O resto é silêncio

hamlet

Dia desses, deparei-me com um longo vídeo do professor e historiador brasileiro Leandro Karnal, uma fala de mais de sessenta minutos e Karnal muitas vezes já disse que estudar tão complexa e bela obra mudou a maneira como ele vê o mundo. E ele faz uma leitura espetacular de Hamlet, que vale ser registrada.

Karnal nos lembra que fazer um trabalho intenso de obter consciência sobre seus atos vai muito longe do espírito de autoajuda que diz “aceite-se e você será feliz”, é muito mais grave que isso, é “tente descobrir vagamente quem você é, então você não será feliz, mas sua consciência vai pelo menos fazer com que você não seja falso, vazio e comum”.

A pergunta mais famosa de Hamlet, que vem sendo repetida por quatro séculos e que muitos,  interpretam de maneira rasa, “to be or not to be?” (ser ou não ser, estar ou não estar), parece simples, mas o que muitos não entendem é que essa pergunta nos remete diretamente para a problemática da consciência. O príncipe Hamlet é extremamente consciente, e sozinho em sua consciência ele se indaga: “ – Quando é que as pessoas vão parar de me dizer o que deve ser dito para me dizer o que as coisas realmente são?”.

Hamlet nos lembra que o caminho das pedras é simples (e ainda tão complexo): basta que comecemos a estar presentes naquilo que dizemos. Quando fazemos isso, estamos aos poucos saindo dos nossos processos de inconsciência, de dissociação e começamos a criar integridade, coerência, consciência.

Segundo a leitura de Karnal, o que Hamlet parece dialogar conosco é que: – E se as dores que nós inventamos, dores financeiras, dores físicas, dores de problemas familiares fossem o disfarce de uma grande dor maior? A dor que nós não conseguimos nominar, por isso estabelecemos dores laterais, por isso estabelecemos que eu esteja bem ou não naquele momento ou dia. Hamlet diz exatamente que essa dor nasce do fato de que todos naquela peça, em quase quatro mil e quinhentos versos, estão dizendo a ele o que ele deve ou não deve ouvir e não exatamente o que as coisas são.  Hamlet objetivamente está olhando para o mundo e dizendo:

“- Quando é que haverá alguém que vai me dizer o que as coisas são? Quando alguém parará de dizer o que deve ser dito? Quando alguém parará de colocar fantasias, de beber muito (ele reclama da bebedeira da corte), de disfarçar sua dor? Quando alguém começará a estar presente naquilo que fala? Quando as pessoas começarão a ser e deixarão de não ser?”

Pois é Karnal, pois é Shakespeare, ser ou não ser? Essa pergunta também me faço todos os dias e sei que apesar de sozinha, nesse questionamento não estou sozinha. As últimas palavras de Hamlet (e de Karnal) nos trazem a principal reflexão que surge de toda a peça: depois que Hamlet disse tudo que deveria ser dito, o  que sobra é silêncio. Quando todo esse barulho que faço para não me enfrentar, quando eu decidir acabar com toda a distração ao meu redor, quando eu parar de me anestesiar e resolver enfim olhar para dentro de mim, então tudo que restará será silêncio. Em uma singela homenagem às belas e sábias palavras que me inspiraram a escrever esse relato, encerro esse texto como o príncipe Hamlet encerrou sua vida, que também foram ditas por Karnal em seu encerramento:

– O resto é silêncio.

O vídeo na íntegra: aqui

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