Impostora

“Muitas pessoas não percebem o que delas saiu, porque não absorveram o seu destino enquanto o viviam, nem o transformaram em si mesmas. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência. 

Não temos motivos de desconfiar de nosso mundo, pois ele não nos é hostil. Havendo nele espantos, são os nossos; abismos, eles nos pertencem; perigos, devemos procurar amá-los. Como esquecer os mitos antigos que se encontram no começo de cada povo: os dos dragões que num momento supremo se transformam em princesas? Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas que aguardam apenas o momento de nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo horror em última análise, não passe de um desamparo que implora o nosso auxílio.”

Rainer Maria Rilke

Questionamentos e reflexões sobre a verdade fazem parte das grandes discussões da humanidade. Se a verdade é tão essencial, paradoxal pensarmos que em termos de comportamento humano, embora seja ela que almejamos encontrar, o que mais nos deparamos e contamos são mentiras, nossas e dos outros, invenções, distorções, truques, fragmentos, que nos distraem e desviam do contato com o que de fato é.

Fritz Perls dizia que a verdade só pode ser tolerada se descoberta por conta própria. E é aí que encontramos um poço cheio de armadilhas e (muito) auto boicote: porque somos limitados, porque muitas vezes não queremos enxergar a verdade, porque não a suportamos e por isso a evitamos com grande força. E, como Sísifo, num ciclo vicioso de repetições, quanto mais nos perdemos nas nossas mentiras, mais nos afastamos da nossa verdade e da nossa essência. Mas há quem prefira o conforto da repetição do que encarar a verdade. Há quem prefira a servidão voluntária à liberdade. É preciso respeitar a escolha de cada um.

A verdade liberta, mas cobra seu preço. Porque a verdade, na maioria esmagadora das vezes, dói. Arrebenta. Avassala. Destrói crenças enraizadas por toda uma vida. E como isso nos desestrutura e desmonta! Como dói!

Dói entrar em contato com as vezes em que fomos negligenciados, abandonados, invadidos, esquecidos. Dói entrar em contato com nossa insignificância e impotência diante do entrelaçamento de histórias que parecem nos atropelar, esmagar, aniquilar. Dói descobrir que não temos controle de absolutamente nada. Dói pensar naquela criança, que era só uma criança e que não tinha recursos para se defender de pais abusivos, negligentes, agressivos, superprotetores, sufocantes, exigentes, açoitados pelos seus próprios traumas e feridas de quando eram igualmente pequenos e também não tinham como se defender de seus pais feridos, num ciclo sistêmico infinito.

Dói saber que quem mais amamos são os grandes heróis e também vilões de nossas histórias. Dói descobrir que seguimos repetindo padrões disfuncionais. Nem sempre queremos olhar para a verdade, é solitário e penoso confrontar nosso destino. Dói viver tentando preencher o que nos falta. Dói descobrir que somos os grandes vilões de nossa própria história, e numa tentativa de evitar o nosso caos interno, produzimos mais caos e nos tornamos vilões também da história dos outros. Dói viver fragmentado sem integrar em nós as partes que nos assustam, machucam ou envergonham.

Repetir dói, estagnar dói, avançar dói, mudar dói.

Escolha.

Perls dizia que “poucas pessoas vão a terapia para se curar, mas sim para melhorar suas neuroses. Nós preferimos manipular os outros para obtermos apoio em vez de aprender a nos sustentar sobre nossos pés e nosso próprio traseiro. Se a pessoa é louca por poder, quer mais poder. Se é intelectual, ela quer mais cocô de elefante, se é um ridicularizador, quer ter mais veneno para ridicularizar, e assim por diante.”

Conheço pessoas (e me incluo nessa dinâmica), assim como Perls denunciou, que dedicam anos de terapia a tratar feridas fantasiosas, anos a culpabilizar os outros, buscando validação e tapinha nas costas pelos seus comportamentos disfuncionais e neuróticos simplesmente porque a versão dos fatos sempre é contada pelo protagonista. Fantasias que nos tornam vítimas ou heróis, sempre mais moralmente aceitos. E como grandes atrizes e atores que somos, transferimos nossa performance da vida para o setting terapêutico. Que grande farsa!

“O neurótico é aquele que não vê o óbvio. A saúde consiste na nossa capacidade e coragem para enxergar o óbvio”, dizia Perls. A saúde começa com a capacidade de integrarmos experiências difíceis como parte nossa. Quanto mais conseguimos enxergar o todo, mais emocionalmente saudáveis nos tornamos, mais inteiros e verdadeiros somos.

Refleti sobre os anos abordando em terapia tudo e todos, sessões repletas de sobreísmos, afinal falar sobre o que está fora é a melhor maneira de evitar falar de nós. A verdade continuava sempre lá: todo meu desamparo querendo ser visto, olhado, cuidado. Eu não queria olhar para ele. E quanto menos olhava, quanto mais tentava preencher o que me faltava, mais produzia caos ao redor de mim. Assim aprendi que evitar a dor produz mais dor, mais caos em um loop eterno. É exaustivo!

Anos de terapia fortalecendo neuroses, diversas mudanças de profissionais como se o erro estivesse nelas e não em mim. Anos contando mentiras, me contando mentiras. Mas a sensação era constante e cada vez mais familiar, tão assustadora que não ousava nomeá-la. Até que o sofrimento de viver uma mentira se tornou maior do que encarar a verdade. Foi assim, no desespero de não me reconhecer em minha pele, que criei coragem para chamar: impostora. Era como me sentia.

Como é fácil enganar os outros, pior, como é fácil enganar a si mesmo. Anos de terapia evitando olhar para o elefante na sala, e ele estava sempre lá. Como nos esforçamos para evitá-lo! Como nos tornamos mestres em performar! Mas ele está em tudo: nas dores e enxaquecas, na insônia, no sobrepeso e em tudo aquilo que usamos para nos anestesiar, nos sintomas físicos e mentais, nas viagens, compras, pessoas, palavras, e principalmente, nas nossas ações.

Quando as palavras tomam tanta distância de nossas ações que já não nos reconhecemos em lugar algum. Impostores. Quando nos tornamos estrangeiros de nossa própria história. Impostores. Mas eu recebia tantos elogios, amizades virtuais, likes e visualizações, me esforçava tanto para agradar a tudo e a todos, parecia funcionar tão bem. Mentirosa. Sempre tão inteligente, bacana, preocupada com os outros e com os males do mundo. Impostora. E quanto mais era vista pelo que fingia ser, mais desamparada me sentia. Solitária. Impostores. Quem se cala diante de um impostor é seu cúmplice e conivente.

O sofrimento nos ensina e humaniza, ninguém passa ileso pela morte e pela doença. O diagnóstico da minha mãe, a morte do meu pai, e o elefante na sala crescia, ganhava força, formato e cores muito vivas, casamento, maternidade, luto, uma pandemia, e o elefante cada vez maior. Até que mais insuportável que encará-lo, foi fingir que ele não estava lá. Foi preciso alguns anos de terapia integrando verdades difíceis.

A verdade traz dor e alívio.

Talvez Rilke estivesse certo, nosso horror é o desamparo implorando por ajuda. Nossas carências transformadas em terror e caos como mecanismos de evitação daquilo que mais nos machuca: a verdade que escancara nossa humanidade, vulnerabilidade, desamparo, inadequação. A verdade nos traz notícias de uma época em que éramos tão pequenos e precisávamos de proteção, ainda assim ficamos desamparados. Crianças feridas tornam-se adultos que ferem. Feridas abertas continuam a sangrar e são como aquele elefante na sala esperando por nossa coragem, olhos e ouvidos, essência e coração, para transformar dragões em princesas, terror em beleza, fraqueza em fortaleza, e finalmente enxergar o óbvio, que sempre esteve e sempre estará lá.

Coragem.

O inferno são os outros

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“Uma cultura de paz é uma cultura de tolerância ativa, mas também é, acima de tudo, uma cultura de conhecimento de si. É extremamente importante nós nos conhecermos e sabermos quem somos, quais são nossas limitações e anseios, por exemplo, e aproveitarmos para aplicar isso em nós mesmos.”

trecho do livro “O inferno somos nós” de Leandro Karnal e Monja Coen

A projeção foi um dos primeiros mecanismos neuróticos de evitação de contato descritos por Fritz Perls, segundo ele: “a projeção é a tendência em fazer o meio responsável pelo que se origina na própria pessoa”. O funcionamento do projetivo é  muito bem descrito na frase icônica do existencialista Jean-Paul Sartre, emprestada para título desse texto. A pessoa que se utiliza desse mecanismo frequentemente tem necessidade de transformar o outro em vilão, falhando em perceber o óbvio: que ela é a única responsável por escrever sua própria história.

Perls ainda descreve a projeção da seguinte maneira: “clinicamente reconhecemos a doença da paranoia, que é caracterizada pelo desenvolvimento de um sistema altamente organizado de ilusões, como caso extremo da projeção. A paranoica tem sido, caso após caso, a personalidade mais agressiva, que incapaz de suportar a responsabilidade de seus próprios sentimentos e vontade, projeta suas fantasias em objetos ou pessoas do meio.”

Assim, o projetivo está sempre cheio de suspeitas, projetando no outro tudo que há de errado na sua relação com o mundo. Sua principal introjeção é “não posso sentir o que sinto”. A pessoa com essa predominância de funcionamento vive uma cisão entre o que ela pensa que é x o que ela de fato é. Por isso são gritantes as incoerências entre o que diz e o que faz, já que ela mesma não se reconhece em suas ações.

Provavelmente foram filhos muito julgados ou superprotegidos. A mensagem que receberam de seus principais cuidadores é “sozinho você não pode”, algo que gera grande insegurança interna. Por não terem aprendido a confiar em si mesmos, se apoiam em demasia no meio (ou nos pais).

Os projetivos demonizam todos, mas são incapazes de demonizar seus pais. “Tirar os pais do pedestal” é questionar sua própria história e isso é algo extremamente difícil para eles. Cresceram em ambientes onde foram extremamente exigidos ou onde receberam muito pouco e, portanto, não aprenderam a confiar no vínculo, por isso são inseguros e desconfiados.

São pessoas que aparentemente se mostram confiantes, com grande autoestima, mas na verdade têm pouca noção de si mesmo e um ego inflado. Com sua teimosia e arrogância falham em reconhecer seus erros, em pedir desculpas, em olhar a realidade dos fatos como eles são, em fazer uma análise assertiva dos conflitos que vivem, e principalmente, falham em identificar suas responsabilidades nas escolhas que fazem.

Concentram muita energia no que está fora, possuem crenças engessadas e polarizadas, falam constantemente sobre algo ou alguém. Nutrem intensa admiração por seus ídolos, defendem com veemência as causas que acreditam. Quando falam de si, raramente expressam autoresponsabilização e constantemente se valem de um discurso vitimista.

Um projetivo em estado cristalizado ou neurótico, apresenta um agir  impulsivo e inconsequente. Muitas vezes, está tão obcecado em achar um culpado ou condenar alguém que acaba se perdendo em processos fantasiosos e paranóicos. São estes os casos extremos descritos por Perls. E dessa maneira, quanto mais mantém o foco no outro, mais evita contato com suas dores mais profundas. Esse modo tão neurótico de funcionar o impede de crescer, aprender, mudar.

Os projetivos raramente vão para terapia, já que não dão conta do processo terapêutico. Portanto, só vão para terapia para resolver questões pontuais que estejam lhe causando muita dor, e como entendem que o outro é principal responsável por seu sofrimento, geralmente é nele que deposita o foco de sua narrativa. Nesse sentido, a projeção é um mecanismo desafiador para o terapeuta, pois para quem projeta o papel de vítima é confortável e o único que, desde uma idade muito precoce, aprendeu  a utilizar para manipular o meio e conseguir suprir suas demandas emocionais.

O desafio do psicólogo é conseguir fazer com que o projetivo conjugue o verbo em primeira pessoa e aprenda a se responsabilizar por sua parte nos conflitos que vive e nas escolhas que faz. As terapias em grupo funcionam melhor para esse tipo de pessoa, já que ela opera através do espelhamento no outro e nunca através de um mergulho aprofundado em si. Assim sendo, para quem projeta é sempre mais cômodo acreditar que o inferno são os outros, do que entender que o seu inferno é ele mesmo quem cria.

*Créditos para Yara Gualda Carneiro do Instituto de Gestalt de Curitiba em aula sobre “projeção” do curso de Formação em Gestalt-Terapia.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato da Gestalt-terapia:

Introjeção

Confluência

Isolamento

Deflexão

 

 

 

Noiva em confluência

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Noiva em Fuga (Runaway Bride) é um longa de comédia romântica que recheia a lista de clássicos românticos da década de 90, foi pouco aclamado pela crítica, e traz pouca novidade para um gênero onde sobram clichês e falta originalidade de roteiro.

Protagonizado por Richard Gere e Julia Roberts, conta a história da jovem Maggie que fica falada em sua pequena e pacata cidade por fugir do altar três vezes consecutivas. Ike Graham, é um repórter de Nova York que quer salvar sua decadente carreira e resolve escrever a história da famosa “noiva em fuga”. Dentro dos exemplos de mecanismos de evitação de contato na Gestalt-terapia, podemos dizer que Maggie faz confluência.

A confluência foi um dos primeiros mecanismos de evitação de contato descritos por Perls, ele a explicou como sendo o tipo de interação em que o indivíduo não sente haver uma barreira entre ele e seu meio, quando sente que ele próprio e o meio são um só. Em estado patológico de confluência, a pessoa não consegue fazer contato consigo mesma, nem distinguir-se do meio. Em termos mais simplificados, confluir é perder-se no outro, portanto sua polaridade é o “isolamento”.

Um indivíduo quando conflui é aquele que sempre se esforça ou muda para agradar ao outro, que tem dificuldade de se posicionar ou agir quando suas ideias destoam do todo e prefere sempre evitar conflitos. A cena clássica do filme é quando Ike confronta Maggie sobre como ela gosta de comer ovos no café da manhã. Ao estudar seus relacionamentos passados ele descobre que ela gosta ovos de acordo com o que cada noivo prefere. “Você é a mulher mais perdida que conheço, tão perdida que não sabe nem como quer comer ovos! Com o padre, eram mexidos; com o hippie eram fritos; com o outro, eram escaldados, e agora, só com claras!”

Uma metáfora clássica para pessoas em confluência, que geralmente perdem-se mais ainda quando se apaixonam. Relacionar-se certamente inclui o movimento de moldar-se ao outro, faz parte de um bom contato e do crescimento da relação mudar, ceder, negociar. Mas, existe uma dose saudável para isso, que depende de cada pessoa e relação. O que não é saudável é tornar-se igual ou o que o outro deseja para agradá-lo. No fim das contas ninguém (em sanidade mental) gosta do que não é autêntico. Na maioria das vezes os relacionamentos com pessoas confluentes acabam justamente porque é cansativo e entediante relacionar-se com alguém que não tem opinião própria, nem firmeza de querer. A mesmice não gera crescimento nem mudança, só fazemos contato com aquilo que nos é diferente.

A jornada da “Noiva em Fuga” é interessante do ponto de vista da psicologia, pois no decorrer da historia ela se dá conta que precisa conhecer melhor sobre si antes de relacionar-se. Trata-se daquele antigo clichê, que merece ser revisitado. Para amar o outro, ela precisa antes descobrir quem é, o que gosta, o que quer. Conhecer suas fronteiras, e tornar-se inteira. “Queria dizer a você sobre porque fujo, às vezes, corro das coisas, quando eu caminhava até o altar, era para alguém que não fazia ideia de quem eu era realmente. E só a metade da culpa era dele, pois fiz todo o possível para convencê-lo de que eu era exatamente o que ele queria. Então, foi bom eu não ter levado adiante, porque teria sido uma mentira. Adoro ovos mexidos! Odeio todos os outros!”

Como todos os mecanismos de contato, a confluência também pode ser funcional, é importante e nobre cedermos em prol do outro, e muitas vezes evitar conflitos e discussões que não são importantes. “Escolher nossas batalhas” (pick your battles), mas para isso antes precisamos descobrir quais são nossas batalhas. O convite ao padrão confluente é aprender sobre si, experimentar coisas novas, pensar e decidir sem a interferência de outros ou a preocupação excessiva em agradar. Começa passando por gostos simples, como preparo de ovos, mas inclui também questões importantes como estilo de vida, sonhos, desejos, valores e crenças.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato:

Isolamento

Deflexão

Introjeção

A felicidade só é real quando é compartilhada

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Escrito e dirigido por Sean Penn, o filme “Na Natureza Selvagem” é baseado no livro homônimo do jornalista Jon Krakauer e conta a história verídica do jovem americano Christopher McCandless. Lançado em 2007, o longa recebeu diversas premiações e indicações, incluindo um Globo de Ouro de melhor canção e duas indicações ao Academy Awards (Oscar). A trilha sonora é assinada por Eddie Vedder e torna o filme ainda mais belo. Outro destaque fica por conta da fotografia com paisagens de tirar o fôlego.

Talvez o que faz da história interessante é a quebra contra o sistema por parte do protagonista: ao concluir a graduação em uma universidade renomada, ele muda de nome, abandona um futuro promissor e uma vida de luxos para percorrer sozinho parte dos Estados Unidos; em sua jornada faz explora novos contextos, faz novas amizades, vive amores e desamores. A história é emocionante, com ressalvas.

Embora a personalidade exploradora do jovem tenha encantado muitos, utilizando os mecanismos neuróticos de evitação de contato da Gestalt-terapia pode-se entender que o garoto funciona em mecanismo chamado “isolamento”. Apesar de não ter sido inicialmente descrito por Perls, o isolamento é utilizado por autores mais modernos, muitas vezes descrito como uma polaridade da “confluência”. Para a GT, não se trata necessariamente ou apenas de um afastamento físico é, principalmente, um afastamento emocional.

Assim como os outros mecanismos, o isolamento tem sua funcionalidade, muitas vezes precisamos dessa distância do outro, pois é importante estar bem sozinho. Mas, ele torna-se um mecanismo neurótico quando não conseguimos permanecer em situações e relacionamentos que podem nos trazer benefícios; quando evitamos o contato como uma defesa ou uma solução para não sofrer.

A dificuldade de tratar uma pessoa neste funcionamento neurótico é que raramente ela procurará ajuda. Uma das principais características do isolado é ter a ilusão de que se basta sozinho e muitas vezes não sentir necessidade ou falta do contato com o outro. Ainda, a pessoa nesse funcionamento pode estar cercada de gente e mesmo assim não estar acessível emocionalmente. Muitas vezes são pessoas que possuem muitos amigos, mas não se aprofundam em relação alguma, mantendo sempre uma distância emocional confortável e um certo mistério sobre si.

O que me chama atenção no filme é que, apesar de existir beleza e coragem na personalidade misteriosa e rebelde do jovem, ele claramente demonstra dificuldade em permanecer nos diferentes círculos sociais que exigem dele um maior envolvimento emocional, causando grande sofrimento naqueles que o amam. Assim, deixa para trás família, amigos, estilo de vida, e parece não se importar com isso. O paradoxo está justamente na frase de título que McCandless escreve em um livro pouco antes de morrer, sozinho e isolado, no frio congelante do Alasca.

É saudável questionar o sistema, buscar outros estilos de vida, viajar e percorrer lugares diferentes, fazer novas amizades, sozinho ou acompanhado. Mas, as escolhas que nos tornam emocionalmente indisponíveis e colocam nossas vidas em risco não são funcionais, são neuróticas. Nenhuma escolha pode ser saudável quando ela nos custa a vida. Entrar em contato com o que nos é diferente pode ser desconfortável, porém é também transformador. Afinal, as cercas que construímos para nos proteger não mantêm os outros para fora, elas nos aprisionam dentro de nossa mesmice e pequenez. Sim, a felicidade só é mesmo real quando é compartilhada.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato:

Deflexão

Introjeção

Comer, Rezar, Amar e Introjetar

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“E uma vez que já estou ali ajoelhada no chão em posição de súplica, deixem-me manter essa posição enquanto viajo no tempo até três anos atrás, até o instante em que toda esta história começou – um instante que também me encontrou nessa mesma exata posição: de joelhos, no chão, rezando. No entanto, tudo o mais em relação à cena de três anos atrás era diferente. Daquela vez eu não estava em Roma, mas sim no banheiro do andar de cima da grande casa no subúrbio de Nova York que eu acabara de comprar com meu marido. Eram mais ou menos três horas da manhã de um novembro gelado. Meu marido dormia na nossa cama. Eu estava escondida no banheiro pelo que deveria ser a 47a noite consecutiva, e – como em todas aquelas outras noites – estava soluçando. Soluçando com tanta força, na verdade, que uma grande poça de lágrimas e muco se espalhava à minha frente sobre os ladrilhos do banheiro, um verdadeiro lago formado por toda minha vergonha, medo, confusão e dor. Eu não quero mais estar casada. Eu estava tentando tanto não saber isso, mas a verdade continuava a insistir. Eu não quero mais estar casada. Não quero morar nesta casa grande. Não quero ter um filho.” Elizabeth Gilbert em Comer, Rezar, Amar.

Embora não seja próprio do espírito gestáltico falar em tipologia, Fritz Perls e outros gestaltistas descreveram alguns “modos operantes” utilizados para evitação de contato com o outro, com o meio ou com situações de conflitos emocionais. Os gestaltistas chamaram estes modos de se relacionar de “Mecanismos de Evitação do Contato” ou “Mecanismos de Defesa”.

Os mecanismos de evitação de contato são recursos que desenvolvemos desde muito cedo,  primeiramente como forma de ajustamento e sobrevivência ao modo (muitas vezes disfuncional) como nosso sistema familiar está organizado; posteriormente repetimos os mesmos padrões em outros círculos relacionais. Todos nós alternamos entre os diferentes mecanismos, de acordo com dada situação ou conflito, por isso não se deve “engessar” alguém em um determinado mecanismo. Porém, fala-se em prevalências, que moldam nosso funcionamento e personalidade.

A introjeção é uma manobra onde o sujeito incorpora ideias, sentimentos, comportamentos e uma série de outros aspectos do ambiente. Há um processo passivo de “engolir” o que vem de fora e assim a pessoa acaba entrelaçando as próprias escolhas, preferências e opiniões com as dos outros e tendo dificuldade de diferenciar o que é realmente seu.

Segundo Perls, “não há nada em nossas mentes que não venha do meio, e não há nada do meio para o qual não haja uma necessidade orgânica, física ou psicológica. Estas devem ser digeridas e dominadas se quiserem se tornar nossas de verdade, realmente uma parte da nossa personalidade. Mas se simplesmente as aceitamos completamente e sem crítica, baseados na palavra de outra pessoa, ou porque estão na moda, ou são de confiança, ou tradicionais, ou antiquadas ou revolucionárias – tornam-se um peso para nós. São realmente indigeríveis. Ainda são corpos estranhos, embora tenham se instalado em nossas mentes.” (Fritz Perls em “A abordagem gestáltica”, p. 46 e 47)

No livro “Comer, Rezar, Amar”, a personagem principal se vê em meio a uma crise existencial quando dá-se conta que a vida “nos eixos” que escolheu não é exatamente a vida que ela quer viver. Ela termina um relacionamento de anos, abandona uma vida considerada por muitos “perfeita” e embarca em uma jornada em busca de autoconhecimento, do que lhe serve, e o que não lhe serve, de desconstrução de crenças e valores.

A pessoa que introjeta é aquela que segue regras, faz tudo “certinho”, mas nem sempre é feliz. Introjetores são pessoas que se esforçam para manter e seguir regras, muitas vezes são religiosos, conservadores e radicais em seus posicionamentos. Introjetores podem ser extremamente incoerentes, pois não conseguem manter conexão clara entre o que acreditam e o que fazem. Outras vezes, esforçam-se demasiadamente para manter essa coerência, tornando-se pessoas cristalizadas, sem autenticidade e espontaneidade. As crises surgem quando encontram-se em situações conflituosas e de grandes impasses emocionais e dão-se conta que mesmo fazendo tudo “certinho”, os resultados nem sempre são aqueles esperados.

Lembrando que todo mecanismo pode ser funcional, a introjeção é saudável quando utilizada em situações em que as regras precisam ser cumpridas para que a ordem seja mantida. Ninguém pode sair nu na rua, por exemplo, existe um senso comum em que nos baseamos para que tenhamos uma vida relativamente harmoniosa em comunidade. Introjetar torna-se um mecanismo neurótico quando passamos a seguir regras, sem questionar, a nos esforçar para agradar os demais, quando nos tornamos radicais em nossas crenças e valores sem considerar ou ponderar crenças e valores alheios.

Para uma vida emocionalmente saudável é preciso que aprendamos a “mastigar” antes de engolir os muitos introjetos que nos são impostos desde pequenos. A partir da maturidade podemos criar autonomia para fazer nossas próprias escolhas e filtrar aquilo que nos serve. O convite é ampliar o mapa mental através da análise individual de cada conflito e queixa, com contextualização para aquela situação específica, também é importante falar sem utilizar-se de generalizações e entender o que funciona para si, que é diferente do que funciona para os outros. Sim, a saúde consiste no equilíbrio, e temos que lembrar sempre que ele é diferente para cada um de nós.