Impostora

“Muitas pessoas não percebem o que delas saiu, porque não absorveram o seu destino enquanto o viviam, nem o transformaram em si mesmas. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência. 

Não temos motivos de desconfiar de nosso mundo, pois ele não nos é hostil. Havendo nele espantos, são os nossos; abismos, eles nos pertencem; perigos, devemos procurar amá-los. Como esquecer os mitos antigos que se encontram no começo de cada povo: os dos dragões que num momento supremo se transformam em princesas? Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas que aguardam apenas o momento de nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo horror em última análise, não passe de um desamparo que implora o nosso auxílio.”

Rainer Maria Rilke

Questionamentos e reflexões sobre a verdade fazem parte das grandes discussões da humanidade. Se a verdade é tão essencial, paradoxal pensarmos que em termos de comportamento humano, embora seja ela que almejamos encontrar, o que mais nos deparamos e contamos são mentiras, nossas e dos outros, invenções, distorções, truques, fragmentos, que nos distraem e desviam do contato com o que de fato é.

Fritz Perls dizia que a verdade só pode ser tolerada se descoberta por conta própria. E é aí que encontramos um poço cheio de armadilhas e (muito) auto boicote: porque somos limitados, porque muitas vezes não queremos enxergar a verdade, porque não a suportamos e por isso a evitamos com grande força. E, como Sísifo, num ciclo vicioso de repetições, quanto mais nos perdemos nas nossas mentiras, mais nos afastamos da nossa verdade e da nossa essência. Mas há quem prefira o conforto da repetição do que encarar a verdade. Há quem prefira a servidão voluntária à liberdade. É preciso respeitar a escolha de cada um.

A verdade liberta, mas cobra seu preço. Porque a verdade, na maioria esmagadora das vezes, dói. Arrebenta. Avassala. Destrói crenças enraizadas por toda uma vida. E como isso nos desestrutura e desmonta! Como dói!

Dói entrar em contato com as vezes em que fomos negligenciados, abandonados, invadidos, esquecidos. Dói entrar em contato com nossa insignificância e impotência diante do entrelaçamento de histórias que parecem nos atropelar, esmagar, aniquilar. Dói descobrir que não temos controle de absolutamente nada. Dói pensar naquela criança, que era só uma criança e que não tinha recursos para se defender de pais abusivos, negligentes, agressivos, superprotetores, sufocantes, exigentes, açoitados pelos seus próprios traumas e feridas de quando eram igualmente pequenos e também não tinham como se defender de seus pais feridos, num ciclo sistêmico infinito.

Dói saber que quem mais amamos são os grandes heróis e também vilões de nossas histórias. Dói descobrir que seguimos repetindo padrões disfuncionais. Nem sempre queremos olhar para a verdade, é solitário e penoso confrontar nosso destino. Dói viver tentando preencher o que nos falta. Dói descobrir que somos os grandes vilões de nossa própria história, e numa tentativa de evitar o nosso caos interno, produzimos mais caos e nos tornamos vilões também da história dos outros. Dói viver fragmentado sem integrar em nós as partes que nos assustam, machucam ou envergonham.

Repetir dói, estagnar dói, avançar dói, mudar dói.

Escolha.

Perls dizia que “poucas pessoas vão a terapia para se curar, mas sim para melhorar suas neuroses. Nós preferimos manipular os outros para obtermos apoio em vez de aprender a nos sustentar sobre nossos pés e nosso próprio traseiro. Se a pessoa é louca por poder, quer mais poder. Se é intelectual, ela quer mais cocô de elefante, se é um ridicularizador, quer ter mais veneno para ridicularizar, e assim por diante.”

Conheço pessoas (e me incluo nessa dinâmica), assim como Perls denunciou, que dedicam anos de terapia a tratar feridas fantasiosas, anos a culpabilizar os outros, buscando validação e tapinha nas costas pelos seus comportamentos disfuncionais e neuróticos simplesmente porque a versão dos fatos sempre é contada pelo protagonista. Fantasias que nos tornam vítimas ou heróis, sempre mais moralmente aceitos. E como grandes atrizes e atores que somos, transferimos nossa performance da vida para o setting terapêutico. Que grande farsa!

“O neurótico é aquele que não vê o óbvio. A saúde consiste na nossa capacidade e coragem para enxergar o óbvio”, dizia Perls. A saúde começa com a capacidade de integrarmos experiências difíceis como parte nossa. Quanto mais conseguimos enxergar o todo, mais emocionalmente saudáveis nos tornamos, mais inteiros e verdadeiros somos.

Refleti sobre os anos abordando em terapia tudo e todos, sessões repletas de sobreísmos, afinal falar sobre o que está fora é a melhor maneira de evitar falar de nós. A verdade continuava sempre lá: todo meu desamparo querendo ser visto, olhado, cuidado. Eu não queria olhar para ele. E quanto menos olhava, quanto mais tentava preencher o que me faltava, mais produzia caos ao redor de mim. Assim aprendi que evitar a dor produz mais dor, mais caos em um loop eterno. É exaustivo!

Anos de terapia fortalecendo neuroses, diversas mudanças de profissionais como se o erro estivesse nelas e não em mim. Anos contando mentiras, me contando mentiras. Mas a sensação era constante e cada vez mais familiar, tão assustadora que não ousava nomeá-la. Até que o sofrimento de viver uma mentira se tornou maior do que encarar a verdade. Foi assim, no desespero de não me reconhecer em minha pele, que criei coragem para chamar: impostora. Era como me sentia.

Como é fácil enganar os outros, pior, como é fácil enganar a si mesmo. Anos de terapia evitando olhar para o elefante na sala, e ele estava sempre lá. Como nos esforçamos para evitá-lo! Como nos tornamos mestres em performar! Mas ele está em tudo: nas dores e enxaquecas, na insônia, no sobrepeso e em tudo aquilo que usamos para nos anestesiar, nos sintomas físicos e mentais, nas viagens, compras, pessoas, palavras, e principalmente, nas nossas ações.

Quando as palavras tomam tanta distância de nossas ações que já não nos reconhecemos em lugar algum. Impostores. Quando nos tornamos estrangeiros de nossa própria história. Impostores. Mas eu recebia tantos elogios, amizades virtuais, likes e visualizações, me esforçava tanto para agradar a tudo e a todos, parecia funcionar tão bem. Mentirosa. Sempre tão inteligente, bacana, preocupada com os outros e com os males do mundo. Impostora. E quanto mais era vista pelo que fingia ser, mais desamparada me sentia. Solitária. Impostores. Quem se cala diante de um impostor é seu cúmplice e conivente.

O sofrimento nos ensina e humaniza, ninguém passa ileso pela morte e pela doença. O diagnóstico da minha mãe, a morte do meu pai, e o elefante na sala crescia, ganhava força, formato e cores muito vivas, casamento, maternidade, luto, uma pandemia, e o elefante cada vez maior. Até que mais insuportável que encará-lo, foi fingir que ele não estava lá. Foi preciso alguns anos de terapia integrando verdades difíceis.

A verdade traz dor e alívio.

Talvez Rilke estivesse certo, nosso horror é o desamparo implorando por ajuda. Nossas carências transformadas em terror e caos como mecanismos de evitação daquilo que mais nos machuca: a verdade que escancara nossa humanidade, vulnerabilidade, desamparo, inadequação. A verdade nos traz notícias de uma época em que éramos tão pequenos e precisávamos de proteção, ainda assim ficamos desamparados. Crianças feridas tornam-se adultos que ferem. Feridas abertas continuam a sangrar e são como aquele elefante na sala esperando por nossa coragem, olhos e ouvidos, essência e coração, para transformar dragões em princesas, terror em beleza, fraqueza em fortaleza, e finalmente enxergar o óbvio, que sempre esteve e sempre estará lá.

Coragem.

Viva as perguntas

perguntas-coaching

“Quero lhe implorar para que seja paciente com tudo o que não está resolvido em seu coração e tente amar as perguntas como quartos trancados e como livros escritos em língua estrangeira. Não procure respostas que não podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las. E a questão é viver tudo. Viva as perguntas agora. Talvez assim, gradualmente, você sem perceber, viverá a resposta num dia distante.”

Rainer Maria Rilke

A Gestalt-terapia é uma abordagem da psicologia pouco conhecida, porém fascinante. Não somente por ser atual, mas muito por sua simplicidade. Fritz Perls, um de seus pensadores, criticava os processos de racionalização e intelectualização nos quais tentamos (em vão) explicar eventos psicológicos. Para ele, a grande maioria das nossas vivências mais marcantes não carecem de uma explicação lógica, elas apenas precisam ser sentidas.

A GT é conhecida também como a terapia do aqui agora e sofre muitas críticas por simplificar uma área da academia que com os anos tornou-se extremamente teorizada e elitizada. Para Perls, o processo terapêutico deve ser acessível, simples e objetivo. Principalmente, ele deve devolver autonomia ao cliente para que ele possa desenvolver auto-apoio e auto-responsabilização ao fazer escolhas, para que ele aprenda a utilizar seus próprios recursos no momento, dependendo cada vez menos da validação do meio ou de um profissional.

“O intelecto é a prostituta da inteligência”, dizia Perls que condenava a Academia atuando na formação de psicoterapeutas e as áreas de estudo que buscam incessantemente sentido e entendimento racional de tudo. O intelecto se vende fácil ao que faz sentido lógico, mas nem sempre isso combina com nosso entendimento emocional dos eventos. Constantemente tentamos racionalizar e entender nossas frustrações através da razão e explicá-las a fim de encontrar paz e conforto, e na maioria das vezes essas tentativas geram mais conflitos emocionais do que resoluções.

A grande “sacada” de Perls envolve a validação de nossas emoções, ele entendeu que os eventos psicológicos não podem (nem devem) ser compreendidos racionalmente. Entender que a morte é uma certeza de quem vive, conhecer as religiões e crenças, acreditar em um plano espiritual além da vida, não faz a perda de alguém que amamos menos sofrida, tampouco faz a possibilidade da morte menos assustadora. Mais do que explicar racionalmente, é preciso sentir, lamentar e chorar a dor da perda.

Tudo isso parece muito simples se não vivêssemos em uma sociedade cartesiana, altamente intelectualizada, onde se busca fazer sentido lógico de tudo, onde é tão difícil falar de sentimentos, medos, frustrações, perdas, fracassos, dores. Para evitar a inconveniência da verdade, maquiamos as partes duras de nossa história na tentativa de deixá-las mais “emocionalmente suportáveis”.

É mais fácil dizer que gasto muito do que admitir que sustento meu marido. É mais fácil falar que ele anda muito ocupado e não consegue me responder a admitir que estou sendo rejeitada. É mais fácil apontar culpados para o que vivo de disfuncional do que admitir que sou tão responsável pelas minhas vitórias quanto sou pelos meus fracassos. Esses são exemplos bem simplificados de como construímos as histórias fantasiosas que nos contamos. Geralmente nos contamos mentiras, “enfeitamos” os fatos, porque é muito doloroso encarar a verdade, ironicamente é só quando validamos nossas verdades mais duras que encontramos consolo e paz.

Perls falava de um outro tipo de inteligência, que nada tem a ver com o intelecto. A inteligência que ele reconhecia era uma inteligência criativa e emocional, ele reforçava que saúde emocional tem a ver com desenvolver uma maneira de viver a vida com autonomia, autoresponsabilização, responsibility, ou seja, habilidade de resposta adequada para cada novo conflito que se apresenta (na língua inglesa: responsibility  = response+ability).

O propósito do Gestalt-terapeuta é auxiliar o cliente a descobrir suas verdades por si só e frustrar todas as tentativas de racionalização e fuga. É comum que a pessoa chegue ao consultório com a história já ensaiada, racionalizada, tentando fazer sentido de todos os fatos. “A verdade só pode ser tolerada quando descoberta por conta própria”. O Gestalt-terapeuta deve agir como facilitador, nunca como mensageiro da “verdade”.

A Gestalt-terapia me ensina todos os dias que as respostas que buscamos encontram-se em um caminho tão mais acessível que quem sabe não ousamos percorrer pelo prazer que temos em complicar o que é simples. Mas, para aqueles que se arriscam, o convite é o mesmo feito por Rilke em seu livro “Cartas a um jovem poeta”: pare de procurar as respostas e comece a viver as perguntas.