Tomara que caia

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Nunca fui uma mulher dessas “femme fatale”, sabe? A minha rebeldia contra alguns dos padrões impostos pelo patriarcado começa desde que me conheço por gente. Minha mãe contava que ainda bebê me incomodava com os laços e fitas com os quais ela insistia em adornar meu cabelo, em cinco minutos arrancava tudo.

Quando garota passávamos as férias na fazenda da minha tia, minha irmã e prima gostavam de fazer coisas aleatórias de férias, dormir até tarde, assistir TV, ler Agatha Christe, eu tinha outras pequenas ambições: aprender a cilhar cavalos e a cavalgar. Meu primo, três anos mais velho que eu, era entendido do assunto, acordava antes do sol nascer todos os dias para encilhar os cavalos e tocar os bois.

Meu sonho era fazer o mesmo, mas sabendo da minha condição de prima mais nova, da cidade – e menina – aprender a encilhar um cavalo já estava de “bom tamanho”. Ele tentava sair em silêncio para não me acordar. Eu era determinada, antes dele sair, já o aguardava ansiosamente. Descia atrás dele, caminhando apressadamente pelo trecho da estradinha de chão que levava até o barracão, me esforçava para acompanhar seu ritmo, ele caminhava com passos rápidos e largos, com andar confiante de quem, desde cedo, conhecia seu lugar no mundo, eu ia ficando para trás, chegava lá embaixo ofegante – e feliz.

Observava atenta enquanto ele ia até o pasto pegar o cavalo, se aproximando devagar do bicho, colocando primeiro o cabresto, depois o freio e ajeitando a rédea. Então ele o trazia para perto do barracão e colocava o pelego e o arreio ou a sela, por último apertava a barrigueira. Decorei a sequência que nunca usei. Às vezes, ele me deixava colocar o freio ou ajeitar a sela, segundo ele, eu era “fracote” e não tinha força para apertar a cilha da barrigueira.

Meu primo não era um guri “ruim”, eu que era teimosa demais (era o que me diziam) e ele sempre me deixava andar no “Campeão”, que teoricamente era o cavalo “mais bravo” que tinha para as meninas. E o Campeão foi meu companheiro de cavalgadas, até hoje lembro daquela sensação, me sentia livre e capaz.

Pois é, posso não ser nenhuma “femme fatale” (será que na “vida real” elas existem mesmo?), mas com os anos aprendi a celebrar minha feminilidade, aprendi que ser mulher vai além da roupagem, é um dom adquirido com a maturidade e as cicatrizes deixadas por uma sociedade que não contempla nossas grandes ambições. Noite dessas quis usar um vestido “fatale” tomara que caia, preto, curto e que há tempos não vestia. Por via das dúvidas (e por ser Curitiba) resolvi levar um casaquinho.

Meus amigos vestiam moletom e camiseta, senti inveja deles, eles estavam confortáveis e ninguém (além de mim) parecia se importar com o que vestiam. Os rapazes na balada exibem sorrisos despretensiosos, tênis, moletons e camisetas, e assim como meu primo, parecem nem se dar conta do conforto e facilidade que desfrutam pelo simples fato de terem nascido homens. Privilégio é algo difícil de entender porque nunca saberemos como é viver sem os que temos ou na pele daqueles que não tem.

Às vezes sinto que ser mulher é como aquela caminhada de passos ligeiros que fazia tentando alcançar meu primo;  em terreno desregular, tropeçando no breu da noite que findava, aliviada quando o sol despontava no horizonte como se fora aliado ajudando a iluminar o caminho. Ser mulher é constantemente se esforçar e sentir-se ficando para trás. É viver desconstruindo padrões, arrancando laços e fitas diante do olhar de reprovação de muitos. Não, claro que não é assim para todas, para a maioria é muito pior. Muitas não têm nem a chance de fazer a caminhada. Eu tenho consciência dos meus privilégios.

Deu calor, resolvi prender o cabelo, o  rapaz, um estranho, ao meu lado achou-se suficientemente familiar para dizer “prende o cabelo bem alto que fica gata, hein?”. E quando eu ia tirando o casaco ele também sentiu-se no direito de acrescentar um “agora sim!”.  Eu não quero sair de moletom na balada, gosto de usar vestidos, mas quero poder vesti-los sem sentir que serei devorada, e definitivamente sem os comentários de estranhos.

Sim, ser mulher é ter alguém (estranho ou não) constantemente te dizendo o que você deve ou não fazer, como deve ou não se comportar. Vestir-se. Pensar. Agir. Falar. Sonhar. Desejar. E ainda assim sentir-se, de diversas maneiras e em diversas situações, inadequada. É o que aprendi desde cedo, como uma menina-moleca que arrancava laços e fitas diante do olhar reprovador da minha mãe.

Soltei o cabelo, vesti o casaco, resolvi que minha noite já tinha chegado ao fim. No meu tempo de menina já estaria quase na hora de ir encilhar os cavalos. A caminhada todavia parece-me longa e escura. Talvez o sol ainda seja aliado, torço para que a luz que brilha no horizonte ilumine nossos caminhos, sigo ofegante e com grandes ambições, torcendo e lutando para que um dia esse tal patriarcado – tomara – caia.

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