Nossas memórias são traiçoeiras

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Certa vez li um estudo que diz que quando recordamos um fato do passado, na verdade recordamos a última lembrança que tivemos de tal ocorrido. Ou seja, com o passar do tempo, nossas memórias são construídas em cima de memórias e não do que de fato aconteceu. Além disso, nosso mecanismo de memorização é seletivo e excludente, e nós esquecemos muito mais do que memorizamos. E ainda, temos certa tendência em “editar” o passado, tornando-o melhor do que foi. Portanto, nossas memórias são traiçoeiras, elas não são acuradas, verdadeiras, elas são nada mais que nossa versão editada da real história.

Talvez esse seja um mecanismo de defesa ou sobrevivência que desenvolvemos em nossa evolução. Pois, dar sentido à nossa historia é um fator importante para sobrevivência. É compreensível que queiramos florear nossa própria história deixando-a mais bonita e significativa. Encontrar beleza e dar sentido às nossas feridas é talvez o maior ato de redenção e gratidão aos nossos antepassados, às suas dores, às nossas dores. Talvez seja por isso que lembramos do passado com tanto apreço, certo romantismo até, que insistimos em recordar das partes boas e melhorar as ruins.

Isso explica aquele relacionamento antigo que você insiste em lembrar como um ótimo relacionamento, tão perfeito, tão feliz, e atenta-se pouco aos detalhes, às brigas e incompatibilidades, ao término em si e os fatos que levaram à ele. Também explica essa nostalgia que permeia nossa infância, as recordações que geralmente temos de uma infância doce e feliz.

Da memória excluímos todas as vezes que ainda tão pequenos, sentimos medo, raiva, impotência, angústia, solidão. Esquecemos das vezes que vivenciamos episódios que sequer tínhamos repertório emocional para compreender. A nossa mente faz um trabalho de certa forma poético ao tentar nos proteger dessas (re)vivências traumáticas, aprimorando-as ou apagando-as.

Mas, independente de como nossa memória funciona, o que interessa na prática é que por mais “traiçoeira” que ela seja, por mais que nosso cérebro tente nos proteger de reviver grandes dores, nosso corpo como organismo completo que é, tem uma sabedoria imensurável, e ele registra tudo, e ele não esquece nada. Assim, muitas vezes desenvolvemos ansiedade, raiva, tristeza, depressão e tantas outras agonias emocionais que não sabemos nomear de eventos que não podemos recordar.

Além disso, para sobreviver, aos poucos nos adaptamos aos ambientes caóticos em que crescemos e criamos vícios de comportamento, padrões aprendidos e repetidos, crenças engessadas, histórias melhoradas (e portanto fantasiosas). Geralmente agimos inconscientemente, por amor aos nossos progenitores, para pertencer ao nosso núcleo familiar, seja qual for a razão, fato é que tudo isso nos gera uma alta dívida emocional. E essa dívida sempre nos é “cobrada”, é como se de alguma maneira nossa alma nos cobrasse essa dívida para que busquemos a verdade e reaprendamos a contar a nossa história mais verdadeira.

A boa notícia é que o passado, como diz o nome, passou e sempre temos a escolha de construir novos caminhos e possibilidades com os recursos que temos hoje. Portanto, não somos reféns do que foi. Por mais importante que seja revisitar nosso passado para entender de onde viemos, o que ajuda mesmo é entender como essas memórias perdidas e os traumas não solucionados no passado se manifestam em nosso dia-a-dia.

Entenda, a verdadeira possibilidade de mudança está apenas no presente. Portanto, aprender a deixar para trás o que foi (e não temos poder de mudar), compreender nossos medos e estarmos por inteiros em nossas escolhas é uma tarefa libertadora e curativa. É o antídoto infalível para qualquer sofrimento da alma. Pois, só o presente é verdadeiro e a verdade, muitas vezes pode ser dura, mas ela sempre nos é fiel.

E nossa alma só sossega quando encontra a verdade.

Não apresse o rio

O livro “Não apresse o rio (ele corre sozinho)” de Barry Stevens é um relato a respeito do uso que a autora faz da Gestalt-terapia e dos caminhos do Zen, Krishnamurti e índios americanos para aprofundar e expandir a experiência pessoal e o trabalho através das dificuldades. ‘Temos que nos colocar de cabeça para baixo e inverter a nossa maneira de abordar a vida.’

Aqui alguns trechos:

“Às vezes quando tudo sai errado, acontecem coisas maravilhosas e eu aproveito coisas que teria perdido se tudo tivesse dado certo. Se não, sempre posso dormir”.

“Não são as correntes que atam os corpos dos homens, mas as correntes que atam as mentes dos homens”.

“Em seu livro Freedom from the know, Krishnamurti conta um fato que se passou quando viajava de carro pela Índia, com mais dois homens e um motorista. Os dois homens estavam discutindo sobre tomada de consciência e fazendo perguntas a Krishnamurti. O chofer não notou uma cabra e atropelou-a. Os dois homens não notaram. “E com a maioria de nós se dá o mesmo. Não tomamos consciência das coisas de fora e das coisas de dentro”.

“Saí do futuro onde não posso fazer nada exceto em fantasia, e entrei no presente, onde tudo acontece”.

“Total naturalidade, e sem erros. Isto é perfeição. “Buscar a perfeição” não faz sentido para mim”.

“Nan-in, um mestre japonês, recebeu um professor de universidade que veio indagar a respeito do Zen. Nan-in serviu chá. Encheu a xícara do visitante, e continuou derramando. O professor observou a enchente até que não pode mais se conter. “Ela já está cheia. Não cabe mais nada!” “Como esta xícara”, disse Nan-in, “você está cheio – de opiniões e especulações. Como posso lhe mostrar o Zen a menos que você antes esvazie a sua xícara?”

“Nos dizem que cometer erros é “ruim”. Mas isto é parte da aprendizagem – cometer erros e notá-los. Então – se não os combatermos – eles se corrigem. Como é que um bebê aprende a andar?”

“O estilo de vida se mostra no corpo. É claro. De que outra forma poderia ser? Eu sou meu corpo, meu corpo é eu. De que outra forma posso me expressar? Se eu fico encolhida e não digo nada, estou me expressando. Quando torço os meus dedos dos pés, estou me expressando. Quando enrijeço os ombros, estou me expressando. Quando “não ouço”, estou me expressando. Quando entro num padrão habitual, estou me expressando como artefato, uma espécie de estátua que se move e respira de forma artificial. Eu fiz a mim”.

“É preciso viver sozinho. É só então que a gente realmente chega perto de outra pessoa”.

“A vida não se movimenta conforme dizemos ou escrevemos – nem conforme pensamos que deveria se movimentar – nem conforme tentamos fazer que se movimente”.

Trechos do livro: “Não apresse o rio (ele corre sozinho)” de Barry Stevens

Era uma vez…

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Os contos de fadas, as lendas, fábulas e outras formas de narrativas populares possuem um papel importante na formação, fortalecimento e empoderamento do nosso senso crítico. Apesar de fictícios, muitas vezes as narrativas populares atuam em nossa mente racional através de projeções e espelhamentos. Elas trazem ainda, questionamentos que todos nós compartilhamos como dúvidas, angústias, dificuldades e desejos de felicidade.

Nos contos encontramos personagens imperfeitos que trazem à tona situações e conflitos que vivenciamos na realidade. Podemos encontrá-los através de uma mãe ou madrasta que odeia ou inveja sua filha ou enteada, a morte através da perda dos provedores e entes queridos, o sentimento de vulnerabilidade e solidão e ainda o encontro com aqueles que nos aconselham e auxiliam a cumprir nossas missões.

Nas histórias, ao contrário da realidade, existe uma separação nítida entre o bem e mal, essas forças são polarizadas, e isso também nos ajuda a afinar o olhar e aprender a diferenciar pessoas e atitudes saudáveis e que nos fazem bem, das que nos fazem mal. Durante a fantasia então, podemos descobrir novas possibilidades de desfechos para situações que vivenciamos na realidade e recriá-los em nossas vidas.

Dentro da visão da Gestalt-terapia, podemos dizer que as histórias espelham projeções e situações por nós idealizadas e assim podem nos ajudar a viver um “awareness”, o momento do “dar-se conta” dos fatos como eles são. Muitas vezes não percebemos que a maioria das vezes usamos narrativas na vida real que são feitas com tempos verbais que excluem o tempo presente. Porém, a Gestalt-terapia nos convida à viver no “aqui agora”, à lidar apenas com aquilo que “damos conta” no momento, pois não é construtivo imaginar situações futuras com os recursos que temos no presente.

Dessa forma, qualquer fala que não inclua o “aqui agora” é uma fala que não nos ajuda a sair dos nossos padrões de comportamentos e ciclos viciosos. Vivemos de fantasia quando utilizamos tempos verbais como o futuro do pretérito (gostaria, desejaria) ou situações hipotéticas como “e se” ou “quando”.  Pois, quem gostaria, não gosta. Quando eu for feliz, eu não sou feliz. Se eu fizer isso, eu ainda não fiz. Assim, nenhuma dessas falas nos conduz à ação, elas são falas fantasiosas que apenas nos mantém paralisados, imaginando, idealizando, revivendo situações e possibilidades irreais.

Para a Gestalt tudo “é o que é”, e é importante que façamos um exercício de aceitar as coisas e as pessoas como elas são, sem fantasias ou idealizações. Além disso, os contos trazem fortalecimento de alma, pois atuam espelhando situações e desfechos que muitas vezes não temos coragem de buscar para nós mesmos e assim podemos ver como, seguindo um passo de cada vez em uma jordana, o herói ouve o chamado, ouve conselhos, cumpre tarefas e é bem sucedido naquilo que se propõe a fazer. Quando trazemos para a nossa realidade as possibilidades levantadas durante a fantasia, temos a oportunidade de fazer diferente, de não repetir e de viver de forma mais saudável e criativa.

Fora isso, os heróis trazem questionamentos e dúvidas que nós também temos, e apesar disso, seguem adiante para cumprir suas missões. O livre-arbítrio está presente na vida do herói, ele tem escolhas, ele faz escolhas e sofre consequências por suas escolhas. O herói sabe que é responsável pelo seu próprio destino. Na vida real isso também é válido, mas muitas vezes nos esquecemos.

Mais ainda, o final feliz de uma história, representado pelo “felizes para sempre”, espelha um desejo que todos nós compartilhamos: encontrar paz e harmonia. Essa é uma busca real instintiva de todo e qualquer ser. E dentro da abordagem gestáltica o final feliz pode também representar nossa ânsia por fechamentos de Gestalts que não foram fechadas e, portanto, nos causam dor, inquietação, ansiedade e descontentamento. A alma só encontra paz através da verdade, por isso muitas vezes passamos uma vida toda, sem nos darmos conta, buscando a verdade e fechamentos mais felizes para nossas histórias infelizes.

As histórias também atuam em nossa ânsia por justiça e, se na vida real nem sempre conseguimos dar fechamentos que consideramos justos para nossos conflitos, nas histórias, vilão e mocinho são personagens que desempenham papéis de fácil distinção, a justiça é frequente e o bem prevalece diante do mal. Mas, ao contrário da ficção, a vida não é violino e rosas, justiça na vida real é algo muito mais complexo, além de ser um conceito criado pelo homem, muitas vezes embasado em fortes valores morais e culturais, que mudam conforme as gerações.

Portanto, a justiça é um fechamento tão relativo e individual, que muitas vezes não agrada ao coletivo. Mesmo assim, o senso de justiça é algo muito latente em nós seres racionais e, se na vida real nem sempre podemos ter o final justo que desejamos, através da ficção, as histórias podem sim trazer justiça e apaziguamento para nossos corações.

E finalmente, é importante lembrar que as fantasias e projeções podem ser de grande ajuda no nosso caminho quando conseguimos transitar livremente entre a fantasia e a realidade. E, se tivermos sabedoria, podemos viver a vida real no presente e deixar para imaginar e idealizar um paralelo na fantasia. Pois, na vida real, não é o “felizes para sempre” que importa, mas sim o feliz no aqui e no agora.

Os dispostos se atraem

O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração. Os gregos, mais sensíveis do que nós, tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio – embora eles não tivessem relógios como os nossos – eles davam o nome de chronos. O pêndulo do relógio oscila numa absoluta indiferença à vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilhão, indiferente à vida e à morte, ao riso e ao choro. Agora os cronômetros partem o tempo em fatias ainda menores, que o corpo é incapaz de perceber. Centésimos de segundo: que posso sentir num centésimo de segundo? O tempo do relógio é indiferente às tristezas e alegrias.

Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão dos cronômetros. Suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Por vezes tranqüilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo amor. Dá saltos. Tropeça. Trina. Retoma à rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de kairós. Chronos é um tempo sem surpresas: a próxima música do carrilhão do relógio de parede acontecerá no exato segundo previsto. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música vai soar.

Rubem Alves em O AMOR QUE ACENDE A LUA – Um caso de amor com a vida.

Tenho um grupo de amigas muito queridas e de longa data, a vida nos colocou em caminhos diferentes, porém sempre que possível tentamos nos reunir para celebrar nossa amizade e colocar a conversa em dia. Nos últimos meses têm sido extremamente difícil de conseguir uma data em que todas possam participar. No começo do ano, fiz algum movimento no sentido de manter nossos encontros mais constantes e, ao ver que isso me estava exigindo esforço, resolvi não mais insistir.

Esses dias uma delas fez outra tentativa e logo começaram as falas de incompatibilidade de agendas e falta de tempo. Então disse que havia desistido de tentar, que nossa amizade não mudaria, mas não vejo sentido em desprender tanta energia e esforço para encontrar alguém, entendo que temos estilos e ritmos de vida totalmente diferentes, mas para mim, no fundo mesmo apenas falta vontade. Claro, minha sinceridade provocou certo desconforto entre todas, para elas eu estava sendo intolerante, mas eu fui apenas honesta.

Certamente o fato de ser tão difícil de nos encontrarmos não muda o que sinto por elas, mas eu quero mesmo é me cercar de pessoas disponíveis. Pessoas disponíveis são aquelas que enviam e respondem mensagens, que atendem ou retornam ligações, que ligam, que aceitam convites e fazem questão de ir, que convidam e fazem questão que eu vá, que perguntam e respondem, que se interessam, que compartilham experiências e sorrisos, que olham no olho, que sabem o valor de ter e ser uma boa companhia; são pessoas que estão disponíveis para celebrar a vida.

Estar disponível não é abrir mão de sua vida em prol do outro, não é ficar à mercê e esperando por ele, é apenas se abrir para viver aquele encontro que se apresenta de maneira leve e despretensiosa, por inteiro. 

Estar disponível é estar presente e estar presente é de fato o maior presente que podemos dar e receber de alguém. Disponibilidade é desacelerar os ponteiros do relógio, é transformar Chronos em Kairós, é imprimir pequenos fragmentos de tempo no coração e construir elos que nos fazem melhores para a vida e para o mundo.

Tatiana na janela

Em 2010 quando o dono do apartamento que eu alugava colocou-o a venda, resolvi voltar para casa do meu pai temporariamente. Mas, o que era para ser temporário se transformou em um período de cinco anos. Nesse tempo meus irmãos já moravam em outras cidades, meu pai se mudou para morar com minha madrasta. Todas as coisas que meus irmãos e meu pai não usavam, porém não queriam se desfazer estavam naquele apartamento. Era muita coisa sem utilidade ou uso e tinha muita coisa minha. Aos poucos comecei a limpar e arrumar a desordem da casa.

Dizem que para você saber se a vida de uma pessoa está “nos eixos” você deve olhar para seu guarda-roupa. E eu diria que o inverso também pode valer, ou seja, se você quiser colocar sua vida “nos eixos”, comece por arrumar seu guarda-roupa. Foi por lá que comecei. Aos poucos virei quase uma profissional de “fazer limpas”. O mais difícil disso é que não é simplesmente pegar tudo e jogar fora, é preciso cautela para olhar coisa por coisa e dar uma destinação correta para cada uma.

Passei muitos meses me desfazendo de tudo e organizando a casa. Gaveta por gaveta, prateleira por prateleira, todas as pastas, os livros, os papéis, aliás muitos papéis. Aproveitei também para limpar meu carro, as bolsas e os bolsos. Estendi para minha vida virtual: álbum de fotos, folders, caixas de e-mail, contas em desuso. Cada canto da minha vida recebeu uma boa limpeza. Nesse período foi bom olhar para o coração, nele também é possível de se acumular mágoas, dores e muita carga extra que também precisam encontrar uma destinação correta.

Somos uma geração de acumuladores. Acho que nunca na história da humanidade o homem acumulou tanto. Nós acumulamos tudo. E não paramos de acumular nunca. E quando prestei mais atenção nisso pude entender como estamos vivendo em um mundo com tanta desordem. 

O meu processo se intensificou quando finalmente mudei para meu apartamento. Mudança de casa é algo que dá trabalho, porém renovador. Quando fiz a mudança me certifiquei de deixar algumas gavetas vazias na casa nova, porque era um pouco assim que me sentia, porque eu quero deixar espaço para o novo entrar.

Me mudei com o coração vazio, pois foi logo que meu pai faleceu e minha mãe foi morar com minha irmã em Manaus. Por ser uma  longa viagem, ela levou quase nada. E eu, que havia acabado de organizar a minha bagunça, me vi novamente cercada de coisas. E não era pouca coisa ou coisas sem importância. Era toda a vida material da minha mãe. Tudo que ela acumulou estava em minhas mãos. Meu pai sempre me dizia para que eu doasse duas peças de roupa para cada uma que comprasse. Ele era um cara extremamente econômico e organizado. Ainda assim, a gente acumula coisas. E agora que ele se foi, minha mãe se foi, restou tudo que eles acumularam em minhas mãos.

O problema do que acumulamos não são as bugigangas em si, essas são até fácil de dar destinação, o complexo nos acúmulos são as lembranças que ficam impressas em cada objeto, isso faz com que algumas coisas tenham valor difícil de mensurar. É mesmo um processo dolorido esse de fazer limpas, é como se eu estivesse a desempoeirar o passado, a reviver cada memória, toda nossa história. E no caso das coisas deles, quanta história que ficou impressa e que eu sozinha não saberei contar.

É fácil doar os utensílios domésticos e as roupas de cama, mas é difícil encaixotar algumas coisas, como os antigos álbuns de fotos. Consegui dar destinação para muitas miudezas, mas ainda não sei o que fazer com os dentes de leite que meu pai guardou em um potinho de filme etiquetado com o nome de cada filho. Rasguei muitos papéis, mas me detive ao encontrar por entre as coisas dele a passagem da minha primeira viagem internacional em vôo solo.

E por ser algo assim tão minucioso, levei quase dois meses só para esvaziar o apartamento da minha mãe (e ainda não consegui organizar as coisas do meu pai). Hoje finalmente consegui tirar as últimas caixas de lá. Meu coração ficou pequeno e não contive as lágrimas diante daquele apartamento vazio, mas que guarda tanta memória.

No ano em que nasci, meu pai comprou em minha homenagem um quadro chamado “Tatiana na janela”. Sempre gostei muito dele. O nome do quadro é bem literal: uma menina de costas olhando pela janela. Cresci olhando para ele e imaginando o que a menina Tatiana estava contemplando daquela janela. Quando meus pais se separaram o quadro ficou para minha mãe. Hoje ele virou meu. E agora pendurei-o na parede do meu quarto que é para acordar todos os dias e contemplar o mundo através da janela de Tatiana; e lembrar sempre que, apesar da pintura me agradar muito, a vida é mesmo feita de momentos e memórias e que as melhores coisas da vida, de fato, não são coisas.

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