou outra mínima coisa, para que à luz da vela ganhasse brilho e vida. Com isso, fazia-se companhia. E a cabeça só se punha para trás quando, afinal, a deitava no travesseiro.
Estava justamente deitando-se, na noite em que bateram à porta. Acendeu a vela. Era um moço.
Teria por acaso encontrado a sua chave? Perguntou. Morava sozinho, não podia voltar para casa sem ela.
Eu… esquivou-se o homem. O senhor, sim, insistiu o moço acrescentando que ele próprio já havia vasculhado as ruas inutilmente.
Mas quem disse… resmungou o homem, segurando a porta com o pé para impedir a entrada do outro.
Foi a velha da esquina que se faz de cega, insistiu o jovem sem empurrar, diz que o senhor enxerga por dois.
O homem abriu a porta.
Entraram. Chaves havia muitas sobre a mesa. Mas não era nenhuma daquelas. O homem então meteu as mãos nos bolsos, remexeu, tirou uma pedrinha vermelha, um prego, três chaves. Eram parecidas, o moço levou as três, devolveria as duas que não fossem suas.
Passados dias bateram à porta. O homem abriu, pensando fosse o moço. Era uma senhora.
Um moço me disse… começou ela. Havia perdido o botão de prata da gola e o moço lhe havia garantido que o homem saberia encontrá-lo. Devolveu as duas chaves do outro. Saiu levando seu botão na palma da mão.
Bateram à porta várias vezes nos dias que se seguiram. Pouco a pouco se espalhava a fama do homem. Pouco a pouco se esvaziava a mesa dos seus haveres.
Soprava um vento quente, giravam folhas no ar, naquele fim de tarde, nem bem outono, em que a mulher veio. Não bateu à porta, encontrou-a aberta. Na soleira, o homem rastreava as juntas dos paralelepípedos. Seu olhar esbarrou na ponta delicada do sapato, na barra da saia. E manteve-se baixo.
Perdi o juízo, murmurou ela com voz abafada, por favor, me ajude.
Assim pela primeira vez, o homem passou a procurar alguma coisa que não sabia como fosse. E para reconhecê-la, caso desse com ela, levava consigo a mulher.
Saíam com a primeira luz. Ele trancando a porta, ela já a esperá-lo na rua. E sem levantar a cabeça – não fosse passar inadvertidamente pelo juízo perdido – o homem começava a percorrer rua após rua.
Mas a mulher não estava afeita a abaixar a cabeça. E andando, o homem percebia de repente que os passos dela já não batiam ao seu lado, que seu som se afastava em outra direção. Então parava, e sem erguer o olhar, deixava-se guiar pelo taque-taque dos saltos, até encontrar à sua frente a ponta delicada dos sapatos e recomeçar, junto deles, a busca.
Taque, taque hoje, taque-taque amanhã, aquela estranha dupla começou a percorrer caminhos que o homem nunca havia trilhado. Quem procura objetos perdidos vai pelas ruas movimentadas, onde as pessoas se esbarram, onde a pressa leva à distração, ruas onde vozes, rinchar de rodas, bater de pés, relinchos e chamados se fundem e ondeiam. Mas a mulher que andava com a cabeça para o alto ia onde pudesse ver árvores e pássaros e largos pedaços de céu, onde houvesse panos estendidos no varal. Aos poucos, mudavam os sons, chegavam ao homem latidos, cacarejar de galinhas.
O olhar que tudo sabia achar não parecia mais tão atento. O que procurar afinal entre fios de grama senão formigas e besouros? Os bolsos pendiam vazios. O homem distraía-se. Um caracol, uma poça d’água prendiam sua atenção, e o vento lhe fazia cócegas. Metia o pé na pegada achada na lama, como se brincasse.
Taque-taque, conduziam-no os pés pequenos dia após dia. Taque-taque crescia aquele som no coração do homem.
Achei! Exclamou afinal. E a mulher sobressaltou-se. Achei! Repetiu ele triunfalmente. Mas não era o que haviam combinado procurar. Na grama, colhida agora entre dois dedos, o homem havia encontrado a primeira violeta da primavera. E quando levantou a cabeça e endireitou o corpo para oferecê-la a ela, o homem soube que ele também acabava de perder o juízo.

Marina Colasanti

Do seu coração partido

Sentada junto à sacada para que a luz lhe chegasse a vida da rua, a jovem costurava o longo traje de seda cor de jade que alguma dama iria vestir. Essa seda agora muda – pensava a costureira enquanto a agulha que retinha nos dedos ia e vinha – haveria de farfalhar sobre mármores, ondeando a cada passo da dama, exibindo e ocultando a cada passo da dama, exibindo e ocultando nos poços das pregas seu suave verde. O traje luziria nobre como uma jóia. E dos pontos, dos pontos todos, pequenos e incontáveis que ela, aplicada, tecla dia após dia, ninguém saberia.


Assim ia pensando a moça, quando uma gota de sangue caiu sobre o tecido. 
De onde vinha esse sangue? perguntou-se em assombro, afastando a seda e olhando as próprias mãos limpas. Levantou o olhar. De um vaso na sacada, uma roseira subia a parede oferecendo, ao alto, uma única rosa flamejante.

– Foi ela – sussurrou o besouro que parecia dormir sobre uma folha. – Foi do seu coração partido.


Esfregou a cabeça com as patinhas. – Sensível demais, essa rosa – acrescentou, não sem um toque de censura. – Um mancebo acabou de passar lá embaixo, nem olhou para ela. E bastou esse nada, essa quase presença, para ela sofrer de amor.
Por um instante esquecida do traje, a moça debruçou-se na sacada. Lá ia o mancebo, afastando-se num esvoejar de capa em meio às gentes e cavalos.
– Senhor! Senhor! – gritou ela, mas nem tão alto, que não lhe ficaria bem. E agitava o braço.
O mancebo não chegou a ouvir. Afinal, não era o seu nome que chamavam. Mas voltou-se assim mesmo, voltou-se porque sentiu que devia voltar-se ou porque alguém do seu lado virou a cabeça de súbito como se não pudesse perder algo que estava acontecendo. E voltando-se viu , debruçada no alto de uma sacada, uma jovem que agitava o braço, uma jovem envolta em sol, cuja trança pendia tentadora como uma escada. E aquela jovem, sim, aquela jovem o chamava.
Retornar sobre os próprios passos, atravessar um portão, subir degraus, que tão rápido isso pode acontecer quando se tem pressa. E eis que o mancebo estava de pé junto à sacada, junto à moça. Ela não teve nem tempo de dizer por que o havia chamado, que já o mancebo extraía seu punhal e , de um golpe, decepava a rosa para lhe oferecer.
Uma ultima gota de sangue caiu sobre a seda verde esquecida no chão. Mas a moça costureira, que agora só tinha olhos para o mancebo, nem viu.

Marina Colasanti. 23 historias de um viajante. São Paulo: Global, 2005. P.157-9

Era uma vez…

era uma vez joao

Os contos de fadas, as lendas, fábulas e outras formas de narrativas populares possuem um papel importante na formação, fortalecimento e empoderamento do nosso senso crítico. Apesar de fictícios, muitas vezes as narrativas populares atuam em nossa mente racional através de projeções e espelhamentos. Elas trazem ainda, questionamentos que todos nós compartilhamos como dúvidas, angústias, dificuldades e desejos de felicidade.

Nos contos encontramos personagens imperfeitos que trazem à tona situações e conflitos que vivenciamos na realidade. Podemos encontrá-los através de uma mãe ou madrasta que odeia ou inveja sua filha ou enteada, a morte através da perda dos provedores e entes queridos, o sentimento de vulnerabilidade e solidão e ainda o encontro com aqueles que nos aconselham e auxiliam a cumprir nossas missões.

Nas histórias, ao contrário da realidade, existe uma separação nítida entre o bem e mal, essas forças são polarizadas, e isso também nos ajuda a afinar o olhar e aprender a diferenciar pessoas e atitudes saudáveis e que nos fazem bem, das que nos fazem mal. Durante a fantasia então, podemos descobrir novas possibilidades de desfechos para situações que vivenciamos na realidade e recriá-los em nossas vidas.

Dentro da visão da Gestalt-terapia, podemos dizer que as histórias espelham projeções e situações por nós idealizadas e assim podem nos ajudar a viver um “awareness”, o momento do “dar-se conta” dos fatos como eles são. Muitas vezes não percebemos que a maioria das vezes usamos narrativas na vida real que são feitas com tempos verbais que excluem o tempo presente. Porém, a Gestalt-terapia nos convida à viver no “aqui agora”, à lidar apenas com aquilo que “damos conta” no momento, pois não é construtivo imaginar situações futuras com os recursos que temos no presente.

Dessa forma, qualquer fala que não inclua o “aqui agora” é uma fala que não nos ajuda a sair dos nossos padrões de comportamentos e ciclos viciosos. Vivemos de fantasia quando utilizamos tempos verbais como o futuro do pretérito (gostaria, desejaria) ou situações hipotéticas como “e se” ou “quando”.  Pois, quem gostaria, não gosta. Quando eu for feliz, eu não sou feliz. Se eu fizer isso, eu ainda não fiz. Assim, nenhuma dessas falas nos conduz à ação, elas são falas fantasiosas que apenas nos mantém paralisados, imaginando, idealizando, revivendo situações e possibilidades irreais.

Para a Gestalt tudo “é o que é”, e é importante que façamos um exercício de aceitar as coisas e as pessoas como elas são, sem fantasias ou idealizações. Além disso, os contos trazem fortalecimento de alma, pois atuam espelhando situações e desfechos que muitas vezes não temos coragem de buscar para nós mesmos e assim podemos ver como, seguindo um passo de cada vez em uma jordana, o herói ouve o chamado, ouve conselhos, cumpre tarefas e é bem sucedido naquilo que se propõe a fazer. Quando trazemos para a nossa realidade as possibilidades levantadas durante a fantasia, temos a oportunidade de fazer diferente, de não repetir e de viver de forma mais saudável e criativa.

Fora isso, os heróis trazem questionamentos e dúvidas que nós também temos, e apesar disso, seguem adiante para cumprir suas missões. O livre-arbítrio está presente na vida do herói, ele tem escolhas, ele faz escolhas e sofre consequências por suas escolhas. O herói sabe que é responsável pelo seu próprio destino. Na vida real isso também é válido, mas muitas vezes nos esquecemos.

Mais ainda, o final feliz de uma história, representado pelo “felizes para sempre”, espelha um desejo que todos nós compartilhamos: encontrar paz e harmonia. Essa é uma busca real instintiva de todo e qualquer ser. E dentro da abordagem gestáltica o final feliz pode também representar nossa ânsia por fechamentos de Gestalts que não foram fechadas e, portanto, nos causam dor, inquietação, ansiedade e descontentamento. A alma só encontra paz através da verdade, por isso muitas vezes passamos uma vida toda, sem nos darmos conta, buscando a verdade e fechamentos mais felizes para nossas histórias infelizes.

As histórias também atuam em nossa ânsia por justiça e, se na vida real nem sempre conseguimos dar fechamentos que consideramos justos para nossos conflitos, nas histórias, vilão e mocinho são personagens que desempenham papéis de fácil distinção, a justiça é frequente e o bem prevalece diante do mal. Mas, ao contrário da ficção, a vida não é violino e rosas, justiça na vida real é algo muito mais complexo, além de ser um conceito criado pelo homem, muitas vezes embasado em fortes valores morais e culturais, que mudam conforme as gerações.

Portanto, a justiça é um fechamento tão relativo e individual, que muitas vezes não agrada ao coletivo. Mesmo assim, o senso de justiça é algo muito latente em nós seres racionais e, se na vida real nem sempre podemos ter o final justo que desejamos, através da ficção, as histórias podem sim trazer justiça e apaziguamento para nossos corações.

E finalmente, é importante lembrar que as fantasias e projeções podem ser de grande ajuda no nosso caminho quando conseguimos transitar livremente entre a fantasia e a realidade. E, se tivermos sabedoria, podemos viver a vida real no presente e deixar para imaginar e idealizar um paralelo na fantasia. Pois, na vida real, não é o “felizes para sempre” que importa, mas sim o feliz no aqui e no agora.

Menina bonita do laço de fita

Era uma vez uma menina linda, linda.
Os olhos pareciam duas azeitonas pretas brilhantes, os cabelos enroladinhos e bem negros.
A pele era escura e lustrosa, que nem o pelo da pantera negra na chuva.
Ainda por cima, a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo dela e enfeitar com laços de fita coloridas.
Ela ficava parecendo uma princesa das terras da áfrica, ou uma fada do Reino do Luar.
E, havia um coelho bem branquinho, com olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando. O coelho achava a menina a pessoa mais linda que ele tinha visto na vida.
E pensava:
– Ah, quando eu casar quero ter uma filha pretinha e linda que nem ela…
Por isso, um dia ele foi até a casa da menina e perguntou:
– Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:­
– Ah deve ser porque eu caí na tinta preta quando era pequenina…
O coelho saiu dali, procurou uma lata de tinta preta e tomou banho nela.
Ficou bem negro, todo contente. Mas aí veio uma chuva e lavou todo aquele pretume, ele ficou branco outra vez.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
– Menina bonita do laço de fita, qual é o seu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
– Ah, deve ser porque eu tomei muito café quando era pequenina.
O coelho saiu dali e tomou tanto café que perdeu o sono e passou a noite toda fazendo xixi.
Mas não ficou nada preto.
– Menina bonita do laço de fita, qual o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:­
– Ah, deve ser porque eu comi muita jabuticaba quando era pequenina.
O coelho saiu dali e se empanturrou de jabuticaba até ficar pesadão, sem conseguir sair do lugar. O máximo que conseguiu foi fazer muito cocozinho preto e redondo feito jabuticaba. Mas não ficou nada preto.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
– Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha?
A menina não sabia e… Já ia inventando outra coisa, uma história de feijoada, quando a mãe dela que era uma mulata linda e risonha, resolveu se meter e disse:
– Artes de uma avó preta que ela tinha…
Aí o coelho, que era bobinho, mas nem tanto, viu que a mãe da menina devia estar mesmo dizendo a verdade, porque a gente se parece sempre é com os pais, os tios, os avós e até
com os parentes tortos.E se ele queria ter uma filha pretinha e linda que nem a menina,
tinha era que procurar uma coelha preta para casar.
Não precisou procurar muito. Logo encontrou uma coelhinha escura como a noite, que achava aquele coelho branco uma graça.
Foram namorando, casando e tiveram uma ninhada de filhotes, que coelho quando desanda
a ter filhote não para mais! Tinha coelhos de todas as cores: branco, branco malhado de preto, preto malhado de branco e até uma coelha bem pretinha.
Já se sabe, afilhada da tal menina bonita que morava na casa ao lado.
E quando a coelhinha saía de laço colorido no pescoço sempre encontrava alguém que perguntava:
– Coelha bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?
E ela respondia:
– Conselhos da mãe da minha madrinha…
de Ana Maria Machado

A Azarenta

Conto segundo Sfurtana, Palermo, por Agatuzza Messia, Pitré

Era uma vez um rei, uma rainha e suas sete filhas. Naquele tempo havia sido declarada guerra ao pai. Derrotado nas batalhas, ele caiu prisioneiro e perdeu o trono. Durante o cativeiro, a família real passou por sérias dificuldades. A rainha foi obrigada a deixar o castelo e a recolher-se, com suas filhas, em uma modesta cabana. As agruras eram tantas que mesmo para comer contavam com milagres.

Certo dia um vendedor de frutas, que passava pelo local, foi chamado pela rainha, que desejava comprar figos. Enquanto fazia a compra, uma mulher muito velha aproximou-se e lhe pediu uma esmola.

-Ai, boa mãe! – retrucou a rainha. – Se eu pudesse, não lhe daria apenas uma esmola. Mas eu também sou uma pobre alma, não tenho nada.

-E o que houve? Por que sois tão pobre? – perguntou a velha.

-Não o sabeis? Eu sou a rainha da Espanha. Caí na desgraça por causa da guerra que fizeram contra meu marido.

-Pobre alma! Tendes razão: por tudo vossa família fracassa! Uma de vossas filhas é perseguida pela desgraça… Enquanto a moça permanecer entre vós, jamais podereis ter sorte.

-Ah sim, minha senhora?! Porventura, qual delas é essa filha desafortunada?

-É aquela que dorme com as mãos cruzadas sobre o peito.

-E o que devo fazer?

-À noite, enquanto elas dormem, deveis acender uma vela e observá-las. Aquela que encontrardes com as mãos cruzadas devereis mandar embora. Só assim podereis reconquistar vosso reino perdido.

Na mesma noite, à meia-noite, a rainha com uma vela na mão, colocou-se diante dos leitos de suas filhas. Todas dormiam: a primeira com as mãos juntas; a segunda com as mãos sob o rosto; a terceira com as mãos sob o travesseiro, e assim por diante. Quando chegou junto à mais nova, viu que ela dormia com as mãos cruzadas.

-Ai, minha filhinha! Justamente a ti é que devo mandar embora!

Enquanto dizia isso, a pequena acordou e viu a mãe com a vela na mão e os olhos cheios de lágrimas.

-Mamãe, o que se passa?

-Ah… minha filhinha…, é que por aqui passou uma velha que me disse que uma de minhas filhas – aquela que dorme com as mãos cruzadas – encontra-se sob o signo da desgraça. E que não voltaríamos a ter sorte na vida enquanto não a mandarmos embora. E essa infeliz és tu!

-Não deveis chorar por isso, mãe. Logo me visto e de nossa casa partirei.

Vestiu-se, atou suas coisas numa trouxa e imediatamente partiu. Depois de muito andar, chegou a uma relva deserta onde só havia uma única casa. Quando se aproximava, ouviu o taramelar de um tear e viu um grupo de mulheres que teciam.

-Queres entrar? – perguntou uma das tecelãs.

-Sim, boa mulher.

-Como te chamas?

-Azarenta.

-E tu queres servir-nos?

-Sim, boa mulher.

E ela começou a varrer e fazer o trabalho de casa. Chegada a noite, as mulheres lhe disseram:

-Escuta, Azarenta, agora partiremos e te fecharemos à chave pelo lado de fora. Tu deves trancar a casa por dentro. Quando voltarmos, nós abriremos pelo lado de fora e tu pelo lado de dentro. Deves ter cuidado para que não nos roubem a seda, os debruns, e os panos de linho que foram tecidos.

Dito isto, elas partiram.

Por volta da meia-noite, Azarenta ouviu o bater de tesouras. Pegou uma vela e se aproximou do tear. Viu uma mulher que estava cortando com uma tesoura todo o pano de linho dourado que havia sido tecido.

Naquele momento ela compreendeu que a mulher era a sua má sina, que a havia seguido até ali.

Na manhã seguinte as tecelãs voltaram. Enquanto abriam a porta pelo lado de fora, a moça abria pelo lado de dentro. Assim que entraram viram todo o seu trabalho destruído e espalhado pelo chão.

-Oh, sua impertinente! É essa a recompensa por te darmos abrigo? Vai embora, imediatamente! Fora!

E a puseram para fora a pontapés.

Azarenta continuou peregrinando pelos campos, à mercê do destino. Chegando a uma aldeia, deteve-se diante de um armazém de pão, verduras, vinho e outras coisas. Pediu uma esmola. A dona lhe deu pão, verduras, toucinho e um copo de vinho. Nisso entrou o dono. Com pena da moça ele a convidou para passar a noite com eles, acomodando-a sobre os sacos do depósito do armazém.

Durante a noite, os donos, que dormiam no cômodo no andar de cima do depósito, ouviram barulhos e se levantaram: todos os tampões dos tonéis haviam sido retirados; o vinho corria por toda a casa. Quando viu a desgraça, o homem foi ter com a moça – que estava deitada sobre os sacos e gemia, lamentando-se.

-Impertinente! Só tu podes ter feito isso! – E pegou uma vara e bateu nela. Em seguida enxotou-a para a rua.

Ela não sabia para onde se dirigir e se exauriu chorando.

Quando se fêz dia, Azarenta encontrou uma mulher no campo, que estava lavando roupa.

-Por que tu olhas dessa maneira? – inquiriu a mulher.

-Senhora, não sei aonde devo ir.

-Sabes lavar?

-Sim, boa mulher.

-Então fica aqui e ajuda a lavar. Eu ensabôo a roupa e tu a enxáguas.

Azarenta começou a enxaguar a roupa e a pendurá-la no varal. A roupa secou, Azarenta recolheu-a, pôs-se a remendá-la e passou-a a ferro cuidadosamente.

Era a roupa do filho de um rei. Quando esse príncipe a viu, pareceu-lhe maravilhosamente limpa.

-Dona Francisca – disse ele -, jamais me lavaste a roupa assim tão bem! Desta vez, fizestes por merecer uma boa gorjeta.

Ele lhe deu dez pratas. Com as dez pratas, dona Francisca vestiu Azarenta da mais bela maneira. Também comprou um saco de farinha e assou pães. Junto com os pães preparou ainda dois bolos redondos e generosamente carregados de anis e sésamo; bolos que pareciam dizer: “Comam-me, comam-me.” E dirigiu-se para Azarenta, instruindo-a:

-Deves ir à beira-mar com estes dois bolos. Lá deves chamar a minha sina da seguinte maneira: “-Aaah! Sina de dona Franciscaaa…!” Assim deves fazer por três vezes. À terceira vez, minha sina aparecerá diante de ti. Entregarás a ela um dos bolos e em meu nome tu lhe darás as minhas saudações. Depois peça que te ensine onde mora a tua sina e procede com a última da maneira como vou te dizer.

Rapidamente Azarenta foi até a beira do mar.

-Aaah, sina de dona Franciscaaa! Aaah, sina de dona Franciscaaa! Aaah, sina de dona Franciscaaa! – E a sina de dona Francisca apareceu. Azarenta lhe transmitiu a mensagem e entregou o bolo. E perguntou:

-Sina de dona Francisca, poderia Vossa Excelência ter a bondade de me explicar onde mora a minha própria sina?

-Escuta, tu segues um trecho por essa trilha de muar, até chegar a um forno. Ao lado do buraco para o esfregão do forno verás uma velha bruxa sentada. Sê especialmente amável para com ela e oferece-lhe o bolo. Ela é a tua sina. Verás que ela não o aceitará e te tratará rudemente. Tu, porém, deves deixar o bolo com ela e prosseguir teu caminho.

Azarenta chegou no local indicado e encontrou a velha sentada junto ao forno.

Quase não pôde conter seu mal-estar ao vê-la, tão suja, remelenta e fedorenta era ela.

-Querida mulherzinha da sina, não quereis dar-me uma alegria… – disse, bajulando-a e oferecendo o bolo.

-Some-te! Quem te pediu o bolo? – respondeu ríspida e imediatamente a velha, virando-se de costas para Azarenta. Assim mesmo, a moça docemente depositou o bolo junto a ela e voltou para a casa de dona Francisca.

O dia seguinte, uma segunda-feira, era dia de lavar roupa. Dona Francisca pôs a roupa de molho, Azarenta esfregou e enxaguou; enquanto estava seca, ela a remendou e passou a ferro. Dona Francisca colocou a roupa numa cesta e levou-a ao castelo. Quando o príncipe a viu, exclamou:

-Dona Francisca, a mim não podeis enganar! Tal roupa como esta jamais me entregastes. – E lhe deu dez pratas de gorjeta.

Novamente a lavadeira comprou farinha, assou mais dois bolos e mandou Azarenta com eles para as mulheres da sina.

No dia de lavar seguinte, o príncipe, que queria se casar e que dava muita importância a que a roupa estivesse bem limpa, deu uma gorjeta de vinte pratas a dona Francisca. Desta vez ela não comprou apenas farinha para dois bolos, mas também comprou, para a mulher da sina de Azarenta, uma bela blusa com uma saia de crinolina e combinação. Comprou ainda delicados lenços, um pente, pomada de cabelo e outras quinquilharias.

Azarenta foi ao forno.

-Querida mulherzinha da sina, eis aqui um bolo para ti…

A mulher da sina, que entrementes já se havia tornado um pouco mais meiga, achegou-se, resmungando, para receber o pão. Nesse momento, Azarenta se lançou em cima dela, agarrou-a e passou a lavá-la com esponja e sabão, a penteá-la e a vestir a velha, da cabeça aos pés, de roupa nova. A velha, que inicialmente se havia torcido como uma cobra, mudava a olhos vistos seu comportamento quando viu como ela brilhava de tanto asseio.

-Escuta, Azarenta – disse ela -, porque tu foste tão boazinha comigo, eu te dou esta caixinha.

E ela lhe deu uma caixinha que era tão pequena quanto uma caixinha de fósforos. Azarenta correu de volta para a casa de D. Francisca e abriu a caixinha. Nela estava um pequenino pedaço de debrum. As duas ficaram um pouco desapontadas.

-Oh, ela é realmente muito generosa… – disseram; e guardaram o debrum na última gaveta de uma cômoda.

Na semana seguinte, quando dona Francisca levou a roupa ao castelo, ela encontrou o príncipe de péssimo humor. A lavadeira, que estava bem familiarizada com o príncipe, perguntou:

-O que se passa, príncipe?

-Devo me casar, mas agora ocorre que no vestido de noiva falta um pequenino pedaço de debrum. E em todo o reino não é possível encontrar o mesmo desenho de debrum.

-Esperai, majestade – disse dona Francisca.

Correu para casa, procurou a caixinha na cômoda e levou ao príncipe o pequenino pedaço de debrum. Compararam-no com o desenho do debrum do vestido de noiva e ele coincidia exatamente. O príncipe disse:

-Como tu me salvaste de tal constrangimento, eu quero pagar o debrum a peso de ouro.

Buscou uma balança, colocou o debrum em um dos pratos e no outro o ouro. Porém, o ouro jamais era suficiente. Quis pesar mais uma vez, noutro tipo de balança, uma de tipo romano: mais uma vez se deu o mesmo resultado.

-Dona Francisca, contai-me a verdade. Como é possível um pedaço de debrum pesar tanto? De quem o ganhastes?

Dona Francisca, quer quisesse, quer não, teve de contar tudo  e o príncipe quis ver Azarenta.

A lavadeira aconselhou-a a vestir-se com muita beleza – com as peças que com o tempo elas haviam guardado – e levou a moça ao castelo. Azarenta entrou no aposento do príncipe e fez diante dele uma profunda reverência, pois ela era a filha de um soberano e não lhe faltava uma boa educação. O príncipe saudou-a e, oferecendo-lhe um lugar, perguntou:

-Quem és tu em verdade?

Azarenta disse:

-Sou a filha mais nova do rei da Espanha, que foi expulso de seu trono e tornado prisioneiro. Minha má sina obrigou-me a vagar pelo mundo e a suportar toda sorte de grosserias, desrespeito e pancadas.

E contou todas as suas experiências. Então, em primeiro lugar, o príncipe mandou buscar as tecelãs, às quais a má sina havia cortado a seda e o debrum.

-E qual foi o vosso prejuízo?

-Duzentas pratas.

-Aqui tendes as duzentas pratas. Sabei que esta moça em quem batestes é uma princesa. Não esqueçais! Desaparecei daqui depressa!

Depois ele mandou que trouxessem os donos do armazém, a quem a má sina havia esvaziado os tonéis.

-E qual foi o vosso prejuízo?

-Trezentas pratas.

-Aqui tendes as trezentas pratas. A próxima vez, porém, pensai duas vezes antes de surrar uma princesa. Fora daqui!

Em seguida, ele desmanchou o noivado com a sua primeira noiva e se casou com Azarenta. Como dama de honra, deu-lhe D. Francisca.

Então chegaram notícias do que havia acontecido à mãe de Azarenta. Quando sua filha mais nova partiu, a roda da sorte começou a girar em seu favor. Um belo dia chegaram seu irmão e seus sobrinhos à frente de um forte exército. Eles reconquistaram o reino. A rainha voltou com suas filhas para o castelo, onde novamente passaram a viver com todo o conforto de antes, embora a mãe vivesse atormentada pela lembrança da filha mais nova, de quem ela não sabia quase nada.

O príncipe, quando soube que a mãe de Azarenta retomara seu reino, enviou seus mensageiros e mandou dizer a ela que havia se casado com sua filha. Encantada, a mãe se pôs a viajar, acompanhada de cavaleiros e damas de honra. Também acompanhada de cavaleiros e damas de honra, a filha foi alcançá-la. Encontraram-se na fronteira e se abraçaram por muito tempo. Muito comovidas, as seis irmãs acompanharam a cena. E nos dois reinos houve uma grande festa.