Wanderlust: navegar (pela dor) é preciso

wanderlustWanderlust (do alemão wandern: ‘caminhar’, ‘vagar’ + Lust : ‘desejo’; em português, “desejo de viajar”) é um termo que descreve um forte desejo de viajar, de explorar o mundo, de ir a qualquer lugar, em uma caminhada que possa levar ao desconhecido, a algo novo. [1][2]

“Not all those who wander are lost.”
“Nem todos os que vagam estão perdidos.”
J.R.R. Tolkien

 

Descrita como: “uma série intransigente, penetrante e divertida sobre relacionamentos”, o drama “Wanderlust: navegar é preciso”, produzido pela BBC e disponível no Netflix, traz como protagonista a atriz Toni Collette no papel da psicóloga Joy. O roteiro assinado pelo dramaturgo Nick Payne, tem elenco talentoso, e fotografia, trilha sonora e figurino de qualidade. A série acerta em muitos aspectos, navegando entre leveza e densidade, abordando de maneira profunda e ao mesmo tempo alegre temas tão urgentes. Acerta também em trazer para a ficção um setting terapêutico fiel à realidade e tão necessário. É um grande presente para entusiastas da psicologia.

Fritz Perls, considerado o pai da Gestalt-terapia, escreveu: “a fobia da dor é a inimiga do desenvolvimento – a relutância em sofrer um mínimo que seja. Nós utilizamos isso na Gestalt-terapia ao compreendermos que o continuum de tomada de consciência se interrompe – que você se torna fóbico logo que começa a se sentir desconfortável, logo que isso ocorre, você desvia sua atenção.”

Segundo a GT, podemos encontrar um berço fértil de criatividade e transformação através do fechamentos de gestalts, ou seja, ciclos de sofrimento emocional que, de alguma maneira, ficaram interrompidos. Geralmente são sofrimentos de traumas vividos em uma época onde possuíamos pouco recurso emocional para dar conta de tal experiência, como na infância ou na adolescência. Esses eventos que ficam inacabados são gestalts incompletas, verdades não ditas, dores não elaboradas, feridas que ficam abertas. Como Perls denunciou na citação acima, são feridas tão profundas que  evitamos tocá-las.

Portanto, o gestalt-terapeuta precisa ter coragem de frustrar o cliente, frustar toda tentativa de fuga ou fobia, frustrar as histórias elaboradas que nosso intelecto insiste em contar, as explicações, as justificativas e desculpas que criamos. O terapeuta precisa ter firmeza para nos manter no percurso e chegar no âmago da dor. O conceito de awareness é importante para GT, é o momento em que nos damos conta da verdade, o momento do cair a ficha, é quando a dor é tocada e então é possível dar um fechamento para tal evento traumático, para essa gestalt. Esse fechamento pode vir com muita comoção, emoção, lamento, choro, e então, alívio. Suspiro. Silêncio. Paz.

Sim, para encontrar a verdade é preciso navegar pela dor.

O quinto e penúltimo episódio da série se passa inteiramente dentro do consultório, é uma conversa densa, lenta, intensa entre Joy e sua terapeuta. São quase 60 minutos onde é possível assistir como essa busca pela verdade pode acontecer dentro do setting terapêutico. A cena é fiel, com destaque para excelente atuação de Collette.

Podemos sentir com Joy e acompanhar as intervenções da terapeuta Angela. E assim ver nitidamente as tentativas de se contar histórias, de esquiva, de desculpas que Joy cria, tentando evitar o máximo possível entrar em contato com a verdade (e com a dor). Em alguns momentos podemos fazer a leitura da linguagem corporal das duas, Joy se defende, arqueando o corpo, enquanto a terapeuta fala, inclinando-se para frente. A protagonista traz negação, omissão de fatos, justificativas, porque a verdade é difícil de ser verbalizada. Muitas vezes é vergonhosa, humilhante, dilacerante. Não, não é à toa que a evitamos.

Joy traz muitos temas misturados, temas que parecem aleatórios, porém aos poucos vamos aprendendo como estão conectados e têm a mesma raiz, é como se um grande quebra-cabeça fosse sendo montado. É assim mesmo que muitas vezes chegamos no consultório, muitas histórias e conteúdos que parecem ter pouca ou nenhuma ligação, se o profissional for competente, aos poucos a figura do todo pode ir se revelando. Vemos como Angela vai aos poucos separando o “joio do trigo”, aprofundando onde existe energia, conduzindo a cliente novamente para o caminho da verdade, toda vez que ela tenta fugir do tema ou se defender. Essa é a importância do vínculo, da confiança que se cria em um ambiente terapêutico. Apesar de se sentir atacada, e ela chega a verbalizar essa sensação, Joy mantém a escuta em sua terapeuta porque esse vínculo foi criado e validado.

A cena traz ainda a maneira como o passado se conecta ao presente, assim como Perls propôs, para GT o passado importa, mas o que importa mesmo é descobrirmos como ele se manifesta em nosso presente, a GT é conhecida também como terapia do aqui agora. Pois, o presente é o único tempo em que é possível fazer alguma coisa, não podemos mudar o passado, assim quando buscamos trazer o passado para o setting terapêutico ficamos paralisados, com poucos recursos para promover alguma mudança significativa em nossas vidas. Resta compreender e lamentar o que foi, chorar partes tão difíceis de nossa história, e entender como isso ainda nos paralisa e priva de construirmos histórias melhores.

No episódio é possível navegar pelas duras verdades de Joy e notar quando ela toca uma dor muito profunda, aquela que ela tanto evitava, como já falado, é o que Perls chamou de awareness. Geralmente são momentos de muita comoção, onde as lágrimas são inevitáveis, muitas vezes acompanhadas por um choro inconsolável. É assim que sabemos que fizemos contato com algo muito profundo e difícil. Saímos da razão, entramos na emoção. Saímos do superficial, entramos no que é essencial.

Para encontrar nossas verdades, para sermos mais verdadeiros, é preciso – e inevitável – navegar pela dor.

Navegue.

Anne with an “E”, defletindo para sobreviver

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“Deflexão é uma manobra para evitar o contato direto com outra pessoa ou conflito; uma forma de tirar o calor do contato real. Isso é feito ao se falar em rodeios, usar linguagem excessiva, rir-se do que a outra pessoa diz, desviar o olhar de quem fala, ser subjetivo em vez de específico, não ir direto ao ponto, ser polido em vez de falar diretamente, usar linguagem estereotipada em vez de uma fala original, exprimir emoções brandas em vez das emoções intensas; falar sobre o passado quando o presente é mais relevante. A pessoa que deflete, ao responder à outra age quase como se tivesse um escudo invisível, muitas vezes experiencia a si mesma como imóvel, entediada, confusa, vazia, cínica, não-amada, sem importância e deslocada.” (Erving e Miriam Polster, 2001).

Baseada no clássico “Anne of Green Gables” da escritora canadense L. M. Montgomery, a série da Netflix “Anne with an E” conta a história de Anne Shirley, uma menina órfã aos três meses que desde cedo trabalha duro para sobreviver. Os olhos azuis e vívidos da jovem Anne escondem o peso de uma curta existência, porém carregada de complexidade emocional e traumas.

A história começa quando os irmãos Marilla e Matthew Cuthbert resolvem adotar um menino com braços fortes e ágeis para ajudar na lida diária do campo, Matthew surpreende-se ao encontrar uma menina aguardando por ele na estação de trem. O primeiro encontro da garota com os novos pais adotivos é pautado por decepção, frustração e rejeição. A menina Anne é miúda e desajeitada, tem imaginação viva e fala incessante. Dentro de uma tipologia gestáltica, pode-se dizer que Anne é deflexiva.

Embora não seja próprio do espírito gestáltico falar em tipologia, Fritz Perls e outros gestaltistas descreveram alguns “modos operantes” utilizados para evitação de contato com o outro, com o meio ou com situações de conflitos emocionais. Os gestaltistas chamaram estes modos de se relacionar de “Mecanismos de Evitação do Contato” ou “Mecanismos de Defesa”.

Os mecanismos de evitação de contato são recursos que desenvolvemos desde muito cedo,  primeiramente como forma de ajustamento e sobrevivência ao modo (muitas vezes disfuncional) como nosso sistema familiar está organizado; posteriormente repetimos os mesmos padrões em outros círculos relacionais. Todos nós alternamos entre os diferentes mecanismos, de acordo com dada situação ou conflito, por isso não se deve “engessar” alguém em um determinado mecanismo. Porém, fala-se em prevalências, que moldam nosso funcionamento e personalidade.

A menina Anne é muito jovem e desde cedo vive desamparada em orfanatos e trabalhando em casa de terceiros. Por diversas vezes foi rejeitada, maltratada, agredida, experienciou traumas psicológicos e físicos que com pouca idade não possuía recursos emocionais para “processar”. Ela se utiliza da fala excessiva e da imaginação para criar ambientes mais leves; assim tira o calor das relações e evita contato com a realidade dos fatos, com o peso e a dor que eles trazem. A fim de sobreviver com tão pouca idade em um mundo tão emocionalmente complexo e caótico, Anne deflete.

A deflexão é o mecanismo de evitação que se utiliza do desvio do contato direto ou da energia do objeto de desejo. A pessoa deflexiva nunca adere à situação, sempre falando de outras coisas, fala muito e ao mesmo tempo não diz nada.

É importante ressaltar que todos os mecanismos são funcionais quando utilizados de maneira adequada. Defletir é um ótimo recurso em situações que requerem contatos superficiais, polidez e diplomacia. Também é um recurso muito utilizado na arte e na escrita, tornando as palavras mais ricas e floreadas. As pessoas com prevalência de funcionamento deflexivo, por terem dificuldade de fixação em uma só coisa ou pessoa, são curiosas, criativas e têm conhecimento de assuntos variados.

Os mecanismos de evitação de contato tornam-se neuróticos quando utilizados em situações que requerem novas maneiras de lidar com conflitos, ou seja, quando se tornam anacrônicos. Defletir é inadequado quando precisamos ser objetivos, assertivos, ao falarmos de nós, quando se faz necessário silenciar e entrar em contato com nossas dores e frustrações. Defletir não nos ajuda quando temos que focar ou aprofundar em algo e, principalmente, quando desejamos criar intimidade e vínculo emocional legítimo e duradouro com o outro.

O exercício para pessoas que defletem é aprender a falar assertiva e objetivamente, manter foco e atenção em algo ou alguém, fazer e manter contato visual ao falar, escutar e, claro, silenciar. 

“Anne with an E” é uma história sobre reconstrução, novos aprendizados e oportunidades, e também sobre deixar velhos padrões (deflexivos) de comportamentos. A menina Anne precisa reinventar-se, aprender a permanecer e criar vínculos e recontar sua historia. A série não acerta sempre, mas me surpreendeu em conteúdo, produção e fotografia. A narrativa, apesar de complexa em conteúdo emocional, se desenvolve de forma leve e divertida. Assistir “Anne With an E” requer ainda contextualização histórica de uma época onde não existia infância e as crianças eram tratadas como “mini-adultos”. Para os chorões como eu, sugiro manter uma caixa de lenços por perto.